A esperança
O geólogo Allan Fruchting adquiriu, pessoalmente, no Rio de Janeiro, os DVDs do levantamento da Borda Leste do Planalto Borborema, realizado pela CPRM, e voou para Brasília, onde os geólogos Jonas Mota e Silva, João Boniatti, Oswaldo Fritzsons e Paulo Ravacci o aguardavam em escritório improvisado em um hotel. Em apenas 48 horas, a equipe priorizou 12 alvos, incluindo pequena anomalia magnética, parcialmente associada, a anomalia gamaespectrométrica circular com baixos valores de K-Th-U (Veja o círculo vermelho na figura). Vale destacar que a área era extremamente ruidosa magneticamente. O follow-up terrestre identificou gossan rico em Ni-Cu-PGM (2290 ppm Ni, 3990 ppm Cu, 0,5 g/t Pt e 1,3 g/t Pd). O furo da descoberta do depósito Limoeiro interceptou 161,50 m @ 0,28% Ni, 0,33% Cu, 0,18 g/t Pt e 0,47 g/t Pd. O corpo de sulfeto de Ni-Cu-PGM, disseminado e maciço, ocorre como intercumulus na base de intrusão ultramáfica (harzburgito e anfibolito) com 1 km de comprimento, apresentando forma tubular e encaixando-se em gnaisses dos terrenos granulíticos do domínio Rio Capibaribe, Zona Transversal da Província Borborema (650-500 Ma). Atualmente, o depósito Limoeiro possui recursos estimados em 35 Mt @ 0,25% Ni, 0,27% Cu e 0,56 g/t Pd+Pt.
Pois bem, a equipe da Nexa evidenciou o risco que corri ao subestimar o potencial do Nordeste para depósitos magmáticos sulfetados de Ni-Cu. Apesar de ter participado de diversos estudos voltados à geração de alvos para níquel sulfetado no Brasil, nunca indiquei a região Nordeste como prioritária. Eles estiveram muito próximos de uma descoberta com porte comparável a Jinchuan ou Voisey’s Bay. Despidos de qualquer preconceito geológico e movidos pelo pragmatismo exploratório, a equipe de exploracionistas da NEXA, mostrou a importância dos levantamentos aeromagnéticos regionais para a abertura de novas áreas para investimentos prospectivos.
O cinturão móvel Curaçá encaixa uma série de corpos de noritos e piroxenitos portadores de mineralizações de cobre, genericamente conhecidos como distrito cuprífero Caraíba, que poderia ser considerado como maduro do ponto de vista exploratório. Mesmo assim, a Ero Copper decidiu fazer atualização prospectiva, aprofundando o nível de observação por meio de levantamentos de EM e agressivo programa de sondagem, tendo perfurado 800.000 m e gasto aproximado de 100 milhões de US$ no período entre 2017 e 2021. A possibilidade de encontrar corpos de piroxenitos e noritos em diferentes níveis crustais, em função da ascensão e diferenciação vertical dos magmas, é a principal razão do sucesso do escaneamento geofísico da Erro. O mesmo, propiciou a descoberta de novos depósitos e também aumentou as reservas remanescentes. As fotos abaixo mostram injeções de magma piroxeniticos cortando rochas de alto grau e feições do minério de cobre sulfetado. Ambas as fotos retiradas de apresentações de Thmpson, J.F.H e Porto F. e colaboradores.

A frustação
Talvez a situação mais frustrante que vivi em minha trajetória exploratória foi na borda oeste da Bacia do Paraná. Em uma das memoráveis viagens da equipe do projeto diamante da Rio Tinto, ao lado de Warren Atkinson (de boné, ao lado do Cordani e do Eduardo), visualizamos a possibilidade de uma descoberta de classe mundial Todos os elementos geológicos necessários estavam presentes: drenos diamantíferos na borda de uma bacia intracratônica, ocorrência de minerais indicadores acompanhando os diamantes nas drenagens e uma espessa sequência sedimentar, com possibilidades para encaixar e preservar corpos kimberlíticos ou lamproíticos com dimensões adequadas para um grande depósito. O cenário era geologicamente promissor, comparável a regiões reconhecidamente férteis como a porção central do Cráton Kaapvaal, na África do Sul, ou a província de Anabar, na Rússia. Estávamos convencidos de que o contexto favorecia uma descoberta significativa. Warren foi chefe da joint venture da CRA com a Asthon que levou a descoberta de Argyle o maior deposito mundial de diamante na Austrália. Para minha frustração não tivemos sucesso. Acho que sequer chegamos a fazer o aerolevantamento, condição obrigatória para testar o modelo prospectivo


A alegria
A minha maior alegria certamente foi a descoberta do depósito do depósito de níquel do Jaguar em Carajás. Após longas conversas com Kiyoschi sobre a tipologia do depósito GT-34 (3 Mt @ 1,2% Ni), localizado na porção sul de Carajás, consegui convencer Anselmo, então gerente de exploração da região, e Armando Cordeiro de que deveríamos implantar um projeto com foco níquel sulfetado. Assim, foi criado o Projeto Níquel-EGP Carajás, entre 2003 e 2004, priorizando as rochas máficas e ultramáficas das suítes intrusivas Serra Leste (Luanga, Formiga etc.) e Cateté (Onça, Puma, Vermelho etc.). Em um belo dia de 2005, Eduardo Ledsham me chamou e avisou: “Noevaldo, a Vale vai comprar o depósito de níquel Onça-Puma (105 Mt @ 1,5% Ni). Vamos construir a infraestrutura — preste atenção na região de São Félix. ” Naquele momento, havíamos concluído a pesquisa do Luanga, quantificando um depósito de 142 Mt @ 1,24 g/t Pt+Pd em reef piroxenítico pegmatóide. Localmente foi identificado no depósito, porções de sulfetos maciços com feições similares de sulfetos em condutos de câmaras magmáticas dinâmicas. Ainda em 2005, tomei a decisão gerencial de focar o Projeto Níquel-EGP na região de São Felix do Xingú a oeste de Carajás.
O depósito GT-34 deu origem a uma intensa discussão entre os que defendiam uma origem hidrotermal — com sulfetos de níquel associados a fluorita, escapolita e flogopita — e aqueles que propunham uma gênese ortomagmática, relacionada a brechas de conduto. Optei por não tomar partido em relação as duas possibilidades genéticas para o deposito GT-34. Convivi com ambas as interpretações até a chegada dos resultados de microssonda, que demonstraram que o ortopiroxênio presente nas brechas do GT-34 era totalmente destituído de cromo e titânio. Esse dado me fez lembrar dos piroxenitos metassomáticos relacionados a carbonatitos como em Phalaborwa, reforçando minha convicção de que os fluidos hidrotermais dos depósitos do tipo IOCG têm origem de magmas originados em zonas mantélicas metassomatizadas.
Tomei então a decisão de deslocar o programa exploratório de Carajás para a região de São Félix, para testar os dois modelos citados acima. Se houvesse a possibilidade de encontrarmos algo similar a Jinchuan (> 500 Mt @ 1,2% Ni, 0,7% Cu e 1 g/t Pt+Pd+Au) ou Voisey’s Bay (124,4 Mt @ 1,66% Ni, 1,19% Cu e 0,13% Co), o melhor local seria entre as câmaras magmáticas do Puma e Onça. Ao mesmo tempo, se o GT-34 fosse realmente IOCG de níquel, a melhor área a ser explorada era na intersecção dos sistemas de falhas profundas Canaã e McCandless, ainda não suficientemente exploradas, como o fora o lineamento Cinzento ou a falha Carajás. Explicitei claramente que a malha exploratória inicial fosse aberta entre as duas maiores grandes câmaras magmáticas Onça e Puma, na intersecção dos dois maiores sistemas de falhas (NE/WE).
A foto abaixo mostra a brecha com sulfetos de níquel (pentlandita, pirita e pirrotita) do depósito GT-34. Os fragmentos escuros correspondem a piroxenito hidrotermal com ortopiroxênio, sem cromo.


A foto acima mostra, à esquerda, o modelo geológico prospectivo elaborado pelo professor C.F. Filho e, à direita, veios hidrotermais ricos em flogopita, apatita e escapolita, relacionados à mineralização de sulfeto de níquel, cortando gnaisses do embasamento arqueano.
Solicitei que a malha para geoquímica de solo fosse aberta de forma expedita, pois a linha base teria cerca de 15 km. O geólogo Lincoln Siepierski conduziu a abertura da mesma utilizando teodolito, com um custo que se aproximou de 1 milhão de reais (cheguei a temer pela manutenção do meu emprego). No entanto, ele se redimiu, pois, a posição da malha foi fundamental para a descoberta do primeiro depósito econômico de IOCG de níquel mundial. Não sei se os resultados do aerolevantamento eletromagnético (EM) realizados entre 1997-2000, cujos os principais alvos foram sondados, interceptando meramente disseminações de magnetita, tiveram alguma influência na locação da malha. A anomalia de EM dos levantamentos anteriores próximo ao local da descoberta do Jaguar sequer havia sido sondada. O mesmo pode ser dito em relação aos levantamentos de geoquímica de solo e sedimento de corrente, realizados em 2001-2002. O alvo Ranchão gerado neste levantamento apontou valores de níquel em solo de até 4500 ppm, cuja observação de que curiosamente não estava acompanhado de valores de cromo, só veio a ser ressaltada depois da descoberta do Jaguar. A anomalia de níquel no solo também não foi sondada, provavelmente pelo desinteresse em testar um novo alvo de níquel laterítico entre dois complexos máficos-ultramáficos gigantes Puma e Onça já com depósitos de níquel.
A figura abaixo mostra a interpretação que fizemos com os dados de mag destacando o condicionamento estrutural das duas câmaras magmáticas máfica-ultramáficas do Puma e do Onça, ambos controlados por dois sistemas de falhamentos transcorrentes bem definidos, com orientações NE e WE. Entre esses dois sistemas, uma anomalia formacional estreita e contínua corresponde aos BIFs da Serra Arqueada, local do memorável pouso do geólogo Breno, um dos descobridores da província mineral de Carajás. Observa-se que o depósito Jaguar já era evidenciado pelo levantamento aeromagnético e, do ponto de vista geológico, sabemos hoje que o sistema de falhas transcorrentes atuou como um conduto eficiente para a ascensão de magmas e fluidos de origem mantélica.

Embora a locação da malha possa ter levado em consideração os dados geofísicos e geoquímicos anteriores. A motivação para propor o projeto de níquel sulfetado em Carajás, assim como a abertura da malha que levou a descoberta do depósito Jaguar, baseou-se exclusivamente em conceituação geológica. Toda a sondagem foi executada após os trabalhos prospectivos de geoquímica e geofísica realizados na malha aberta em 2005-2006. Os primeiros interceptaram mineralizações de cobre do tipo IOCG, com altos teores, mas espessuras reduzidas (6,4m @ 2.1% Cu). O furo PKS-JAGU-FD-004 obteve uma interseção sub-econômica de Ni sulfetado (10m@1,0%Ni). Esse resultado foi apresentado à diretória como um novo modelo exploratório em Carajás, mesmo com a opinião de consultores que o consideraram apenas como remobilização de sulfetos sem expressão. Pedi ao Cantidiano para não se preocupar com tais opiniões, pois iríamos continuar sondando. Ele executou levantamento de polarização induzida (IP) na porção sul da malha de solo em trend anômalo de níquel. É preciso ser dito que os teores de níquel não eram acompanhados de cromo, como ocorria no Onça e Puma ou qualquer outra ultramáfica, parte da anomalia estava sob gnaisses e vulcânicas félsicas. O Cantidiano, Rigon, Lincon e o Joaquim, conheciam muito bem o que ocorria no GT-34.
Em julho de 2007, foi executado o furo da descoberta PKS-JAGU-DH-001 visando testar as boas anomalias de IP ao longo da falha Canaã. Cantidiano de Freitas, Joaquim Nascimento, Wolnei Rosa, João Olivito, Lincoln Siepierski e Valdecir Brustolin foram fundamentais na descoberta de novo tipo de depósito de níquel mundial que denominei de IONC – Iron oxide-nickel-copper. A academia prefere classificar o depósito simplesmente como hidrotermal. O depósito Jaguar, hoje pertencente à junior australiana Centaurus Metals, contendo 110 Mt @ 0,87% Ni, foi o primeiro depósito encontrado na Província Mineral de Carajás a partir de conceitos inteiramente geológicos, sem qualquer informação geoquímica ou geofísica prévia determinante para a locação do furo da descoberta. Assim, paguei minha dívida com Roger Agnelli por ter perdido o depósito de níquel da Serra do Tapa (100 Mt @ 1,5% Ni), brilhantemente descoberto pela equipe da Falconbridge, liderada pelo geólogo Felisberto Castro.



O futuro
Há trinta anos, Deng Xiaoping afirmou: “The Middle East has its oil, China has rare earths.” O alerta foi dado. Mas EUA e Europa não prestaram atenção. A irracionalidade ambiental acabou tornando a mineração e a metalurgia praticamente proibitivas nesses países. Hoje, tentam desesperadamente recuperar o tempo perdido com iniciativas que beiram o ridículo — como imaginar que é possível eliminar completamente os combustíveis fósseis em apenas 20 anos. A exploração mineral que gerou a Província Mineral de Carajás já não existe mais. A figura do exploracionista nas grandes corporações vem sendo descaracterizada, diluída pelas inutilidades burocráticas e pelos excessos de inúmeros programas de SSMA, HSE, QSMS, SSO, SGSST — criados por quem desconhece as particularidades desta peculiar atividade econômica - a exploração mineral.
O mundo é outro, e a sociedade precisa de outros metais. A eletrificação da economia exige quantidades massivas de cobre, lítio, neodímio e a revolução tecnológica — impulsionada pela inteligência artificial e pela computação quântica — não ocorrerá sem Cu, Ni, Co e ETRs. Ainda que a produção mundial de ETRs se multiplique por dez, seu faturamento continuará sendo apenas metade da produção anual de cobre. O setor mineral não será mais pautado pelas grandes corporações. Abre-se, agora, uma enorme oportunidade para os geólogos empreendedores. São tempos diferentes dos das clareiras de Carajás, mas novas possibilidades existem, para além da caldeira de Poços de Caldas (MG). Certamente surgirão depósitos superficiais, com altos teores e grande tonelagem de de ETRs, em argilas associadas a carbonatitos, complexos alcalinos e lavas. No Triângulo Mineiro, as formações Capacete, Patos e Uberaba — caso superadas as questões relacionadas aos processos de recuperação — poderão representar as maiores reservas mundiais de ETRs. O mesmo potencial se observa nas caldeiras vulcânicas félsicas intraplaca de Apuí (AM) e nos granitos tipo A do Grupo Uatumã. As vastas reservas no Complexo Alcalino de Poços de Caldas são apenas o começo.
O professor Calota (À esquerda da foto abaixo) é a principal referência no conhecimento sobre lítio no Brasil. No seu trabalho seminal na Economic Geology ressalta que, o notável aumento da produção de minérios de lítio no Brasil resultou do legado de Afgouni e sua equipe, que descobriram e desenvolveram numerosos depósitos ricos em lítio entre as décadas de 1960 e 1980 (Sá, 1977; Afgouni e Marques, 1997). Esses ativos foram posteriormente adquiridos pela CBL (https://www.cblitio.com) no início da década de 1990 e pela Sigma Lithium nos anos 2010 (Laporte et al., 2024). Os projetos de mineração bem-sucedidos da CBL e da Sigma atraíram novas empresas para a região, cujos esforços de exploração resultaram em novas descobertas de grandes depósitos de espodumênio, como os depósitos Bandeira e Baixa Grande, da Lithium Ionic (Horta et al., 2024; Soares e Bergman, 2024), e o depósito Colina (Latin Resources, 2023).
O Projeto de Exploração Serra Verde (2010), que resultou na implantação da primeira mina de Elementos de Terras Raras (ETRs) em argilas iônicas fora da Ásia, é um exemplo de persistência e visão empresarial. Os trabalhos de prospecção tiveram início em Goiás, a partir da iniciativa do engenheiro Andreas Sprecher, que captou recursos junto ao fundo de investimento Denham Capital, possibilitando a criação da empresa Mining Ventures S/A. Alexandre Magno Rocha da Rocha sempre soube conciliar o conhecimento acadêmico com a aplicação prática na exploração mineral. Em parceria com os geólogos Luiz Jorge, Orlando Garcia e Antônio José, tomou como base os estudos dos professores Onildo Marini (in memoriam) e Nilson Botelho, e integração de dados aerogeofísicos e geoquímicos disponibilizados pelo SGB/ CPRM, para selecionar o antigo garimpo de estanho de Pela Ema, situado no granito Serra Dourada.
Inicialmente, o alvo eram depósitos coluvionares de monazita e xenotímio. No entanto, após cerca de um ano de investigações geológicas e mineralógicas, constatou-se que a mineralização predominante estava associada a ETRs adsorvidos em argilas cauliníticas, características dos chamados depósitos do tipo IAC (Ion-Adsorption Clay). Essa mudança de paradigma contou com a colaboração de especialistas internacionais, como os geólogos Anthony Mariano e Don Hains, além dos metalurgistas John Good e Denilson Coutinho, que contribuíram com estudos de caracterização mineralógica e testes de lixiviação utilizando soluções salinas brandas. Essa descoberta singular demonstrou que é possível reduzir a dependência da China no fornecimento de metais críticos para a transição energética e para a indústria tecnológica. A foto abaixo mostra o exploracionista Alexandre Rocha da Rocha, responsável direto pela descoberta do depósito de ETRs da Serra verde. Como geoquímico da Caraíba participou também da identificação do depósito magmático de Ni-Cu de Ipiaú na Bahia, hoje denominado de Mirabela.
Álvaro Fochi, seu sobrinho e Marcelo Juliano de Carvalho (“Carreira”) — demonstraram que não é necessário se embrenhar na selva para fazer descobertas, como fizeram Erasto, Breno e Ritter. Observando como os ETRs são extraídos em garimpos na China, foram capazes de reinterpretar os estudos anteriores da JOGMEC e reconhecer o potencial do Complexo de Poços de Caldas para ETRs, identificados desde a década de 1950. O mesmo fez o geólogo Rocha e Rocha no granito Serra Dourada. Para proporcionar esse momento relevante da mineração brasileira, bastou que estivessem atentos à nova realidade global, em que a demanda por metais críticos cresce exponencialmente. Álvaro e seu sobrinho cresceram sobre argilas, como centenas de outros geólogos. Mas eles são exploracionistas — queriam descobrir algo novo. Marcelo, incansável na busca por colocar algo em produção, trabalhando para a Meteoric Resources, também estava por perto.
Ao longo de meio século, o setor mineral brasileiro seguiu uma trajetória em muitos aspectos semelhante à de outros países continentais com reconhecido potencial geológico, como Canadá e Austrália. No entanto, existem diferenças cruciais. Ao contrário do Brasil, esses países evitaram episódios de insegurança jurídica extrema — como a provocada pela Constituição Federal de 1988 e, mais tarde, pela proposta de um novo marco regulatório para o setor mineral em 2013. Embora este último tenha sido rapidamente revisto, o episódio gerou desconfiança, o que não favorece a atração de investimentos exploratórios. Outro fator relevante é a diferença na velocidade de geração de conhecimento geológico básico, bem como na simplicidade e eficiência dos órgãos reguladores. Tanto o Canadá quanto a Austrália adotaram modelos institucionais mais ágeis e previsíveis, o que contrasta com o ambiente regulatório brasileiro. É difícil afirmar com certeza se esses fatores são os únicos responsáveis pela notável disparidade no número e na diversidade de descobertas minerais registradas no Brasil, em comparação com os dois países. No entanto, não há dúvida de que eles contribuíram significativamente para a menor eficácia do Brasil em transformar seu potencial geológico em resultados concretos de exploração mineral.

Outro diferencial decisivo foi o enorme sucesso das empresas Juniors no Canadá e na Austrália. Em 1998, Douglas Arantes, juntamente com outros dez geólogos, fundou o que talvez tenha sido a primeira junior company brasileira de exploração mineral. O grupo captou recursos na Austrália e colocou em produção um pequeno, porém lucrativo, depósito de ouro descoberto anteriormente pela WMC, na região de Faina (GO). O depósito produziu cerca de 8,0 toneladas de ouro, com teor médio de 29 g/t, ao longo de seis anos de operação. Outros exemplos são os geólogos João Cavalcante e Luiz Vessani, que souberam transformar depósitos originalmente identificados pela CBPM e CPRM em minas rentáveis de bauxita e ferro. A descoberta do depósito de potássio de Autazes, no Amazonas, deve-se à visão empresarial de Hélio Diniz, e ao competente trabalho prospectivo dos geólogos José Fanton, André Costa, Gustavo Kiefer e Fernando Tallarico.
A Petrobras já havia descoberto os depósitos de Arari (659 Mt @ 17,7% KCl) e Fazendinha (520 Mt @ 28,8% KCl) na Formação Nova Olinda, na Bacia Amazônica. A partir da análise do Banco de Dados (BDEP) da ANP, foi selecionado alvo a 22 km da cidade de Autazes, na foz do Rio Madeira, no Rio Amazonas. O alvo foi testado por sondagem e assim foi descoberto outro deposito de classe mundial com 767 Mt @ 30,7% KCl, espessura média de 2,07 m e profundidade entre 685 m e 848 m. O depósito é importantíssimo para o Brasil, uma vez que importamos 97% do potássio utilizado na produção de fertilizantes.
Com o enorme interesse por ETRs talvez nos próximos anos possamos citar vários outros exemplos de sucesso além daqueles alcançados por Elmer, Douglas, Vessani, Sálvio, Luís Mauricio e outros poucos brasileiros, que tiveram a coragem de investir seus próprios recursos na busca por depósitos minerais.
A nostalgia
Podemos dizer que a exploração mineral no Brasil, há meio século, começou com um grupo de geólogos paulistas dependurados em monomotores cruzando a Amazônia de norte a sul, procurando algo geologicamente similar à Serra do Navio. Eles representam a essência dos exploracionistas brasileiros, quando éramos um país sem indústria, energeticamente dependente e importador agrícola. É incrível como uma escola preparou técnica e psicologicamente um grupo tão qualificado de geólogos para o exercício da exploração mineral meio século atrás. Hoje, somos um dos mais importantes exportadores de alimentos mundiais, temos uma matriz energética que atende os desafios da transição e exportamos petróleo.

Apoiado por amigos exploracionistas, vivi momentos memoráveis ao longo deste meio século de atividades exploratórias no Brasil. No entanto, nada foi tão intenso quanto o período em que Roger Agnelli era CEO, José Lancaster era diretor executivo e Eduardo Ledsham o diretor de exploração da Vale. O ápice da exploração mineral no Brasil poderia ser a comemoração no Forte de Copacabana, quando a Vale superou a Petrobras em valor de mercado. Em alguns anos, a empresa saltou de US$ 25 bilhões para US$ 170 bilhões em valor de mercado. A exploração foi usada como ferramenta para gerar valor – a Vale tornou-se então a segunda maior mineradora do mundo. Comprou a maior mineradora canadense e deslanchou audacioso programa exploratório mundial.
Sonhar e realizar, às vezes, é possível. Roger era determinado: o governo do Pará estava criando obstáculos para o projeto de níquel do Vermelho (146 Mt @ 1,05 Ni% e 0,05% Co), e ele não hesitou e deixou claro que queria projeto alternativo de níquel para ser implantado imediatamente. Fui enviado a Capitão Gervásio, no Piauí, com a missão de só retornar após concluir as negociações com os detentores dos direitos minerários da intrusão peridotítica de São João do Piauí. Essa área já havia sido antigo alvo da Docegeo, com 5 milhões de toneladas a 1,2% de níquel. Seis meses depois, graças ao trabalho dedicado de Afonso Figueiredo, entregamos um depósito de níquel com 100 Mt @ 0,8% Ni, sob a forma de hidróxidos de ferro. Hoje, é mina da Piauí Níquel Metais (PNM), do grupo Brazilian Nickel.

Ao final, é difícil afastar uma certa frustração. Esperávamos mais em relação aos metais básicos. Em Fortaleza de Minas identificamos fluxos de lavas komatiíticas, mas não um novo Kambalda. Em Carajás o depósito Jaguar bem que poderia ter sido um Olympic Dam de níquel, o Limoeiro, um novo Jinchuan, ou Braúna, um outro Jwaneng. Tinha tudo para ser, mas não foi. Cada depósito é único – e é justamente essa singularidade que torna os exploracionistas insubstituíveis no processo de descoberta. Seria imperdoável não mencionar a enorme contribuição do garimpeiro para inúmeras descobertas de ouro, estanho, diamante e lítio neste meio século de exploração no Brasil. Embora o garimpo seja um horror, a figura do garimpeiro deve ser interpretada com outros olhos. Movidos pela necessidade e, muitas vezes, pelo fascínio da descoberta, deixam tudo para traz e enfrentam as inúmeras adversidades de locais até então inalcançáveis. Muitas vezes, dezenas de milhares realizam amplos levantamentos prospectivos por concentrado de bateia chegando a depósitos importantes como Bom Futuro (Sn), em Rondônia.
A mineradora Montita foi meu primeiro emprego. Uma pequena empresa que expressava muito bem as peculiaridades da exploração mineral na década de 80. Seus sócios — Miguel Navarete, proprietário de uma concessionária de automóveis, e o senhor Augusto, um prospector prático — compartilhavam a mesma paixão pela descoberta mineral. Movidos pela curiosidade e pelo espírito empreendedor, requereu centenas de áreas em Goiás com foco em manganês, ouro, cobre-níquel e cassiterita. Estruturaram uma excelente equipe de geólogos e implementaram um audacioso programa exploratório no greenstone belt de Pilar–Guarinos. Este ambiente geológico estava sendo tardiamente caracterizado no Brasil. A sua similaridade geológica com o Abitibi e Yilgarn despertava grande esperança para a descoberta de depósitos de ouro e de níquel-cobre associados a komatiitos.
Atualmente, junto com meu coautor, um historiador, estamos empenhados na conclusão de um projeto de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (P,D&I) com a Petrobras. Esse projeto, além de colocar o SGB em condições igualitárias, do ponto de vista isotópico e analítico, com os melhores serviços geológicos do mundo, permitirá também a devolução do Museu de Ciências da Terra (MCTer) à sociedade carioca. Nesse museu, será criada a Sala de Exposição das Descobertas Brasileiras, onde muitos dos profissionais aqui mencionados — e tantos outros que minha memória não alcançou — poderão finalmente receber o devido reconhecimento da sociedade brasileira.
Agradeço profundamente ao Gilberto Meneguesso, Célio Barreira, Warren Atkinson e Roberto Ventura, por terem sido fundamentais na minha formação profissional. Esse trabalho não teria sido possível sem a inestimável ajuda de Ysao Munemassa, Cimara Monteiro, Marco Tulio Naves, Olavo Caramori, Devanil Barreiro, José Fanton, Allan Fruchting, Jean Carlo Taglieber, Rodrigo Martins, Tadeu Veiga, Antônio José, Célio Barreira, Fernando Martins, Florivaldo Sena e Reinhardt Fuck. Alguns depoimentos da Cura Filme, produzidos por Fernando Martins, foram utilizados na elaboração deste texto. Os dados de recursos e teores podem não ser precisos e visam dar apenas uma ideia de grandeza dos depósitos. As fotos em seguida mostram o MCTer e o que poderá ser a sala dos descobridores.

