Brasil Mineral

Ler como:
Revista
Artigo
Meio Século de Exploração Mineral no Brasil Fase 5 – Do conflito de ideias ao pórfiro, uma nova fronteira exploratória

PESQUISA MINERAL

Meio Século de Exploração Mineral no Brasil Fase 5 – Do conflito de ideias ao pórfiro, uma nova fronteira exploratória

MEIO SÉCULO DE EXPLORAÇÃO MINERAL NO BRASIL FASE 5 – DO CONFLITO DE IDEIAS AO PÓRFIRO, UMA NOVA FRONTEIRA EXPLORATÓRIA

Brasil Mineral 454Páginas 121-131

Noevaldo Teixeira (Geólogo, Chefe do Centro de Geociências Aplicadas-CGA do SGB-CPRM) e Gledson Brito (Historiador, Assessor da Presidência do SGB-CPRM)

Considerei relevante o SGB protagonizar a discussão quanto aos conflitantes modelos geodinâmicos propostos para o Cráton Amazônico. A maior parte da academia, com base em um número restrito de dados geocronológicos e de química de rocha total, propõe para a região um modelo envolvendo sucessivas zonas de subdução, arcos magmáticos insulares e continentais, colisões e magmatismo pós-colisional. Essas interpretações são frequentemente tratadas como um verdadeiro dogma geológico no país: a ideia de que o Cráton Amazônico teria evoluído, ao longo de bilhões de anos, segundo os mesmos princípios da tectônica de placas fanerozóica. No entanto, nenhuma das doze feições geológicas que caracterizam uma zona de subdução foi ainda identificada de forma inequívoca na região. Integro uma minoria defensora da evolução do Cráton Amazônico, entre 3,4 Ga e 1,73 Ga por regime intraplaca, e distinta da geodinâmica do fanerozóico, como indicam as amplas áreas de metamorfismo de altíssima temperatura e baixa pressão, tectônica vertical e dados recentes de isotopia e geocronologia e elementos traços em zircão. Essa marcante divergência de modelos geodinâmicos, na minha opinião poderia ser sanada por novos dados e novas ideias geradas pelo SGB. Isso foi o que me levou a sugerir ao diretor Roberto Ventura que a região do norte do Mato Grosso e centro-sul do Pará fosse tratada como prioritária para futuras investigações geológicas e metalogenéticas.

Diagrama mostrando a interpretação da evolução tectônica da Província Magmática do Tapajós com dois períodos principais: 2.01-1.88 Ga (Colisão/Orogenia Transamazônica) e 1.88-1.60 Ga (Arco magmático Uatumã)
Figura 1

Definir se as mineralizações de ouro ou cobre-ouro do Tapajós e de Alta Floresta estão associadas a zonas de subdução não é um preciosismo acadêmico. Para um país cuja exploração para ouro sempre esteve majoritariamente concentrada em terrenos do tipo TTG-greenstone, abrir novos ambientes prospectivos é fundamental para aumentar o fluxo de novas descobertas. Entendo que uma das funções essenciais de um serviço geológico nacional é fornecer, por meio de conhecimento geológico básico, dados que minimizem o risco exploratório para investidores. Ambientes geológicos com múltiplos arcos de ilhas e continentais são, reconhecidamente, áreas de altíssima prioridade para aqueles que têm a responsabilidade de convencerem suas empresas a locarem orçamentos para atividades de exploração. Essa discussão, portanto, tem relevância direta para o setor mineral brasileiro. Por isso, venho tentando — sem êxito há pelo menos 30 anos — trazer o tema à pauta técnica institucional.

Foto de um geólogo em campo, usando boné e roupas de campo, em frente a um afloramento rochoso com coloração avermelhada e esverdeada
Elpídio Reis

As regiões de Alta Floresta e Tapajós produziram, ao longo de mais de cinquenta anos, cerca de 700 toneladas de ouro, majoritariamente por meio de atividade garimpeira em aluviões, colúvios e veios de quartzo com pirita, com ocorrência subordinada de metais básicos. A figura abaixo, extraída da publicação de Coutinho, M.G.N. — Província Mineral do Tapajós: geologia, metalogenia e mapa previsional para ouro em SIG. Brasília: CPRM, 2008, evidencia porque essa região tem sido altamente atrativa para a garimpagem, paradoxalmente com baixa produção empresarial de ouro primário. Quando ocorrem mineralizações primárias, estas estão quase sempre restritas a veios de quartzo, como nos depósitos Palito, no Tapajós, e Paraíba, em Alta Floresta.

O geólogo Douglas Arantes durante o seu período de estudos na Queen's University, no Canadá e seu orientador doutor Robert Mason, tomando por base a evolução geotectônica e metalogênica da Great Basin, publicaram no Simpósio Gold '95 o corajoso e intrigante modelo geodinâmico para a região do Tapajós. Este era inteiramente fundamentado na teoria da tectônica de placas, propondo a existência de zonas de subdução, episódios de flat subduction, e metalogenia associada para a região do Tapajós.

Liderado pelo geólogo Pedro Jacobi, a Rio Tinto foi a primeira empresa major a desenvolver programa exploratório na região do Tapajós. Pedro Jacobi, Elton Pereira, Marcelo Pinto e Ivanir Luchesi usaram enfoque exploratório pragmático – tentaram negociar os melhores garimpos para testar por sondagem o prolongamento em profundidade dos corpos mineralizados. Pedro, generosamente, me enviou para o Tapajós na tentativa de me inserir na região Amazônica. O meu relatório sugeriu abandonar os garimpos, esquecer os veios e procurar os sistemas epitermais (baixo teor e grande volume), possivelmente não garimpados. Ao avaliar o garimpo Palito, logo no início de sua atividade, intuí que chegaria a uma pequena operação subterrânea, que poderia ser lucrativa, mas não para as pretensões da Rio Tinto. Hoje, os recursos do Palito são de 1,015 Mt @ 10,40 g/t Au. Meses depois da minha visita, Lestrar e Pedro Jacobi observaram que algumas ocorrências de ouro estavam relacionadas com sistemas epitermais, denominando-os de V1, V2, V3 etc. Isso, evidentemente, gerou expectativa muito favorável, uma vez que essa tipologia de depósito contém inúmeros exemplos de classe mundial, como Pascua-Lama, Lihir, Yanacocha, Fruta del Norte etc.

Foto mostrando um grupo de pessoas em campo, incluindo o professor Caetano Juliani e seus alunos, segurando uma bandeira com o brasão da USP
Professor Caetano Juliani e alunos

A figura à esquerda foi extraída de relatório de viagem ao Tapajós para a Rio Tinto, realizada entre 1994 e 1995. Nela, apresento minha interpretação sobre os principais alvos exploratórios que, à época, considerei adequados para uma empresa do porte da Rio Tinto. O modelo ilustrado descreve caldeiras e grandes edifícios vulcânicos erodidos, com ocorrência de garimpos ao longo do rio Creporizão. Em 1995, durante missão cooperativa com geólogos do SGB, o especialista em ouro do Serviço Geológico do Canadá, François Robert (que mais tarde se tornaria Chief Geologist e Vice-President of Exploration da Barrick Gold), elaborou um excelente relatório técnico (figura à direita), cujas conclusões foram totalmente convergentes com a visão que apresentei. Robert destacou que as mineralizações exploradas pelos garimpeiros estavam fortemente associadas ao magmatismo Uatumã/Parauari, com idade aproximada de 1.880 Ma. Na ocasião, recomendei à Rio Tinto que não investisse nas ocorrências e depósitos expostos pelas frentes de dezenas de garimpos em rocha. Sugeri, em vez disso, que a empresa concentrasse seus esforços no contexto geológico dos depósitos epitermais associados ao Grupo Uatumã/Parauari, buscando a descoberta de sistemas de maior volume mesmo com teores mais baixos — potenciais alvos ainda não identificados pelos garimpeiros.

Em 1998 Ana Dreher, Vlach e Martini chamaram a atenção para a presença de adularia em veios de quartzo em alguns garimpos de ouro do Tapajós, sugerindo uma possível origem epitermal para parte das mineralizações auríferas da região. Naquele momento, o Serviço Geológico do Brasil (SGB) perdeu a oportunidade de assumir o protagonismo técnico-científico dos depósitos de ouro epitermal do Tapajós, ao desconsiderar a relevância dessas observações. Não está claro se essa decisão foi influenciada pelas ideias do professor David Groves, que, em uma breve visita à região, classificou o ouro do Tapajós como sendo de origem metamórfica, do tipo orogênico (Orogenic Gold). É possível que tal tipologia exista na região, mas estariam relacionados aos processos tectono-metamórficos dos eventos entre 2,0 e 2,10 Ga, e não à maioria das ocorrências e depósitos associados ao magmatismo sub-vulcânico intraplaca Uatumã.

Foto de pessoa em apresentação ao ar livre com notebook sobre mesa, usando colete reflexivo vermelho, com outras pessoas assistindo
Eugenio Espada

A Profa, Márcia Abrahão (UnB) em 1998 em sua tese de doutorado "O maciço granítico Matupá no depósito de ouro Serrinha (MT): petrologia, alteração hidrotermal e metalogenia", orientada pelo Prof. Nilson, considerou a mineralização do Garimpo Serrinha de Matupá como sendo um pórfiro de ouro. Obviamente essa proposição trouxe um enorme alento para as empresas que estavam explorando aquela região, particularmente as Juniors. A definição da tipologia de um determinado tipo de mineralização pode mudar os parâmetros exploratórios e a prioridade dos investidores. Os professores Nilson e Marine em uma viagem de campo observaram que os garimpeiros não só lavravam colúvios e veios de quartzo, eles aprofundavam suas cavas muitas vezes no granito alterado com disseminações de pirita como pode ser visto na foto abaixo. Naquele momento exceto a Rio Tinto nenhuma empresa maior desenvolvia programas exploratórios sistemáticos em Alta Floresta/Tapajós. A Barrick Gold avaliou alguns alvos em garimpos tendo desistido antes de mesmo de qualquer possibilidade de produção empresarial.

Por volta de 1998, Elpídio Reis, diretor de exploração da Rio Tinto, possibilitou que a geóloga Carmen Nunes realizasse sua dissertação de mestrado no sistema V3 (Caracterização de um sistema epitermal high-sulfidation paleoproterozoico na Província Aurífera do Tapajós, Pará), sob orientação do Prof. Caetano Juliani (USP). Esse trabalho inovador deu início a um contínuo período de estudos sobre as mineralizações de ouro do Tapajós, resultando em dezenas de teses de mestrado e doutorado. O professor Juliani propôs uma flexibilização conceitual ao considerar como depósitos pórfiros, veios métricos de quartzo com ouro e calcopirita encaixados em batólitos granitos estéreis (1,88 Ga). Além disso, ele sugeriu que o distrito aurífero do Tapajós teria sido formado de maneira metalogenética similar à província mineral andina.

Imagem mostra geólogos trabalhando em campo em uma mina subterrânea, com equipamentos de mineração visíveis
Agradecimento a Pérsio Mandetta Pérsio Mandetta Depósito do Jaca

As pesquisas acima citadas demonstraram de forma consistente que os sistemas epitermais de baixa e alta sulfetação possuem idades entre 1869 e 1867 Ga similares aos granitos Maloquinha/Parauari (1890-1830 Ga) e não com as idades das unidades Cuiú-Cuiú, Tropas e Creporizão (2050 e 1950 Ma), sempre geodinamicamente considerados como arcos magmáticos acima de zonas de subdução.

A foto mostra o professor Caetano e seus alunos, que ao longo de décadas, tem contribuído para o conhecimento das mineralizações de ouro do Tapajós. Para esse grupo de pesquisadores as mineralizações epitermais e do tipo pórfiro não estariam relacionadas ao evento intraplaca Uatumã (1890-1830 Ma), mas sim ao magmatismo Parauari, de caráter cálcio-alcalino (1890-1870 Ma. O grupo de pesquisa liderado pelo professor Juliani propõe que o magmatismo Parauari tem origem em zonas de subdução, com geração de arcos magmáticos similares aos Andes. Em contraponto, pesquisadores do Serviço Geológico do Brasil (SGB), como o Dr. Marcelo Vázquez, propõem que esse magmatismo — considerado distinto do Uatumã — teria se desenvolvido em ambiente pós-colisional.

Imagem mostrando afloramento rochoso com veios e fraturas características de depósito de cobre pórfiro
Afloramento do depósito de cobre do Jaca (Créditos ao Caramori)

Estudos realizados pelo Centro de Geociências Aplicadas (CGA-SGB), em parceria com a Nexa e a Ero Copper, indicam que as mineralizações de ouro e cobre nas províncias do Tapajós e de Alta Floresta — incluindo aquelas associadas a sistemas do tipo pórfiro — foram geradas por magmatismo intraplaca, e não em ambientes orogênicos relacionados a margens de placas. No Tapa-jós, as idades dos pórfiros coincidem com as extensas coberturas plutono-vulcânicas continentais com idades em torno de 1,88 Ga, genericamente agrupadas sob o termo Uatumã. Os trabalhos desenvolvidos pelo CGA, integrando dados de magmatismo, metamorfismo e tectônica, sustentados por métodos de datação robustos, demonstram que o magmatismo dessas unidades resulta predominantemente do retrabalhamento de crosta continental pré-existente, sem contribuição juvenil significativa. Além disso, os magmatismos Uatumã e Parauari apresentam assinaturas geoquímicas semelhantes, inclusive nos padrões de elementos-traço em cristais de zircão, o que torna inconsistente a proposição de que tenham se originado em ambientes geodinâmicos tão distintos.

As mineralizações auríferas de Alta Floresta apresentam contexto geológico semelhante ao do Tapajós. Sob a liderança do Prof. Roberto Xavier (veja foto abaixo), da Unicamp, foram desenvolvidas inúmeras teses que classificaram as mineralizações de ouro de Alta Floresta como pórfiros (Juruena, Pé Quente, Paraíba, Serrinha de Matupá etc), ambos formadas em arcos magmáticos subjacentes à cobertura Colider-Teles Pires, datada entre 1820 e 1757 Ma. Posteriormente, trabalho dos professores Rafael e Xavier, de forma extremamente relevante, mostraram que as idades das mineralizações dos depósitos Luizão, Pé Quente e X1 situam-se no intervalo entre 1792 e 1785 Ma. Surpreendentemente, essas idades são compatíveis com as do Grupo Colider-Teles Pires (1820-1757 Ma), que diversos autores consideram como sendo cobertura intracratônica. A possível associação entre as mineralizações de ouro de Alta Floresta e o Grupo Colider-Teles Pires foi inicialmente proposta pelos geólogos Antônio Frasca e Luiz Moreton, do SGB-CPRM. Entretanto, sugeriram que o magmatismo Colider-Teles Pires teria se formado em zona de subdução, estabelecendo possível relação temporal e genética com as mineralizações auríferas.

As mesmas considerações feitas sobre a cronologia das mineralizações auríferas do tipo epitermal e pórfiro na região do Tapajós também se aplicam à região de Alta Floresta. As mineralizações epitermais e pórfiros de cobre-molibdênio e ouro descobertos depois da confirmação do depósito do Jaca em Alta Floresta como sendo do tipo pórfiro, são síncronas com o evento Colider-Teles Pires, que, em nosso entendimento, corresponde a uma unidade vulcano-plutônica de caráter intracratônico. Esse enquadramento reforça a interpretação de que mesmo em ambientes intraplaca, o magmatismo ácido a intermediário, pode ser oxidado e relativamente enriquecido em voláteis e consequentemente com potencial metalogenético para Cu e Au, como parece ser o exemplo tanto em Tapajós quanto em Alta Floresta.

Foto de dois geólogos em campo, um mais jovem à esquerda e outro mais experiente à direita, ambos usando roupas de campo
Geólogos Marco Túlio (esq.) e Paulo Afonso

Eugênio Espada é um dos geólogos em atividade no Brasil com maior conhecimento sobre depósitos de pórfiros e epitermais. Certa vez, apresentei a ele minhas preocupações em relação às observações de campo e às hipotéticas zonas de subdução propostas para o norte de Mato Grosso e a porção central do Pará. Em seu direto modo lusitano de ser, respondeu: "Não tenho o menor interesse em me envolver com essas discussões teóricas inúteis. O que posso te dizer é que as mineralizações de ouro de Tocantinzinho, Palito, Serrinha de Matupá, X1, Juruena e Batalha não deveriam ser classificadas como pórfiros.". Ele nunca afirmou que pórfiros não poderiam ser encontrados na região. A foto do Eugênio abaixo retrata um de seus momentos mais marcantes como geólogo exploracionalista, ao valorizar a necessidade de observar detalhadamente as feições que podem nos indicar o caminho dos fluidos.

Foto de dois geólogos em campo, um mais jovem à esquerda e outro mais experiente à direita, ambos usando roupas de campo
Geólogos Marco Túlio (esq.) e Paulo Afonso

Enfim o pórfiro

Depois de décadas de produção garimpeira de ouro o primeiro pórfiro verdadeiro foi descoberto em Alta Floresta, para preocupação daqueles (me incluo) que não acreditavam neste tipo mineralização na região. O geólogo Pérsio Mandetta apresentou o prospecto chamado Jaca, localizado em Alta Floresta. Nesse local foram identificadas estruturas circulares marcadas por anomalias magnéticas e intensa atividade garimpeira voltada à extração de ouro. Entretanto, uma dessas estruturas, apesar de não apresentar garimpo, exibia veios multidirecionais com mineralização de cobre, além de anomalia consistente de cobre em solo. Durante visita ao prospecto, Caramori e Roque Coelho sugeriram que a Anglo American adquirisse a área, pois sempre acreditaram no potencial de ocorrência de sistemas pórfiros na região. Mais do que isso, defendiam que anomalia de 2.000 ppm Cu deveria ser imediatamente investigada por sondagem. Sob orientação de Roque, a Anglo American conduziu a perfuração e interceptou extensão de 500 metros com teor de 0,6% Cu, definindo o Jaca, hoje pertencente à Fides Mining, como o primeiro depósito de cobre pórfiro descoberto em uma das maiores províncias auríferas do Brasil. Desde então, várias outras ocorrências de pórfiros têm sido identificadas, incluindo Matilda (81 Mt @ 0,28% Cu), Santa Patrícia e Moly Hill, ampliando significativamente o potencial de novas descobertas econômicas na região.

A descoberta de verdadeiros pórfiros mineralizados em Cu-Mo e Au, despertou enorme interesse nas empresas juniores, levando a inúmeros requerimentos e realização de levantamentos aerogeofísicos. Atualmente, o depósito mais significativo do Tapajós é o Tocantinzinho, um depósito de ouro relacionado a intrusões graníticas (intrusion-related gold deposit) com 50 Mt @ 1,31 g/t Au, definido pelo resiliente trabalho de exploracionistas entre eles Elton Pereira. Além disso, ainda no Tapajós, a empresa Serabi identificou o primeiro depósito de cobre pórfiro na área de Matilda durante trabalhos de exploração, que objetivavam estender as reservas da mina do Palito e São Chico de (1 Mt @ 10,40 g/t Au e 2 Mt @ 12-15 g/t Au, respectivamente). No norte de Mato Grosso poucas foram as descobertas em áreas não garimpadas, talvez o X1 (9 Mt @ 1,05 g/t Au), descoberto pelo Diógenes Vital, quando ainda trabalhava na Vale, e o Jaca sejam os únicos exemplos.

Vista aérea de uma operação de mineração com múltiplas cavas abertas em formato circular e semicircular, mostrando diferentes níveis de escavação e estradas de acesso
Mina Marcos Paro

Uma nova fronteira exploratória

Fora de Carajás, a maior descoberta de metais básicos do último meio século foi o depósito de Zn-Cu-Au de Aripuanã, no norte de Mato Grosso. Tive a oportunidade de visitar a área quando a AMBREX estava retirando ouro e havia feito apenas alguns furos. Recomendei fortemente, mas sem sucesso, a aquisição da área pela Rio Tinto. Caramori e José Marquez, pela Anglo American, visitaram o garimpo do Expedito e notaram que os gossans, que tingiam as paredes das cavas de verde em sulfetados de Zn-Cu-Pb-Au estão encaixados no Grupo Roosevelt, com idade de 1762-1740 Ma, parcialmente coincidente com a unidade Colíder-Teles Pires (1820-1757 Ma), que possui extensa área de ocorrência e encaixa depósitos epitermais de ouro e pórfiros de Cu-Mo, como Jaca. O depósito Aripuanã foi considerado pelo Prof. João Carlos Biondi, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), e colaboradores, como sendo VMS. Não me surpreenderia, contudo, que no futuro seja estabelecida conexão do depósito com os sistemas epitermais subvulcânicos amplamente presentes na região.

No final da década de 1990, a Santa Elina requereu um extenso bloco de áreas com base em ocorrências de ouro no Grupo Nova Brasilândia. Entre os anos de 2006 e 2008, a Mineração Santa Elina contratou a empresa Amazônia Serviços Técnicos de Mineração (ASTM), então liderada pelo geólogo Marco Túlio Naves, com a participação Eduardo Henrique Pereira, Guilherme Kroll, entre outros profissionais, para realizar trabalhos de prospecção na região de Alta Floresta d'Oeste, em Rondônia, com foco principal em elementos do grupo da platina e níquel sulfetado. Ao longo das pesquisas, o objetivo inicial foi redefinido e as pesquisas deslocadas mais para norte, quando foi identificado uma função da presença de malaquita, estavam localizados na transição entre rochas básicas e félsicas. Caramori, o mais experiente geoquímico exploracionista do país, acreditava que essa posição estratigráfica indicava elevado potencial, pois os processos vulcanogênicos frequentemente geram depósitos maciços de metais básicos com grandes tonelagens e teores, alguns com ouro como subproduto. Caramori realizou ampla amostragem de solo, o que levou à descoberta do corpo de Zn-Cu-Pb-Au-Ag de Aripuanã (39 Mt @ 3,5% Zn, 1,3% Pb, 0,3% Cu, 35,5 g/t Ag e 0,6 g/t Au.

A Nexa adquiriu a área e Jones Belther, diretor de exploração, colocou o geólogo Júlio Santos para ser o responsável pelas pesquisas que levaram à quantificação de um dos maiores corpos de metais básicos até então descobertos no planeta (fala-se em algo superior a 150 Mt). Aripuanã é do porte de Sullivan e Kidd Creek, ambos no Canadá, e Mount Isa, na Austrália. A descoberta abriu nova fronteira exploratória para o país, ainda não perfeitamente dimensionada. Os corpos brecha gossanífera polimetálica no chamado alvo Pedra Queimada (Zn-Cu); depois, outro gossan no alvo denominado DM1 (atual Mina Marcos Paro, de Zn-Pb), distantes 25km um do outro. Em 2008 o projeto passou à responsabilidade direta da Santa Elina, sob a supervisão do geólogo Paulo Afonso Ribeiro Barbosa.

Paulo é um dos exploracionistas brasileiros mais experientes em atividade. Sempre utilizou a geologia como elemento essencial em suas decisões exploratórias — uma postura fundamental para o redirecionamento conceitual do projeto da Santa Elina, em Rondônia. Ele valorizou a descoberta dos gossans e os contextualizou geologicamente.

A partir disso, solicitou novos requerimentos, cobrindo todo o ambiente geológico com potencial para novas descobertas de metais básicos, em uma sequência vulcanossedimentar provavelmente depositada em um rift ensiálico, em contexto similar ao do depósito de Broken Hill, na Austrália. Acostumado com os ciclos de alta e baixa inerentes a qualquer projeto de exploração, Paulo demonstrou resiliência ao longo de sua trajetória. Hoje, seu trabalho foi reconhecido pela empresa, que deu seu nome a uma das minas implantadas.

A descoberta aqui descrita abre uma nova fronteira exploratória para metais básicos no Brasil, já consolidada pelo depósito de classe mundial de zinco em Aripuanã, no norte do Mato Grosso, e agora também confirmada em Rondônia.

À esquerda, o geólogo Marco Túlio, que liderou entre 1996 e 1998 a exploração do bloco de áreas, sabiamente requerido como Bela Santa Elina, no Grupo Nova Brasilândia. À direita, o geólogo Paulo Afonso, profissional com ampla experiência em exploração mineral e com histórico de participação em diversas descobertas relevantes.

A Mina Marcos Paro (Zn–Pb–Ag), de alto teor, encontra-se encaixada no Grupo Nova Brasilândia. Já a Mina Paulo Afonso (Zn–Cu–Ag–Au), de maiores dimensões, está em fase de abertura neste momento. A decisão de atribuir às minas os nomes de personagens fundamentais para a suas viabilizações é plenamente acertada e representa um justo reconhecimento às suas contribuições.

Artigos da edição