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Os projetos de ouro no Brasil são um bom negócio?

Por Francisco Alves

Brasil Mineral 453Páginas 70-90
Mais de 140 pessoas lotaram o auditório do Mattos Filho

Os projetos de ouro no Brasil são um bom negócio? Este foi o tema do seminário promovido por Brasil Mineral em São Paulo, no dia 7 de outubro, no auditório do escritório Mattos Filho e que teve em sua programação uma palestra sobre o “potencial do Brasil para o desenvolvimento de projetos de ouro”, seguida de três painéis versando sobre o ouro como oportunidade de investimento no mercado financeiro nacional, estruturação de projetos de ouro e governança e rastreabilidade.

Abrindo o evento, o Editor-executivo de Brasil Mineral afirmou que, ao que tudo indicava, as previsões no sentido de que o preço do ouro chegaria a 4 mil dólares a onça até o final do ano iriam se confirmar, lembrando que na tarde do dia 7 de outubro de 2025 o preço ultrapassou R$ 3.970/ onça. Ele acrescentou que esse patamar de preços já viabiliza muitos depósitos que antes não eram considerados economicamente atrativos e pode gerar uma espécie de corrida a potenciais projetos de lavra do metal, chamando a atenção de investidores para ativos voltados à exploração de ouro do Brasil. “A esse nível de preços, os holofotes que estavam focados nos projetos dos chamados minerais críticos ou estratégicos necessários para a transição energética agora voltam-se um também para o ouro. Como se sabe, o Brasil já foi um dos mais importantes produtores mundiais de ouro no passado, o que demonstra que a geologia do nosso subsolo tem vocação para a ocorrência de reservas auríferas boas, sobretudo em maior profundidade. Há, portanto, um potencial ainda a ser explorado, como mostram os projetos recentes implantados no País”, disse ele, acrescentando que foi esse cenário que motivou Brasil Mineral a organizar o evento.

Os projetos de ouro no Brasil são um bom negócio?
Os projetos de ouro no Brasil são um bom negócio?

O editor também agradeceu aos membros do Conselho Consultivo de Brasil Mineral e outros colaboradores que atuaram ativamente na organização do evento (Adriano Trindade, Arão Portugal, Camilo Farace, Frederico Bedran e Hélcio Guerra), ao Mattos Filhos (que recebeu o evento em seu auditório) e aos patrocinadores (MID e Tracbel na categoria Master, Anglo Gold Ashant, Auriverde, Equinox, Gold, Kinross e Movag na categoria ouro, Metso, Codeme, DMT, Fagundes, Parex e PH na categoria prata).

Adriano Trindade, conselheiro de Brasil Mineral e sócio responsável pela área de mineração do Matos Filho, disse que “este é um momento muito importante para a mineração brasileira, não apenas em razão de minerais ligados à transição energética, mas também com relação ao ouro. Não é a primeira vez que o metal tem esses grandes aumentos no seu valor, já que na década de 1970 aumentou 200%, quando foi abandonado o padrão ouro pelo governo norte-americano. Entre 2008 e 2011 também teve um aumento muito significativo, de 100%, do preço. Mas chegar a 4 mil dólares a onça realmente é sem precedentes. É um aumento de 100% nos últimos dois anos, portanto o espaço temporal também ficou bem mais comprimido”.

Ele acrescentou que, segundo os dados do Serviço Geológico Norte-Americano, o Brasil hoje tem a oitava maior reserva de ouro do mundo, mas é apenas o décimo quinto maior produtor. “Então ainda há espaço para aumentar a sua produção e acho que o objetivo desse evento é justamente discutir isso: em que medida e como isso pode ser feito aqui no País. Há bons projetos? E quão bons são os projetos aqui no Brasil?”

Frederico Bedran (também do Conselho Consultivo de Brasil Mineral) afirmou que, com o ouro chegado a 4 mil dólares a onça, as atenções vão se voltar ainda mais para o metal e que o objetivo do evento foi “colocar os principais players que hoje trabalham com ouro, todos juntos, para discutir esse mercado”.

De olho nos custos

Em seguida houve a palestra de Frederico Deodoro, diretor Financeiro da Kinross no Brasil, o qual disse que o movimento de alta do preço do ouro atual é inédito e, em termos reais, está bem acima das altas que aconteceram nos anos 1970, 1980 e de 2010 a 2012. Porém, ele alertou que os produtores devem estar atentos aos custos, “pois enquanto o preço sobe e desce de elevador, o custo sobe de escada, não para de subir e a margem de lucro não sobe proporcionalmente ao preço”, lembrando que em 2013/2014, quando o preço do metal teve queda abrupta, vários produtores que haviam tomado decisões de investimento para crescer rapidamente, tiveram perdas muito relevantes.

Sobre a produção empresarial de ouro no País, o executivo da Kinross disse que, considerando apenas as empresas que são filiadas ao World Gold Council, existem cerca de 20 mil pessoas envolvidas, direta ou indiretamente, que o segmento contribui com mais de US$ 3 bilhões anuais para a economia local e que há 500 mil hectares em concessões de lavra, menos da metade das permissões de lavra garimpeira, que somam 1,2 milhão de hectares. Incluindo os direitos minerários relacionados com pesquisa mineral, o número já pula para 70 milhões de hectares, o que significa que há muita gente pesquisando ouro no território nacional.

Frederico Deodoro
Frederico Deodoro

Deodoro alertou que, apesar do alto preço do ouro, “nem tudo são flores”. Construir e operar uma mina a partir do zero é algo muito difícil. “Enquanto, nos anos 1990 se gastava em torno de seis anos entre a descoberta e a operação,”hoje nós já estamos em quase 18 anos. São três vezes mais. Claro que o contexto é outro. Há dificuldade de se colocar uma operação, devido a maiores escrutínios das autoridades, às dificuldades de financiamento, licenciamento etc. e isso é algo com que nós temos que saber conviver. Saber atacar para poder endereçar”.

Ele chamou atenção para que os produtores adotem uma cultura de sustentabilidade em seu planejamento estratégico, sob o risco de não conseguirem a licença para operar. “As operações mineiras são finitas e para continuar trabalhando temos que saber otimizar os nossos planos de mina, trabalhar nas questões de reserva, disposição de rejeito, cada vez mais um desafio, e o fechamento de mina. E pensar no crescimento, seja ele orgânico ou inorgânico, o que requer trabalhos de exploração”.

Ele informou, ainda, que um trabalho da SMP Global prevê que esse prazo aumentará para algo na casa dos 28 anos, entre a descoberta, pesquisa mineral, todos os estudos de viabilidade, licenciamento, construção e operação. Assim, ele recomenda que os mineradores sejam proativos nas questões do licenciamento, ambientais, sociais, que devem estar no topo da cadeia do planejamento estratégico. “Tem que pensar numa estratégia integrada. Sabemos do potencial que nós temos, mas devemos saber trabalhar em várias frentes ao mesmo tempo. Se não tivermos uma cultura de sustentabilidade realmente incorporada, tanto no nosso dia a dia das operações quanto no planejamento estratégico, não conseguiremos ter a relação que precisamos manter com os nossos stakeholders”, enfatizou, reiterando que as operações mineiras são finitas. “Mas temos que continuar trabalhando, saber otimizar os nossos planos de mina, trabalhar nas questões de reserva, disposição de rejeito — cada vez mais um desafio – e no fechamento de mina”.

Por fim, ele disse que as empresas têm que pensar no crescimento, seja orgânico ou inorgânico, enfatizando os investimentos em exploração mineral. “M&A é um ponto bastante importante porque, às vezes, nós temos corpos que têm potencial, mas talvez surja a necessidade de estabelecer parcerias, de ter um sangue novo para levar a operação adiante. E não podemos esquecer dos nossos talentos. São as pessoas que estão em campo trabalhando que vão fazer esse sucesso acontecer”, finalizou.

Oportunidades para investimento no mercado nacional

O painel “Novo Boom do Ouro – Oportunidades para Investimento no Mercado Financeiro Nacional” foi moderado por Camilo Farace (ex-AngloGold Ashanti e conselheiro de Brasil Mineral) e contou com a participação de Kleber Cardoso (Aura Minerals), Leonardo Gandara (Equinox Gold) e Ricardo Fonseca (Prisma Capital) que atuaram como debatedores.

Camilo Farace
Camilo Farace

Abrindo o painel, Camilo Farace explicou que atuou 32 anos no mercado do ouro, em uma empresa de mineração, a AngloGold Ashanti, que em 2024 completou 190 anos de existência. “Então, eu contribuí, durante 32 anos, em uma empresa de mineração que atua há 191 anos de forma contínua no Brasil. Dizem que mineração só dá uma safra, mas a da AngloGold não terminou ainda, se considerarmos que ela está produzindo esse tempo todo. E digo para vocês que, com toda propriedade, sou uma pessoa que acredita profundamente na capacidade do Brasil. E quando vemos dados como os que foram mostrados, de que nós temos a oitava potencialidade em reservas de ouro e somos o décimo quinto maior produtor, é algo que chama a atenção. Se nós somos a quinta potência em extensão territorial, eu colocaria o Brasil um pouquinho mais adiante no aspecto de potencialidade”, pontuou Farace, acrescentando que, por outro lado, o Brasil também se destaca nas dificuldades para quem atua na produção.

Kleber Cardoso
Kleber Cardoso

Kleber Cardoso, da Aura Minerals, informou que a empresa fez um IPO na B3 em 2020 e acessou o mercado de capitais brasileiro mais duas vezes, desde então, através do mercado de debêntures: primeiramente em 2021, para financiar o projeto Almas, em Tocantins, que está em operação já desde o final de 2023, e em outubro de 2024, que também foi uma segunda operação muito bem-sucedida. Ele acrescentou, com base na experiência dos últimos cinco anos, que o acionista brasileiro tem algumas similaridades com os outros acionistas nos Estados Unidos, Canadá e Europa, ou seja, que ele busca ter um bom entendimento da qualidade dos ativos que a companhia possui. O acionista quer saber onde estão os ativos, em quais jurisdições, quais os principais riscos envolvidos e faz as perguntas clássicas de sempre sobre recursos, reservas, vida útil, custo esperado etc. “Existe uma preocupação genuína com a questão da qualidade dos ativos, qual tem sido o track-record da companhia, se está gerando caixa, como foi o desempenho nos últimos três anos e qual é a expectativa do ano em curso. Há um foco muito grande em olhar o que foi prometido no passado e o que foi entregue”.

Outro foco dos acionistas, segundo o executivo da Aura, são as pessoas. “Existe uma preocupação muito grande também em entender quem é o management da companhia, qual é o histórico desse management, quem está ali, se tem um acionista de referência, quem é este acionista, as práticas de gestão, cultura de remuneração”.

Ricardo Fonseca, da Prisma Capital, afirmou que, independente do tipo de commodity, o importante é saber como atrair o mercado de capitais para a mineração. “Este é um trabalho que estamos fazendo com bastante afinco na Invest Mining e há muitos itens a cobrir, especialmente no mercado brasileiro. Porque se formos para o Canadá, veremos que o investidor está mais preocupado com o futuro, com a expansão, enquanto aqui o acionista ainda está preocupado com o resultado dos últimos três anos, que às vezes não há, quando se trata de um projeto pré-operacional, que está precisando captar dinheiro no mercado de capitais para ser colocado de pé. E como criamos isso dentro do mercado? Como fomentar transparência dos executivos, dos projetos, para se conseguir atrair o investimento para que esses projetos aconteçam? Listei algumas empresas de ouro e verifiquei que, hoje, temos mais ou menos 10 bilhões de dólares de market capital em junior mining companies operando no Brasil, com projetos brasileiros”, disse ele, apontando que apenas a GMining está valendo algo em torno de US$ 5 bilhões.

Ricardo Fonseca
Ricardo Fonseca

Fonseca disse, ainda, que a Aura Minerals é a única empresa de ouro no Brasil que oferece ações através de BDR na B3. “Portanto, existem muitos desafios de como atrair esse capital. Há o desafio da educação do mercado de capitais sobre o que é um estudo de viabilidade e a parte de licenciamento (que não é fácil). Como explicar a um investidor que pode levar até 18 anos para colocar uma mina em pé e começar a produzir, quando ele tem a opção de investir em CDI a 18% ao ano? Precisa ser uma mina a céu aberto com 50 gramas de ouro por tonelada para valer a pena”, observou, pontuando que se trata de um trabalho de médio e longo prazo.

Indagado por Farace sobre o cenário futuro para o ouro, Kleber Cardoso disse que, em seu planejamento, as empresas produtoras não podem fazer seus orçamentos com base no ouro a US$ 3.900 a onça. “Temos que brigar para segurar os custos, porque é o que controlamos. Tomara que esse ciclo continue, mas não controlamos o preço. Então vamos controlar o custo”, afirmou, lembrando que a Aura tem conseguido segurar o custo em um patamar bem competitivo, já que o AISC ficou estável em 2023 e 2024, inclusive com uma pequena redução de cinco dólares por onça. “Nos últimos 5 anos, estávamos no terceiro quartil na curva de cash cost global e hoje estamos no segundo quartil. Nesse patamar, temos um bom fôlego para continuar o nosso projeto de crescimento, que leva anos. Depois que tomamos a decisão de investir numa mina, que demora de um ano e meio a dois anos para construir, na verdade estamos falando de um prazo de cinco anos para ter um retorno sobre o investimento. Portanto, precisamos ter esse olhar mais conservador nos estudos de viabilidade. Pelo que vejo, pelo menos nas médias e grandes empresas, ninguém coloca US$ 3.900 a onça para tomar uma decisão de investimento. Todo mundo acaba sendo mais conservador”.

Leonardo Gandara
Leonardo Gandara

Leonardo Gandara, da Equinox Gold, disse, contrariando algumas pessoas, que a jurisdição brasileira é amigável para a mineração. Sobre o mercado do ouro, ele afirmou, citando o escritor americano Mark Twain, que “quando o ouro começa a crescer demais o seu valor, é hora de vender pá e picareta”, acrescentando que talvez isso explique a aversão ao risco que, historicamente, o Brasil sempre teve, o que explica o baixo investimento em mineração. “Tirando as grandes transnacionais, que não têm problema nenhum de financiamento, as 8 mil pequenas e médias empresas de mineração brasileira não conseguem acessar o capital”.

Voltando à questão da jurisdição amigável, ele disse que o licenciamento ambiental tem sido o grande vilão em termos de tempo e custo do investimento na atividade de mineração. “Mas não só o licenciamento. Eu me arrisco a dizer que o licenciamento talvez seja o menor dos problemas. O licenciamento ambiental hoje, mal ou bem, é um procedimento que precisa ser cumprido. E cita como exemplo a consulta livre, prévia e informada das comunidades, que não devem ser encaradas como “povo do entorno”, mas pessoas que estão ali há tempo e devem ser encaradas como parceiros do empreendimento.

Outra questão mencionada por ele é o acesso a imóveis de terceiros. “Hoje, no Brasil, constituir uma servidão ou aquisição de um imóvel para um projeto de mineração leva mais tempo do que um licenciamento ambiental”. E recomenda aos empreendedores fugir de esquemas que envolvam corrupção visando viabilizar ou acelerar processos.

Gandara é de opinião que o Brasil tem instrumentos interessantes na legislação mineral que protegem o empreendedor, inclusive para fins de financiamento, como garantias. “Mas, infelizmente, temos todo um arcabouço extra-jurídico que influencia nossa atividade”.

Painel sobre investimentos em projetos de ouro
Painel sobre investimentos em projetos de ouro

Ricardo Fonseca admitiu que a legislação mineral brasileira é boa, mas o problema são os prazos para que as coisas aconteçam e que o empreendedor não pode controlar. Ele disse também que muitos investidores preferem investir em ouro a aplicar em ações das companhias produtoras. Ou seja, preferem os ativos financeiros. E que a alta do ouro não significa aumento da valorização das empresas produtoras do metal. “Claro que a valorização das empresas está subindo, mas não é uma relação de um para um quando se olha as curvas de projeção”.

Kleber Cardoso, por sua vez, disse que a empresa estar aderente a normas internacionais, como a 43.101 (canadense) e a SK-1300 (americana), que atestam a confiabilidade dos relatórios de recursos e reservas, é uma exigência do mercado. Sobre o relacionamento com as agencias ambientais, ele disse que é preciso manter um diálogo frequente, “quando as coisas vão bem, quando estão mais ou menos e quando as coisas vão mal, porque assim se estará criando uma relação de confiança de longo prazo. O mesmo deve ser feito com o investidor. Esse é um diferencial grande, que ajudou e tem nos ajudado várias vezes”.

Helcio Guerra
Helcio Guerra

Na sequência, Camilo Farace indagou sobre o que diferencia um projeto atrativo para o mercado financeiro daquele que não consegue atrair capital e a resposta de Ricardo Fonseca foi categórica: a qualidade do ativo mineral, ou seja, quantas gramas de ouro por tonelada existem, como está o processo de licenciamento, quem fez a campanha de sondagem, onde estão os testemunhos, quais foram os profissionais que colocaram aquele projeto de pé etc. “Ouro é um ativo complicado, porque estamos falando de um grama por tonelada. Só para dar uma ordem de grandeza, uma aliança tem mais ou menos umas 5 gramas, ou cinco toneladas de minério. Se a relação estéril/minério é de três para um, significa processar 20 toneladas de material para ter uma aliança. Mas voltando ao básico, sempre que analiso qualquer ativo mineral, vejo a qualidade da riqueza daquele ativo, expresso em números, se vai dar ou não para investir, esquecendo um pouco o preço. Faço a conta inversa: até quanto ouro pode cair para eu continuar fazendo dinheiro? E como faço para não perder dinheiro? Em que cenários eu tenho que acreditar? E se o ouro tem que cair a mil dólares, será que continuo fazendo dinheiro? Quero ser o último a ter que fechar minha planta. E sempre dou muita atenção à parte técnica”, ponderou.

Estruturação de projetos e riscos associados

O segundo painel discutiu a estruturação de projetos de ouro no Brasil e os riscos associados, sob a moderação de Hélcio Guerra (Biz Invest Fusões e Aquisições) e tendo como debatedores Eduardo De Come (Ero Brasil), Eduardo Leão (Brazauro/ GMining), Paulo Misk (Jangada Mines) e Rodrigo Nunes (Auriverde Mining).

Abrindo o painel, Hélcio Guerra disse que, independente de o preço do ouro estar muito alto, o ambiente de investimentos no Brasil mudou bastante. “Se olharmos para o que era a indústria do ouro no Brasil 20 anos atrás, veremos que os players eram um pouco diferentes. Talvez os grandes se mantenham os mesmos, mas temos outras empresas, como a Aura, que é um caso de sucesso, e outras que estão ingressando, que talvez moldem um pouco a vocação que o Brasil tem em termos de produção de ouro. Com exceção da Kinross, em Paracatu, o Brasil não tem uma mina com produção acima de 300 mil onças por ano. Por outro lado, vemos o surgimento de médios e pequenos produtores, que, ao longo do tempo, vêm galgando posições e nisso o preço do ouro assumiu um papel muito importante, porque permite ter empreendimentos de pequeno e médio porte, que possam crescer. No aspecto de investimentos, vemos alguns casos interessantes acontecendo no País, como o caso da PA Gold, uma mineração a partir de investimentos privados, a Auriverde trilhando o seu caminho e a Jangada, que vai aparecendo também na província de Alta Floresta. E do outro lado, avançando na cadeia, temos a Ero Brasil com uma história bastante interessante, um pouco diferente de tudo que estamos falando, já que a dona é uma junior company nascida com ativos no Brasil e que virou uma realidade, tanto com cobre quanto com ouro. E a GMining, que fez sucesso com o Tocantinzinho, implantando um projeto on-time, on-budget, and safe, entregando o que tinha que entregar”.

Rodrigo Nunes
Rodrigo Nunes

Rodrigo Nunes, CEO da Auriverde Mining, iniciou sua fala explicando que a Auriverde é uma empresa privada que foi criada em 2025, focada exclusivamente no desenvolvimento de projetos de ouro e que a empresa tem hoje três ativos no estado de Mato Grosso. O primeiro ativo é o projeto Poconé, que foi colocado em produção em julho de 2025 e que está completando o ramp up. “Para aqueles que não conhecem, Poconé hoje é uma das províncias mais ricas do ponto de vista de ouro no Brasil, com uma quantidade muito expressiva de investimentos privados”, observou. O segundo projeto, Figueira Branca, está próximo dos municípios de Peixoto de Azevedo e Matupá e encontra-se em sondagem. “Nós avançamos com a engenharia de detalhe desse projeto Figueira Branca e conseguimos também o licenciamento ambiental, a LP e a LI, para implementar o projeto. Vai ser um projeto de 1.500 toneladas por dia, com circuito de gravimetria e CIL”, informou. O terceiro projeto fica em Alta Floresta, numa região também muito conhecida desde a década de 1980, denominada Pista do Cabeça. “O nosso plano é completar o ramp-up do Projeto Poconé, começar a construir o Projeto Figueira Branca nos próximos meses e avançar com o plano de exploração do Projeto Alta Floresta”, disse.

Eduardo De Come
Eduardo De Come

Eduardo De Come afirmou que a história da Ero começa em 2016, como uma empresa júnior canadense, que não tinha nenhum ativo, quando surgiu a oportunidade de comprar um ativo que, na época, estava em recuperação judicial, a mina de cobre da Caraíba, com mais de 50 anos, que tinha sido inundada por um acidente. “Ninguém queria aquele ativo, mas a Ero Copper viu valor nela, acabou fazendo uma negociação com os credores e negociou com os acionistas a compra de todos os ativos no Brasil, que era a mina Caraíba e mais alguns projetos, por um dólar. Entre os ativos estava a mina de ouro, que a Ero não queria, tentou empurrar para os bancos (era uma mina que não tinha estudo de reserva, nenhuma expectativa de quanto tempo iria produzir e o ouro só iria aparecer à medida que se fizesse o desenvolvimento), mas ninguém quis. Então a Ero decidiu tentar alguma coisa. O investimento inicial começou no cobre. Felizmente, a mina voltou a produzir cobre, o mercado reagiu, o preço do cobre ajudou e se começou a fazer um investimento em geologia na mina de ouro. E, por sorte, apareceu muito ouro. É isso que estamos falando aqui do potencial do Brasil. Quando se começou a fazer a pesquisa mineral, foram colocadas algumas sondas e começou a aparecer muito ouro de alto teor. Hoje produzimos minério com teor de 14 ou 15 gramas de ouro por tonelada, em média. É uma mina de 60 mil onças por ano. E hoje a Ero Copper já tem um foco estratégico de também aumentar as operações no setor de ouro”, afirma De Come, informando que nos dois últimos anos a operação de ouro foi mais lucrativa do que a de cobre e permitiu alavancar recursos para o projeto de cobre no Pará (Tucumã).

Paulo Misk
Paulo Misk

Paulo Misk, da Jangada Mines, disse que a empresa está com foco no ouro e adquiriu uma área no norte de Mato Grosso, o Projeto Paranaíta, que está próximo da cidade, que tem cerca de 12 mil habitantes, a mais ou menos 55 quilômetros de Alta Floresta, uma região com boa infraestrutura, em termos de rodovia e energia elétrica. Ele acrescentou que se trata de uma área já antropizada, onde não há floresta amazônica. “Temos lá 210 mil onças como recursos, com 3,16 gramas por tonelada, embora alguns corpos tenham 16 e até 20 gramas. Mas quando se fala de uma mina a céu aberto, de pouca profundidade, com 3 gramas, se for feito um ótimo trabalho, consegue-se ter uma operação muito lucrativa”, disse Misk, informando que atualmente a empresa está fazendo a primeira parte da pesquisa mineral. O foco, segundo ele, são corpos de 250 a 500 mil onças, produzindo de 25 a 50 mil onças/ano.

Hélcio Guerra afirmou que hoje, ao se falar de funding, pode-se começar com projetos em escalas menores, que vão, por si só, gerar recursos suficientes para permitir que a empresa vá crescendo, à medida que o seu negócio vai sendo expandido.

Eduardo Leão, da GMining, iniciou sua fala informando que, ao contrário do que muitos pensam, o G da GMining não vem de Gold, mas de Gignac, que é o sobrenome da família controladora do negócio, uma família de construtores, e que a empresa tem um histórico de construção de grandes minas de classe mundial. “Somos uma empresa que nasceu com a diretriz de entregas e que privilegia a primarizaçao, pois na construção de Tocantinzinho, desde o soldador ao cozinheiro eram funcionários nossos. Então, tínhamos controle total de orçamento, de entrega, o que fez uma grande diferença também nos dois anos de implantação do projeto. Ele acrescentou que a empresa é nova, nasceu em 2021, comprou o ativo da Brazauro, que era da Eldorado Gold, em 2022. “Era um projeto que estava se alongando por quase 15 anos e que começou o licenciamento ambiental em 2009. A Eldorado tinha um problema de budget e precisava escolher entre começar Tocantinzinho e implantar uma mina na Grécia. Tocantinzinho tinha um problema muito sério, que era a linha de transmissão, com 200 quilômetros de extensão, custando 40 milhões de dólares, que depois teria que ser doada para o governo, como de fato foi. Porém, sem a linha de transmissão o negócio não vingaria. E quando tomamos a decisão de construção do Tocantinzinho, em 2022, o ouro não estava a 4 mil a onça. Estava a 2.300 ou 2.400. Mas já tinha lucratividade e toda atratividade. Começamos a operação em setembro do ano passado, uma mina de 2 milhões de onças medidas e que vai entregar entre 175 mil e 180 mil onças por ano”.

Eduardo Leão
Eduardo Leão

O executivo da Brazauro/GMining acrescentou que depois surgiu o projeto Oko West, em que a GMining fez uma fusão com a Reunion Gold, na Guiana Inglesa. É um projeto com 4 milhões de onças (o dobro de Tocantinzinho), também numa região muito complexa, com baixo capital humano, onde todo mundo tem que ser treinado. A implantação se iniciou em outubro de 2025. É um projeto de US$ 1 bilhão, para o qual a empresa já conseguiu fechar um financiamento. O custo será o dobro de Tocantinzinho, que foi US$ 500 milhões.

Além disso, a GMining tem o projeto Gurupi, pelo qual a empresa pagou 2 dólares. Trata-se de um projeto que estava com 12 anos de uma ação civil pública. “Compramos esse projeto em dezembro do ano passado, agora conseguimos vencer a ACP (Ação Civil Pública), que foi liquidada, e estamos reiniciando o licenciamento ambiental. Em Gurupi, decidimos esquecer tudo o que foi feito e reiniciar do zero, da forma certa".

Indagado por Hélcio Guerra sobre quais os pontos importantes que a empresa deve levar em conta para dar certo, Rodrigo Nunes disse que, primeiramente, trata-se de uma indústria de capital intensivo e extremamente técnica. “A Auriverde está focando muito nos princípios: um bom plano de exploração, uma boa campanha metalúrgica, bons resultados do ponto de vista de procedimentos para a entrada dos estudos técnicos que se seguiram. Outro desafio em que atuamos de forma bastante proativa foi na questão do licenciamento ambiental. Entramos com o processo do licenciamento ambiental um pouco antes, inclusive, da concretização da compra do projeto Figueira Branca, ainda com o proprietário anterior”, afirmou o CEO da Auriverde, concordando com o moderador no sentido de que a estratégia de começar pequeno para ir crescendo é adequada. Ele disse, ainda, que o projeto Figueira Branca tem potencial para produzir 100 mil onças/ ano de ouro, mas que o Capex do projeto não cabe ainda no bolso da Auriverde. Portanto, decidiu fazer um projeto menor, de 1.500 toneladas de minério por dia, que deve produzir 20 a 25 mil onças de ouro por ano. “E com o fluxo de caixa desse projeto vamos continuar focando forte em exploração”.

Paulo Misk, por sua vez, disse que a Jangada está mais focada em ter um ativo com bom teor e custo na faixa de US$ 1.300 a US$ 1.400 por onça. Ele acrescentou que o fato de a empresa ser listada na bolsa de Londres cria uma condição de compliance, de segurança jurídica, e uma boa capacidade de captação de recursos, ajudada pelo histórico dos membros de seu board. “Queremos fazer projetos sustentáveis, bem executados, não só do ponto de vista social e ambiental, mas também na forma como estruturar o plano de lavra e incorporar um pouco de inovação. Aquela região do norte de Mato Grosso é riquíssima em ouro, mas carece de métodos de lavra adequados à realidade que eles têm lá, com veios de ouro estreitos, na faixa de um metro”, mencionando como um caso positivo o da PA Gold, que teve oportunidade de visitar. “É uma operação que me serviu muito de inspiração. Eles têm 1,3 milhão de onças no depósito, que é de qualidade excelente”.

Participantes do painel sobre atratividade dos projetos
Participantes do painel sobre atratividade dos projetos
Os projetos de ouro no Brasil são um bom negócio?

Para Eduardo De Come, hoje, na operação, há três pontos que acabam chamando a atenção: Infraestrutura, legislação trabalhista e segurança jurídica. No caso da infraestrutura, ele mencionou o caso da energia. “A nossa mina está ficando profunda, foi mecanizada e precisa de refrigeração, o que significa mais energia e isso não estava mapeado no projeto inicial. Tínhamos uma licença para 5 megawatts e precisávamos expandir para 13 megawatts até 2030, chegando a 10 megawatts já no próximo ano. Fomos até a concessionária da energia, que pediu 900 dias para fazer a extensão de uma linha de 16 quilômetros. Então, estamos buscando alternativas, porque senão teríamos que retardar o plano de crescimento ou exploração de áreas mais profundas, se não vai tiver energia para suportar esse crescimento. Nessas regiões remotas, e todo mundo aqui está falando de região remota, a infraestrutura é um desafio. Quando se consegue energia elétrica, às vezes a qualidade do fornecimento é ruim. Estamos enfrentando um problema enorme no nosso projeto de cobre no Pará, onde a oscilação da energia está prejudicando bastante a nossa operação”.

Sobre a a legislação, De Come mencionou que o Brasil é um dos poucos países que tem ainda uma legislação que só autoriza seis horas de trabalho em subsolo. E há casos em que o pessoal demora uma hora e meia para chegar à frente de trabalho, mais uma hora e meia para voltar. Portanto, quando o trabalhador chega ao local de trabalho, já está quase na hora de voltar.

Quanto à segurança jurídica, o executivo da Ero citou a questão da TFRM (Taxa de Fiscalização de Recursos Minerais), que tem sido adotada por alguns estados e que se soma à CFEM. No caso do Pará, a TRFM é a maior do Brasil. “Essas mudanças de regra, para quem depende do investidor estrangeiro, do investidor institucional, que aplica em qualquer lugar do mundo, é um problema. E agora começam a falar de taxação de dividendos e outras coisas que não foram contempladas no projeto original”.

Adriano Trindade
Adriano Trindade

Seguindo na mesma linha, Eduardo Leão, da GMining, disse que uma das suas grandes dificuldades é convencer os executivos canadenses de como interpretar e como navegar no ambiente jurídico do Brasil. Ele disse discordar parcialmente de que o Brasil é um país “mining friendly”, mencionando o caso do aumento da TRFM no Pará, que foi votado no dia 27 de dezembro de 2024, com um percentual de 6 mil por cento. E citou que foi aberta uma negociação com o estado para que houvesse um desconto e um deságio.

Os desafios da governança e sustentabilidade

Fechando o evento, o terceiro painel discutiu dois problemas que hoje afetam o mercado do ouro, ou seja, governança e rastreabilidade. O painel contou com a moderação de Adriano Trindade (Mattos Filho e Conselho Brasil Mineral) e teve como debatedores Ewerton Trindade (AngloGold Ashanti), Frederico Bedran (Bedran e Associados/Conselho Brasil Mineral) e Vasco Miguel Ferreira Soares (Casa da Moeda/Sicpa do Brasil)

Iniciando o painel, Adriano Trindade questionou se os dados que dão o Brasil como oitavo maior detentor de reservas e décimo quinto maior produtor estão mesmo corretos e se tem uma parte da produção que não está entrando nessa conta. Ele acrescentou que mais de 12% do faturamento mineral no Brasil é de minério de ouro, o que indica que talvez o potencial do País seja para muito mais do que isso e talvez muito mais já esteja sendo produzido, o que tem tudo a ver com rastreabilidade e governança, temas do painel. “Todo mundo celebra isso, mas isso tem seríssimas implicações para a rastreabilidade, para a governança, porque aumenta o risco”.

Ewerton Trindade
Ewerton Trindade

Ewerton Trindade, da AngloGold Ashanti, disse que, para se conseguir financiamento para os projetos, governança e rastreabilidade são fundamentais e que é impossível se manter hoje no mercado sem isso. “Quando falamos de governança, as pequenas empresas podem e conseguem ter. Mas a rastreabilidade? No caso da AngloGold, nós detemos todo o processo, desde a exploração, desmonte, metalurgia, fundição e refino. Então, conseguimos, através de todos os processos de monitoramento, de garantia, cumprimento das leis ambientais, questões sociais, demonstrar a origem do nosso minério e do nosso metal. Isso nos leva a ter uma tranquilidade para trabalhar, para poder prover ao mercado esse processo”, afirmou o executivo. Para ele, há um grande desafio no Brasil. “Várias instituições estão trabalhando nesse processo, para buscar uma rastreabilidade externa, garantir a origem do minério, do ouro depois que ele se transformou em metal, para que o ouro legal, correto, não se misture ao ouro ilegal. As exigências externas estão cada vez maiores em relação a essa questão de governança e da garantia de que o nosso ouro não mata ninguém, não prejudica o meio ambiente, é sustentável ao longo do tempo. Nessa busca da rastrabilidade externa, nós temos vários esforços de agências. A própria Casa da Moeda está buscando desenvolver tecnologias e formas de se fazer essa rastreabilidade”. Ele apontou, ainda, que o conteúdo de mercúrio pode ser o primeiro caminho para a segregação imediata e certeira em relação à origem do material.

Vasco Soares
Vasco Soares

Vasco Soares, da Sicpa do Brasil, afirmou que rastreabilidade é ter a capacidade de agregar todos os dados relevantes de um produto e conseguir fazer essa verificação em qualquer ponto da cadeia. “Não estamos falando só do lingote, do bullion, mas de qualquer momento da cadeia. O sonho é a pessoa estar saindo do garimpo, indo ao PCO (Posto de Compra de Ouro) vender e ter ali uma chancela, provando que ele está saindo de um ponto e indo para outro para conseguir vender esse produto. E ser legalizado ali, para que todo mundo tenha noção e visibilidade de que aquele ouro que ele está transportando está legal. E o contrário também. Se um policial rodoviário federal parar uma pessoa com um pedaço de ouro, perto de garimpos, como ele pode verificar se aquele ouro é legal ou não? Como ele vai conseguir verificar isso? Esse é o objetivo, para que se consiga ter essa visibilidade em toda a cadeia do ouro. Para isso, são necessários três pilares fundamentais. O primeiro é a tecnologia, porque sem ela não se consegue. Pode-se usar blockchain? Pode. Mas tem outras tecnologias, até mais fáceis, mais acessíveis, em que se consegue controlar, monitorar e criar dados suficientes e com inteligência de mercado, com inteligência de todo o processo”, argumenta, mencionando como segundo pilar a regulação, em que o Estado tem que se juntar ao mercado, todas as pessoas envolvidas, conversar, discutir e chegar a uma regulação com o mínimo de impacto na produção. “Para quê? Para dar valor para o produto e que esse produto seja confiável para todos”. O terceiro pilar, segundo ele, são os órgãos fiscalizadores atuando de maneira simples, rápida, eficaz e apreender o ouro, ou não. Esse conjunto de pilares, para o especialista, é o que pode se chamar de rastreabilidade.

A seguir Adriano Trindade perguntou a Frederico Bedran quais são os desafios regulatórios para a rastreabilidade. Bedran iniciou sua resposta chamando atenção para o fato de o ouro oriundo de garimpos sob o regime de PLG (Permissão de Lavra Garimpeira) ser considerado como ativo financeiro, enquanto o ouro das mineradoras é considerado mercadoria. “Mas o ponto que quero destacar é a rastreabilidade, que é uma realidade do setor, quer se queira ou não. Só não sei se isso vai ser implementado e será obrigatório ano que vem, ou daqui a dois anos, ou daqui a quatro anos, mas isso é fato. E quando falamos de rastreabilidade, estamos falando não somente controle de legalidade do garimpo, mas de combate à ilegalidade. Genericamente, quando estamos nos referimos à produção de ouro no Brasil, o número é em torno de 100 toneladas/ano. Disto, quanto é oriundo das mineradoras? 60 a 65%? E produção legal de garimpo? 20%? E tem o ouro reciclado, que é comprado nos centros urbanos. Desse universo, quanto é o ilegal? Ninguém sabe”, disse o advogado, mencionando que há vários Projetos de Lei tramitando hoje no Congresso que tratam da questão da rastreabilidade, dos quais o mais expressivo é o PL 3025, que está na Câmara e que pretende normatizar toda a questão da rastreabilidade. Ele disse que no aspecto infralegal, a ANM já tem competência e está obrigada e implementar sistemas de rastreabilidade. “Houve uma decisão recente do STF para que órgãos como ANM, Banco Central, Casa da Moeda, implementem esses sistemas de rastreabilidade, para que se tenha maior controle do ouro no Brasil”, informou.

Frederico Bedran
Frederico Bedran

Bedran lembrou que a dinâmica do setor de ouro está mudando, com o aumento da exploração de pequenos e médios depósitos, na faixa de 30 mil onças por ano e que alguns garimpos estão migrando para a pequena mineração. “Esse universo vai ser mais desafiador e terá que ser rastreado, de ponta a ponta”, defende. Ele acrescenta que as grandes empresas já têm certificação de rastreabilidade, que lhes permite chegar a qualquer mercado. “Mas precisamos democratizar essa possibilidade nas empresas menores, para que o Brasil tenha o ouro rastreável, para que o processo seja abrangente a todas as áreas”. Ele também defende que não se pode ter uma autorregulação em que o estado seja alijado do processo. E critica a autorregulação, que parece muito com “o lobo tomando conta da ovelha”.

Participantes do painel sobre rastreabilidade
Participantes do painel sobre rastreabilidade

Abordando a questão sobre se a rastreabilidade do ouro não vai aumentar muito o custo das empresas, Bedran entende que não, “principalmente porque o valor do ouro é muito elevado comparado à tecnologia aplicada, embora não seja uma tecnologia simples. Outro ponto observado por ele é que atualmente o garimpo que trabalha na legalidade está enfrentando forte concorrência do crime organizado. “De acordo com o Fórum Nacional de Segurança Pública, 30% do lucro das organizações criminosas no Brasil vem das drogas e os outros 70% vêm de combustível, bebida, cigarro e ouro”, afirmou.

Ewerton Trindade disse que a rastreabilidade é uma questão de preservação do mercado e da indústria do ouro, e da própria cadeia de valor, em longo prazo. Ele informou que a AngloGold é fornecedora exclusiva da Vivara, mas para que isso acontecesse a fabricante de joias fez uma grande diligência na empresa para assegurar que o ouro que ela produz é de origem segura. De acordo com a própria Vivara, isso lhe dá segurança institucional.

Para Vasco Soares, o ouro precisa ter um registro desde o momento em que é extraído, no garimpo, e esse registro deve acompanhar o metal ao longo de toda a cadeia. Com isso, pode-se ter todo o histórico, que é imutável. Ele cita o processo Kimberley, para certificação de diamantes, como um modelo eficaz. Além disso, o técnico considera que se precisa ter um registro digital em todas as transações. E propõe que se passe a rastrear todos os equipamentos utilizados na extração de ouro.

Evento foi exclusivo para convidados
Evento foi exclusivo para convidados

Fechando o painel, Bedran opinou que o problema é o ouro que é produzido em algum lugar sem título e reportado como se tivesse sido produzido em algum lugar titulado, que tem um direito minerário. “Em outras palavras, o ouro proveniente da PLG não é ilegal. O problema é o ouro que não vem de lá, mas é reportado como se viesse”.

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