O professor David Groves tem chamado a atenção para um ponto relevante: o notável avanço das novas tecnologias analíticas tem impulsionado significativamente a compreensão da tipologia dos depósitos minerais. No entanto, esses estudos geralmente são conduzidos em escala local, com ênfase em aspectos como composição, temperatura e origem dos fluidos mineralizantes. Embora essa abordagem acadêmica seja valiosa, ela frequentemente negligencia a compreensão integrada da dinâmica evolutiva dos depósitos em seus contextos regionais e tectônicos — fatores decisivos para a atratividade de investimentos em exploração mineral. Apesar da reconhecida importância da geodinâmica, apenas cerca de 6,3% das publicações na literatura científica mundial abordam esse componente em estudos sobre depósitos minerais. No Brasil, essa lacuna é ainda mais crítica, reflexo direto da precariedade do mapeamento geológico básico e da escassez de levantamentos aerogeofísicos com resolução e profundidade adequadas para investigar a arquitetura profunda da crosta. Em parceria com o colega Marco Túlio, ensaiamos uma breve tentativa ao enquadrar os depósitos minerais brasileiros segundo uma visão geodinâmica (Brazil: Geological Survey under Spotlight).
Legendas das fotos
1. Mélange – Zona tectônica heterogênea com fragmentos de diferentes litologias incorporados em matriz deformada.
2. Harzburgitos depletados – Ultramáfica rica em olivina e ortopiroxênio, com baixo teor de clinopiroxênio, evidenciando forte extração por fusão parcial.
3. Cromita podiforme – Cristais e lentes irregulares de cromita, típicas de ambiente suboceânico.
4. Brecha de fluxo basáltico (flow breccia) – Indica resfriamento e movimentação de lava submarina.
5. Pillow lavas – Estruturas arredondadas formadas por extrusão subaquática de lava basáltica.
6. Sedimentos silicosos pelágicos – Depósitos finos e ricos em sílica, acumulados em ambiente oceânico profundo.
7. Fumarolas sulfatadas laterizadas – Indicam atividade hidrotermal em assoalho oceânico, com alteração supergênica.
O entendimento sobre os ambientes geotectônicos do Brasil Central e suas respectivas potencialidades minerais teve início apenas na década de 1970, com os trabalhos pioneiros dos professores Fernando Flávio, Angeiras e outros. Naquele período, o modelo da tectônica de placas ainda não era amplamente aceito pela comunidade geológica brasileira. Foi nesse contexto que Carlos O. Berbert, da CPRM, interpretou os corpos serpentinitos do estado de Goiás como parte de um cinturão alpino, vinculado ao eugeossinclinal do Grupo Araxá. Essa interpretação inovadora de certa forma indicava as possibilidades exploratórias para a região. Já no final da década de 80, campanhas realizadas pela DOCEGEO e posteriormente pela Rio Tinto nesses corpos máfico-ultramáficos resultaram na identificação de mineralizações inexpressivas de cromita em harzburgitos residuais e de sulfetos de cobre associados a sedimentos pelágicos sobre crosta oceânica basáltica. Durante uma dessas viagens, identifiquei um conjunto excepcional de afloramentos na Serra do Tapa, como mostram as fotos abaixo. Dediquei esse trabalho ao professor Fernando M. Almeida, em reconhecimento à sua notável capacidade de, com base em evidências limitadas à época, inferir a existência de um cinturão ofiolítico no Brasil Central — análogo aos Alpes — e antecipar, de forma pioneira, aspectos fundamentais da geodinâmica dessa porção do território brasileiro.
As universidades desempenharam papel crucial na caracterização de diversos ambientes geológicos com potencial exploratório no Brasil. Um exemplo marcante é o trabalho do Prof. Marcel Dardenne (UnB), que definiu a franja recifal da Formação Vazante e sua importância para a formação do depósito de Pb-Zn de Morro Agudo (17 Mt @ 5% Zn e 1,5% Pb). Essa descoberta pela METAMIG (12.000 m de sondagem) contou com a participação direta dos geólogos Antônio Madalosso e Carlos Valle, nas proximidades de Vazante, em Minas Gerais. A definição do modelo geológico atraiu imediatamente as principais mineradoras mundiais de zinco, diante da perspectiva de se identificar um novo distrito do tipo Mississippi Valley no Grupo Bambuí. A conceituação geológica dos depósitos de zinco e chumbo nas regiões de Januária e Montalvânia também foi, em parte, influenciada pelo entendimento prévio do principal depósito de zinco do Brasil. Vazante foi descoberto na década de 1950 por um prospector e posteriormente pesquisado pela mineradora CMM. Esse depósito é controlado por uma falha que teria condicionado a migração de fluidos hidrotermais basinais. Hoje, graças aos estudos do Prof. Dardenne, sabe-se que tanto o depósito de Vazante quanto o de Morro do Ouro — ambos de classe mundial — estão localizados no Grupo Vazante, e não no Grupo Bambuí, como antes se supunha. A secção da figura mostra o deposito de Morro Agudo com o sulfeto controlado estratigraficamente. A figura abaixo foi retirada da tese de mestrado (UnB) do Luiz P Neves.

Mas talvez a principal contribuição do Dardenne, juntamente com outros professores como Danni, Fuck e Marini, tenha sido a identidade conceitual para o Departamento de Geologia da UnB. Eles formaram centenas de profissionais que desenvolveram uma compreensão clara sobre o significado e a importância dos trabalhos de campo — não apenas como prática acadêmica, mas como etapa fundamental no processo de descoberta de depósitos minerais. Na foto abaixo, o professor Dardenne aparece à esquerda.


Situação semelhante ocorreu na Bahia, com os estudos conduzidos pelo professor Aroldo Misi, da Universidade Federal da Bahia (UFBA), que contribuíram significativamente para o entendimento dos controles geológicos das mineralizações de Pb-Zn associadas a tapetes algálicos nas regiões de Irecê (1,5 Mt @ 8% Zn) e Nova Redenção (2,5 Mt @ 0,5% Zn e 6% Pb). Esses depósitos estão vinculados a sequências carbonáticas de bacias intracratônicas do Cráton do São Francisco, semelhantes àquelas encontradas na região do Vale do Mississippi.
Em 1972, o Prof. Danni identificou a presença de lavas ultramáficas (talco xistos) na região de Goiás Velho. Ele e Carlos Cordeiro apresentaram no Congresso Brasileiro de Geologia, de 1978, o trabalho “Caracterização estratigráfica da Sequência Vulcânica-Sedimentar de Pilar de Goiás e Guarinos – Goiás”, que indicou a existência de um fragmento de domos tonalíticos e greenstone belts inseridos no Maciço de Goiás, com características semelhantes às da região de Barberton, na África do Sul. No entanto, foi a identificação inquestionável de texturas spinifex em rochas ultramáficas na região de Crixás (GO), realizada por Lineu Saboia durante viagem de campo com Gebrim da Metago, que impulsionou significativamente o conhecimento sobre a geologia arqueana no Brasil e os programas exploratórios de ouro em Goiás.
No final da década de 70 a Docegeo descobriu o depósito de ouro Fazenda Brasileiro (15 Mt @ 8 g/t Au), na Bahia. Fator determinante para o sucesso exploratório nesse caso foi a troca de conhecimento entre os geólogos internacionais da Terraservice e os profissionais brasileiros. Otávio (vulgo, Grilo) conheceu o Escudo Canadense e, por similaridade geológica, requereu as áreas de Santa Luz, na Bahia, para a Docegeo. Tratava-se de sequência vulcanossedimentar envolvida por domos tonalíticos, similar aos terrenos da Província Superior, no Canadá. Mais tarde, isso seria confirmado pelo geólogo Augusto Kishida, e a área passaria a ser chamada de greenstone belt do Itapicuru. Naquele momento a estruturação da geologia arqueana não era bem conhecida no Brasil. A descoberta do depósito de ouro da Fazenda Brasileiro evidenciou uma característica inerente aos verdadeiros exploracionistas, a persistência.
Inicialmente, o programa exploratório na região do Rio Itapecuru foi estruturado visando metais básicos. A direção técnica da CVRD chegou a proibir que se fizessem análises para ouro em seu programa exploratório no Brasil. Os levantamentos geofísicos Eletromagnético Transiente (TEM) e Magnetométrico (Mag), conduzidos por Kiyoshi Kadekaru e Florivaldo Sena, identificaram cerca de 300 anomalias. A coincidência entre as anomalias de Mag e EM era considerada indicação da presença de sulfetos de metais básicos. O geólogo Adalto Martins, fazendo follow-up em uma das anomalias priorizadas, identificou arsenopirita em brecha silicosa magnética encaixada em xistos carbonosos. Encaminhou a amostra para o laboratório, demorando um ano para que o resultado constatando a presença de ouro chegasse. O furo na arsenopirita encontrada por Adalto interceptou o xisto carbonoso condutor e a brecha magnética que explicavam a anomalia selecionada. Augusto Kishida insistiu para que o furo fosse analisado para ouro, fazendo analogia entre o Abitibi Gold belt (Canadá) e a sequência vulcanossedimentar do Itapecuru. Assim, foi descoberto o depósito de Fazenda Brasileiro e, posteriormente, Maria Preta – um marco na exploração mineral brasileira fora de Carajás.
A descoberta do depósito de ouro de Fazenda Brasileiro trouxe algumas lições exploratórias. O conhecimento geológico inovador de Otávio possibilitou o requerimento da área, enquanto a analogia feita por Kishida, comparando a geologia do Itapecuru com áreas mundialmente produtoras de ouro, foi crucial para entender o real potencial mineral do ambiente geológico que estava sendo prospectado. A determinação do exploracionista Adalto ao identificar a arsenopirita e insistir na análise da brecha magnética em busca de ouro foi fundamental para a descoberta. Ao contrário da maioria dos greenstone belts brasileiros, o Itapecuru não tinha atividade garimpeira. Uma lição importante foi perceber que, independentemente dos desejos da cúpula da empresa, quando a geologia indica potencial para ouro, é isso que deve ser explorado.

A figura abaixo apresenta, à esquerda, o mapa geológico da área de Serrinha, destacando domos e quilhas formados por rochas TTG e greenstone, com idade Transamazônica. À direita, vemos o geólogo e geofísico Florivaldo Sena, da DOCEGEO, um dos responsáveis pela descoberta do depósito aurífero de Fazenda Brasileiro. A imagem inferior isolada ilustra a feição típica da mineralização, marcada por intensa estruturação tectônica (cisalhamento), com metacherts intercalados a metabasaltos, além de remobilizações e segregações de quartzo associadas à deformação. Agradecemos a Fernando Matos pela gentil disponibilização das fotografias.

Ficou evidente que o país possuía ambientes geológicos similares aos de Barberton, Abitibi e Kalgoorlie (Austrália). Os Profs. Almeida e Schorscher (USP) já haviam identificado texturas spinifex nas lavas do Quebra-Ossos, no Grupo Rio das Velhas, assim como o Prof. Alfonso Schrank (Unicamp) as reconheceu no greenstone belt de Piumhi, e Teixeira, em Fortaleza de Minas, todas em Minas Gerais. No entanto, foi por meio do mapeamento detalhado na região do Alagadinho, sob a liderança de Lineu, que uma das seções mundiais mais bem preservadas de lavas ultramáficas arqueanas foi caracterizada. Como decorrência, organizou um curso para identificação de lavas ultramáficas, permitindo que centenas de geólogos conhecessem essas rochas, consideradas anteriormente como ofiolitos do Grupo Araxá.
Após a definição dos komatiítos do Alagadinho, a Metago implementou programa de exploração coordenado por Gilberto Meneguesso e conduzido, em campo, por Lineu Saboia. Durante cerca de dois anos, a equipe trabalhou para expandir a geologia de Crixás em direção ao norte, buscando delimitar áreas com maior potencial para metais, especialmente na região de Mara Rosa. Inicialmente, concluímos – de forma equivocada – que os metabasaltos, cherts e BIFs envolvidos por tonalitos, ao norte de Crixás, nas regiões de Amaro Leite, Amaralina e Mara Rosa, eram remanescentes de greenstone belts arqueanos. Essa interpretação levou diversas empresas a requererem grandes blocos de áreas, resultando na descoberta de vários pequenos depósitos de ouro. Entretanto, nenhuma descoberta de classe mundial foi feita, além do já conhecido depósito de cobre de Chapada, o único da região com tonelagem significativa. Nos komatiítos de Crixás, a Western Mining Corporation (WMC) identificou apenas um pequeno depósito de sulfeto de níquel, sem viabilidade econômica.
As áreas de antigos garimpos de ouro, por exemplo, em Pilar, Guarinos e Goiás Velho, foram intensamente avaliadas por empresas, como Metago, Montita, Colorado, Inco, WMC, AngloGold Ashanti e outras. Crixás, que já foi importante produtor de ouro no século XVIII, abrigava a antiga Mina Grande, onde o ouro associado à arsenopirita ocorria em enxame de veios de quartzo, inicialmente interpretados como precipitados silicosos singenéticos. Foi José Machado, trabalhando para a Kennecott, quem identificou o forte controle estrutural desses veios de quartzo e recomendou a realização de furo ao longo do plunge (caimento do corpo de minério). Posteriormente, a área passou para a propriedade da Inco, na qual o geólogo Malan liderou o programa de sondagem, executado com precisão por Walter. O resultado foi a descoberta de depósito com 5,5 Mt @ 10 a 12 g/t Au. Trabalhos posteriores, já sob tutela da AngloGold Ashanti e liderados por Diogo Costa, permitiram expandir as reservas de Crixás, mantendo a Mina Serra Grande em operação.



Durante reconhecimentos geológicos, executados com Lineu Saboia, sempre consideramos a região de Mara Rosa como extensão dos terrenos arqueanos de Pilar de Goiás e Crixás. No entanto, essa interpretação revelou-se equivocada. Com a orientação do Prof. Reinhardt Fuck á direita da foto (UnB), o colega, Prof. Márcio Pimentel (UnB), corrigiu essa visão em sua dissertação de mestrado “A Seqüência Vulcano-Sedimentar de Arenópolis-GO: petrologia ígnea e metamórfica, contexto geotectônico e considerações metalogenéticas preliminares”. Amparados por sólidos estudos isotópicos e geocronológicos, eles caracterizaram a região como parte do Arco Magmático de Goiás, vinculado ao Orógeno Brasiliano, um evento acrescionário neoproterozóico. Entre 1982-1996 a equipe da Western Mine Company (WMC) descobriu dois pequenos depósitos de ouro – Zacarias e Fazenda Nova neste contexto geotectônico.
Antes desse refinado trabalho geocientífico, a equipe de exploracionistas da Inco, liderada por Luís Werneck (à esquerda da foto acima), já havia feito descoberta significativa de cobre a partir de levantamento de sedimento de corrente: o enigmático depósito de cobre-ouro de Chapada (421 Mt @ 0,29 % Cu e 479 Mt @ 0,25 g/t Au). O brilhante trabalho de Stephen V. Richardson mostrou que o depósito possuía características de pórfiro pré-cambriano, conceito ainda desafiador no contexto brasileiro. O professor Claudinei G. de Oliveira da UNB, tem caracterizado na região uma metalogenia de subducção, classificando os depósitos em vulcangênicos (Zacarias, Bom Jardim), pórfiros (Chapada, Boa Vista) intrusion related (Faz Nova) e orogenic gold (Posse, Suruca). A área continua a ser explorada, pois, do ponto de vista teórico, é difícil imaginar que uma zona de subducção abrigue apenas um único jazimento de cobre.
Na borda oeste do complexo de Cana Brava, na região de Palmeirópolis, a equipe da CPRM, liderada por José Figueiredo, descobriu pequeno corpo de sulfeto maciço de cobre-zinco com características vulcanogênicas (6,5 Mt @ 0,8% Cu, 3,5 % Zn e 0,6 % Pb). Posteriormente, a Billiton realizou investigação mais detalhada em toda a região, a partir da qual Wilson Ribeiro Filho e Teixeira definiram a Sequência Vulcanossedimentar de Palmeirópolis. Em exemplo clássico de “premonição geológica”, o Prof. Danni destacou a importância de desacoplar geneticamente os corpos anortosíticos da fração peridotítica-piroxenítica basal em Niquelândia, levantando a possibilidade da existência de assoalho oceânico na borda oeste dos grandes complexos máfico-ultramáficos de Goiás. O colega Luiz Vessani, mesmo na escola, nunca teve muita paciência para esse tipo de discussões. Ele conhecia uma ocorrência de bauxita cartografada no Projeto Barro Alto pela CPRM, em 1972, e, movido pelo inigualável faro comercial, ele simplesmente transformou um anortosito, visualmente miserável, em lucrativa mina de bauxita de alta qualidade (300 Mt @ > 40%-50% de bauxita), vinte sete anos depois da descoberta original.

A WMC talvez tenha sido a empresa que mais investiu na Faixa Brasília, especialmente na região de Goiás Velho, Aurilândia, Fazenda Nova e Mara Rosa. Nessa região sua equipe identificou vários pequenos depósitos de ouro, que mais tarde foram viabilizados pela iniciativa individual de empresas juniors, criadas por geólogos brasileiros, como a Amazônia Mineração, liderada pelo Douglas Arantes. A WMC adotou estratégia de autossuficiência que levou ao desenvolvimento dos depósitos de Jenipapo, Posse, Zacarias e Faina e à descoberta do depósito de Fazenda Nova, que mais tarde viria a ser o primeiro depósito operado pela Yamana Gold. Essas descobertas foram feitas a partir de um programa regional de sedimento de corrente e concentrado de bateia, que começou em Porangatu e avançou até o Sul de Goiás.
O depósito de níquel sulfetado de Fortaleza de Minas/ O’Toole (10 Mt @ 2,6% Ni, 0,4% Cu, 1,3 g/t PGE e 0,05% Co), localizado no estado mineiro, foi descoberto por Ysao Munemassa, após reconhecer gossans na base de corpo tabular de serpentinito similar ao que tinha visto no depósito de níquel de Agnew, no Cráton de Yilgarn, na Austrália. Thomas Brenner sabia de altos teores de níquel em amostras da olaria do senhor João Soares e insistiu várias vezes para que Ysao visitasse a área em um final de semana. A equipe foi estendida com José Lancaster, Célio Barreira e O´Toole, quando trabalhos de geoquímica de solo e levantamento de IP direcionaram a bem-sucedida campanha de sondagem. Tratava-se da primeira descoberta de níquel sulfetado em komatiítos nas Américas, fora do Canadá. As ultramáficas do Morro do Níquel eram consideradas como ofiolitos, até que a dissertação de mestrado “Geologia, petrologia e prospecção geoquímica da Sequência Vulcano-Sedimentar de Morro do Ferro, Fortaleza de Minas - MG”, sob orientação do Prof. Danni, mostrou que a área tinha inequívoco potencial para depósitos de níquel similares a Kambalda, razão pela qual, a BP mineração requereu a área e fui posteriormente contratado.

Na parte superior da foto o posicionamento regional do greenstone belt Morro do Ferro (Fortaleza de Minas), parcialmente coberto pela nappe de Passos. Na parte inferior do lado direito é possível identificar textura spinifex em metaperidotitos. À esquerda porção cumulática de derrames ultramáficos.

Gilberto Meneguesso, gerente de exploração da BP Mineração, colocou-me para conceituar geologicamente a região entre Fortaleza de Minas e o Quadrilátero Ferrífero. Constatei que a borda sudeste do Cráton do São Francisco estava esfacelada por extensas zonas de cisalhamento e que os komatiítos apareciam em estreitas faixas nos greenstone belts em Nazareno, Barbacena, Rio das Mortes e Pará de Minas. Ysao instituiu a caça aos gossans, responsável pela descoberta de pequena lente semi-maciça de sulfeto de cobre aprisionada em derrames de metabasaltos dos restos de greenstone belts. Em Pará de Minas, caracterizamos sistema epitermal arqueano sem, contudo, conseguir estabelecer vinculação com as mineralizações de ouro no Quadrilátero Ferrífero. Esse magmatismo ultramáfico tem sido considerado de forma equivocada como ambiente de arco do cinturão Mineiro.
Afonso Figueiredo, em campanha de helicóptero pela Docegeo, identificou afloramentos de metavulcânicas com calcopirita-pirita-esfalerita em gossans na região de Cabaçal, no Mato Grosso. Ysao organizou a equipe da BP Mineração, adicionando os geólogos Hélio Monteiro, Pedro Moura, Antônio Assis e Antônio José, visando o desenvolvimento de trabalhos prospectivos e geológicos, que permitiram que a área fosse caracterizada então como greenstone belt arqueano, constituído por metabasaltos com estruturas pillow intercaladas com cherts, rochas piroclásticas e lavas félsicas. Levantamentos de sedimento de corrente, concentrado de bateia e geoquímica de solo apontaram teores extremamente elealteração exalativa representada por zonas de cloritização.



Gilberto Meneguesso (primeiro à esquerda na foto) e R.C. Dyer definiram o Grupo Araí, um rifte intracratônico do Mesoproterozoico, caracterizado por vulcanismo predominantemente ácido e intrusões graníticas do tipo A o qual pode abrigar uma das maiores concentrações mundiais de Elementos Terras Raras (ETRs) fora da China. Após a definição da sequência vulcanossedimentar de Dianópolis como um greenstone belt (Projeto Letos), Gilberto Meneguesso, já na Docegeo, sugeriu o vados de cobre e ouro. A sondagem começou pelos veios auríferos e, posteriormente chegou às mineralizações disseminadas em zonas de forte silicificação. O levantamento EM conduzido por Célio Barreira, marcou corpos de sulfetos de metais básicos, que a sondagem mostrou conterem valores anômalos para ouro. Recentemente, a área foi reavaliada pela empresa junior Meridian que, pelo resiliência do Antônio José, o qual agradecemos as fotos, levou à redescoberta do depósito VMS de cobre-ouro-prata de Cabaçal com 53 Mt @ 0,64 g/t Au, 0,44% Cu e 1,5 g/t Ag, encaixado em sequência de cherts e tufos com intensa requerimento de 800.000 hectares nesta região. A empresa aplicou em seguida um programa de sedimento de corrente. Entretanto, os resultados não animaram. Mais tarde, durante visita de campo pela Metago, os geólogos Lineo Sabóia e Gilberto Meneguesso reconheceram o potencial do greenstone belt para depósitos de médio porte de ouro. As áreas foram adquiridas pela Metago, e Olavo Caramori intensificou a geoquímica e a contagem de pintas de ouro, delimitando uma anomalia consistente em solo sobre clorito xistos, na borda de corpo intrusivo de tonalito. O depósito foi então descoberto, com recursos estimados em cerca de meio milhão de onças de ouro.

O Prof. Onildo Marini e o Prof. Nilson Botelho, ambos da UnB, dedicaram-se ao estudo dos granitos do tipo A na Serra Dourada, Serra Branca e Serra da Mesa, bem como dos depósitos de cassiterita a eles associados, originalmente descobertos por garimpeiros, no nordeste de Goiás. Mais tarde, Pedro Jacobi, pela Docegeo, identificaria o depósito de estanho de Nova Roma (Faixa Placha), que acabou sendo invadido por garimpeiros antes de sua real importância econômica ser plenamente reconhecida. Em 1980, liderado pelo Elder, trabalhei pela Metago com outros colegas no greisen com cassiterita do Pela Ema, no granito Serra Dourada. Naquela época, ninguém queria saber de ETR, tampouco sequer sabia o que eram argilas iônicas.
Os trabalhos conduzidos pelos Profs. Nilson e Marini contribuíram para a descoberta do depósito de ETR da Serra Dourada (350 Mt @ 1500 ppm de óxidos de ETR). A simples observação do artigo “Elementos terras raras em granitoides da Província Estanífera de Goiás”, elaborado pelos professores supracitados, com colaboração de Philippe Rossi, e publicado na Revista Brasileira de Geociências em 1992, levou o exploracionista Alexandre Rocha da Rocha a iniciar um programa prospectivo. Esse trabalho culminou na descoberta do Pela Ema, importante depósito de ETR em argilas iônicas, que, graças à visão de futuro e resiliência do geólogo Luciano Borges, atualmente é a única mina de ETR desse tipo em operação no Brasil e a primeira a entrar em produção fora da China.
Os depósitos de estanho dos estados de Tocantins e Goiás estão inseridos em contexto tectônico intraplaca, no qual os corpos graníticos do Tipo A fazem parte de rift intracontinental preenchido por sedimentos e vulcânicas ácidas do Grupo Araí. A recente descoberta da Aclara Resources de outro grande depósito (309,7 Mt @ 1427 ppm de óxidos de ETR) na região de Nova Roma, confirma que a província granítica intraplaca, que ocorre desde o norte de Goiás até o sul do Tocantins, constitui ambiente altamente prospectivo para ocorrência de depósitos de ETR de classe mundial. Esse contexto geológico é semelhante ao dos inúmeros depósitos de ETR em argilas iônicas formados a partir de granitos alcalinos na China. A foto abaixo mostra o professor Marini em viagem de campo à Serra Dourada em março/1984 juntamente com Nilson Botelho e o geólogo do BRGM Laurent Le Bell, quando foi feita a amostragem que resultou no trabalho sobre ETR. Participou da viagem o geólogo do BRGM, Laurent Le Bel.
Nesta fase da exploração mineral no Brasil, destacamos algumas descobertas de depósitos minerais brasileiras que estão associados a ambientes geotectônicos semelhantes aos das principais regiões produtoras de minério do planeta — como a subducção Andina, os greenstone belts de Abitibi (Canadá) e Yilgarn (Austrália). A pergunta que permanece é: por que esses ambientes no Brasil não apresentaram uma resposta mineral tão expressiva? O rift Araí, por sua vez, pode representar uma exceção, configurando-se como um ambiente geotectônico de classe mundial, com potencial para hospedar diversos depósitos gigantes de Elementos Terras Raras (ETRs).
