O ano era 1990, quando eu havia sido indicado diretor geral do DNPM e Onildo Marini diretor da Divisão de Geologia. Ambos com experiência acadêmica, discutíamos sempre sobre os caminhos para que a Academia e institutos de pesquisa tivessem foco no desenvolvimento de tecnologias aplicadas à solução dos problemas do país. O conjunto da produção acadêmica era predominantemente voltada para aspectos científicos menores (ou muitas vezes “cientifismo”), sem continuidade nem aplicação prática. Destas discussões nasceu uma figura: um triângulo que sintetizava a situação brasileira de geração de tecnologia. Em um dos vértices ficavam as universidades e centros de pesquisa, as unidades de geração de tecnologia; no segundo vértice estavam as fontes de financiamento à pesquisa (CNPq, e outros) e no terceiro vértice o setor produtivo, que demandava avanços tecnológicos.

Concluímos que os três vértices não se comunicavam, de modo que não havia planejamento, usava-se mal o dinheiro do Estado para gerar pesquisa divorciada da demanda tecnológica e o setor produtivo não investia em P&D. Começamos a pensar em uma organização que pudesse contribuir para equacionar este problema especificamente no setor mineral, uma instituição respeitável que colaborasse para que estes três vértices interagissem entre si, organizando as demandas tecnológicas da indústria mineral, influenciando no aporte e distribuição dos recursos públicos e privados destinados à C&T, visando resultados concretos para a indústria e o país. Este triângulo foi a semente da ADIMB.
Em 1991 o DNPM, apoiado pela BHP e WMC, promoveu uma visita de profissionais brasileiros à Austrália, que já despontava como um dinâmico polo mundial de exploração e produção mineral. Marini, representando o DNPM, juntamente com o vice-diretor Juarez Fontana, liderou esta visita e voltou profundamente impressionado com a Australian Mineral Industries Research Association - AMIRA, organização australiana independente, sem fins lucrativos, dedicada ao fomento à pesquisa, desenvolvimento e inovação no setor de mineração, conectando globalmente empresas, líderes e pesquisadores.
Sua caderneta voltou recheada de anotações, desenhos, organogramas. E sublinhou um dos conceitos chave da AMIRA: “tornar a indústria mineral competitiva”. Marini passou a promover o propósito de criar uma instituição semelhante no Brasil.
Surgiu a oportunidade do que seria um teste do modelo. Usando o DNPM como “organização”, pensamos em realizar um levantamento aerogeofísico de detalhe testando parcerias com instituições que representassem os três vértices do triângulo, no caso o DNPM, a CPRM e empresas de mineração.
Assim nasceu, em 1992, o projeto Rio das Velhas, um levantamento aerogeofísico de alta resolução utilizando os métodos magnetométrico, gamaespectrométrico e eletromagnetométrico (incluindo VLF) de alta densidade, ainda inéditos no Brasil, com o objetivo de identificar novos alvos auríferos em zonas de Greenstone do Quadrilátero Ferrifero de Minas Gerais, onde nasceu a nossa mineração de ouro.
Foi o primeiro projeto dentro do Programa de Estudos dos Distritos Mineiros do DNPM, criado em 1991. Uma área de 1.700 km² foi selecionada Junto com a CPRM para ser voada e posteriormente remapeada em escala 1:25.000. O DNPM entrou em contato com todas as empresas detentoras de direitos minerais na linha de voo (8 empresas de mineração aderiram) e a Fundação Gorceix, de Ouro Preto, instituição tradicional e independente, foi convidada para gerenciar os recursos e desenvolver os modelos contábeis que pudessem ser utilizados por todos. A parceria foi consolidada com recursos de todos os participantes. As empresas privadas pagaram o levantamento aerogeofísico, com a vantagem de poderem usar com exclusividade os resultados por 180 dias, após os quais estes seriam públicos. A CPRM iria usar os dados para atualizar o mapeamento geológico da região.
Uma licitação selecionou a empresa de geofísica que iria se encarregar do levantamento.

Um helicóptero decolou solenemente do pátio do histórico Colégio Salesiano de Cachoeira do Campo, sede do Primeiro Regimento de Cavalaria de Portugal, para voar em linhas de voo de 250 m, com um sensor dependurado (“bird”) mantido a uma altura máxima de 60 metros por sobre a topografia.
Os resultados foram surpreendentes. Mais de 900 novos alvos foram detectados, os requerimentos de pesquisa multiplicaram-se na região e as empresas obtiveram dados técnicos importantes para avançar em suas concessões. Inúmeros trabalhos científicos foram publicados a partir dos dados gerados. Após o levantamento, o helicóptero foi imediatamente contratado pela então Vale do Rio Doce para voar em Carajás.
A ideia de Marini entrou em movimento, virou projeto. Em setembro de1993, foi assinado um convênio entre o MCT e o MME visando o desenvolvimento tecnológico da Indústria Mineral Brasileira, primeiro ato burocrático que permitiu avançar na criação da organização idealizada. Neste ponto, uma circunstância política favoreceu ainda mais o andamento do projeto. Em dezembro de 1993, o ministro da Ciência e Tecnologia José Israel Vargas, entusiasta da ideia, acumula interinamente o MME após a saída do ministro Paulino Cícero. Na curta gestão de Vargas (dois meses), o DNPM desenvolveu uma exposição de motivos para a criação da “organização”, a qual foi formalmente encaminhada ao ministro Alexis Stepanenko, que assumiu o MME em março de 1994, tendo Breno dos Santos como secretário de Mineração e Metalurgia. Nesta exposição de motivos, o DNPM sugere que a nova organização seja de caráter privado, mas recomenda o suporte inicial do Governo para permitir sua rápida viabilização.

Em 1º de setembro de 1994 é publicada a Portaria Interministerial Nº 343, assinada por Stepanenko e Vargas, criando um grupo de trabalho para estruturar a cooperação MCT/MME e a indústria mineral visando o desenvolvimento da tecnologia mineral. O GT foi coordenado por Onildo Marini (DNPM) e composto por Lélio Fellows Filho (MCT), Roberto Cerrini Villas Boas (CETEM-MCT) e José Mendo Mizael de Souza (IBRAM).
Valendo-se de um trabalho preparatório já avançado, o GT entregou rapidamente seu relatório, que foi aprovado pela Portaria Interministerial Nº 398, publicada no Diário Oficial da União de 18 de novembro de 1994. O relatório recomendava que a condição ideal para alcançar os objetivos propostos era a estruturação de uma “Agência ágil e específica, capaz de fazer a efetiva intermediação entre a indústria mineral, os órgãos de governo vinculados ao MME e MCT e as instituições executoras de pesquisa técnico-cientifíca na área mineral. Uma Agência para o Desenvolvimento Tecnológico da Indústria Mineral Brasileira - ADIMB.” O relatório estabelece ainda, detalhadamente, 12 objetivos para a nova agência e sugere que seja uma instituição privada sem fins lucrativos, dirigida por um Colegiado constituído por representantes do MME, MCT e por empresas privadas em maioria, e administrada por uma pequena equipe de profissionais altamente qualificados.
Ficou estabelecido que, antes da criação definitiva da ADIMB, uma Comissão Executiva Transitória desenvolveria um Projeto Demonstrativo para definir a estrutura mais adequada à Agência, desde seus Estatutos até as condições para sua auto-sustentação, conforme definido em sua concepção original. Coube ao DNPM a tarefa de constituir a Comissão e se responsabilizar pelo Projeto Demonstrativo.
A Portaria nº 14, de 21 de Dezembro de 1994, do diretor do DNPM, constituiu a Comissão Executiva Transitória, composta por Onildo Marini (Coordenador Geral da Comissão Transitória), Elmer Prata Salomão (Diretor Geral do DNPM), José Mendo Mizael de Souza (Secretário executivo do IBRAM), Lélio Fellows Filho (Assessor Especial do MCT) Benedicto Waldir Ramos (Chefe da Divisão de Geologia do DNPM) -e Luciano de Freitas Borges (Coordenador de Política Mineral do Departamento Nacional de Minas e Metalurgia/MME).
Em 9 de julho de 1996, após cerca de um ano e meio de trabalho da Comissão Executiva Transitória, ocorreu, no Auditório do MME, a Assembleia Geral de fundação da ADIMB, com a aprovação dos seus Estatutos e nomeação de seu Conselho Diretor e Diretoria Executiva.
As seguintes instituições e empresas foram as sócias fundadoras: Instituto Brasileiro de Mineração - IBRAM, representado pelo seu Secretário Executivo, José Mendo Misael de Souza; Departamento Nacional de Produção Mineral - DNPM, representado pelo Diretor Geral, Miguel Navarrete Fernandez Júnior; Rio Doce Geologia e Mineração S.A -DOCEGEO, representada pelo Diretor Presidente, Breno Augusto dos Santos; Mineração Caraíba S.A., representada pelo Diretor Superintendente, Darcy José Germani; Companhia Baiana de Pesquisa Mineral - CBPM, representada por seu procurador Dr. Washington Rydz Rebouças Santana; Cia. Matogrossense de Mineração - METAMAT, representada por seu procurador Dr. Wanderlei Magalhães de Rezende; RTZ Mineração Ltda, representada por seu procurador Dr. Pedro Jacobi; BHP Brasil Ltda., representada pelo Diretor Presidente, Dr. Paulo Bahia Guimarães; GEOSOL - Geologia e Sondagens Ltda., representada pelo Diretor, João Henrique Grossi Sad; SOPEMI S.A., representada por seu procurador Homero Braz Silva, Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais - CPRM, representada pelo Diretor Presidente, Carlos Oiti Berbert; Companhia Vale do Rio Doce - CVRD, representada por seu procurador Roberto Reis de Freitas; Arantes & Associados - Consultoria e Serviços de Mineração Ltda., representada pelo Sócio Gerente, Douglas Arantes; INCO Brasil Participações Ltda., representada pelo Diretor Luiz Werneck de Castro Filho; Placer Dome Brasil Empreendimentos Ltda, representada por seu procurador, Dagoberto Drummond; GEOS - Geologia para Mineração Ltda., representada por Elmer Prata Salomão; CODEMIN S.A., representada por seu procurador, Alexandre José Leal Umbelino de Souza; GEOMAG S.A., representado pelo Diretor, Antônio Carlos Godoy; Metais de Goiás S.A -.METAGO, representada pelo Diretor Presidente, Aristóteles de Paula Souza Sobrinho; Superintendência de Geologia e Recursos Minerais da Secretaria da Indústria Comércio e Mineração do Estado da Bahia, representada pelo Diretor Geral, Ruy Fernandes da Fonseca Lima. Não compareceram e justificaram a ausência assinando o termo de adesão a Companhia Mineradora de Minas Gerais – COMIG por seu Presidente Carlos Alberto Cotta, o Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais - BDMG pelo seu presidente Marcos Raimundo Pessoa Duarte e pelo seu Diretor Otavio Elisio Alves de Brito, a JAAKKO POYRY Engenharia Ltda. por seu diretor. Kenro Matsui, a Secretaria de Estado de Indústria, Comércio e Mineração do Estado do Pará - SEICOM. por seu Diretor Alberto Rogerio B. da Silva.


Não foram anos fáceis
Neste ano de 2026 a ADIMB completa 30 anos de trabalho contínuo e profícuo em prol da mineração brasileira. Não foram anos fáceis. Neste tempo a Agência superou problemas, entregou resultados, tornou-se uma referência definitiva no setor mineral brasileiro.
Nesta trajetória, dois pontos se destacam. O primeiro remete à sua concepção. Entre os objetivos primordiais, destaca-se o de “fazer a mediação entre os órgãos governamentais do MCT e MME, o empresariado do Setor Mineral e as instituições executoras de pesquisa técnico-científica, especialmente as da área mineral, de forma a maximizar a utilização dos recursos técnicos e financeiros existentes no País para a solução de problemas concretos do Setor Produtivo”. Não era um propósito apenas técnico, mas uma determinação política presente na origem da ADIMB, para que fosse uma organização destinada a interferir vigorosamente na estruturação de políticas públicas, consolidar demandas do empresariado e colaborar na geração, destinação e aplicação de recursos para o desenvolvimento tecnológico do setor mineral.
Este objetivo primordial se materializa hoje nos projetos colaborativos desenvolvidos pela entidade, porém seu cumprimento pleno esbarra, entre outras razões, na pouca aptidão das empresas brasileiras de mineração em desenvolver trabalhos conjuntos e compartilhar conhecimento.
A disponibilidade no Brasil de bens minerais como lítio, Terras Raras e outros, eleitos à categoria de críticos pelas necessidades da transição energética e pela sua importância geopolítica para o Ocidente, fez com que ressurgissem as discussões sobre a apropriação de valor dos nossos minerais através da verticalização pós-mineração. Nunca foi tão discutida a agregação de valor aos bens minerais e neste contexto a ADIMB pode assumir um importante papel de liderança. Trata-se de ampliar o conceito original de “indústria mineral” para avançar na cadeia produtiva abrangendo também a indústria de transformação mineral. para alcançar também as etapas industriais downstream. A verticalização não é uma obrigação do minerador (como muitos pensam), mas uma opção extremamente importante intrinsecamente ligada à indústria extrativa. Aos 30 anos de existência, as circunstâncias de hoje determinam novos rumos. Vale a pena discutir se este propósito é viável, se a ADIMB deve se reinventar.
O segundo ponto é de outra natureza. Refere-se a uma intensa história pessoal amalgamada na história da ADIMB, a de Onildo João Marini. Nome consagrado na Academia, realizou um excepcional trabalho à frente da Diretoria de Geologia do DNPM quando este ainda era o responsável pelos levantamentos básicos de geologia do país, missão que exercia sob contrato com a CPRM. Sua atuação foi decisiva para a modelagem que institucionalizou os levantamentos geológicos básicos, converteu a CPRM em empresa pública (antes era empresa de economia mista) e alterou seus Estatutos, transformando-a no Serviço Geológico do Brasil, antiga aspiração de todo o setor mineral.
Marini dedicou grande parte de sua vida profissional à ADIMB. Acreditou desde o início, lutou para implantá-la e doou-se em tempo integral e dedicação excessiva à sua consolidação. Merece nossa homenagem, reconhecimento e gratidão.

