A terceirização de operações em mineração tem ganhado espaço nos últimos anos, acompanhando o amadurecimento do setor e a busca das mineradoras por eficiência, especialização e flexibilidade operacional. O tema foi debatido em profundidade durante o segundo debate online, com a participação de representantes de empresas líderes no segmento de serviços, consultoria e tecnologia: Paulo Bergmann, Engenheiro de Minas da GE21; Mauricio Casara, diretor Comercial de Novas Tecnologias da U&M; Gustavo Steffen, gerente de Engenharia da Fagundes Construção e Mineração; Assis Vieira, responsável administrativo-financeiro da Fagundes Construção e Mineração; Luiz Fernando Frauches, gerente Comercial da Fidens; Rogério Aguirre Dias, diretor de Operações de Mineração Subterrânea da Toniolo, Busnello; Gabriel Cota, gerente de Aplicações e Vendas LCS da Metso; e João Ribas, diretor da MovAG, empresa de mineração do grupo Andrade Gutierrez.
O encontro abordou desde os ganhos operacionais e financeiros da terceirização até os riscos contratuais, aspectos de ESG, capacitação de mão de obra, novas tecnologias, desafios da mineração subterrânea e os potenciais impactos da Reforma Tributária sobre o setor.
O debate teve início com uma reflexão sobre onde a terceirização agrega valor de forma mais imediata para as mineradoras — seja na gestão de frotas, na curva de aprendizado, na disponibilidade de equipamentos ou na redução de custos.
Rogério Aguirre Dias, da Toniolo Busnello, observou que a terceirização evoluiu de forma significativa nas últimas décadas. "Antigamente, as terceirizações se limitavam a atividades-meio. Hoje, o modelo mudou. As contratantes estão transferindo serviços que antes executavam internamente, buscando redução de despesas operacionais e maior flexibilidade administrativa", afirmou. Ele ponderou, porém, que as recentes mudanças tributárias podem afetar o equilíbrio desse modelo. "Com as novas taxações, ainda é cedo para saber como o mercado vai reagir, porque certamente haverá reflexos em impostos e tributações".

Na avaliação de Luiz Fernando Frauches, da Fidens, as mineradoras têm muito a ganhar com a terceirização da operação de mina. "A mineradora precisa se preocupar com todo o ciclo produtivo — desde o planejamento de lavra até a venda do minério, passando por licenciamento ambiental, sondagens, fechamento de mina e logística. Ao terceirizar a lavra e o estéril, ela reduz uma parte robusta do seu escopo e foca no core business", explicou.
Frauches citou casos concretos em que a terceirização resultou em reduções expressivas de custos. "Em um dos projetos, substituímos a frota antiga do cliente por equipamentos mais modernos e eficientes. Essa mudança reduziu o custo operacional em cerca de 15%, além de eliminar a necessidade de um investimento elevado em CAPEX".

Para Paulo Bergmann, da GE21, a mudança de mentalidade contratual foi determinante para o sucesso do modelo. "Antes, as contratadas buscavam volume, sem compromisso com qualidade. Isso gerava desgaste e ineficiência. Hoje, há uma relação de parceria, com indicadores de produtividade e custo atrelados ao desempenho, e a contratada participa do resultado", destacou.
Ele ressaltou ainda que, no Brasil, boa parte das mineradoras é de pequeno e médio porte, sem capacidade para imobilizar capital em frotas. "As terceirizadas entram com equipamentos modernos e expertise em manutenção, garantindo alta disponibilidade e reduzindo o CAPEX. Além disso, possuem mão de obra treinada e pronta para mobilização, o que reduz o tempo de ramp-up e aumenta a eficiência".

Gustavo Steffen, da Fagundes, complementou que, em muitos casos, a terceirização é a única forma de viabilizar projetos. "Há empresas que simplesmente não têm capital para investir. A terceirização permite tirar o projeto do papel. Em outros casos, ela não só reduz custos, mas aumenta ganhos — ampliando reservas, otimizando processos e estendendo a vida útil da mina", disse.
Assis Vieira, também da Fagundes, reforçou o argumento de Steffen: "A terceirização transforma custos fixos em variáveis. Diante das oscilações de mercado e de clima, é uma forma inteligente de compartilhar riscos com o prestador de serviço".
Para Gabriel Cota, da Metso, o modelo de parceria é fundamental. "Costumo dizer que a Metso sofre o que o cliente sofre. Estamos lá, operando e mantendo as plantas lado a lado com ele. A terceirização só faz sentido se entrega resultado", afirmou. Ele explicou que o modelo de "britagem como serviço" — carro-chefe da Metso — proporciona previsibilidade financeira e elimina.
Mauricio Casara, da U&M, acrescentou que a especialização é a base do sucesso. "A movimentação de mina é crucial, mas não é o coração do negócio da mineradora. É uma atividade que se resolve muito bem
"As variáveis intangíveis — como segurança, disponibilidade e risco — muitas vezes não cabem em uma planilha, mas fazem toda a diferença".
João Ribas, da MovAG, destacou a relevância da gestão de pessoas. "O coração desse negócio é a manutenção, mas a gestão de mão de obra e equipes complexas é o que realmente diferencia o prestador de serviço. A padronização e a disciplina na mobilização de pessoas são fatores críticos para garantir eficiência e segurança".

Riscos operacionais e cláusulas contratuais
Ao abordar o tema dos riscos e cláusulas contratuais, o grupo convergiu na importância de um estudo técnico detalhado e de contratos bem estruturados.
Para Gabriel Cota, da Metso, o desafio é construir a solução em conjunto com o cliente. "Estudamos o material, a previsibilidade de mina e a variabilidade do minério. Essa oscilação impacta diretamente a performance das plantas. Por isso, definimos KPIs claros — sejam de produção, qualidade ou disponibilidade — em comum acordo com o cliente. É um processo técnico e colaborativo", explicou.
Paulo Bergmann observou que muitos riscos decorrem da falta de definição adequada dos parâmetros operacionais. "Há casos em que o planejamento de lavra não corresponde à realidade da mina, gerando incompatibilidade entre o ciclo produtivo e a capacidade dos equipamentos. Isso leva a subdimensionamentos e disputas contratuais", disse.
Casara reforçou que o risco é inevitável, mas deve ser conhecido e discutido. "O contrato precisa ser feito para não ser usado. Quando todos os riscos são levantados, estudados e mitigados, o contrato vira uma referência, não uma fonte de conflito", observou.

Gustavo Steffen complementou que o detalhamento técnico e o alinhamento entre contratante e contratada são fundamentais para o sucesso operacional. "Planejamentos irreais ou informações incompletas sobre o corpo mineral são armadilhas. Quanto mais precisão e transparência, menor a chance de falhas", afirmou.
Para João Ribas, o ponto central é o momento de tratar o risco. "Ele deve ser endereçado antes do contrato, não quando se materializa. As operações de mineração funcionam 24 horas, sete dias por semana. Uma discussão prolongada durante a execução pode ser mais danosa que o risco em si", advertiu.
ESG: responsabilidade compartilhada e métricas integradas
Com o avanço da pauta ESG (ambiental, social e governança), as empresas terceirizadas vêm ampliando suas práticas e métricas. João Ribas afirmou que o ESG se tornou uma pauta prioritária na MovAG. "Temos um acervo interno de boas práticas que circulam entre as operações. Em termos ambientais, seguimos rigorosamente as licenças e implementamos contrapartidas locais. No social, investimos na formação de mão de obra local e em programas de qualificação. Na governança, adotamos certificações e sistemas de gestão padronizados, integrando todas as áreas do grupo Andrade Gutierrez", explicou.
Gabriel Cota, da Metso, destacou a transição para tecnologias mais limpas e circulares. "Trabalhamos com reciclagem de peças e aproveitamento de materiais, reduzindo a necessidade de novas fabricações. Estamos introduzindo máquinas híbridas e elétricas, com menores emissões. Também investimos em centros de monitoramento remoto, com sensores e câmeras que aumentam a segurança e reduzem a exposição de pessoas", relatou.
Para Mauricio Casara, da U&M, a essência do ESG sempre esteve presente. "Mesmo antes da sigla, já tínhamos a preocupação com eficiência e ética. O 'E' está na redução do consumo de combustível e na manutenção eficiente; o 'S' na formação de pessoas e inserção comunitária; e o 'G' na governança e transparência, que são a base da confiança entre cliente e prestador", disse.
Frauches reforçou que a Fidens adota métricas específicas de redução de consumo de diesel por metro cúbico movimentado, contratação de mão de obra local e diversidade. "Em algumas operações, 70% a 100% da equipe vem das comunidades próximas. Isso reduz impactos e gera desenvolvimento local", afirmou.
Capacitação e desenvolvimento de mão de obra

A escassez de profissionais qualificados é outro desafio para o setor. Casara explicou uma política semelhante, com foco em formação local. "Treinamos profissionais da própria região do projeto. Isso reduz turnover e gera engajamento. É um ganha-ganha para a comunidade e para a empresa", comentou.
Bergmann acrescentou que, além da capacitação técnica, é essencial o alinhamento cultural entre contratada e contratante. "É preciso uniformizar práticas de segurança, meio ambiente e ESG. Treinamentos conjuntos fortalecem a cultura corporativa e evitam ruídos".
Mineração subterrânea: tendência e necessidade

Bergmann acrescentou que a migração para o subsolo é uma questão de sobrevivência. "A exaustão dos recursos a céu aberto e a redução dos teores tornam inevitável a transição. A terceirização garante confiabilidade, disponibilidade de equipamentos e flexibilidade para múltiplas frentes de lavra".
Casara complementou que, com o fim da insegurança jurídica sobre a terceirização da atividade-fim, o modelo tende a crescer também no subsolo. "Agora as mineradoras têm a opção real de contratar, o que amplia a eficiência e reduz riscos".
Outro tema central foi o papel das terceirizadas na gestão de rejeitos e descaracterização de barragens. Aguirre observou que os acidentes de Mariana e Brumadinho mudaram completamente o cenário. "As legislações ficaram mais rígidas e exigem estudos mais profundos sobre os materiais descartados. A codeposição de estéril e rejeito é uma alternativa, mas ainda requer avanços técnicos para garantir estabilidade".
Steffen ressaltou que o reaproveitamento de rejeitos é uma oportunidade de negócio e sustentabilidade. "Já realizamos projetos de remoção, tratamento e empilhamento de rejeitos com bons resultados. É uma forma segura e econômica de ampliar o uso de áreas já licenciadas e reduzir a necessidade de novas barragens".

Frauches apontou a tecnologia como aliada. "Desenvolvemos, junto a parceiros, caminhões teleoperados 30% mais eficientes para descomissionamento de barragens. Trabalhamos com a Vale na concepção de metodologias e acessos para reduzir riscos e custos", destacou.
Cota explicou que a Metso vem estudando o uso de concentração magnética como serviço para recuperar rejeitos. "Essa é uma nova frente, com grande potencial para transformar passivos ambientais em fontes de valor".
Bergmann ponderou, contudo, que o grande desafio é a escala. "Há muito mais rejeito gerado do que mercado consumidor. O aproveitamento é tecnicamente possível, mas economicamente limitado. Ainda falta um mercado consolidado para absorver esses materiais".
Ribas completou destacando a importância do empilhamento de rejeito filtrado. "É a nova realidade. Implantamos esse sistema em Aripuanã, no Mato Grosso, e fomos reconhecidos pelo Instituto Kaizen".
Tecnologia, inovação e acesso das pequenas mineradoras

Os debatedores também discutiram como a modernização das frotas e tecnologias embarcadas pode afetar o acesso das pequenas e médias mineradoras. Ribas afirmou que a terceirização é ainda mais vital para esse público. "Para pequenos projetos, transformar CAPEX em OPEX é a única forma de viabilizar a operação. A terceirização dá leveza e agilidade ao negócio".
Cota concordou, defendendo que o modelo deve atender todo o mercado. "Os pequenos e médios clientes são extremamente relevantes. Temos contratos de longo prazo com eles, que se tornaram parcerias duradouras e confiáveis".
Frauches explicou que investir em tecnologia de ponta é uma forma de aumentar a eficiência, e não um luxo. "Equipamentos modernos consomem menos diesel, são mais produtivos e reduzem custos. Essa eficiência é repassada ao cliente, o que torna o serviço mais competitivo".
Casara observou que a inovação democratiza o acesso. "Estamos desenvolvendo caminhões autônomos e híbridos para torná-los acessíveis também a minas médias. A tecnologia não deve ser privilégio dos grandes players", afirmou.
Bergmann complementou que a transparência tributária será positiva para o setor. "A simplificação tende a favorecer empresas sérias e tecnicamente estruturadas. Aquelas que operam de forma informal terão mais dificuldade em se manter competitivas".
Especialização, parceria e adaptação
O debate promovido pela Brasil Mineral mostrou que a terceirização de operações na mineração deixou de ser um tema periférico para se tornar um pilar estratégico na gestão das mineradoras. De um lado, ela oferece eficiência, agilidade, redução de CAPEX e transferência de expertise. De outro, exige governança sólida, contratos bem estruturados e integração cultural entre as partes.
Os participantes foram unânimes em reconhecer que o futuro da terceirização passa por parcerias mais maduras, foco em ESG e inovação tecnológica, especialmente diante da crescente complexidade das operações e das transformações regulatórias. A Reforma Tributária, embora ainda envolta em incertezas, pode representar um novo impulso para o modelo, tornando-o mais competitivo e sustentável.
Em síntese, a terceirização não é apenas uma alternativa operacional, mas um instrumento de modernização e evolução da mineração brasileira, alinhando eficiência econômica, responsabilidade social e governança corporativa em um mesmo horizonte.
Reforma Tributária: incertezas e perspectivas
O encerramento do debate tratou de um dos temas mais sensíveis do momento — os possíveis impactos da Reforma Tributária sobre o setor de terceirização. Casara iniciou a discussão destacando que o tema ainda é cercado de incertezas. "Não há clareza total sobre os efeitos práticos, mas acreditamos que a terceirização tende a ser beneficiada, já que o novo sistema elimina a cumulatividade de impostos como PIS, Cofins e ISS. Mesmo com carga maior, a sistemática não cumulativa pode reduzir o custo final dos serviços", avaliou.
Ribas acrescentou que é um momento de observação. "Precisamos entender como a reforma afetará contratos em vigor e qual será o impacto sobre margens e precificação. O importante é acompanhar de perto e adaptar modelos de negócio rapidamente".
