Francisco Alves
Apesar dos avanços nos metais básicos, que ultimamente tem recebido boa parte dos investimentos, a Vale continua colocando suas fichas no minério de ferro, conforme ficou explicitado por seus executivos durante o Vale Day 2025, realizado em Londres, no dia 2 de dezembro. Tanto é que, em seus planos de crescimento, a empresa projeta alcançar um nível de produção de 360 milhões de toneladas nos próximos cinco anos, volume que poderia lhe permitir voltar a ocupar o primeiro posto na produção da commodity no mundo, posição que perdeu para a Rio Tinto, não fosse o projeto Simandou, na Guiné, no qual a empresa listada em Londres e com
operações na Austrália terá uma fatia de 27 milhões de toneladas das 60 milhões que serão produzidas pelo consórcio Simfer até 2028. Para chegar às 360 milhões de toneladas projetadas, a Vale deverá acrescentar cerca de 25 milhões de toneladas à sua capacidade atual de produção, já que espera fechar 2025 com um nível de 335 milhões de toneladas.
Porém, mais do que volume, a Vale agora foca em um mix melhor de produtos, segundo o presidente Gustavo Pimenta, porque isto é considerado decisivo para que a empresa mantenha sua flexibilidade e possa enfrentar melhor as oscilações do mercado. Isto significa que o minério de ferro continuará tendo uma fatia importante dos US$ 5,4 a US$ 5,6 bilhões de investimentos projetados para 2026, dos quais US$ 1,0 bilhão serão direcionados para crescimento e US$ 4,5 bilhões para manutenção das operações.

A Vale acredita que, para manter-se competitiva no mercado de minério de ferro, o caminho mais adequado é através da otimização dos ativos existentes, ao invés da implantação de novos, pelo menos até 2030. Assim, de acordo com Carlos Medeiros, vice-presidente executivo de Operações, a companhia conta com projetos como Vargem Grande 1, Capanema, expansão de Serra Sul, britador de compactos, expansão de Serra Leste, mina N3, além de outras iniciativas de upgrade, como Planta de Sohar, Vargem Grande, áreas de disposição de rejeitos e minas de Itabira.
Nos casos de Vargem Grande 1 e Capanema, segundo o executivo, cada instalação foi projetada para produzir 15 milhões de toneladas por ano, e o ramp-up será totalmente concluído até o final de 2026.

máquina de briquete na mesma linha. Então, acredito que isso, com nosso novo mix, que deve estar disponível em outubro ou novembro do próximo ano, seria o passo final para a linha de briquette".O projeto +20 no S11D está avançando conforme o cronograma e sua conclusão é esperada para dezembro de 2026. O projeto do Britador de Compactos, no S11D, está igualmente avançando de acordo com o calendário e a empresa espera que esteja concluído até ao final de 2026. Este projeto é considerado como a solução definitiva para a lavra do jaspilito (rocha compacta). "Uma vez removida esta restrição operacional, a Vale poderá processar todo o material de contato da mina, bem como gerir um maior volume de rejeito", diz Medeiros. Já os projetos expansão de Serra Leste e mina N3, em conjunto, irão acrescentar 10 milhões de toneladas por ano ao Sistema Norte (Carajás). A planta de concentração de Sohar tem sua conclusão prevista para a segunda metade de 2027 e será construída nas áreas de deposição de rejeitos. Medeiros menciona ainda o projeto pilha Tamanduá, que será essencial para as operações de Brucutu, em Minas Gerais, e deverá entrar em funcionamento no início de 2028. Além disso, a empresa tem planos para modernizar a unidade de Vargem Grande e as plantas de processamento de Pico, no complexo de Vargem Grande, também no estado mineiro. "Como se pode observar nos projetos, a Vale dispõe de várias opções para sustentar o crescimento a longo prazo", enfatiza o executivo. Para Medeiros, há espaço para estabilizar ainda mais a produção da Vale com os ativos existentes. "Acredito verdadeiramente que ainda podemos produzir um pouco mais, desde que algumas condições sejam satisfeitas". E, nessa linha, ele informa que o briquete está no topo da lista da empresa. "Estamos avançando na linha de briquete, mas ainda não chegamos lá. Estamos produzindo uma ótima qualidade para Redução Direta e acabamos de instalar uma quarta máquina de briquete na mesma linha. Então, acredito que isso, com nosso novo mix, que deve estar disponível em outubro ou novembro do próximo ano, seria o passo final para a linha de briquete".

O futuro do mercado
A Vale espera uma taxa de crescimento anual composta de 1,2% para a produção de aço bruto, entre 2025 e 2040, segundo seu vice-presidente Executivo Comercial e de Desenvolvimento, Rogério Nogueira. "Trata-se, portanto, de um aumento significativo na produção de aço bruto. Contudo, ao observarmos mais de perto, verificamos que haverá um declínio gradual da produção de aço bruto na China, que será compensado por um aumento da produção em outras regiões, principalmente na Índia, Sudeste Asiático e Médio Oriente". Esse panorama, segundo ele, significa um mercado relativamente estável em termos de demanda por minério de ferro. "Na China, esperamos uma redução de cerca de 160 milhões de toneladas na procura de minério de ferro transoceânico", impulsionado pelo declínio na produção de aço bruto, mas também pelo maior uso de sucata". Em contrapartida, prevê-se aumento na procura por minério de ferro transoceânico na Índia, Sudeste Asiático e Oriente Médio. "Este aumento, no entanto, é inferior ao que se poderia esperar ao olhar apenas para o crescimento da produção de aço bruto nessas regiões, sobretudo porque a Índia possui uma oferta doméstica significativa, com elevada produção interna de minério de ferro. Outras regiões acrescentarão cerca de 20 milhões de toneladas adicionais".

Nogueira considera que haverá um aumento significativo nos aglomerados de minério de ferro, "o que reforça a necessidade de minério de ferro de maior qualidade, que será utilizado para descarbonizar a indústria do aço". Para embasar sua afirmação, o executivo menciona a construção de fornos elétricos a arco em várias partes do mundo, citando como exemplos, na Europa, Alemanha, Áustria, Espanha e França, onde empresas como Rogesa, ThyssenKrupp, Salzgitter, Voestalpine, SSAB, Tata Steel, e ArcelorMittal estão implantando novos fornos a arco. Na Ásia, ele menciona Japão, onde a JFE, a Nippon Steel e até a Kobe estão todas implementando fornos elétricos a arco. "Na Coreia, a POSCO e a Hyundai seguem o mesmo caminho. Nos Estados Unidos, os tradicionais SDI e Nucor estão instalando novos fornos elétricos a arco. Com a aquisição da U.S. Steel pela Nippon Steel, novos fornos elétricos a arco estão sendo planejados para substituir os altos-fornos. A Hyundai também anunciou um novo forno elétrico em Indiana. E, se olharmos para o México, temos a Ternium em Pesqueria", menciona.

Rogério Nogueira opina que, para se equilibrar a oferta e demanda do minério de ferro, o preço de longo prazo é de US$ 100 por tonelada, admitindo que pode haver volatilidade ao longo do período. "Mas, no longo prazo, se quisermos igualar oferta e procura, a nossa expectativa — baseada em todos os exercícios e no conhecimento que temos da indústria — é que os preços precisam estar estruturalmente ancorados nos USD 100/t", enfatiza.
Citando como exemplo 2025, ele diz que haverá uma redução de 230 milhões de toneladas na oferta, o que corresponde a uma taxa de depleção anual de cerca de 3,5%. "Além disso, existem cerca de 85 milhões de toneladas de produção de minério de ferro que estariam acima desses patamares de USD 100/t e que teriam de sair do mercado. Por outro lado, há projetos com preços de incentivo abaixo dos USD 100/t que voltarão ao mercado. É assim que acreditamos que o equilíbrio se dará".
Um outro ponto importante na questão do mercado do minério de ferro, ainda segundo o executivo da Vale, é a qualidade dos produtos. Para ele, normalmente se leva muito em conta a sílica e a alumina e se esquece do fósforo, que está aumentando na parte de baixo das reservas existentes. "E à medida que o mundo começa a produzir mais aço plano em vez de vergalhões, o fósforo está se tornando, e será, um componente muito importante do minério de ferro".
Nesse contexto, ele afirma que a estratégia da Vale, para atuar no mercado, mira o curto e o longo prazo. "No curto prazo, a maior parte da siderurgia é baseada no carvão. E o que estamos fazendo nesse sentido é otimizar nosso portfólio de produtos para atender às rotas existentes de fabricação de aço. Mas também olhamos para o longo prazo, à medida que a indústria se descarboniza. Como nos estabelecemos como pioneiros na descarbonização da produção de aço e como criar a cadeia de suprimentos mais competitiva que ninguém possa nos copiar, em que acreditamos que seremos os atores do mundo descarbonizado?", indaga Nogueira, acrescentando que, nas últimas décadas, a Vale afirmava que sua estratégia se baseava em minério de alta qualidade. "Refletimos bastante sobre isso e agora mudamos. Dizemos que podemos produzir minério de ferro de alta qualidade, mas nossa estratégia se baseia na flexibilidade. Se precisarmos produzir minério de menor qualidade, porque é isso que gera o melhor resultado na cadeia de valor, é isso que vamos fazer, mas preservando a flexibilidade de ir e voltar, dependendo das realidades do mercado, das reações dos concorrentes, das realidades da mina. Este ano (2025), como percebemos, o mercado na verdade não estava pagando muito pelo nosso minério de ferro de altíssima qualidade de Carajás e começamos a migrar pelos planos de lavra", afirma.

Ele acrescenta que a Vale analisou o seu portfólio de forma ampla, entendendo de forma abrangente onde os clientes estavam e posicionando seus produtos para maximizar o valor. "Então, uma vez que começamos a pensar com base nisso de forma mais abrangente, conseguimos alcançar uma melhoria premium de US$3 por tonelada em nossos minérios de ferro de qualidade média. Isso equivale, em uma base anualizada, a 500 milhões de dólares. Apenas mudando nossa estratégia. E esse é o tipo de resultado que se pode esperar ao gerenciar adequadamente seu portfólio".
Outra estratégia da empresa tem sido aumentar a sua capacidade de blending na China, na Europa, no Oriente Médio e na Índia. "Estamos criando uma cadeia de suprimentos única e sofisticada que nos permite alocar produtos e realmente maximizar o valor, definindo onde nossos produtos são realmente desejados e onde eles são realmente pagos", diz ele, observando que a Vale é a única grande Companhia de mineração que vende para o mundo todo, cobrindo todos os continentes, o que lhe permite segmentar o mercado, posicionando os produtos onde eles realmente são requeridos. E obtendo os prêmios certos. "Acreditamos que a Vale está em uma posição única para ser o melhor player de mineração e o dominante em um mundo descarbonizado", enfatiza.

Ainda na linha da descarbonização, Nogueira diz que os resultados alcançados até agora em Redução Direta são excepcionais.
Tecnologias no processamento
Segundo Carlos Medeiros, a Vale também está atuando fortemente na mudança radical do processamento do minério de ferro, adotando tecnologias diferentes com IA, Gen-IA, processamento de imagem, gêmeos digitais e um sistema de controle muito sofisticado.
Para isso, a empresa escolheu a planta Conceição II, em Itabira, como modelo. "Este projeto é uma mudança radical no processamento de minério de ferro, porque adotou várias tecnologias diferentes", diz Medeiros.
A planta, que está iniciando a operação, será gerenciada por uma sala de controle central onde cada etapa do processo será supervisionada e monitorada. "Implementamos campanha de tecnologia e, ao final, 14 mil instrumentos funcionarão simultaneamente. Os resultados até agora são animadores. Por exemplo, a taxa diária de produção aumentou 10%, a disponibilidade física aumentou 13% e a qualidade de ferro em nossos rejeitos caiu 20%. E, o melhor, a quantidade de produção de feed de redução direta aumentou 38%.
Esses resultados, embora preliminares, nos fazem acreditar que, quando esta usina estiver totalmente operacional, estabelecerá um novo padrão de desempenho. Essa tecnologia está sendo implementada também em Brucutu e em 2027 será implementada para Vargem Grande", informa o dirigente.
