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Brasil Mineral - Edição 457

Maio 2026
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ENGENHARIA

A Engenharia Mineral diante do novo boom: prazos curtos, pleitos antigos e a cultura como gargalo

Seminário promovido pela revista Brasil Mineral em parceria com a FIEMG e o Sindiextra reuniu 240 participantes em Belo Horizonte para debater o que separa o discurso do novo ciclo mineral da capacidade real de entrega da engenharia brasileira

Por Francisco Alves

Brasil Mineral 457Maio 2026Páginas 60-71
A Engenharia Mineral diante do novo boom: prazos curtos, pleitos antigos e a cultura como gargalo

O dia 17 de maio, Dia da Mineração, foi escolhido por Brasil Mineral para reunir, no auditório da FIEMG, em Belo Horizonte, mineradoras, construtoras, projetistas, fornecedores de tecnologia, advogados e seguradoras em torno de uma pergunta que a indústria ainda não respondeu com a clareza que o momento exige: a engenharia mineral brasileira está preparada para entregar o ciclo de projetos que se aproxima?

O seminário Engenharia Mineral — desafios para atender ao novo boom da mineração teve a realização da Brasil Mineral, apoio da FIEMG e do Sindiextra, e foi viabilizado pelos patrocinadores ouro

MID, SBF Engenharia e Ero Brasil; pelos patrocinadores prata Consag e Redco; e pelos patrocinadores cobre Metso, EQP, AtkinsRealis e Parex Engenharia. Foram quase 400 inscrições para 240 vagas disponíveis — um recorde nos eventos presenciais da revista, segundo o conselheiro Arão Portugal, do comitê organizador. "A gente teve que chegar uma hora e fazer uma pré-seleção, porque a procura foi muito grande", relatou Portugal no encerramento.

A abertura, conduzida pelo diretor da Brasil Mineral, Francisco Alves, situou de saída o motivo de tanto interesse. Na véspera, a Câmara dos Deputados havia aprovado o projeto de política mineral para minerais críticos e estratégicos, que seguiu para o Senado. "Isso significa que há uma verdadeira corrida por esses minerais, além, evidentemente, dos minerais tradicionais que o Brasil já produz", disse Alves. "Esse boom coloca um desafio para a engenharia mineral nacional, que terá de atender a prazos em geral exíguos, enxugar custos e, além disso, dar conta de questões como inovação, sustentabilidade, segurança e outras."

O presidente do Sindiextra, Gustavo Lanna, fez uma breve saudação lembrando o significado da data. "Hoje é o dia da mineração. Eu fico muito à vontade com este grupo: a minha origem é construção civil e mineração. É um dia em que a gente está juntando os dois temas de alta relevância para o setor." Emir Cadar Filho, presidente em exercício da FIEMG e ele próprio engenheiro civil da construção pesada, completou: "É uma bela coincidência para mim estar presidente hoje. A mineração tem peso decisivo no nosso estado — tem mina no próprio nome, em Minas Gerais."

Samarco: "o lado do contratante" e a visão de quem reconstrói

Foto de mesa com cinco painelistas sentados durante o Painel 2 - Engenharia da Construção, com telão ao fundo exibindo os nomes dos participantes e patrocinadores, e plateia em primeiro plano.
Participantes do painel 2

A palestra de abertura coube a Rodrigo Vilela, CEO da Samarco. Há dez anos na empresa — "cheguei um ano depois do rompimento da barragem" — e há oito à frente do comando, Vilela propôs trazer, de saída, "um pouco da visão do lado do contratante, muitas vezes da engenharia, e uma visão otimista, mas ao mesmo tempo crítica do nosso momento".

O ponto de partida do CEO foi a desproporção entre o peso econômico da mineração e o reconhecimento que o setor recebe do próprio país. "Quando a gente fala de 47% da balança comercial, isso aqui já deveria ser visto de uma maneira extremamente diferenciada, extraordinária", disse. "Ou seja, quase que a metade do saldo da balança comercial sai da mineração." Daí, segundo ele, a necessidade de uma engenharia que entenda a mineração não como um cliente entre outros, mas como vetor estratégico do país.

Vilela costurou três fios ao longo da apresentação. O primeiro, a reconstrução da Samarco como exercício prático de engenharia sob restrições severas — prazos legais, expectativas sociais, vigilância regulatória. O segundo, o novo ciclo de minerais críticos e estratégicos como oportunidade que só será capturada se houver capacidade de execução. E o terceiro, talvez o mais incômodo para a plateia majoritariamente formada por engenheiros e fornecedores: a perenidade das tecnologias adotadas. Não basta entregar; é preciso que a tecnologia sustentada na obra continue operacional anos depois, com mão de obra local capacitada para operá-la. O conceito voltaria à mesa nos três painéis seguintes.

Painel 1 — Inovação e novas tecnologias: o problema nunca foi a tecnologia

Foto de um homem apresentando slides para uma plateia em um auditório, ao lado de bandeiras.
Palestra de Rodrigo Vilela

Sob moderação de Cláudia Diniz, então head de inovação da Accenture e conselheira da Brasil Mineral, o primeiro painel reuniu Letícia Loiola (Vale), Daniel Ramos (Ausenco), Jonathan Fonseca (Ero Copper) e Maria Teresa Barros (AtkinsRéalis). A composição — três mulheres entre quatro painelistas — foi celebrada por Diniz, ao final, como "parte da inovação".

Cláudia Diniz abriu o painel com uma provocação metodológica. Lembrou que a engenharia mineral se consolidou historicamente em "operações robustas e grandes desafios logísticos", mas que hoje a fronteira de excelência está em outro lugar: "capacidade analítica e integração tecnológica". O salto, defendeu, é em direção ao que chamou de ecossistema mineral inteligente — gestão baseada em dados em tempo real e previsibilidade. E lançou aos painelistas a pergunta-âncora do debate: o maior obstáculo a essa integração é a implementação da tecnologia de ponta ou a mudança cultural?

A resposta, de todos os painelistas, foi unânime. Letícia Loiola, gerente de desenvolvimento de projetos na Vale, foi categórica: "Tecnologia deixou de ser desafio. A gente tem várias tecnologias hoje disponíveis no mercado. Nosso grande obstáculo é realmente mudança cultural." Ela descreveu a iniciativa de ativos digitais da Vale, que integra dados desde o início da fase de projeto, e identificou o ponto crítico: "O grande desafio da equipe que está à frente não é implantar a plataforma nova. Como ela vai garantir que as equipes trabalhem dentro dessa plataforma? Como evitar sistemas paralelos?"

Jonathan Fonseca, gerente de automação, engenharia e tecnologia operacional da Ero Copper, levou o argumento ao seu nível mais radical. Para ele, a chave não está em formar usuários de ferramentas, mas em redesenhar como as pessoas se relacionam com o trabalho. "A gente deixa de ter operadores cumpridores de procedimento para ter intérpretes de dados", afirmou. "Supervisores que estão fazendo gestão da rotina passam a ser tomadores de decisão com dados e apoiadores da camada operacional."

Foto de um homem apresentando slides para uma plateia em um auditório, ao lado de bandeiras.
Palestra de Rodrigo Vilela

Fonseca trouxe ainda um dado de governança raramente discutido em fóruns de tecnologia: numa operação como a da Ero Copper, com lavra subterrânea no Vale do Curaçá, na Bahia e a céu aberto, no Pará, "60 a 70% das decisões tomadas são na camada operacional, de operador a coordenador". Se a IA e o machine learning vão entrar na cadeia decisória, é exatamente essa camada que precisa ser preparada — e não há atalho.

Maria Teresa Barros, diretora de performance de projetos da AtkinsRéalis, complementou trazendo a ótica da projetista. Defendeu que a empresa de engenharia precisa olhar desde a fase inicial para a construtibilidade, a operabilidade e a manutenção, com design reviews e equipes próprias de construtibilidade. Mas reconheceu o limite: "nada substitui o olhar da construtora e da montadora".

Daniel Ramos, diretor de engenharia da Ausenco, articulou a resposta operacional ao problema. "A gente já envolve as montadoras e fornecedores nos nossos projetos. Querendo ou não, isso é realidade. A gente consegue realmente fazer esses trabalhos agora usando a tecnologia — está com desenvolvimento do BIM, do 3D. A gente consegue ter modelos, fazer simulações com os fornecedores." A iniciativa, segundo ele, parte tanto do cliente quanto do projetista, com o objetivo declarado de fast track: prazos mais curtos para o cliente sem perda de qualidade.

O conceito que dominou o evento: early engagement

Foto mostrando quatro painelistas sentados à mesa durante evento, com banners de patrocinadores ao fundo (Ero Copper, entre outros)
Participantes do Painel 1, sobre Inovação

Mencionado primeiro por Rodrigo Vilela na palestra de abertura, e depois retomado em todos os três painéis, o early engagement (envolvimento antecipado de fornecedores e construtores nas fases iniciais do projeto) emergiu como o consenso prático do seminário.

Pergunta de Fábio (TMSA) à plateia trouxe o termo formalmente para o debate. "Como vocês, tanto empresas de engenharia quanto contratantes, vêm explorando o early involvement?" perguntou. A resposta combinada de Barros (Atkins-Realis), Ramos (Ausenco) e Fonseca (Ero Copper) sintetizou a posição da cadeia: o movimento existe, está acontecendo em projetos de empresas internacionais que trouxeram a prática para o Brasil, e tende a se intensificar — porque é dali que vem a captura real de valor.

No Painel 3, Fernando Laser, da Andrade Gutierrez, levaria o argumento adiante: "Já vivemos early engagement em EPCs onde o contratante remunerou duas ou três construtoras para desenvolverem projetos, cada um a sua solução. Lógico que ele fica depois proprietário daquele projeto, mas investiu em desenvolver com várias construtoras para escolher qual modelo se adequa mais — seja CAPEX, risco, prazo ou solução técnica."

Foto de painel de discussão em auditório com quatro palestrantes sentados à mesa e plateia ao fundo
Painel 2 discutiu Fast Track

O bloco de perguntas trouxe ainda um caso emblemático, levantado por Gisele, profissional da área de sustentabilidade. Como a engenharia tem incorporado mudanças climáticas, eventos extremos e projetos resilientes? Loiola reconheceu que o ano de 2026 chamou atenção: "As chuvas caíram muito mais, pontuais em volume, do que a gente estava acostumado. A gente está olhando para as mudanças climáticas e questionando: os dados que estamos usando hoje são os adequados?"

Jonathan Fonseca acrescentou o exemplo mais didático do painel. A Ero Copper, lembrou, comprou a Mineração Caraíba após a inundação de uma mina subterrânea provocada por uma chuva decamilenar no Vale do Curaçá. "Quando a gente fala em risco e até em previsibilidade absoluta, eu falo que às vezes a gente nunca vai ter essa previsibilidade absoluta. Será tratamos esse 'potencial grave alto, porém probabilidade baixa', de forma consciente?" A reflexão, sintetizou, é como tratar o risco crítico independentemente de sua probabilidade quando o potencial de perda é catastrófico.

Painel 2 — Engenharia da construção: a produtividade perdida e a tecnologia que não chega ao chão da obra

O segundo painel teve o tom mais autocrítico da tarde. Sob moderação de Paulo Misk, conselheiro da Brasil Mineral, sentaram-se à mesa Clélio Soares Ferreira Júnior (Appian Capital / Graphcoa), Bruno Vertuli (Hatch), Maurício Godoy (MID Infraestrutura) e Bruno Pelll (Vale). Mais do que vitrine de tecnologia, o painel foi um diagnóstico de porque a engenharia e a construção brasileiras ainda não capturam o ganho que a indústria global vem capturando.

Foto de plateia em auditório assistindo a painel de debate com apresentadores no palco ao fundo
Mais de 160 pessoas lotaram o auditório da Fiemg

Bruno Vertuli, country manager da Hatch no Brasil, trouxe o dado mais comentado da tarde. "Tem um estudo que pega o horizonte de 1995 a 2015 — estudo de 20 anos — que mostra que a construção perdeu produtividade. Quando a gente envolve construção civil, o Brasil perdeu 1,5% de produtividade nesse intervalo. E eu não acredito que tenha mudado muito." A causa, na leitura dele, está apenas parcialmente na tecnologia. "Onde começa? Falta de colaboração, estratégias de contratação, falta de conhecimento na maneira que você contrata. Não estou falando de contrato em si — é um pacote como um todo, e capacitação."

Vertuli construiu ali uma analogia que reaparecia no debate. "A tecnologia atual está acelerando problemas já conhecidos." Ou seja: o ganho de produtividade da IA, da automação e do BIM tende a fluir para quem já tinha processos disciplinados; em ambientes com governança frouxa, a tecnologia só amplifica o caos. E completou com uma observação sobre o ciclo brasileiro de start-and-stop em projetos: "Toda vez que ele faz assim, ele perde inteligência das pessoas. Depois tem que construir, mas não treinou."

Maurício Godoy, conselheiro da MID Infraestrutura e diretor do PROEC 4.0 (Programa Brasileiro de Engenharia e Construção 4.0), encarou o problema pela porta da liderança. "Desde que eu comecei, a gente escuta: o Brasil é improdutivo, gasta muito mais horas do que se gasta nos Estados Unidos. Recentemente, a gente escuta a mesma coisa com a China." Godoy visitou estaleiros chineses e identificou três diferenças concretas: mais equipamento, sistema de remuneração por produção (no Brasil paga-se por hora) e acesso amplo à tecnologia. "Não é que o trabalhador brasileiro seja ruim. Ele é mal equipado, tem pouco acesso à tecnologia. O sistema não favorece a produtividade."

Foto de mesa de debate com quatro participantes sentados, telão ao fundo com projeção do título 'O Futuro da Mineração' e logo da Deloitte, durante evento sobre engenharia mineral.
Participantes do Painel 3 – Como gerenciar riscos

O que a MID já implantou em obra, segundo Godoy: solda robotizada em caldeiraria; substituição de ferramentas elétricas por ferramentas a bateria, alimentadas por painéis solares de geração local; e dispositivos automáticos que travam empilhadeiras na iminência de acidente. "Mas isso é pouco. E por que é pouco? Existe uma restrição muito grande dos trabalhadores na adoção de tecnologia, porque não conhece, porque tem medo de ser substituído."

A solução, defendeu, é estrutural: a liderança das empresas tem que acreditar que a tecnologia traz benefício. "Se não partir da liderança, não se vai adotar tecnologia nas empresas." Na MID, ele e o presidente criaram um comitê de inovação liderado pelo próprio presidente, com participação direta de pessoas das obras — para que a sugestão tecnológica suba do chão e desça com endosso da diretoria simultaneamente.

PROEC 4.0: o que é, e o que está em jogo

O Programa Brasileiro de Engenharia e Construção 4.0, mencionado por Maurício Godoy no Painel 2 e novamente por Clarissa Lopes (Deloitte) no encerramento, é uma iniciativa setorial cuja diretoria Godói assumiu. O objetivo declarado é levar tecnologias da indústria 4.0 — automação, sensoriamento, dados, BIM, IA — para dentro das empresas de engenharia e construção brasileiras, com foco em recuperar competitividade.

Foto de Milene Marques discursando em um evento, com painel de fundo com texto 'Futuro da...' em verde e azul
Milene Marques, da CMOC

A Deloitte é parceira da Abemi no PROEC, segundo informou Lopes na palestra de encerramento. A iniciativa busca exatamente atacar o gargalo identificado por Vertuli: a tecnologia que existe, mas não chega organizada ao chão da obra brasileiro — porque falta processo, capacitação e cultura de adoção.

Clélio Soares Ferreira Júnior, da Appian Capital / Graphcoa, levou a discussão para o terreno da economia de projeto, especialmente em minerais críticos como o grafite. "É a construção de um modelo econômico fundido. A gente tem que fazer um modelo financeiro que abranja a mineração de base, a indústria de base, somado à eventualidade, o ganho que pode vir com a micronização, com a agregação de valor no produto final." A leitura é direta: no novo ciclo de minerais críticos, decisões de engenharia não podem ser tomadas isoladas da equação de transformação do produto. Risco e retorno são definidos no encadeamento entre lavra, beneficiamento e agregação de valor.

Bruno Pelli, diretor global de tecnologia de mineração da Vale, trouxe o ponto de vista da maior contratante do país: o desafio é menos descobrir tecnologia do que escalar tecnologia validada para um portfólio global de ativos. A automação, dados em tempo real e a evolução do modelo operacional na Vale são, segundo Pelli, a expressão prática do mesmo princípio levantado por Loiola no Painel 1 — integração desde o projeto, com captura de valor ao longo do ciclo de vida do ativo.

Foto de mulher segurando microfone e celular, vestindo blazer azul marinho, discursando em evento
Clarissa Lopes, da Deloitte

Painel 3 — Gestão de riscos e contratos: "o que não é combinado é caro"

O painel de fechamento — e o mais tenso da tarde — abordou gestão de riscos e gestão de contratos em projetos de mineração. A moderação coube a Bruno Chedid, sócio da equipe de infraestrutura e energia do escritório Mattos Filho. Compuseram a mesa Milene Marques (CMOC Brasil, lado contratante), Luiz Fernando Godoy (EQP, consultoria especializada em gestão de contratos), Ricardo Tessarolo (Aon, seguros) e Fernando Leyser (ConsAG Engenharia).

Chedid abriu o painel reconhecendo o que toda a plateia já sabia: a discussão sobre contrato é pouco amada por engenheiros. Mas, alertou, é nela que se decide se um projeto vai ser entregue no prazo e dentro do orçamento. "A gente tem uma demanda crescente por projetos mais rápidos, que não têm chance de um desvio de budget. A gente tem que ser muito lean."

Fernando Leyser, da ConsAG, deu a resposta de quem já viu de tudo. "A nossa empresa, uma jovem senhora de 78 anos no mercado, já trabalhou com absolutamente todos os tipos de contrato, dos mais tradicionais aos híbridos." A leitura é que a principal diferença entre modelos contratuais é onde e com quem os riscos estão alocados. Em contratos por administração, todos os riscos vão para o contratante; em EPC pleno, vão para a construtora. "Não tenho uma preferência. O que importa é a transparência e a visibilidade dos riscos. Independente do modelo contratual, se os principais riscos estão bem identificados, debatidos e alocados, qualquer modelo pode funcionar."

Foto de mulher segurando microfone e celular, vestindo blazer azul marinho, discursando em evento
Clarissa Lopes, da Deloitte

Leyser abordou um ponto sutil, mas decisivo: "O ramo da construção tradicionalmente é um mercado de margens muito apertadas. E não é só no Brasil — é mundialmente. As construtoras não têm capacidade de assumir riscos que não têm como dominar ou controlar." A consequência prática: pedir a uma construtora que assuma risco geológico, pluviométrico ou regulatório que ela não pode mitigar é, no longo prazo, fórmula para pleito, atraso e litígio.

Luiz Fernando Godoy, CEO da EQP, fez a contribuição mais provocativa da tarde — e, aos olhos do moderador Bruno Chedid, a frase que sintetizou o painel. "Sem dúvida, o escopo mal definido é o principal motivo de pleito. O que não é combinado é caro." Em 20 anos de trabalho com gestão de contratos, Godoy identificou um padrão recorrente: o demandante técnico constrói o escopo focado apenas no que conhece bem — operação, equipamento principal — e empurra para suprimentos a parte periférica. Depois, quando o fornecedor entrega abaixo da expectativa, reclama de suprimentos. "Existe um mecanismo chamado visita técnica, onde o demandante pode e deve aprovar ou rejeitar a qualidade técnica dos fornecedores. Sobre qualificação e homologação de fornecedor: a qualidade técnica do fornecedor é responsabilidade do demandante. A homologação operacional é de suprimentos."

Milene Marques, gerente jurídica e de compliance da CMOC Brasil, trouxe a perspectiva da mineradora contratante. Falou sobre indenizações, mecanismos de multas, cláusulas de change orders e — com um pragmatismo que arrancou risadas da mesa — sobre o uso real dessas cláusulas. "A ideia nunca é acionar."

Imagem de uma tela com citação de Roy Amara projetada, com a silhueta de uma pessoa em primeiro plano apontando para a tela.
"Nós temos a tendência de superestimar o impacto de uma tecnologia no futuro próximo e subestimar no longo prazo." — Roy Amara, Futurista

Ricardo Tessarolo, diretor de recursos naturais da Aon para a América Latina, fez o contraponto do mundo dos seguros. A integração entre o mapa de risco do projeto e a estratégia de contratação ainda é, na maioria dos casos, reativa. "A gente acaba sendo chamado depois que o leite foi derramado." A defesa de Tessarolo foi por uma integração precoce do gestor de seguros com a equipe de engenharia da mineradora, de modo a estruturar programas de seguros sob medida para o perfil de risco real do projeto — não para o perfil que aparece no edital.

O early engagement, ressuscitado pela terceira vez naquela tarde, voltou pela boca de Fernando Leyser, mas agora com nuance importante. "Não significa necessariamente escolher uma construtora e 'casar' com ela." A Andrade Gutierrez, lembrou, já participou de processos em que o contratante final remunerou duas ou três construtoras para que cada uma desenvolvesse, em paralelo, sua própria solução de projeto. "Ele investiu no desenvolvimento com duas, três construtoras diferentes para escolher qual modelo se adequa mais — seja CAPEX, risco, prazo ou solução técnica." A formulação resume a tese-chave do painel: antecipar o problema é mais barato do que litigar sobre ele depois.

Modelos de contrato em projetos de mineração — alocação de riscos

Imagem do artigo - página 70

Administração: Quase todos os riscos são assumidos pelo contratante (mineradora). Maior controle, maior exposição financeira.

Preço unitário: Quantidades efetivamente executadas são pagas conforme tabela acordada. Comum em terraplenagem e contratos com escopo geológico incerto.

EPC pleno (Engineering, Procurement & Construction): O contratado assume engenharia, suprimento e construção a preço fechado e prazo fechado. Riscos vão majoritariamente para a construtora — daí o prêmio que cobra.

EPCM: Variação do EPC em que a construtora atua como gerenciadora, sem assumir todo o risco financeiro. Tornou-se modelo de referência em grandes projetos minerais nos últimos anos.

Imagem do artigo - página 70

Híbridos: Combinações dos modelos acima, com partes a preço unitário e partes em preço fechado. Mercado brasileiro caminha cada vez mais nessa direção, segundo Fernando Leyser (Andrade Gutierrez).

Encerramento — "A mineração do futuro" e a reinvenção da indústria

A palestra de fechamento ficou com Clarissa Lopes, gerente de inovação e transformação digital da Deloitte, que atua na prática global de infraestrutura e projetos de capital intensivo da consultoria. "Me deram a missão de fechar aqui o dia", disse logo no início. "Mas vai ser muito mais abrir novos dias, novas possibilidades pra gente trabalhar em termos de mineração e sobretudo de engenharia."

A apresentação da Deloitte sintetizou, num único quadro, as tendências cruzadas que vinham aparecendo fragmentadamente nos três painéis: ampliação de capacidades humanas via tecnologia e IA; accountability financeira e socioambiental como pilares da reinvenção da mineração; resiliência e antifragilidade em cenários geopolíticos complexos; transformação da força de trabalho na engenharia, na construção e na mineração; e investimento em tecnologias verdes como vetor de modelos de negócio mais sustentáveis.

O conceito-síntese que Clarissa propôs foi a hiperconvergência tecnológica. A pergunta não é mais quais tecnologias adotar isoladamente, e sim como, a partir da combinação delas, é possível criar novos modelos de negócio e workflows completos. Em mineração, é o salto que a Deloitte observa entre operadores que ainda tratam IA, sensoriamento, robotização e gêmeos digitais como ilhas, e os que começam a tratá-los como uma única arquitetura.

Síntese: o que ficou da tarde

Coube ao conselheiro Arão Portugal, em nome do comitê organizador da Brasil Mineral, formalizar o encerramento. Ele anunciou que o próximo evento da série já está marcado para setembro, com tema voltado para ouro. E reconheceu o impacto da curadoria: "Quando a Brasil Mineral ia fazer uma revista sobre engenharia, promoveu um encontro de empresas de engenharia que eu e a Cláudia tivemos o prazer de moderar. A gente, vendo o tamanho das oportunidades que tinha esse assunto, achou que deveria ser feito de forma presencial, com uma discussão mais ampla." Hoje, disse, é possível ver que a escolha foi acertada.

Francisco Alves fechou com uma observação que muitos na sala provavelmente já tinham feito mentalmente. "Hoje é o dia da mineração, 7 de maio. Infelizmente, não é muito comemorado pela própria mineração. É mais ou menos como o dia do jornalista — eu, como jornalista, acho que recebi uns três ou quatro cumprimentos só. Então significa que a mineração ainda precisa aprender a vender melhor o seu peixe."

A frase serve de epígrafe ao evento. O Brasil tem o ciclo, tem os minerais, tem 47% do saldo da balança comercial, tem a moldura regulatória sendo construída no Congresso. Tem engenharia, construtoras, projetistas, fornecedores de tecnologia, advogados e seguradoras dispostos a discutir — como ficou claro nas quase 400 inscrições para 240 vagas. O que ainda lhe falta, e o seminário tornou explícito, é o que une os três painéis num único diagnóstico: cultura, processo e antecipação. A tecnologia, todos os painelistas concordaram, está disponível. O escopo bem feito, esse sim, ainda é exceção. E é dele — não da próxima geração de máquinas — que dependerá a capacidade da engenharia brasileira de entregar o boom que está chegando.

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