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Brasil Mineral - Edição 456

Abril 2026
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FINANCIAMENTO

BNDES estrutura o caminho para os minerais estratégicos

Com um aporte superior a US$ 500 milhões em fundos e foco na integração da cadeia de valor, o banco de desenvolvimento brasileiro assume o protagonismo na transição energética global

Por Mara Fornari

Brasil Mineral 456Abril 2026Páginas 70-73
Flávio Mota trouxe a mensagem do BNDES

No cenário de profunda transformação da matriz energética mundial, o Brasil se encontra em uma encruzilhada estratégica. Durante a última edição do Brazilian Mining Day, no PDAC 2026, Flávio Mota, Chefe do Departamento de Indústria de Base e Extrativa do BNDES, apresentou o roteiro detalhado de como o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social pretende transformar o potencial geológico brasileiro em uma realidade industrial de baixo carbono. A mensagem central é ambiciosa: o Brasil possui os ativos necessários para ser o fornecedor mais confiável de materiais sustentáveis do planeta.

O BNDES não atua mais apenas como um repassador de crédito tradicional. Segundo Mota, a estratégia atual repousa sobre quatro pilares que visam melhorar a “vida de crédito” das empresas e apoiar o crescimento sustentável. O banco hoje opera com um ecossistema financeiro que inclui linhas de crédito de longo prazo — como o BNDES FINEM —, participação acionária via BNDESPAR, instrumentos de garantias e serviços para mitigação de riscos, além de apoio direto à inovação por meio do FUNTEC.

“Nosso objetivo é ir além da produção mineral, passar por toda a cadeia de valor”, afirmou Mota, ao destacar que o papel do BNDES vem sendo redesenhado para acompanhar as novas exigências da transição energética e da geopolítica dos minerais críticos. “Não estamos mais olhando apenas para a mina. Estamos olhando para o ciclo completo — da exploração inicial ao desenvolvimento industrial, incluindo refino, transformação e manufatura de componentes estratégicos”.

Segundo ele, essa mudança reflete uma estratégia mais ampla do banco. “O BNDES hoje atua com um portfólio diversificado de instrumentos financeiros — crédito, participação acionária, fundos, garantias e apoio à inovação — com o objetivo de melhorar a vida de crédito das empresas e, ao mesmo tempo, impulsionar o crescimento sustentável. Nosso foco é especialmente apoiar pequenas e médias empresas, que são fundamentais para o desenvolvimento do setor mineral no Brasil”.

Mota ressaltou também o papel histórico da instituição. “Somos o principal braço financeiro do governo brasileiro e temos uma relação de décadas com o setor mineral. Esse histórico nos dá conhecimento, capacidade de estruturação e, principalmente, confiança para assumir um papel protagonista neste novo ciclo”.

Não estamos mais olhando apenas para a mina. Estamos olhando para o ciclo completo — da exploração inicial ao desenvolvimento industrial, incluindo refino, transformação e manufatura de componentes estratégicos.

Ao detalhar a escala de atuação do banco, ele reforçou o peso institucional do BNDES. “Estamos falando de uma instituição que movimenta dezenas de bilhões de dólares em novas operações anualmente e que possui mais de US$ 100 bilhões em ativos. Porém, mais importante do que o tamanho, é o direcionamento estratégico desses recursos — hoje fortemente alinhado à transição energética e à economia de baixo carbono”. Esse posicionamento, segundo ele, já é reconhecido internacionalmente. “Fomos apontados como um dos principais financiadores de energia verde, o que mostra que estamos no caminho certo ao alinhar financiamento, sustentabilidade e desenvolvimento industrial”.

Lançado há cerca de dois anos, o Fundo de Minerais Críticos e Estratégicos já apresenta resultados que superam as expectativas iniciais. Com aproximadamente US$ 500 milhões indicados em cartas de interesse de parceiros limitados, o fundo conta com o suporte de âncoras relevantes, como a BNDESPAR e a Vale, contribuindo cada uma com até US$ 50 milhões.

Flávio Mota, Chefe do Departamento de Indústria de Base e Extrativa do BNDES
Flávio Mota, Chefe do Departamento de Indústria de Base e Extrativa do BNDES

“O nosso objetivo, quando estruturamos o fundo, era claro: fomentar, apoiar e acelerar projetos em diferentes estágios, desde a exploração até o desenvolvimento completo. O interesse do mercado foi tão grande que praticamente dobramos o volume inicialmente previsto”, explicou Mota.

Gerido por um consórcio que reúne Ore Investments, JGP e BB Asset, o fundo tem como diferencial o foco em empresas de pequeno e médio porte, garantindo que uma parcela relevante dos recursos seja destinada a projetos ainda em fase inicial. A lista de minerais-alvo inclui desde lítio e terras raras até potássio e remineralizadores, considerados estratégicos tanto para a transição energética quanto para a segurança alimentar.

Além da mina

Talvez o dado mais expressivo apresentado por Mota tenha sido o volume de interesse na chamada pública para a Transformação Mineral. Foram recebidos 124 planos de negócios, somando uma intenção de investimento de cerca de US$ 16 bilhões. Desses, 56 projetos foram selecionados, totalizando aproximadamente US$ 8,5 bilhões em investimentos potenciais voltados para refino, metalurgia e manufatura.

“Esse resultado mostra claramente que há uma demanda reprimida por avançar na cadeia de valor dentro do Brasil. Não se trata mais apenas de exportar minério, mas de produzir materiais e componentes com maior valor agregado”, afirmou.

Mota destacou que esse movimento já começa a se materializar. “Já temos operações aprovadas, como sistemas de armazenamento de energia em baterias com empresas brasileiras, e estamos avançando em novas negociações que devem ser anunciadas em breve. Isso demonstra que a agenda de transformação mineral já saiu do campo conceitual e está entrando na fase de execução”.

O nosso objetivo, quando estruturamos o fundo, era claro: fomentar, apoiar e acelerar projetos em diferentes estágios, desde a exploração até o desenvolvimento completo. O interesse do mercado foi tão grande que praticamente dobramos o volume inicialmente previsto

A agenda ESG aparece como um eixo estruturante dessa estratégia. “Revisamos nossa política socioambiental para o setor mineral. Todos os projetos apoiados pelo BNDES precisam estar alinhados às melhores práticas internacionais e contribuir efetivamente para o desenvolvimento das comunidades locais. Isso não é opcional — é um requisito fundamental”.

A competitividade brasileira, segundo Mota, não reside apenas na abundância de recursos naturais. “O Brasil tem uma vantagem adicional extremamente relevante: uma matriz elétrica limpa e integrada, que permite a produção de materiais com baixíssima pegada de carbono. Isso se traduz em um verdadeiro selo de qualidade para os nossos produtos no mercado internacional”.

Nesse contexto, a Nova Política Industrial Brasileira (NIB) funciona como base para a estratégia de longo prazo. O programa prevê investimentos de aproximadamente US$ 95 bilhões na indústria nacional até 2026, sendo o BNDES responsável por mais da metade desse volume.

“Temos a missão de investir cerca de US$ 55 bilhões, e já estávamos muito próximos disso ainda no ano passado. Isso mostra não apenas a capacidade de execução do banco, mas também a força da demanda por investimentos produtivos no país”, destacou.

Ao analisar o posicionamento do Brasil no cenário global, Mota foi enfático. “O país está extremamente bem-posicionado para se tornar um fornecedor confiável de materiais sustentáveis. Temos território, reservas minerais de classe mundial, capacidade tecnológica e uma base industrial que pode ser expandida”.

Temos a missão de investir cerca de US$ 55 bilhões, e já estávamos muito próximos disso ainda no ano passado. Isso mostra não apenas a capacidade de execução do banco, mas também a força da demanda por investimentos produtivos no país

Mas ele pondera que transformar esse potencial em realidade exige coordenação e colaboração. “Nenhuma instituição será capaz de fazer isso sozinha. Precisamos de parcerias — com investidores locais e internacionais — para compartilhar não apenas riscos, mas também conhecimento e capacidade de execução”.

O desafio, segundo ele, vai além do financiamento. “Precisamos avançar na compreensão dos riscos e retornos desses projetos, estruturar soluções financeiras mais sofisticadas e criar um ambiente que dê segurança ao investidor. Esse é um trabalho coletivo”.

Ao final, Mota sintetizou a visão estratégica do banco. “O BNDES está completamente aberto a parcerias. Não traremos a solução sozinhos, mas estamos prontos para ser o principal suporte de projetos que adotem as melhores práticas ESG. Acreditamos no potencial do Brasil e estamos comprometidos em transformar esse potencial em liderança global na oferta de materiais sustentáveis”.

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