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Brasil Mineral - Edição 457

Maio 2026
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10 anos do S11D: a mina que redefiniu Carajás e ajudou a redesenhar o futuro da mineração brasileira

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10 anos do S11D: a mina que redefiniu Carajás e ajudou a redesenhar o futuro da mineração brasileira

Uma década após entrar em operação, Carajás Serra Sul (S11D) consolidou-se como um dos projetos minerais mais emblemáticos do mundo.

Por Mara Fornari

Brasil Mineral 457Maio 2026Páginas 30-39

Escala produtiva, automação, beneficiamento sem água, redução de emissões e transformação territorial fizeram do S11D mais do que uma mina de minério de ferro — um marco tecnológico, ambiental e econômico que continua influenciando a estratégia da Vale e os rumos da mineração no país.

Poucos projetos minerais conseguiram concentrar tantas expectativas antes mesmo de começar a operar quanto o S11D. Quando a Vale inaugurou oficialmente o empreendimento, em dezembro de 2016, em Canaã dos Carajás, no sudeste do Pará, havia a percepção de que o complexo nascia destinado a se tornar referência mundial

— não apenas pelo porte, mas pelo que representava em termos de engenharia, logística e inovação.

Dez anos depois, essa percepção se confirma. Com capacidade instalada de 90 milhões de toneladas anuais, Carajás Serra Sul (como passou a se chamar o S11D, após a entrada em operação) tornou-se uma das operações mais estratégicas da Vale e um dos maiores símbolos da mineração contemporânea. Mais do que ampliar a oferta global de minério de ferro de alto teor, o S11D ajudou a consolidar um novo modelo operacional baseado em menor intensidade energética, redução do uso de água, automação em larga escala, planejamento territorial e integração ambiental desde a concepção do projeto.

Mas talvez o aspecto mais relevante dessa trajetória seja justamente o fato de que o legado construído ao longo da década ultrapassa os indicadores industriais. O S11D não mudou apenas a forma de produzir minério. Mudou a forma de pensar a mineração. "Carajás Serra Sul redefiniu a fronteira tecnológica da mineração global ao combinar produção em larga escala, eficiência logística e soluções ambientais inovadoras, além de contribuir com o crescimento econômico de Canaã dos Carajás", afirma Danilo Goldoni, diretor de Operações de Carajás Serra Sul.

Na avaliação do executivo, o projeto materializa um conceito que a Vale passou a defender com mais intensidade ao longo dos últimos anos: a mineração como atividade capaz de integrar competitividade empresa- rial, preservação ambiental e desenvolvimento regional: "na Vale, aliamos produção mineral, proteção ambiental e desenvolvimento regional. No Pará, onde estamos presentes há mais de quatro décadas, isso se materializa em operações como Serra Norte, Serra Leste, Serra Sul e também nos ativos de metais básicos. Esse conjunto sustenta a competitividade da empresa e contribui diretamente para o desenvolvimento do território".

Uma nova fronteira industrial dentro de Carajás

O S11D nasceu em um momento em que o mercado global ainda era fortemente impulsionado pela expansão chinesa e pela demanda por minério de ferro. Mas, diferentemente de muitos projetos concebidos naquele ciclo, Serra Sul foi desenhado com objetivos que iam além do aumento de produção.

Desde a origem, havia o desafio de desenvolver uma operação de grande escala em uma das províncias minerais mais relevantes do planeta sem reproduzir integralmente os modelos tradicionais de lavra e beneficiamento. A resposta veio por meio de uma combinação inédita de soluções técnicas e ambientais.

Foto aérea mostrando um transportador de correia industrial atravessando uma extensa área de floresta amazônica, com estradas de terra ao redor e montanhas ao fundo.
Carajás Serra Sul. Vista aérea do Transportador de Correia de Longa Distância (TCLD)

O principal símbolo dessa proposta foi o sistema truckless. Ao substituir parte expressiva do transporte interno por longas correias transportadoras, a Vale reduziu significativamente a necessidade de circulação de caminhões fora de estrada na mina — alterando não apenas a operação logística, mas o próprio desenho do empreendimento.

"Carajás Serra Sul provou que é possível

operar em grande escala com baixo impacto", diz Goldoni, enfatizando que "a redução do número de caminhões e o uso ampliado de correias transportadoras permitiram, por exemplo, que a usina e as pilhas de estéril fossem instaladas em áreas de fazendas anteriormente degradadas, fora da Floresta Nacional de Carajás", destaca Goldoni.

A decisão foi determinante para preservar o mosaico ambiental da região e exigiu integração desde o início com órgãos ambientais federais como ICMBio e Ibama. Mais do que reduzir a circulação de equipamentos pesados, o sistema também trouxe ganhos relevantes em emissões, segurança operacional e eficiência energética.

Mineração em grande escala

Ao longo dos últimos dez anos, a Vale consolidou indicadores que ajudam a dimensionar o impacto operacional dessa escolha. Segundo a companhia, a combinação entre sistema truckless, transporte contínuo por correias e beneficiamento à umidade natural permitiu reduzir 40% das emissões de carbono, 73% do consumo de energia e 93% do consumo de água. São números expressivos para qualquer operação industrial. Ainda mais em um projeto que movimenta dezenas de milhões de toneladas por ano.

Um dos pilares desse desempenho está no beneficiamento à umidade natural — processo que dispensa o uso de água no tratamento do minério. Em vez do modelo convencional, baseado em processamento úmido, o minério é beneficiado preservando sua umidade natural, eliminando etapas industriais e reduzindo drasticamente a necessidade hídrica. Em um setor em que água, rejeitos e segurança de barragens se tornaram temas centrais do debate global, o modelo adotado em Serra Sul ganhou peso estratégico.

A experiência passou a influenciar diretamente outras frentes da Vale. Segundo a companhia, no Sistema Norte já são cerca de 90% de processamento a seco, com meta de atingir 100% até 2027. Nas serras Sul e Leste de Carajás, esse modelo já opera integralmente. Essa lógica também orienta novos empreendimentos como o Projeto Apolo, em Minas Gerais, concebido com mineração sem água e sem barragens para rejeitos.

Legenda da fotografia aérea mostrando o complexo minerador de Carajás Serra Sul, com pilhas de minério, empilhadeiras/recuperadoras e infraestrutura industrial cercada por vegetação nativa preservada.
Carajás Serra Sul foi projetado para operar sem o uso de água

Se o truckless virou o símbolo físico do S11D, a digitalização se tornou seu sistema nervoso. Ao longo da década, Serra Sul consolidou-se como uma das operações mais avançadas da Vale em automação industrial e mineração digital.

Hoje, praticamente toda a cadeia produtiva — da extração à britagem, passando pelo transporte contínuo e pela usina — opera conectada em tempo real. Sensores distribuídos em campo, redes industriais, sistemas de automação, analytics avançado e centros integrados de monitoramento alimentam continuamente a tomada de decisão operacional. Para a companhia, o S11D consolidou-se como referência da chamada Mineração 4.0 dentro da Vale.

Um dos recursos utilizados é o HTTP Live Streaming (HLS), tecnologia que permite monitoramento operacional contínuo, acompanhamento remoto e maior previsibilidade do comportamento dos ativos e processos. Na prática, isso permite à companhia antecipar desvios operacionais, otimizar desempenho dos equipamentos e atuar preventivamente em manutenção e segurança.

A próxima etapa dessa evolução já está desenhada. A Vale prevê ampliar o uso de caminhões autônomos na operação — o que deve trazer novos ganhos de eficiência, segurança operacional e redução no consumo de combustível. A automação passa a ser vista não como um elemento isolado, mas como parte de um ecossistema industrial integrado.

O minério de Carajás e o novo mercado global

Se há dez anos o principal debate era capacidade de oferta, hoje o mercado internacional de minério de ferro exige outra combinação de atributos. Além de volume, clientes demandam qualidade química mais elevada, menor pegada de carbono, rastreabilidade socioambiental e capacidade de contribuir para a descarbonização da cadeia do aço.

Nesse cenário, o S11D ganhou ainda mais relevância estratégica. Integrado ao Sistema Norte da Vale, o complexo produz minério de ferro de alto teor — diferencial que reduz o consumo energético e as emissões nos altos-fornos siderúrgicos. Essa característica vem tornando Carajás peça importante da estratégia global da companhia diante da transição energética.

Foto aérea de trens carregados com minério de ferro percorrendo trilhos curvos em meio à floresta
Trens com minério em Carajás

Segundo a Vale, o Sistema Norte é hoje um vetor estrutural de competitividade justamente porque combina minério de alta qualidade com eficiência operacional e menor intensidade de emissões.

A companhia projeta elevar sua produção total de minério de ferro para entre 335 milhões e 345 milhões de toneladas em 2026 — acima do patamar de 2025 — man- tendo o objetivo de alcançar 360 milhões de toneladas até 2030.

Paralelamente, Carajás também ocupa papel central na expansão da empresa em minerais críticos. Cobre e níquel seguem como prioridades estratégicas da Vale e estão diretamente ligados ao potencial mineral da região. O plano da companhia prevê dobrar a produção de cobre até 2035, alcançando 700 mil toneladas anuais. Desse total, até 610 mil toneladas podem vir de Carajás.

Biodiversidade incorporada ao projeto

Um dos aspectos que mais diferencia o S11D de projetos minerais anteriores é o modo como a biodiversidade passou a ser tratada não como compensação posterior — mas como variável de engenharia. Essa mudança aparece no discurso da Vale como um divisor de águas, onde a companhia afirma que a maior transformação observada em Carajás nesta década foi a prova de conceito de que sustentabilidade pode ser estrutural, e não compensatória. Ao invés de pensar em mitigar impactos depois da implantação, a lógica passou a ser desenhar operações de baixo impacto desde o início.

Ao longo dos últimos dez anos, cerca de 5 mil hectares foram recuperados na região por meio de corredores ecológicos. A operação também recebeu estruturas voltadas à conectividade da fauna, como viadutos ecológicos.

Mais importante do que isso, a localização da usina fora da Floresta Nacional de Carajás foi definida como decisão estrutural do projeto — preservando áreas sensíveis desde a implantação. Segundo a Vale, a biodiversidade deixou de ser um capítulo paralelo para tornar-se parte do desenho da operação.

Canaã dos Carajás: transformação além da mina

A influência do S11D também se tornou visível fora da área operacional. Ao longo de dez anos, Canaã dos Carajás passou por profunda transformação econômica e urbana. O município consolidou-se como uma das principais referências de arrecadação mineral do país e viu crescer investimentos em infraestrutura urbana, saúde, educação e serviços públicos.

Em 2025, a arrecadação de CFEM no Pará aproximou-se de R$ 1,5 bilhão. Desse montante, 39% vieram do S11D. Na avaliação da Vale, isso ajudou a criar um ciclo econômico estruturante no município.

O reflexo aparece nos indicadores: em 2024, Canaã dos Carajás foi classificada pela Austin Ratings como o município de melhor desempenho fiscal do Brasil entre cidades com mais de 100 mil habitantes. Segundo o levantamento, 46% do orçamento foi destinado a investimentos públicos. Para a companhia, esse dado reforça a capacidade da mineração de gerar valor compartilhado no território.

As transformações trazidas pelo S11D também alteraram profundamente o perfil da mão de obra na mineração brasileira. A automação, a eletrificação e o monitoramento digital deslocaram parte importante das atividades de campo para ambientes de supervisão e controle. Com isso, novas competências passaram a ser valorizadas. Mais do que operar equipamentos individualmente, os profissionais passaram a atuar na gestão integrada de sistemas produtivos complexos.

Segundo a Vale, a automação não eliminou postos de trabalho — mas redefiniu sua natureza. Operadores passaram a monitorar variáveis críticas, responder por exceção, interpretar indicadores, atuar preventivamente e coordenar respostas técnicas quando processos saem do padrão esperado.

Entre as competências mais demandadas hoje estão leitura de indicadores operacionais, gestão de riscos, domínio de rotinas de segurança, familiaridade com automação e sistemas digitais, disciplina operacional e capacidade de colaboração com equipes multidisciplinares. Geologia, engenharia, manutenção, TI e operações passaram a atuar de forma cada vez mais integrada.

O legado que continua em construção

Ao completar dez anos, o S11D já ocupa lugar definitivo na história da mineração brasileira. Sua relevância está na escala — mas não apenas nela. Está na engenharia de baixo impacto. Na mineração sem água. Na automação. Na integração logística. No minério de alto teor. Na capacidade de responder às exigências da descarbonização. Na transformação de Canaã dos Carajás. E, sobretudo, na influência que passou a exercer sobre tudo o que a Vale projeta para frente. Mais do que um empreendimento bem-sucedido, Serra Sul tornou-se referência conceitual.

Dez anos depois da inauguração, o minério segue deixando Carajás rumo ao mercado internacional. Mas talvez a contribuição mais duradoura do S11D não esteja apenas nos navios carregados que saem do Sistema Norte e sim no modelo que deixou como herança. Um modelo que mostrou ao setor mineral que produtividade e sustentabilidade podem coexistir — e que a mineração do futuro, em muitos aspectos, já começou há dez anos na Serra Sul.

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