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Brasil Mineral - Edição 456

Abril 2026
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PDAC 2026

Ênfase ao papel estratégico da mineração em um mundo em transformação

Abertura da maior convenção global do setor destaca minerais críticos, tensões geopolíticas e a necessidade de conciliar desenvolvimento, sustentabilidade e diálogo social

Por Mara Fornari

Brasil Mineral 456Abril 2026Páginas 46-52
Cerimônia de abertura do PDAC 2026

Toronto voltou a ser, mais uma vez, o centro das atenções da mineração global. A abertura da edição de 2026 da PDAC – Prospectors & Developers Association of Canada, considerada a maior convenção mundial de mineração e exploração mineral, trouxe um tom que reflete o momento atual do setor: a mineração deixou de ser apenas um motor econômico e passou a ocupar uma posição estratégica na geopolítica, na segurança energética e no desenvolvimento tecnológico.

Ao reunir executivos, investidores, representantes de governos, pesquisadores e lideranças indígenas, o evento – que este ano atraiu um público superior a 32 mil pessoas – começou destacando um tema cada vez mais presente no debate global: a necessidade de conciliar desenvolvimento mineral com responsabilidade ambiental, diálogo social e segurança das cadeias de suprimento.

O discurso de abertura trouxe uma reflexão forte sobre o papel da indústria em um cenário marcado por tensões geopolíticas e desafios ambientais. A mensagem central foi clara: a mineração precisa avançar com responsabilidade, visão de longo prazo e cooperação entre governos, empresas e comunidades.

O evento começou com um contraste marcante. De um lado, o respeito ancestral trazido por Ed Sackaney, Knowledge and Wisdom Keeper, representante dos povos indígenas do Canadá, que deu o tom humano e político da cerimônia. De outro, a urgência pragmática do governo canadense e das grandes corporações em garantir o fornecimento de minerais que sustentam desde smartphones até sistemas de defesa avançados.

Sackaney abriu sua fala com um chamado que extrapolou a indústria mineral e tocou diretamente o cenário global contemporâneo. “Venho a esta abertura com sentimentos mistos. É impossível ignorar o que está acontecendo no mundo hoje — conflitos, tensões, uma sensação de que a humanidade, em muitos momentos, perdeu sua bússola moral. Quando acordei hoje, rezei pelas crianças, porque elas não pediram por esse cenário. Nós, como adultos, falhamos em cuidar uns dos outros, e isso precisa mudar”.

Ênfase ao papel estratégico da mineração em um mundo em transformação

Ao conectar geopolítica, ética e mineração, ele alertou que os riscos globais não estão distantes da realidade do setor: “não podemos tratar a paz como algo garantido — ela é frágil. O risco de que esses conflitos nos alcancem é real, e precisamos reconhecer isso ao pensar no futuro”.

Venho a esta abertura com sentimentos mistos. É impossível ignorar o que está acontecendo no mundo hoje — conflitos, tensões, uma sensação de que a humanidade, em muitos momentos, perdeu sua bússola moral. Quando acordei hoje, rezei pelas crianças, porque elas não pediram por esse cenário. Nós, como adultos, falhamos em cuidar uns dos outros, e isso precisa mudar.

— Ed Sackaney

Ao entrar no tema central da mineração, Sackaney reforçou que o desenvolvimento de recursos naturais não pode ser dissociado de compromissos históricos. “Quando falamos de desenvolvimento de recursos, é importante lembrar que não se trata apenas de economia. As terras onde esses recursos estão localizados carregam histórias, tratados e compromissos permanentes. Esses acordos foram firmados há gerações e continuam válidos”.

Em um dos momentos mais diretos de sua fala, ele fez um convite — e uma cobrança — à indústria: “Por isso, faço um convite direto: venham conversar conosco. Não apenas para cumprir protocolos, mas para construir algo verdadeiro, baseado em respeito e benefício mútuo”. Sackaney também trouxe um olhar histórico sobre a evolução da própria PDAC e da presença indígena no setor. “Quando participei pela primeira vez, há mais de trinta anos, eu era o único indígena na sala. Hoje vemos mudanças, mais diálogo, mais presença — mas ainda há um longo caminho a percorrer”. E não evitou temas sensíveis, como o racismo estrutural enfrentado dentro da indústria: “já tivemos que ensinar quem somos dentro das operações, explicar nossa cultura e enfrentar atitudes que mostram o quanto este país falhou em educar sua própria população sobre os povos indígenas. Isso precisa mudar”.

Ao projetar o futuro, ele deslocou o debate do curto para o longo prazo. “O desenvolvimento mineral precisa ser pensado em décadas, não em ciclos curtos. Como isso será daqui a 60 ou 100 anos? O que vocês vão deixar para seus filhos?” questionou. E reforçou o alerta ambiental como elemento central da equação: “Se não cuidarmos do meio ambiente agora, todos nós sofreremos. Talvez, quando isso acontecer, vocês finalmente escutem o que nossos anciãos sempre disseram: que precisamos trabalhar juntos”.

Ênfase ao papel estratégico da mineração em um mundo em transformação

Encerrando sua participação, ele deixou uma mensagem de convergência. “Sim, haverá discordâncias. Mas o verdadeiro desafio é transformar esses desacordos em acordos que beneficiem a todos. Isso exige liderança — liderança que promova cooperação, não divisão”. A dimensão simbólica também marcou sua fala, ao trazer o conceito dos quatro valores — físico, mental, emocional e espiritual. “Cada um de vocês carrega esses valores. Espero que saiam daqui não apenas com conhecimento técnico, mas com esses valores fortalecidos”.

Hoje, os minerais críticos deixaram de ser apenas insumos industriais — eles se tornaram ativos estratégicos. São a base da transição energética, da economia digital e também da segurança nacional.

— Claude Guay

A importância do mercado de capitais

Na sequência, o foco se deslocou para a dimensão estratégica e econômica do setor, com a participação de Claude Guay, Secretário Parlamentar do Ministério de Energia e Recursos Naturais do Canadá. Guay foi direto ao ponto ao reposicionar o papel dos minerais no cenário global. “Hoje, os minerais críticos deixaram de ser apenas insumos industriais — eles se tornaram ativos estratégicos. São a base da transição energética, da economia digital e também da segurança nacional”.

Ele detalhou a amplitude dessa dependência: “Estamos falando de baterias, veículos elétricos, semicondutores, sistemas de defesa e telecomunicações. Tudo isso depende de cadeias de suprimento minerais seguras, estáveis e responsáveis”.

Em um contexto de crescente competição internacional, Guay destacou o posicionamento do Canadá. “O Canadá não está apenas se preparando para o futuro — está ajudando a moldá-lo. Temos cerca de 170 projetos minerais avançados e mais da metade deve entrar em operação nos próximos anos”.

Ênfase ao papel estratégico da mineração em um mundo em transformação

Segundo ele, o diferencial canadense está na construção de uma estratégia integrada. “Nosso foco não é apenas extrair. É construir cadeias de valor completas — da mineração ao processamento e à manufatura. Queremos transformar a riqueza mineral em prosperidade de longo prazo”.

Em 2025, o investimento em mineração atingiu o nível mais alto da década. E, nesse cenário, as bolsas canadenses continuam sendo a principal fonte de financiamento para exploração no mundo.

— Jeff Killen

Guay também apresentou os instrumentos criados para viabilizar essa agenda. “Estamos mobilizando capital privado, acelerando projetos estratégicos e resolvendo gargalos de infraestrutura. O Fundo Soberano de Minerais Críticos e o programa ‘First and Last Mile’ são exemplos claros dessa estratégia”.

Um dos pontos centrais de sua fala foi a relação com os povos indígenas. “Existe um princípio fundamental no centro dessa visão: a parceria com comunidades indígenas. Hoje, temos mais de 500 acordos ativos no país. Isso não é apenas inclusão — é um novo modelo de desenvolvimento”.

E concluiu reforçando o papel geopolítico do país. “Em um mundo de tensões e disputas por recursos, o Canadá tem uma vantagem competitiva: confiança. E é com base nessa confiança que estamos construindo cadeias de suprimento resilientes”.

Políticas públicas

A discussão avançou então para o papel do mercado e das políticas públicas, com Jeff Killen, Diretor de Políticas e Programas da PDAC, que trouxe uma abordagem baseada em dados e evidências. “Nosso papel é gerar conhecimento que sustente decisões. Trabalhamos com pesquisa e análise para apoiar políticas que realmente façam a diferença para a indústria”, explicou.

Killen destacou o momento positivo do setor, impulsionado pelo ciclo de commodities. “Em 2025, o investimento em mineração atingiu o nível mais alto da década. E, nesse cenário, as bolsas canadenses continuam sendo a principal fonte de financiamento para exploração no mundo”.

Segundo ele, isso é resultado de um ecossistema específico. “O Canadá construiu um ambiente regulatório transparente e instrumentos fiscais eficientes, como o flow-through share, que continuam sendo essenciais para viabilizar projetos”. Apesar do cenário favorável, ele fez um alerta importante sobre o acesso à terra. “Mais de 25% do território canadense está hoje fora de alcance para exploração mineral. Isso representa uma área equivalente à Europa Ocidental”.

Ênfase ao papel estratégico da mineração em um mundo em transformação

Para Killen, o desafio é estrutural. “Precisamos encontrar equilíbrio entre conservação e desenvolvimento. Isso exige planejamento, integração de dados geocientíficos e políticas públicas bem calibradas”. Ele reforçou o posicionamento da indústria diante desse cenário. “Somos otimistas pragmáticos. Sabemos que a indústria é resiliente, mas também sabemos que precisamos continuar atraindo capital, incentivando descobertas e ampliando nossa capacidade de gerar valor”.

A visão das empresas

Encerrando a sequência de falas, Stuart McCracken, Vice-Presidente de Exploração da Teck Resources, uma das patrocinadoras do evento, trouxe uma visão direta do ponto de vista empresarial: “talvez a pergunta mais importante hoje seja: já houve um momento mais relevante para se estar na mineração?” provocou.

Para ele, a percepção global sobre o setor mudou estruturalmente. “Durante muito tempo fomos vistos como um setor de base. Hoje está claro que a economia moderna depende diretamente da mineração”.

McCracken destacou o impacto da transição energética e tecnológica. “A demanda por minerais críticos está crescendo rapidamente, e isso está colocando a mineração no centro das decisões estratégicas globais”.

Ele também chamou atenção para a mudança de percepção da sociedade. “Não são apenas os governos. O público está começando a entender que tudo — de veículos elétricos a smartphones — depende da mineração”.

Esse novo cenário, segundo ele, abre uma janela para o setor: “isso cria uma oportunidade enorme para o Canadá e para todos nós. Uma oportunidade de crescimento, inovação e protagonismo”. Por fim, reforçou o papel da própria PDAC como catalisadora desse movimento. “É aqui que ideias se encontram, parcerias são formadas e o futuro da indústria começa a tomar forma”.

Mesmo diante de um cenário global de incertezas geopolíticas e desafios estruturais, o clima predominante foi de um otimismo pragmático. A crescente demanda por minerais críticos, impulsionada pela transição energética e pela digitalização da economia, coloca a mineração no centro das transformações globais. Ao mesmo tempo, aumenta a responsabilidade do setor em demonstrar que é capaz de operar com transparência, inovação e compromisso socioambiental.

A abertura da PDAC 2026 também destacou a importância de atrair novas gerações para a indústria mineral. Programas voltados a estudantes e jovens profissionais reforçam a necessidade de formar talentos capazes de conduzir o setor em um cenário cada vez mais tecnológico e complexo.

Ao final da cerimônia, a mensagem predominante foi de que em um mundo que busca soluções para desafios energéticos, climáticos e tecnológicos, a mineração aparece como parte fundamental da resposta. Mais do que nunca, o setor está chamado a construir pontes – entre inovação e sustentabilidade, entre desenvolvimento econômico e responsabilidade social. E, se depender do clima que marcou a abertura da PDAC 2026, a indústria mineral está disposta a assumir esse papel.

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