Em um momento em que a mineração global é pressionada por demandas simultâneas de eficiência, sustentabilidade e velocidade, a engenharia mineral no Brasil se vê diante de uma encruzilhada. De um lado, um arsenal tecnológico sem precedentes — inteligência artificial, modelagem avançada, digitalização de processos e integração de dados em escala nunca antes disponível. De outro, desafios estruturais que persistem: formação de talentos, cultura organizacional, fragmentação entre disciplinas e a dificuldade histórica de transformar inovação em prática efetiva.
Foi a partir desses aspectos que se desenvolveu o debate promovido pela Brasil Mineral, reunindo profissionais com trajetórias complementares e forte atuação no setor. Os moderadores foram os conselheiros da revista: Cláudia Diniz, engenheira química de formação com mestrado e doutorado em processamento mineral, MBA em negócios de mineração e uma carreira de mais de 20 anos no setor – é cofundadora do Mining Hub e do Women in Mining Brasil (onde também exerce o cargo de diretora). Em 2016 ela foi premiada como uma das 100 mulheres mais inspiradoras do mundo da mineração, concedido pelo Women in Mining UK. Hoje trabalha na Accenture. O outro conselheiro que atuou como moderador foi Arão Portugal, profissional de vasta experiência no setor, formado em administração de empresas com especialização em comércio exterior e com MBA em Supply Chain. Em sua carreira ele teve passagens pela Vale, foi vice-presidente administrativo da Yamana Global e Country Manager do Brasil, passando depois pela Amarillo Gold, atuando no projeto Mara Rosa, até a empresa ser adquirida pela Hochschild Mining. Hoje Arão é consultor no setor, com importante presença na Aclara Resources, mineradora de terras raras, cujo projeto está sendo desenvolvido no nordeste de Goiânia, local de grande desafio logístico.

Como debatedores, o encontro contou com a presença de Mara Estanislau, vice-presidente Brasil da Ausenco; Maria de Lourdes Bahia, vice-presidente da área de Mineração e Metalurgia para a América Latina da AtkinsRéalis; Bruno Vartuli, diretor de Ferrosos e Leves da Hatch, responsável pelas operações no Brasil; Saulo Liberato, diretor da DMT no Brasil, empresa com foco em geologia e análise de projetos; Alexandre Baltar, vice-presidente da Abremi (Associação Brasileira de Engenheiros de Minas); e do Professor Maurício Bergerman, engenheiro de minas com passagem profissional pela Vale nas áreas de cobre e ferrosos. Foi docente da Universidade Federal de Alfenas, vindo depois para a Poli/USP na área de tratamento de minérios, onde possui mestrado e doutorado. Pelo lado da academia, ele ressaltou duas questões: como a mineração incorpora novas tecnologias e como o Brasil lida com o desenvolvimento tecnológico, sempre mais difícil nos países em desenvolvimento.
Ao longo da conversa, mais do que discutir tendências, o grupo buscou responder a uma provocação central: se fosse possível redesenhar hoje o modelo de desenvolvimento de projetos de engenharia de capital, por onde começar — tecnologia, processos ou pessoas?
A discussão revelou rapidamente que, embora a tecnologia avance em ritmo acelerado, sua adoção ainda esbarra em barreiras menos visíveis, porém mais complexas. A cultura organizacional, a baixa maturidade digital de parte das empresas, a falta de integração entre etapas dos projetos e a carência de profissionais com formação híbrida surgiram como entraves recorrentes. Ao mesmo tempo, destacou-se a existência de um descompasso crescente entre a velocidade da inovação e a capacidade de adaptação das organizações.
Outro ponto de convergência foi o reconhecimento de que o setor atravessa uma lacuna de experiência. Após ciclos de crise e retração, somados aos efeitos da pandemia, parte significativa da nova geração de engenheiros ainda não vivenciou projetos completos, o que impacta diretamente a qualidade das decisões e reforça a necessidade de maior aproximação entre academia e indústria.
Nesse contexto, temas como gestão de riscos, revisão das metodologias tradicionais de projeto, incorporação gradual de tecnologias e fortalecimento de modelos colaborativos ganharam protagonismo. A Inteligência Artificial, por sua vez, apareceu como ferramenta estratégica, mas longe de ser uma solução autônoma — seu valor depende, sobretudo, da qualidade dos dados e da capacidade analítica de quem a utiliza.

Ao final, mais do que apontar respostas definitivas, o debate deixou clara a complexidade do momento vivido pela engenharia mineral. A transformação em curso não será conduzida apenas por avanços tecnológicos, mas pela capacidade do setor de alinhar pessoas, processos e inovação em uma mesma direção — com mais integração, mais visão sistêmica e, sobretudo, mais consciência sobre o papel da engenharia na construção da mineração do futuro.
Tecnologia avança, desafios persistem
Abrindo o debate, Cláudia Diniz fez uma breve introdução para contextualizar a discussão: “quando falamos de mineração e tecnologia, é importante reconhecer que a mineração sempre foi um setor marcado por decisões extremamente complexas. Não se trata de um ambiente em que se possa simplesmente adotar uma tecnologia de forma isolada e esperar que tudo funcione automaticamente. Não é possível chegar a um projeto de engenharia e afirmar que a simples adoção de inteligência artificial resolverá todos os problemas”.
São investimentos muito elevados, ciclos longos e um nível de incerteza significativo, o que exige uma visão estratégica de longo prazo. Ao mesmo tempo, de acordo com Cláudia, o setor vive um momento muito particular, que pode ser caracterizado como uma inflexão – “pela primeira vez, temos à disposição um volume massivo de dados, aliado a tecnologias digitais avançadas e ao avanço acelerado da Inteligência Artificial, que promete transformar profundamente diversos setores — e a mineração não é exceção”.

Nesse contexto, a forma como se concebe e se desenvolve projetos de engenharia de capital já começa a ser impactada, o que leva a uma série de questionamentos. “Será que estamos realmente preparados para incorporar essas tecnologias desde as fases mais iniciais dos projetos, como FEL1 e FEL2, quando ainda estamos lidando com exploração mineral e definição conceitual? Mais do que isso: conseguimos usar essas ferramentas para orientar decisões estratégicas fundamentais, como a escolha da rota de processo, a definição de escala, o entendimento geológico, o mapeamento do depósito, a localização do empreendimento e o próprio desenho da operação?”, provocou a conselheira.
Outra questão levantada por ela é como essas tecnologias podem contribuir para reduzir incertezas: “será que conseguimos, por exemplo, diminuir a necessidade de campanhas extensivas de sondagem? Conseguimos antecipar riscos com maior precisão? Conseguimos utilizar dados, simulações e Inteligência Artificial para aumentar a eficiência das decisões?”
Ela prosseguiu afirmando que existe ainda uma dimensão que se torna cada vez mais relevante, que é a integração com os temas de sustentabilidade. Questões como uso de água, consumo de energia, emissões e fechamento de mina deixam de ser apenas restrições e passam a atuar como motores de inovação e geração de valor.
O fator humano no centro da transformação

Diante de tudo isso, Cláudia fez uma provocação central: “se tivéssemos hoje a oportunidade de redesenhar completamente o modelo tradicional de desenvolvimento de projetos de engenharia de capital, qual deveria ser a primeira mudança? Deveríamos começar pela tecnologia, pelos processos, ou pelas pessoas? E, principalmente, onde essa transformação deveria acontecer primeiro?”
Na visão de Maria de Lourdes Bahia, esses três pilares — tecnologia, processos e pessoas — não evoluem de forma independente – “existe uma interdependência muito clara entre eles. O avanço tecnológico, por exemplo, permite que repensemos processos, mas isso só acontece de forma efetiva se houver pessoas capacitadas para conduzir essa transformação. Portanto, não existe um cenário em que um desses elementos avance isoladamente. Eles precisam caminhar juntos, de forma coordenada. Agora, se eu tivesse que apontar qual deles representa hoje o maior desafio, eu diria que estamos diante de uma questão crítica relacionada à formação de profissionais. Existe um déficit de talentos não apenas no Brasil, mas globalmente e demanda crescente por competências híbridas”.
Para Maria Bahia, hoje o profissional precisa ter não apenas conhecimento técnico, mas também capacidade de compreender novas tecnologias, interpretar dados e atuar de forma integrada com diferentes áreas. Então, mesmo reconhecendo que os três pilares são interdependentes, a representante da AtkinsRéalis colocou a formação de pessoas como prioridade número um, “porque são elas que vão sustentar tanto a evolução tecnológica quanto a transformação dos processos".

Alexandre Baltar classificou a introdução como extremamente pertinente, principalmente quando se trata da aplicação de tecnologia na engenharia: “o profissional de engenharia, no contexto atual, precisa ser compreendido em duas dimensões fundamentais. A primeira está relacionada às habilidades comportamentais. Estamos falando da capacidade de lidar com risco, de tomar decisões em ambientes de incerteza, de ser criativo, proativo e adaptável. A segunda dimensão é o conhecimento técnico, que é construído ao longo da formação acadêmica e, principalmente, da experiência prática acumulada ao longo da carreira”.
Em sua análise, quando essas duas dimensões se integram de forma consistente, é possível fazer uma gestão mais eficiente da engenharia de capital e, principalmente, entender de forma clara a aplicabilidade das novas tecnologias.
“O que observamos no mercado, muitas vezes, é a oferta de soluções tecnológicas extremamente promissoras, com promessas de ganhos significativos. No entanto, nem sempre há uma análise adequada sobre onde e como essas soluções devem ser aplicadas. É fundamental avaliar o contexto. Não basta saber que a tecnologia existe — é preciso entender se ela faz sentido para aquela operação específica, se ela gera retorno, se o investimento se justifica em termos de payback e de criação de valor. Caso contrário, corre-se o risco de investir em algo que, na prática, não traz o resultado esperado”, pontuou Alexandre.
Mara Estanislau trouxe uma perspectiva complementar – “na minha visão, os principais obstáculos à adoção de novas tecnologias não estão na ausência de soluções tecnológicas. Hoje existe uma enorme disponibilidade de ferramentas e recursos. O problema está, principalmente, na cultura organizacional, nos modelos tradicionais de desenvolvimento de projetos e na forma como as disciplinas ainda operam de maneira fragmentada”.
Para a vice-presidente Brasil da Ausenco, os projetos continuam sendo estruturados de forma sequencial, com pouca integração entre as diferentes fases. Existe também uma baixa maturidade digital em muitas organizações, além de uma carência de profissionais devidamente capacitados. “Outro ponto importante é que, apesar de termos acesso a grandes volumes de informação, nem sempre conseguimos interpretar esses dados de forma adequada. Isso leva à tomada de decisões com base em informações incompletas ou mal compreendidas. O resultado disso é bastante claro: atrasos nos projetos, retrabalho, aumento de CAPEX e perda de eficiência”, prosseguiu Mara.

A executiva da Ausenco acredita que mudanças no modelo tradicional são urgentes. Os processos precisam ser redesenhados desde a origem, já incorporando uma visão integrada de ciclo de vida e incluindo critérios de sustentabilidade de forma estruturada – “sem a atualização das pessoas e sem a revisão dos processos, a tecnologia, por si só, não é capaz de gerar transformação. Por isso, eu reforço que os dois pilares mais críticos hoje são pessoas e processos”.
Bruno Vartuli reforçou o que foi colocado por Mara, mas deu um passo atrás na discussão: “antes de falar de tecnologia ou mesmo de mudanças mais estruturais, é fundamental garantir que exista um entendimento sólido dos processos ao longo de todo o ciclo de vida de um projeto. O que a gente observa hoje no mercado é que existe conhecimento técnico sobre ‘como fazer’, mas muitas vezes falta clareza sobre a importância de cada etapa. O projeto conceitual, por exemplo, acaba sendo tratado como um documento técnico, quando, na verdade, ele é essencialmente um instrumento de tomada de decisão de negócio”.
Projetos mais complexos, decisões mais críticas
Para Vartuli, se o olhar se desse pela ótica da metodologia FEL, o conceitual deveria ser quase um relatório financeiro, um documento que sustenta a viabilidade do investimento – “a engenharia entra como base para dar consistência, mas não é o fim em si mesma”.
Outro ponto importante destacado pelo diretor da Hatch é que todas essas mudanças que estão sendo discutidas tendem a acontecer de forma natural, “mas isso não elimina a necessidade de uma boa gestão de mudanças e, principalmente, de uma gestão de riscos bem estruturada. Estamos lidando com projetos cada vez mais diferentes do que aqueles que nos trouxeram até aqui. O caso das terras raras, por exemplo, são negócios com outra dinâmica, outro apetite a risco, outras incertezas, especialmente em relação a financiamento, fluxo de caixa e licenciamento ambiental”.

E prosseguiu: “há um fator adicional que me preocupa bastante, que é a lacuna de experiência no setor. O Brasil passou por um período muito difícil a partir de 2012, com uma crise forte, saída de profissionais experientes, fechamento de empresas e reestruturações profundas. Quando o mercado começou a se recuperar, veio a pandemia, que interrompeu novamente esse processo. Hoje temos profissionais com cinco, dez anos de formados, mas com um nível de exposição prática muito limitado. Isso é um problema sério, porque impacta diretamente a qualidade das decisões”.
Por isso, ele defendeu como importante a aproximação entre academia e setor privado e ressaltou que existe um esforço grande de trazer universidades, centros de pesquisa e professores para dentro das empresas, justamente para entender melhor essa lacuna e buscar soluções. “Mas ainda há desafios importantes. Em alguns casos, os currículos acadêmicos ainda não estão totalmente alinhados com a realidade atual do setor. Existe muita informação sobre tecnologia, mas pouca conexão com a aplicação prática e, principalmente, com a geração de valor”, alertou Alexandre.
Maria Bahia complementou esse ponto chamando a atenção para o fato de que existe também uma questão de atração de talentos que precisa ser enfrentada: “não basta formar profissionais, é preciso atrair jovens para a mineração. Eu participei de um debate em Londres há cerca de um ano e ficou muito claro que essa dificuldade não é exclusiva do Brasil. Existe uma carência global de profissionais interessados em seguir carreira na mineração”.

Um dos fatores que contribuem para isso é a percepção da indústria. A nova geração busca propósito e muitas vezes não enxerga a mineração como um setor alinhado com seus valores. Então, além de formar profissionais, é preciso trabalhar na construção de uma imagem mais positiva do setor, mostrando as transformações que já ocorreram e o papel estratégico da mineração na transição energética e no desenvolvimento sustentável.
Concordando com as colocações feitas, o Professor Maurício Guimarães Bergerman entendeu como muito importante esse ponto de percepção: “na universidade, percebemos claramente essa dificuldade de atrair alunos para a área. Na disciplina que eu ministro sobre novas tecnologias no tratamento de minérios, um dos objetivos não é apenas apresentar o que existe de novo, mas discutir porque a indústria tem dificuldade em mudar. E isso passa, necessariamente, pelo nível de risco envolvido. A mineração é uma atividade intensiva em capital, com prazos longos de maturação e um nível de incerteza muito elevado”.
O Professor Maurício citou um dado clássico para ilustrar sua fala: “de cada mil projetos de mineração, cerca de dez se tornam minas em operação. Isso significa que o empreendedor já percorreu um caminho longo e arriscado até chegar naquele ponto. Naturalmente, isso gera uma postura mais conservadora”.
Por outro lado, é importante entender que a incorporação de tecnologia não precisa acontecer sempre de forma disruptiva. Existem diferentes níveis de adoção. “Mudar completamente uma rota de processo, por exemplo, é uma decisão de alto risco. Já a incorporação de sensores, sistemas de monitoramento e ferramentas de análise de dados pode ser feita de forma mais gradual e com menor impacto operacional. Hoje já temos condições de monitorar equipamentos com um nível de detalhe muito maior. Pequenas variações de temperatura ou de comportamento podem indicar falhas futuras, permitindo ações preventivas. Além disso, a inteligência artificial tem um papel importante nesse contexto, principalmente na análise de grandes volumes de dados”, disse o Professor.
Outro ponto relevante levantado pelo docente é a necessidade de fortalecer a integração entre universidade e empresa: “existem mecanismos no Brasil, como FINEP e Embrapii, que permitem viabilizar projetos de pesquisa aplicada, mas que ainda são subutilizados. Essa integração é fundamental, principalmente nas fases intermediárias dos projetos, quando é necessário validar tecnologias em escala piloto antes da implementação em larga escala”.

Saulo Liberato disse que a tecnologia, de fato, evolui em uma velocidade muito maior do que processos e pessoas. Isso cria um descompasso – “hoje existem soluções extremamente interessantes disponíveis no mercado, tanto na área de beneficiamento quanto na exploração geológica e no tratamento de dados”.
No entanto, muitas organizações ainda operam com procedimentos tradicionais muito bem estabelecidos, o que gera uma certa resistência à adoção de novas tecnologias. Além disso, existe também uma barreira do lado das pessoas. Nem todos estão preparados ou dispostos a incorporar essas mudanças. “Então, mesmo concordando que tecnologia, processos e pessoas são interdependentes, eu diria que os maiores desafios hoje estão justamente em processos e pessoas, porque são eles que precisam evoluir para acompanhar o ritmo da tecnologia”, pontuou Saulo.
Alexandre Baltar entende que isso se conecta diretamente com a questão da formação e da renovação – “existe uma defasagem não apenas na experiência dos profissionais de mercado, mas também na academia. Muitas vezes, não há uma renovação suficiente no corpo docente, o que acaba criando um gap geracional. Esse intervalo impacta diretamente a formação de novas gerações de engenheiros. Além disso, existe uma questão mais ampla, que é geracional. Precisamos entender como atrair essa nova geração para o setor e como adaptar a forma de trabalho para atender às expectativas desses profissionais”.
Arão Portugal ressaltou que o que chama atenção nessa discussão é que muitos dos desafios se repetem ao longo do tempo. “Mudam as tecnologias, mudam os contextos, mas as questões estruturais permanecem. Falamos de capacitação, de aplicabilidade, de cultura organizacional, de integração entre áreas. Tudo isso aparece de forma recorrente”. E colocou aos debatedores a seguinte pergunta: “como as empresas estão, na prática, se preparando para implementar inovação e novas tecnologias? O que está sendo feito concretamente dentro das organizações?”

Maria Bahia disse acreditar que um dos movimentos mais importantes é a aproximação entre empresas de engenharia e academia, a exemplo do que foi dito anteriormente por seus colegas. “A academia é um ambiente fundamental para o desenvolvimento e teste de novas soluções. Mas isso, por si só, não é suficiente. É essencial que as mineradoras também estejam abertas a testar essas tecnologias. O que observamos, muitas vezes, é uma resistência natural, porque a operação precisa ser estável, previsível. Nenhum executivo quer correr o risco de comprometer a produção. Ao mesmo tempo, sem testar em escala real é muito difícil implementar uma inovação. Então existe um equilíbrio delicado entre manter a operação segura e abrir espaço para o novo. Isso leva um tempo, pois qualquer executivo quer uma operação estável. Ele quer previsibilidade e zero interrupção. Ele não quer que a operação dele seja uma bancada de teste para uma coisa nova. Mas, ao mesmo tempo em que não se consegue testar isso em escala industrial, muitas vezes não se consegue implantar essa nova ideia. Temos que ter condições de testar o novo”.
O descompasso entre inovação e execução
Cláudia Diniz classificou o ponto como relevante e questionou: como criar um ambiente em que seja possível testar novas soluções sem comprometer a operação? – “talvez a resposta passe por modelos colaborativos mais estruturados, com uso de plantas piloto em universidades e ambientes controlados”.
Para tanto, Maria Bahia ressaltou a necessidade de um investimento significativo e a colaboração entre academia, empresas de engenharia e mineradoras – “nenhum desses atores, isoladamente, consegue viabilizar esse tipo de iniciativa. É preciso que haja um trabalho colaborativo entre empresas de engenharia, academia e mineradoras”. Mas também ressaltou que cada empresa tem que deter seu próprio conhecimento e que dificilmente uma mineradora irá investir em algo que depois vai ser disseminado para o mercado como um todo: “o problema é como romper essa barreira”. Cláudia Diniz salientou que o Mining Hub já faz isso baseado em desafios do setor.
Mara Estanislau lembrou que ainda existe uma tendência de cada organização querer manter o controle sobre seu conhecimento e suas soluções. Isso limita o avanço do setor como um todo. E disse que seria importante estruturar melhor essa colaboração, criando ambientes em que o compartilhamento de conhecimento aconteça de forma mais eficiente. Outro ponto importante levantado por ela é a mudança no perfil do engenheiro: “hoje ele precisa ter uma formação muito mais ampla, incluindo competências em ciência de dados. Isso exige uma aproximação maior entre indústria e academia, para alinhar expectativas e necessidades”.

Para Bruno Vartuli, isso passa também por investimento: “o Brasil ainda investe pouco em pesquisa e desenvolvimento. As empresas de engenharia podem ter um papel importante nesse processo, atuando como integradoras e incentivadoras da inovação. Além disso, é importante lembrar que inovação não significa apenas grandes avanços tecnológicos. Muitas vezes, pequenas melhorias de processo podem gerar ganhos significativos”. Ele contou que já é comum na Hatch trazer professores de universidades para participarem da banca de avaliação dos estagiários: “fazemos isso há uns 5 anos ou mais e é muito bacana ver um professor da UFOP vendo uma apresentação de estudante da UFMG, por exemplo. É uma troca de conhecimento entre as instituições, que gera um feedback positivo”.
Pelo lado da universidade, o Professor Maurício Bergerman complementou dizendo que quando se fala de inovação, é preciso olhar também para uma escala mais ampla, que é a escala país: “temas como eficiência energética, gestão de rejeitos, uso de água e resiliência climática são estratégicos e exigem uma abordagem coordenada. Isso envolve não apenas empresas e universidades, mas também o governo e a sociedade”. Numa visão de curto prazo, ele entende que é preciso melhorar o currículo e aumentar a integração universidade-empresa e informou que a USP já vem trabalhando para que os alunos possam ter acesso a disciplinas de análise de dados e Inteligência Artificial, que já existem nos cursos de computação. E, numa visão de longo prazo de pesquisa compartilhada, ele citou que o Governo já vem estimulando algumas ações, a exemplo dos editais da FINEP e mesmo do CNPq direcionados a temas como resiliência climática e eficiência energética.

Alexandre Baltar pontuou que é preciso entender a aplicabilidade das pesquisas: “a aproximação das empresas de engenharia com a academia em si, subsidia e viabiliza muito essas pesquisas com aplicação econômica, seja com resultados de curto, médio ou longo prazos. E precisamos entender que, apesar de nos ajudar, a Inteligência Artificial não vai mudar o mundo. Quem vai mudar o mundo são as pessoas que alimentam a Inteligência Artificial”.
Maria Bahia concordou que nada vai substituir a capacidade analítica do ser humano e que a Inteligência Artificial não é a ‘salvação do mundo’: “ela vai possibilitar algumas soluções mais rápidas, até porque a capacidade de processamento de uma IA é muito maior do que a do cérebro humano. Mas se não houver alguém com boa capacidade analítica, tenho medo do que possa vir”.
Cláudia Diniz ressaltou que as versões gratuitas do Chat GPT e do Gemini são ferramentas que estão sendo treinadas e que quanto mais informações tiverem, mais assertiva será a resposta. Mas as ferramentas já possibilitam uma análise mais profunda do que se está fazendo, além do ganho de tempo: “um projeto de engenharia de capital para mineração gasta em média de 10 a 15 anos desde o dia da descoberta do depósito mineral até a primeira produção, o famoso ‘time to market’. Se pudermos usar a tecnologia para diminuir esse tempo, teremos um ganho muito importante para a indústria, assim como para a engenharia e para a academia”.
Bruno Vartuli se mostrou preocupado em relação à manutenção da mão de obra com o maior uso dessas ferramentas e Saulo Liberato lembrou que isso já vem acontecendo em outros países, mas que a análise crítica das informações sempre será fundamental: “a competência humana sempre será fundamental. A interpretação errada de quem está usando a IA pode colocar todo o projeto em risco. Por esta razão, a capacidade analítica sempre será muito importante”.
A respeito da redução do time to market, Mara Estanislau avaliou que em razão do preço e da necessidade de novas commodities, a forma de fazer engenharia vai mudar muito no Brasil. Para ela, o encurtamento dos prazos é um dos fatores mais críticos dessa nova realidade. Se antes projetos levavam de 10 a 15 anos para sair do papel, hoje esse horizonte já não se sustenta, especialmente diante do contexto de valorização dos minerais críticos. “A lógica mudou completamente. Falar em projetos de uma década já não faz sentido. Em muitos casos, estamos falando de ciclos de cerca de 24 meses entre pesquisa e implantação”, observa.

Esse novo cenário, segundo Mara, exige uma revisão profunda da forma de fazer engenharia. “Sempre tivemos etapas muito bem definidas, com processos estruturados de FEL e aprovação em gates. Isso continua sendo importante, especialmente para garantir a maturidade dos projetos e a assertividade do CAPEX. Mas precisamos evoluir para conseguir manter esse nível de precisão em um tempo muito menor”, afirma. Nesse contexto, ferramentas como o BIM ganham protagonismo, ao permitir modelagens mais completas e reduzir a dependência de documentação tradicional. “A engenharia precisa ser reconhecida pelo valor que agrega. É na fase consultiva, na análise de alternativas e trade-offs, que está o diferencial”, completa.
Na sequência, o Professor Maurício Bergermanamplia a discussão ao trazer o papel da tecnologia na compreensão dos depósitos minerais. Para ele, antes de qualquer aplicação tecnológica, é essencial “ouvir o que o minério tem a dizer”. “Cada commodity tem suas particularidades. Um minério de cobre, por exemplo, pode apresentar diferentes comportamentos, dependendo de sua composição. Entender isso é fundamental para qualquer tomada de decisão”, explica.

Segundo Bergerman, o avanço de sensores, automação e sistemas de análise de dados tem ampliado significativamente essa capacidade de leitura. “Hoje conseguimos entender melhor como o minério vai se comportar ao longo de toda a cadeia — da lavra ao processamento e até na disposição de rejeitos. Isso reduz incertezas e aumenta a eficiência dos projetos”, afirma.
Ele destaca, no entanto, que a tecnologia não elimina a necessidade de pessoas, mas transforma o perfil da mão de obra. “Há uma migração clara de funções operacionais para funções mais qualificadas. Sistemas automatizados substituem algumas atividades, mas exigem profissionais capacitados para operá-los, calibrá-los e interpretá-los. Isso valoriza a engenharia e torna o setor mais atrativo”, avalia.
A discussão ganha uma nova dimensão com a contribuição de Cláudia Diniz, que propõe ampliar o olhar sobre o próprio conceito de projeto mineral. Para ela, é necessário incorporar novas disciplinas ao processo. “Por que não trazer arquitetura e urbanismo para dentro da mineração? Quando olhamos para uma usina, o impacto visual ainda é muito negativo. Há espaço para pensar soluções diferentes, mais integradas ao entorno”, sugere.
Essa visão é reforçada por Bergerman, que destaca a importância da interdisciplinaridade também na formação dos profissionais. “A universidade tem avançado nesse sentido, integrando alunos de diferentes áreas em projetos conjuntos. Isso amplia a capacidade de análise e gera soluções que fogem do padrão tradicional da engenharia”, afirma.
Na sequência, Arão Portugal traz uma reflexão sobre a recorrência dos desafios do setor ao longo do tempo. “Os problemas mudam de escala, mas continuam, em essência, os mesmos. A diferença é que agora o contexto exige respostas mais rápidas e mais sofisticadas”, observa. Ele relembra discussões antigas sobre o descompasso entre o tempo de implantação de projetos e sua vida útil, especialmente em commodities com ciclos mais curtos.
Para Arão, a incorporação de novas tecnologias precisa estar acompanhada de uma evolução na capacidade humana e leitura do cenário. “Não basta ter tecnologia. É preciso ter gente capaz de interpretar, de entender o contexto e de tomar decisões com sensibilidade, inclusive social”, afirma. Ele chama atenção, ainda, para a importância da relação com comunidades: “sem uma boa entrada no território, o projeto enfrenta dificuldades que depois são muito difíceis de reverter”, pontua.
A partir dessa perspectiva mais ampla, Maria de Lourdes Bahia reforça a necessidade de enxergar o projeto de forma integrada. “O grande diferencial hoje é pensar no todo. Não faz mais sentido trabalhar de forma isolada, focando apenas no escopo contratado”, afirma. Segundo ela, decisões de engenharia precisam considerar impactos em diferentes dimensões, como uso de recursos naturais, eficiência energética e relação com comunidades.
Ela também destaca a importância de incorporar conceitos como design for safety desde as etapas iniciais. “Não se trata apenas de projetar, mas de pensar em como esse projeto será construído e operado, reduzindo riscos e exposição das pessoas”, explica. Para Maria de Lourdes, a inovação está tanto em grandes soluções quanto em melhorias simples de processo. “Às vezes, um pré-moldado ou uma solução de pré-montagem já traz ganhos relevantes em segurança e produtividade”, exemplifica.
Retomando a palavra, Mara Estanislaucomplementa essa visão ao reforçar a mudança de paradigma: “Hoje não falamos apenas de projeto de engenharia, mas de empreendimento”. Segundo ela, fatores como redução de footprint, modularização e otimização de CAPEX e OPEX são determinantes. “A pergunta que precisamos fazer constantemente é: qual é a melhor solução para este projeto?”, afirma.
Na mesma linha, Bruno Vartuli destaca a relação entre inovação e produtividade. “Inovar é fazer melhor ou fazer de forma diferente aquilo que já fazemos. E produtividade é o que nos aproxima do resultado”, resume. Para ele, a colaboração é um dos principais caminhos para essa transformação. “Precisamos integrar mais a cadeia — fornecedores, construtoras, comunidades — para evitar retrabalhos e ganhar eficiência”, defende.
Essa visão é complementada por Saulo Liberato, que traz exemplos práticos da aplicação de inovação dentro das empresas. “Há um esforço contínuo de atualização e incorporação de novas tecnologias, como inteligência artificial e ferramentas próprias desenvolvidas internamente”, afirma. Ele também destaca o papel de parcerias com universidades no desenvolvimento de soluções mais avançadas, especialmente na área de exploração e monitoramento.
Maria de Lourdes reforça esse ponto, ao destacar a evolução na relação com fornecedores e construtoras. “Hoje já começamos a envolver esses parceiros nas fases iniciais dos projetos, o que gera ganhos importantes. Ainda há um caminho a percorrer, mas o avanço é significativo”, avalia.
Encerrando a discussão, Claudia Diniz propõe uma reflexão sobre o futuro da mineração. “Fala-se muito em digitalização e sustentabilidade, mas, no fundo, o que buscamos é uma mineração mais colaborativa, mais inteligente e mais humana”, afirma. A síntese do debate aponta para um setor em transformação, no qual tecnologia, integração e sensibilidade caminham lado a lado. Mais do que nunca, a engenharia mineral é chamada a equilibrar eficiência e visão sistêmica, em um cenário que exige respostas rápidas, mas também decisões cada vez mais conscientes.
