O mundo vive uma transformação silenciosa — e profundamente mineral. Por trás da eletrificação da economia, da transição energética e da reorganização das cadeias globais de suprimento, há uma demanda crescente por recursos que, até pouco tempo, estavam fora do radar estratégico de muitos países. Hoje, esses insumos — os chamados minerais críticos — definem não apenas o futuro da indústria, mas também o equilíbrio geopolítico global.
Nesse cenário, o Brasil emerge como uma potência latente. Com uma das maiores diversidades geológicas do planeta, o país reúne condições para ocupar um papel central no fornecimento desses recursos. Mas, como ficou evidente em debates recentes que reuniram governo, investidores, empresas e especialistas, transformar potencial em protagonismo exige mais do que riqueza natural. Exige coordenação, previsibilidade e, sobretudo, capacidade de execução. A mineração brasileira está, portanto, diante de uma encruzilhada histórica.
Durante a sessão de abertura do “Brazilian Mining Day”, que aconteceu no dia 3 de março, no âmbito da convenção PDAC 2026, realizado em Toronto, Canadá, Marcos André Gonçalves, presidente do Conselho da ADIMB, reforçou que “no contexto geopolítico global os minerais críticos, a transição energética, a resiliência das cadeias de transformação e a transformação tecnológica estão no centro das estratégias econômicas e o Brasil quer se posicionar nesse novo ciclo”.
Patrícia Procópio, representando o WIM Brasil (Women in Mining Brasil) disse que a parceria com a cadeia de mineração tem sido reforçada, mas que o ambiente da mineração ainda é muito pouco diverso. E chamou por mais ação em prol da diversidade e inclusão no setor mineral, abrangendo mulheres e outros grupos subrepresentados para impulsionar a inovação.
A representante da APEX Brasil, Ana Paula Repezza afirmou que a agência prioriza minerais críticos na atração de investimentos, cobrindo desde exploração até processamento, para reter mais valor no país: “temos um portfólio de 35 projetos avaliados em US$ 5,5 bilhões que focam não apenas na extração, mas no processamento e na verticalização", afirmou.

Exemplos práticos já aparecem no horizonte: Terras Raras: Empresas como a Meteoric Resources e a Viridis Mining estão liderando projetos que prometem colocar o Brasil como uma alternativa viável e sustentável à China na produção de óxidos de terras raras; Cobre e Níquel: A Vale Base Metals projeta uma demanda sem precedentes, estimando que o mundo precisará dobrar a produção de cobre até 2045. No Brasil, o foco é a escala e a eficiência operacional em províncias como Carajás; Lítio: O avanço tecnológico no "Vale do Lítio", em Minas Gerais, já atrai investimentos pesados, como o aporte de US$ 40 milhões de uma empresa indiana para plantas de hidróxido e carbonato de lítio, uma conexão direta entre mineração e alta tecnologia.
O embaixador Carlos França, por sua vez, propôs aprofundar a cooperação Brasil-Canadá em mineração e energia, incluindo reatores modulares pequenos (SMR) e potenciais joint ventures envolvendo urânio e ciclo do combustível, ressaltando que o Brasil reforça o uso pacífico da energia nuclear, apoia maior participação privada no setor e busca maior inserção multilateral (agência internacional sediada em Viena), alinhando mineração, eletrificação e baixo carbono.
O representante do MME, Anderson Arruda, anunciou a estratégia nacional de minerais críticos, com foco em compartilhamento de riscos com o setor privado, criação de fundo garantidor a projetos e melhorias no licenciamento ambiental para empreendimentos estratégicos.
O presidente do Serviço Geológico do Brasil, Vilmar Simões, informou que o SGB está expandindo os mapeamentos com aerogeofísica e geoquímica), focando em minerais críticos como nióbio e lítio e que o órgão disponibiliza dados públicos para fomentar descobertas e projetos.
Por fim, Júlio Nery, diretor do IBRAM, reconheceu a importância das parcerias (APEX, SGB, MCTI) e do conhecimento geológico, reforçando o compromisso com a diversidade como motor de progresso no setor.
Ambiente mais previsível pode destravar investimentos
O Brasil reúne reservas relevantes de minerais estratégicos, tradição operacional em mineração, matriz energética competitiva e crescente interesse internacional. Mas, para transformar esse conjunto de vantagens em novos projetos, produção e industrialização, o país ainda precisa avançar em previsibilidade regulatória, financiamento e agregação de valor local. Essa foi a mensagem central do painel 1 “Perspectivas da Indústria Mineral – o potencial, a inovação e os caminhos para o futuro do setor mineral brasileiro”.
Moderado por Marcos André Gonçalves, presidente da ADIMB, o debate reuniu representantes de grandes mineradoras e empresas emergentes com foco em cobre, níquel, terras raras e metais do grupo da platina (PGMs): Felipe Wernwck, vice-presidente de Licenciamento Integrado da Anglo American; José Luís Marques, da Vale Base Metals; Marcelo Juliano de Carvalho, gerente nacional da Meteoric Resources; e Thiago B. Diniz, vice-presidente de Exploração da ValOre Metals.

Ao longo da discussão, os executivos convergiram em três frentes: o avanço tecnológico já em curso nas operações, o papel do Brasil na corrida global por minerais críticos e a urgência de reduzir gargalos que atrasam a transformação de descobertas geológicas em minas em operação.
Representando a Anglo American, Felipe Wernwck afirmou que os últimos cinco anos foram marcados por uma aceleração tecnológica sem precedentes no setor mineral. Segundo ele, automação, monitoramento em tempo real, sensores avançados e melhoria da qualidade dos dados já vêm alterando a forma de operar minas. “Hoje vemos sistemas totalmente automatizados em operações de grande porte, centros de controle remotos e decisões sendo tomadas com base em dados em tempo real. Isso melhora sustentabilidade, manutenção, produtividade e segurança”, destacou.
Wernwck citou ainda tecnologias voltadas à gestão de rejeitos, tema que ganhou prioridade global após os acidentes ocorridos no Brasil. Entre os avanços mencionados, ele apontou soluções de empilhamento a seco e processos que reduzem volumes e riscos associados às barragens tradicionais.
Outro ponto destacado foi a chamada mineração de precisão, apoiada em câmeras, raios X e sensores capazes de identificar mineralogia diretamente nas frentes de lavra ou em correias transportadoras. “A tendência é minerar exatamente o que precisa ser minerado, com maior eficiência e menor impacto”, afirmou ele. Para o executivo, no entanto, a maior inovação recente vai além da tecnologia dura. “As mineradoras entenderam que precisam atuar como parceiras das comunidades e dos territórios onde operam. A licença social para operar e crescer tornou-se estratégica”.
Na visão de Thiago B. Diniz, da ValOre Metals, o Brasil segue como uma das jurisdições mais promissoras do mundo para exploração mineral, tanto em províncias geológicas maduras quanto em áreas historicamente subavaliadas. “O país tem escala continental e enorme potencial. Existem distritos tradicionais que ainda podem gerar novas descobertas, especialmente com novas tecnologias de processamento e exploração. E há também regiões negligenciadas no passado, que precisam ser revisitadas com outra visão”, afirmou.
Ele citou áreas como Alta Floresta e Tapajós como exemplos de províncias que por décadas foram vistas como depósitos menores ou complexos demais do ponto de vista metalúrgico, mas que podem ganhar nova relevância diante do novo ciclo de preços e da demanda crescente por metais.
Diniz destacou ainda o papel crescente da inteligência artificial na releitura de bancos de dados históricos acumulados por décadas. “Há uma massa enorme de informações produzidas por empresas e geólogos ao longo do tempo. Esses dados precisam ser revisitados. A IA pode revelar oportunidades que antes passaram despercebidas”.
Ao tratar dos desafios, o executivo defendeu um ambiente regulatório estável e previsível, capaz de atrair tanto capital estrangeiro quanto nacional. Também mencionou a necessidade de aperfeiçoar prazos ligados a títulos minerários e evolução de projetos, compatibilizando exigências regulatórias com os ciclos reais de desenvolvimento mineral.
Entre os debates mais enfáticos do painel esteve o potencial brasileiro em terras raras. Marcelo Juliano de Carvalho, da Meteoric Resources, afirmou que o país tem condições de se tornar protagonista global em uma cadeia alternativa e sustentável frente ao domínio atual da China. “Hoje existe praticamente um único mercado estruturado. A China produz cerca de 70% do minério e mais de 90% dos ímãs permanentes. Ela controla preços e escala. O Brasil pode ser a base de um novo mercado”, disse.
Segundo Carvalho, os depósitos brasileiros apresentam vantagens comparativas em teor, recuperação metalúrgica e condições ambientais de produção. Ele lembrou que a companhia já entregou os primeiros lotes de carbonato misto de terras raras ao projeto MagBras, iniciativa voltada ao desenvolvimento da cadeia nacional de ímãs.
A Meteoric também estuda etapas posteriores de processamento no país, incluindo separação de óxidos. Para o executivo, esse é o caminho natural para ampliar valor agregado e reduzir dependência externa. “Exportar concentrado ou carbonato é apenas o começo. Quando se separa os óxidos, abre-se novo mercado e agrega-se valor no Brasil”, afirmou Carvalho.
O representante da Meteoric disse ainda enxergar um momento inédito de interlocução entre setor privado, governos estaduais, União e instituições financeiras. “Em 30 anos de carreira, nunca vi um ambiente como este. Estamos construindo juntos o marco necessário para aproveitar essa oportunidade”.
Representando a Vale Base Metals, José Luís Marques reforçou que a geopolítica e a transformação tecnológica mundial vêm impulsionando a busca por minerais críticos. Na avaliação dele, o Brasil está bem-posicionado para responder a essa demanda: “o país possui recursos naturais relevantes, experiência operacional, infraestrutura instalada e profissionais qualificados. Temos condições de assumir papel estratégico em cobre, níquel, cobalto e outros minerais essenciais.
Marques deu destaque especial ao cobre, apontado como um dos metais centrais da eletrificação global, expansão de redes elétricas, data centers e novas tecnologias. “O mundo produz hoje algo entre 26 e 27 milhões de toneladas de cobre por ano. As projeções indicam demanda próxima de 50 milhões de toneladas até 2045. Em vinte anos, será necessário quase dobrar a oferta mundial”, observou.
Segundo ele, isso exigirá descobertas de grande escala e novos investimentos em diversas regiões, inclusive no Brasil. O executivo lembrou o potencial mineral de Carajás e reiterou a disposição da companhia em ampliar sua presença em metais básicos.
Um dos temas transversais do painel foi o tempo necessário para transformar uma descoberta mineral em operação produtiva. Felipe Wernwck destacou que grandes projetos frequentemente levam de 15 a 20 anos entre descoberta e produção, prazo considerado excessivo diante da urgência global por minerais estratégicos. “Há espaço para processos melhores e mais eficientes. Não se trata de pular etapas ou reduzir rigor, mas de garantir previsibilidade e fluidez”, garantiu.

Para ele, projetos avançam “na velocidade da confiança” — entre empresas, reguladores e comunidades. A mesma visão foi compartilhada pelos demais participantes, que defenderam maior integração entre setor público e privado.
Ao final do debate, prevaleceu a percepção de que o Brasil vive uma janela rara de oportunidade. A combinação entre demanda global por minerais críticos, necessidade de diversificação geopolítica das cadeias produtivas e qualidade dos recursos nacionais pode reposicionar o país no mapa da mineração mundial.
Mas o painel também deixou claro que geologia, sozinha, não basta. Para transformar potencial em liderança, o Brasil precisará acelerar licenciamento com segurança jurídica, ampliar instrumentos de financiamento, investir em infraestrutura e capturar etapas industriais hoje concentradas em outros mercados.
Brasil precisa melhorar regulação para atrair mais investimentos
Governança regulatória, licenciamento ambiental e mineração responsável: desafios e soluções, foi o tema do painel 2 do Brazilian Mining Day. Moderado por Rafael Bittar, vice-presidente Executivo Técnico da Vale, o painel reuniu Daniel Guimarães de Castro (secretário para Atração de Investimentos e Cadeia Produtiva do estado de Minas Gerais), Anderson Arruda (secretário-adjunto da SGM do MME), Rafael Moreno (CEO da Viridis) e Tomás Albuquerque (presidente da INB).
Segundo Bittar, o Brasil tem recursos, tecnologia e capital, mas precisa modernizar o licenciamento ambiental para reduzir prazos, que hoje é de 3 a 4 anos, e aumentar a previsibilidade regulatória. “O desafio, portanto, não é escolher entre desenvolvimento e proteção ambiental. O desafio é construir um sistema regulatório capaz de oferecer previsibilidade, regulamentação técnica e competitividade internacional simultaneamente”, afirmou.
Referindo-se à nova lei de Licenciamento Ambiental, Anderson Arruda, do MME, disse que é o “primeiro passo para algo grandioso no Brasil. É a primeira vez que o Brasil, o governo, entende que temos, que devemos, selecionar projetos estratégicos e dar prioridade a eles. É a primeira vez que vemos isso. E agora, nosso desafio é como desenvolver esse sistema. É claro que não se trata apenas da agência de mineração, (ANM), mas de todas as agências (indígenas, fundiárias, de áreas protegidas).
A opinião de todos é os investidores buscam clareza de regras, prazos e segurança jurídica, alinhamento estratégico público-privado e estabilidade institucional, fatores que são cruciais para destravar capital. O representante de Minas Gerais, por exemplo, apresentou como importantes os mecanismos de priorização impessoais e objetivos, licenças mais céleres, governança integrada e instrumentos econômicos/compromissos executáveis para reduzir atritos e dar previsibilidade.
Tomás Albuquerque, da INB (Indústrias Nucleares do Brasil), disse que o setor nuclear no Brasil requer uma reestruturação regulatória, com a separação da antiga CNEN (Comissão Nacional de Energia Nuclear) e criação de autoridade de segurança nuclear, além de uma agenda para parcerias público-privadas em urânio.
Para os painelistas, o objetivo é transformar licenças e estudos em “ferramentas” de gestão e previsibilidade. E mencionaram boas práticas internacionais, como os prazos legais vinculantes adotados pela União Europeia, a adoção de agência coordenadora única, como é o caso da Austrália, como caminho para reduzir conflitos e acelerar o time-to-market. Nesta linha, o representante do MME disse que o governo federal prioriza projetos estratégicos e prepara a Estratégia de Minerais Críticos e um Conselho Especial na Presidência, com foco em licença social, benefícios às comunidades e processamento local para capturar mais valor.
Um desafio apontado é o lidar com o Ministério Público, apontando-se a necessidade de envolvimento mais cedo no processo para evitar interrupções tardias que afetam cronogramas e confiança do investidor.
Abordando a reputação do setor, todos foram unânimes sobre a importância da comunicação contínua e capilar com comunidades e mídia local para esclarecer benefícios, padrões ESG e combater desinformação, especialmente em cadeias sensíveis como urânio.
Perspectiva para os minerais críticos e metais preciosos no Brasil é positiva
Perspectivas para os minerais críticos e metais preciosos no Brasil foi o tema do terceiro painel do Brazilian Mining Day, que reuniu Leandro Gobbo (vice-presidente da PLS Brasil), José Augusto Palma (vice-presidente Executivo da Aclara Resources), Luís Maurício Azevedo (CEO da Bravo Mining) e João Kleber Cardoso (CFO da Aura Minerals), que atuaram sob a moderação de Diogo Costa (diretor de Exploração e Recursos Minerais da Vale).
Eles iniciaram o debate afirmando que o Brasil tem papel destacado como potência geológica e na transição energética, no momento em que os minerais críticos (lítio, ETR, grafite, cobre, níquel e minério de ferro de alta qualidade) ganham protagonismo.

A qualidade e profundidade dos dados geológicos brasileiros para lítio, por exemplo, são de nível mundial. Porém, há oportunidade de se ampliar o mapeamento e promover a integração e digitalização dos dados nacionais. Eles apontaram o uso da IA e Machine Learning como aceleradores de exploração e redução de riscos. E defenderam a colaboração público-privada e universidades para avançar modelos preditivos.
Como gargalos, os executivos apontaram os prazos de licenciamento (embora reconheçam que há melhora em alguns estados, como é o caso de Minas Gerais), e a insegurança jurídica pós-licença, bem como instabilidade legislativa, que prejudicam os investimentos. Foi apontada a necessidade de um repositório nacional de dados (testemunhos, sondagens, geoquímica) e política de dados públicos para não perder informações geradas pelo setor privado. Mencionaram o caso do níquel e outros sistemas profundos, que exigem geociência pré-competitiva. Há o reconhecimento da limitação de recursos públicos, o que reforça a necessidade de maior eficiência e conservação de dados. Em suas opiniões, os brasileiros “fazem muito com menos”.
Para os executivos, o ouro, embora não seja crítico, é estratégico, pois preserva valor, sustenta empregos e gera receita. Eles apontam que os preços altos abrem novas janelas de projetos e M&A, mas apontam a necessidade de cautela com avaliações.
Com relação à verticalização e processamento de minerais críticos no Brasil, eles afirmam que a decisão deve ser guiada por economia e previsibilidade e sugerem a criação de hubs integrados, o que reduz custos. O caso das terras raras, foi mencionado o caso da Aclara, que desenvolve tecnologia de separação (terá planta-piloto nos EUA) e tem intenção de trazê-la ao Brasil. Porém, para competir, é preciso atrair que o Brasil atraia OEMs e promova a integração com petroquímica, além de criar incentivos e zonas industriais preparadas.
Sobre os fatores-chave para impulsionamento da indústria, eles citam os tributos, energia, mão de obra e segurança regulatória. Para eles, o licenciamento de exploração deveria ser quase automático, por ser atividade de baixo impacto. Por fim, consideram positivo parcerias com o SGB, que já avançam, pois consideram crucial consolidar e compartilhar dados.
Brasil precisa impulsionar o conhecimento geológico para atrair investimentos
O quarto painel do Brazilian Mining Day abordou a necessidade de impulsionar o conhecimento geológico e a inovação para revelar o potencial ainda não descoberto do Brasil em termos de exploração mineral. Julio Cezar Santos, gerente geral de Exploração da Nexa Resources, atuou como moderador e o painel teve como debatedores Francisco Valdir Silveira, diretor de Geologia e Recursos Minerais do Serviço Geológico do Brasil (SGB/CPRM), Williame Cocentino, gerente de Geologia da CBPM, Armado Massucatto, gerente de Exploração e Geologia da Jaguar Mining e Adrian McArthur, presidente da Meridian Mining.
Francisco Valdir Silveira afirmou que o SGB-CPRM disponibiliza amplo acervo gratuito, via Plangeo, como mapas geológicos em múltiplas escalas, dados geoquímicos, geofísicos e relatórios, continuamente atualizados. Ele disse que o SGB acelera novos levantamentos, mencionando como exemplos o mapeamento na escala 1:100.000 como base para investimento, a retomada de aerogeofísica (MAG, gamaespectrometria, EM, gravimetria), com dezenas de milhões de reais investidos em 2023–2026 e um forte programa geoquímico.

Silveira disse, no entanto, que há um desafio estrutural, já que o Brasil tem 14,2 milhões km² (incluindo área marinha) e que apenas cerca de 30% conta com bom conhecimento. Além disso, 60% do território é composto por bacias sedimentares com baixo nível de informação.
O representante da CBPM (Companhia Baiana de Produção Mineral) afirmou que a empresa atua como “primeiro dólar” e redutor de risco, realizando mapeamento, geoquímica e perfurando para atrair capital. Masucarro acrescentou que o foco da CBPM atualmente está na nova Província do Norte da Bahia e no apoio a pequenos e grandes investidores. A Bahia tem atualmente várias oportunidades, segundo o geólogo, em níquel-cobre-cobalto-ferro-vanádio-titânio, terras raras com teores >10% TREO, grafite, areia de sílica de alta pureza, agrominerais (fosfato e calcário). No caso do titânio, ele menciona que há um interesse crescente, por fatores geopolíticos.
O gerente de Exploração da Jaguar Mining disse que a empresa está focada no Quadrilátero Ferrífero de Minas Gerais que, apesar da maturidade da província, mantém descobertas combinando atividades de campo com uso da IA, geofísica magnética extensa e integração de dados históricos. Existem atualmente centenas de alvos, segundo ele, mas a empresa enfrenta atrasos regulatórios e relacionados com a obtenção de licenças.
O presidente da Meridian Mining explicou que a empresa está concentrada no projeto Cabaçale, Mato Grosso, fazendo reinterpretação como VMS com sobreposição aurífera. A empresa também faz o resgate de dados históricos, expansão sistemática de malhas e perfurações (>10.000 m/ano) e identificou várias árias anomalias de 2 km e novos indícios hidrotermais no cinturão.
Para os participantes do painel, existem gargalos que precisam ser resolvidos. É o caso da necessidade de padronização/captura de dados de exploração em formato eletrônico, de agilizar licenças e possibilitar acesso à terra (CAR e acordos). Também há necessidade de se revisar prazos de alvarás. Eles defendem que, com regulação adequada e capital, as descobertas fluem.
Francisco Valdir Silveira, em sua fala final, disse que o SGB aponta províncias emergentes e maduras, como é o caso do lítio (no Sertão Central/Solonópole; Jequitinhonha/Seridó mais maduros), terras raras (Poços de Caldas, Mata da Corda, Arco Magmático de Goiás) e ouro (Rondônia Central, Juma/Transamazônica, Seridó; Tapajós e Cuiabá mais maduros).
As dificuldades das junior companies para atrair investidores
As principais barreiras ao capital para mineração no Brasil não são técnicas/geológicas, mas estruturais, devido a fatores como imprevisibilidade de prazos ou marcos, mercado de ações pouco profundo e juros altos e renda fixa atraentes, drenando recursos de projetos de longo prazo. Foi o que afirmaram os participantes do painel sobre mercado de capitais para junior companies no Brasil, realizado durante o Brazilian Mining Day, no âmbito da convenção PDAC 2026. O painel foi moderado por Ana Paula Repezza (diretora de Negócios da ApexBrasil) e contou com a participação de Luciano Coutinho (consultor independente e ex-presidente do BNDES), Eduardo Cardoso (CIO da Ore Investments), Bruno Scarpelli (diretor Executivo da Centaurus Metals), Mark Travers (CEO da Brazilian Nickel) e Henrique Tavares (gerente de Mineração, Aço e Bens de Capital do Invest Minas). Para eles, apesar das barreiras os investidores seguem focados no Brasil pela qualidade geológica e oportunidades de alto retorno ao longo da vida dos projetos.
Sobre a percepção de risco-país, eles argumentam que há casos práticos indicando boa posição do Brasil, citando como exemplo a abertura de um escritório da agência americana DFC no País. Não temor de nacionalizações e os riscos, comparado com outras jurisdições sul-americanas, são muito menores.
A “corrida” aos minerais críticos ainda está em consolidação e há casos em que o acesso a capitais tem sido dificultado pela crença em oferta suficiente, como é o caso do níquel da Indonésia. Os governos e bancos de desenvolvimento começam a mitigar os riscos, com instrumentos de garantias e com investimentos, atraindo capital privado.
Os painelistas destacam o papel do financiamento proporcionado pelo BNDES e congêneres. Há oferta de financiamento para dívidas de longo prazo, mas falta capital próprio para as fases iniciais dos empreendimentos. O fundo para minerais críticos, com R$ 400 milhões e o fundo para transformação/inovação ainda são insuficientes, diante da escala do potencial brasileiro.
O estado de Minas Gerais tem desenvolvido ações para atrair investimentos, reduzindo a burocracia e oferecendo incentivos fiscais, como o financiamento de máquinas e insumo. Além disso, o estado, que tem 100% de energia renovável, está reforçando a agenda a agenda de “materiais verdes”.


Sobre o papel proativo do capital privado, além do cheque há possibilidades de parceria em geologia, engenharia, ESG e relações com stakeholders, sendo mencionado como exemplo o fundo pré-operacional gerido pela Warrant, com meta de R$1,5 bilhão para destravar valor e levar projetos à produção.
As principais preocupações dos investidores estrangeiros são a licença social, que até supera a licença ambiental, gestão por transparência, diálogo contínuo e engajamento comunitário adaptado ao contexto local. Um outro ponto destacado é o ESG como condição de acesso a capital e mercados, a comprovação de baixa intensidade de carbono, aderência a padrões internacionais, consultoria ambiental independente e acreditações para vender a cadeias de baterias. Por outro lado, os credores soberanos e de exportação também se tornam mais e mais exigentes.
Quanto à política industrial e coordenação, eles apontam a necessidade de desenvolver o midstream doméstico para reduzir riscos, agregar valor e ancorar offtake. Sugerem urgência em melhorar/coordernar licenciamento, ampliar e especializar instrumentos financeiros e fundos (incluindo os de pensão) e fortalecer parcerias estado–investidores–juniors companies. Um exemplo mencionado foi o do lítio, que roadshows e conexões já resultaram em investimento de US$40 milhões.

