Até pouco tempo atrás, quem falava de Quatro Barras — uma cidade de pouco mais de 20 mil habitantes, a apenas 25 km de Curitiba — lembrava-se de um refúgio de natureza exuberante, com paisagens memoráveis e espaços para esportes radicais em meio a um clima de tranquilidade. Mas, na madrugada de 12 de agosto, às 5h30, um estrondo devastador rompeu esse silêncio e deixou marcas que jamais serão esquecidas. A explosão na fábrica da Enaex, especializada em insumos para detonação de rochas na mineração, matou três mulheres e seis homens, deixou outras sete pessoas feridas e transformou o município no local do mais grave acidente do tipo já registrado no Brasil.
Considerada uma das melhores cidades para se viver no Paraná, Quatro Barras viu sua rotina pacata ir pelos ares. Moradores atônitos depararam com janelas estilhadas.
çadas e telhados desabando em suas casas ou nas de vizinhos. O estrondo, ouvido a quilômetros de distância, foi seguido pelo barulho das sirenes e pelo piscar incessante das viaturas de bombeiros, policiais e equipes de emergência, que tomaram as ruas e reforçaram o clima de tensão e medo.
A tragédia colocou a cidade no noticiário nacional — não pelas belezas naturais de que se orgulha, mas pelos danos humanos e materiais da explosão. Peritos da Polícia Científica do Paraná destacaram a violência do impacto: a fragmentação dos corpos exigiu um trabalho de identificação minucioso, envolvendo cerca de mil vestígios analisados com protocolos internacionais. Paralelamente, especialistas ambientais chamavam atenção para a necessidade urgente de monitorar os efeitos no entorno, especialmente no solo, onde se abriu uma enorme cratera no epicentro da explosão.

Produzir detonantes sempre foi uma atividade de risco, e a história está repleta de episódios trágicos. Em 1907, nos Estados Unidos, a antiga planta da Cleveland Powder Company — incorporada anos antes pela Austin Powder — foi destruída por uma explosão. Mais de um século depois, em 2009, a mesma Austin Powder — que ingressou no mercado brasileiro em 2022 adquirindo a Nitrosul, em Minas Gerais — voltou às manchetes quando sua planta Red Diamond, em Ohio, explodiu, ferindo três trabalhadores, um deles fatalmente após complicações.
Na década seguinte, episódios semelhantes se repetiram em diferentes países, muitas vezes com os mesmos protagonistas. Em 2011, uma explosão de nitroglicerina destruiu um prédio da Explosia, na Tchéquia, matando quatro pessoas; em 2019, outra explosão na mesma empresa voltou a fazer vítimas. A Orica também acumulou tragédias: em Antofagasta, no Chile, um acidente matou um trabalhador em 2012 e outro, em 2016, deixando duas vítimas fatais; em 2017, uma unidade da companhia na Suécia registrou mais uma morte.
No Brasil, a trajetória da Enaex ajuda a revelar como o risco acompanha de perto a indústria de explosivos. Sucessora da antiga Britanite, a empresa já havia registrado, em 2004, uma explosão em sua unidade de Quatro Barras (PR) que matou dois trabalhadores. Mais de vinte anos depois, em 2025, a mesma cidade voltaria a ser palco da mais grave tragédia do setor, quando uma nova explosão deixou nove mortos e sete feridos. A Orica também acumulou episódios marcantes: em Lorena (SP), uma explosão em 2004 matou quatro pessoas e feriu oito, e em 2010 a mesma planta voltou a explodir, felizmente sem vítimas. Ao contrário do ditado popular, na indústria de explosivos para mineração o raio cai mais de uma vez no mesmo lugar.
Acidentes graves costumam provocar forte comoção e cobrança por respostas à altura das vidas perdidas. A dor das famílias e a pressão social têm sido motores para transformações regulatórias e avanços tecnológicos que, ao longo do tempo, tornaram os processos mais controlados e as exigências de segurança mais rigorosas. No Brasil, tragédias ocorridas na década de 1990 também impulsionaram mudanças na legislação, ampliando as exigências de licenciamento e incorporando a necessidade de planos de emergência voltados à proteção das comunidades vizinhas.
Ainda assim, como mostrou o Ministério Público do Paraná, há muito por fazer. Logo após a explosão, o MPPR emitiu uma recomendação administrativa dura à Enaex e à Prefeitura de Quatro Barras. À empresa, exigiu a suspensão imediata das operações até liberação dos órgãos competentes, sob pena de interdição judicial, além da entrega de relatórios pós-sinistro, planos de risco, protocolos de segurança, auditorias internas, apólices de seguro e lista nominal dos funcionários com seus estados de saúde. À Prefeitura, determinou o isolamento preventivo do entorno, a divulgação de planos de evacuação e pontos de apoio, a revisão da distância de segurança entre a fábrica e as moradias vizinhas, além da atualização do Plano Diretor e do Plano de Contingência Municipal.
A mineração é uma atividade indispensável para a economia e para a vida moderna. Dela dependem setores inteiros: o ferro e o cimento sustentam a construção civil; o cobre, o lítio e o níquel são fundamentais para a transição energética e a produção de baterias; o silício e as chamadas terras raras impulsionam a indústria eletrônica e de tecnologia da informação; enquanto minerais como o titânio e o vanádio têm aplicações essenciais em equipamentos médicos e no setor farmacêutico. Ao mesmo tempo em que sustenta economias e estilos de vida, essa cadeia opera sob riscos elevados. É uma indústria que lida, literalmente, com processos explosivos e, por isso, precisa estar cada vez mais atenta e vigilante em relação aos padrões de segurança. Hoje, a cobrança da sociedade é crescente, e os parâmetros de ESG se tornaram referência obrigatória para medir não apenas o desempenho econômico, mas também a responsabilidade ambiental, social e de governança. O caso de Quatro Barras reforça que, nesse setor, não basta produzir: é preciso demonstrar, de forma transparente e contínua, que vidas e a saúde das comunidades importam.

