Introdução: Uma Vulnerabilidade
A crescente demanda global por fertili-zantes, impulsionada pela necessidade de aumentar a produção de alimentos em 70% até 2050 para atender a uma população de 9,7 bilhões de pessoas, coloca o Brasil no centro de uma discussão crítica sobre segu-rança alimentar. O potássio é um compo-nente fundamental da cadeia de fertilizantes e está diretamente ligado à produtividade agrícola. Com o agronegócio responden-do por até 30% do PIB nacional, o país é o maior importador mundial de fertilizantes potássicos: em 2025, foram importadas 43,32 milhões de toneladas de fertilizantes (N, P, K) e, em particular, na faixa de 14 milhões de toneladas de potássio (KCl), representando mais de 96% do consumo interno. Essa dependência expõe o setor a uma vulnerabilidade estrutural severa, cujas consequências se manifestam de forma recorrente em crises geopolíticas internacionais.
O Projeto South Atlantic Potash (SAP), localizado na Bacia de Sergipe-Alagoas, surge como uma oportunidade estratégica de classe mundial para transformar o Brasil de um país dependente em autossuficiente na produção de cloreto de potássio (KCl). Com cerca de 81.000 hectares de autorização de pesquisa, nove alvos exploratórios mapeados e um recurso potencial de 3,52 bilhões de toneladas de silvinita, o projeto representa um prospecto offshore de potássio significante, atualmente exclusivo no mundo.

1. A Urgência Geopolítica: Um Padrão Recorrente
A concentração da produção global de potássio é uma ameaça permanente à segurança alimentar. Cerca de 65% da produção mundial está localizada em países com elevado risco geopolítico. A crise de 2022, deflagrada pela guerra entre Rússia e Ucrânia, demonstrou o impacto devastador dessa dependência: as sanções afetaram 35% da produção global, fazendo o preço do KCl saltar de US$ 250 para US$ 900 por tonelada (alta de 260%), comprometendo safras brasileiras e elevando drasticamente os custos para o agronegócio nacional.
As tensões no Oriente Médio e o risco de fechamento do Estreito de Ormuz — por onde transitam 20% da energia mundial — reforçam a volatilidade das rotas logísticas de fertilizantes. A questão não é se haverá novas crises, mas quando. O Brasil, com acesso direto ao Atlântico Sul e estabilidade institucional comprovada, oferece o menor risco geopolítico entre os principais produtores potenciais de potássio. Adicionalmente, o Programa ProFert (Lei 699/2023) cria incentivos governamentais para a produção nacional, alinhando o projeto com a política de soberania alimentar.
2.Dimensão do Potencial Mineral: Nove Alvos, Uma Oportunidade Única
O prospecto Baixo Mosqueiro, situado a apenas 30 km da costa de Aracaju (SE), em uma área de Autorizaç abriga nove alvos exploratórios mapeados com estruturação lógica e interpretações geofísicas 2D/3D, complementadas por perfilagem nos poços exploratórios. A jazida encontra-se a uma profundidade de aproximadamente 2.500 metros, sob uma lâmina d'água rasa de apenas 30 metros, condição que favorece significativamente a viabilidade técnica e econômica das operações offshore.
O recurso total potencial é de 3.526 Mt de silvinita, com espessuras variando de 9 a 15 metros e teor médio de KCl em torno de 14%. Os estudos de viabilidade e modelagem econômica foram conduzidos pela consultoria Wood Canada, uma das maiores e qualificadas engenharias com expertise comprovada e dominante nessa área de atuação, utilizando o alvo SES-3 como referência, dado seu maior nível de maturidade geológica. Contudo, o desenvolvimento inicial (Fase 1) foca nos alvos prioritários SES-5 e SES-1A, que somam 981 Mt (28% do prospecto). Essa priorização dá-se motivada pelo potencial aproveitamento das plataformas da Petrobrás em descomissionamento localizadas sobre esses alvos, garantindo uma vida útil superior a 30 anos para a produção inicial de 2 MTPA.

3. Sinergia Estratégica: Plataformas Desativadas como Ativo
Uma das maiores vantagens competitivas do Projeto South Atlantic Potash é a sinergia estratégica com a infraestrutura offshore existente na Bacia de Sergipe-Alagoas — um ponto alto de oportunidade potencial. Há uma expectativa potencial de aproveitamento de plataformas em descomissionamento da Petrobras — como as do campo Dourado (3 plataformas PDO) e do campo Guaricema (4 plataformas PGA). Essa potencial reutilização de infraestrutura pode reduzir significativamente o CAPEX inicial e o tempo de implantação, além de mitigar a necessidade de construção de novas estruturas offshore.
A configuração operacional prevê plataformas do tipo CCP (Central de Controle de Produção) e WHP (Wellhead Platform), com 2 x 25 poços nas plataformas iniciais. A planta de processo e o terminal de embarque do produto estão localizados na costa, a apenas 30 km das plataformas, conectados por dutos de salmoura. Uma estação de bombeamento auxiliar garante a eficiência do transporte da solução rica até a planta onshore de cristalização.

4. Localização Privilegiada: Infraestrutura e

Logística
A localização do projeto, a 30 km do Porto de Sergipe, em Aracaju, é um diferencial logístico de primeira ordem. O porto opera com capacidade para receber navios de grande porte e possui infraestrutura de armazenagem e embarque adequada para fertilizantes a granel. A região conta ainda com malha rodoviária e ferroviária integrada e acesso hidroviário, garantindo escoamento eficiente do produto.
Essa sinergia de infraestrutura posiciona o SAP no 2º quartil da curva de custos global, com um OPEX estimado entre US$ 91 e 95 por tonelada, competitivo com produtores estabelecidos como ICL (Israel) e K+S (Alemanha). A proximidade ao maior mercado consumidor de potássio do mundo — o próprio Brasil — elimina custos de frete oceânico e permite um tempo de resposta ágil às demandas do agronegócio.
5. Tecnologia de Extração: Solution Mining com Operações Consolidadas
O processo de extração adotado é o Solution Mining (dissolução in situ), uma tecnologia com operações unitárias consolidadas mundialmente, amplamente utilizada para extração de sal e potássio em diferentes contextos geológicos. A adaptação para o ambiente offshore utiliza tecnologias maduras e equipamentos padrão da indústria de óleo e gás, eliminando a necessidade de desenvolvimento tecnológico inédito.

O fluxo de processo compreende quatro etapas principais: (1) injeção de água aquecida a 60-80°C e pressão de 250-300 bar (vazão de 200-400 m³/h) até a camada de silvinita a ~2.500 m; (2) dissolução seletiva do KCl in situ, formando uma solução rica com concentração de KCl entre 15-20%; (3) bombeamento contínuo da solução rica à superfície via poços de produção; e (4) evaporação e cristalização térmica na planta onshore, resultando em MOP granular com pureza superior a 95% de KCl, com capacidade de 2 MTPA na Fase 1.


6. Sustentabilidade: Um Novo Padrão para a Mineração
O Projeto South Atlantic Potash foi concebido para estabelecer um novo padrão de mineração sustentável, eliminando os principais impactos ambientais associados à mineração tradicional de potássio em solo. O processo de solution mining offshore não gera resíduos sólidos na superfície (zero tailings), não requer barragens de rejeito e não utiliza reagentes químicos — apenas água do mar aquecida, em circuito fechado com 95% de recirculação. Não há danos à superfície terrestre, e toda a operação ocorre em uma área com histórico de operações offshore de petróleo e gás.
O principal aspecto ambiental a ser gerenciado é o descarte controlado da salmoura de NaCl residual, tratado por meio de modelagem hidrodinâmica rigorosa e difusores oceânicos profundos (>1.000 m), garantindo a dispersão segura e a conformidade com os limites do IBAMA. O projeto está alinhado com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS 2, 12 e 13) e com os padrões ISO 14001 e IFC Performance Standards. Na dimensão social, o projeto prevê expressiva geração de empregos: na fase de construção, estima-se a criação de mais de 1.500 postos diretos, podendo chegar a 2.000 diretos no pico da obra; já na fase de operação, a expectativa é de mais de 800 empregos diretos e 3.000 indiretos, além de programas de desenvolvimento regional em Sergipe.
7. Cronograma Executivo e Viabilidade Econômica
O cronograma executivo é agressivo e factível, prevendo de 4,5 a 5 anos desde a sondagem offshore até a primeira produção comercial (First Production) de 2 MTPA. Os marcos críticos são: início da sondagem (Mês 0), FEED completo e Decisão Final de Investimento – FID (Mês 18), início da construção (Mês 24), comissionamento (Mês 50) e primeira produção comercial (Mês 54-60). Após o First Production nos alvos SES-5 e SES-1A, a expansão é progressiva, adicionando ~2 MTPA por fase com investimento incremental, até atingir >14 MTPA com todos os nove alvos.

A viabilidade econômica é robusta em múltiplos cenários. No caso base da Wood Engenharia (preço de venda de US$ 450/t e volume de 2 MTPA), o projeto apresenta NPV (@10%) de US$ 2,7 bilhões, IRR de 27% e payback de 4 a 4,5 anos, com preço breakeven em torno de US$ 220/t. Como exemplo financeiro referencial, considerando a média de preços dos últimos 24 meses (US$ 350/t), o projeto mantém resiliência com NPV de US$ 1,85 bilhão e IRR de 18,5%. O CAPEX total estimado é de US$ 2,1 a 2,3 bilhões (±30%), com infraestrutura offshore e planta onshore representando ~55% do investimento. O potencial de expansão para >14 MTPA eleva o NPV incremental para mais de US$ 10 bilhões.

Conclusão: Um Marco para a Soberania Alimentar Brasileira
O Projeto South Atlantic Potash representa uma convergência rara de fatores: recurso mineral de classe mundial, tecnologia comprovada, infraestrutura existente, localização logística privilegiada e urgência geopolítica. Com um recurso estimado de 3,52 bilhões de toneladas de silvinita, o projeto apresenta capacidade significativa para contribuir para a transformação da matriz de fertilizantes do Brasil, reduzindo em até 97% a dependência de importações de KCl.
Ao garantir produção interna, o SAP reduz a vulnerabilidade do agronegócio brasileiro a crises geopolíticas externas, economiza cerca de US$ 800 milhões anuais em divisas, gera mais de 5.000 empregos e contribui com US$ 200-300 milhões anuais em receitas fiscais para o Estado de Sergipe e para o Brasil. O projeto demonstra que a produção de alimentos e a responsabilidade ambiental são complementares, não contraditórias — e que o Brasil tem, neste prospecto, uma oportunidade histórica de liderar a transição para uma agricultura soberana, resiliente e sustentável.

