No período de 1970 a 1988, o Brasil viveu fase intensa de atividade exploratória mineral. Diversas empresas, tanto internacionais quanto nacionais (privadas e estatais), competiam entre si, realizando aerolevantamentos, estudos geoquímicos e mapeamento geológico em várias regiões do país. A lucidez jurídica do Código de Mineração de 1967, permitia a coexistência entre os capitais privados nacionais e internacionais, criando ambiente dinâmico e competitivo para a prospecção mineral. Mas o fato é que fora de Carajás, não era fácil para os exploracionistas independente se brasileiros ou estrangeiros, montares seus programas exploratórios visando depósitos de classe mundial.
Os resultados obtidos nesse período, no qual o conhecimento geológico detalhado ainda não era essencial, mostraram-se menos expressivos do que o esperado, embora algumas descobertas importantes tenham ocorrido, como o jazimento aluvionar de Pitinga, descoberto pela equipe da CPRM de Manaus, quando da verificação no campo de estrutura circular vista em imagem do Radam. Adicionalmente foram encontrados o depósito primário de estanho e nióbio de Pitinga (281 Mt @ 0,15% de Sn, 0,203% de Nb2O5 e 0,028% de Ta2O5), no Amazonas, então pertencente à Paranapanema, terras raras (ETR) e nióbio de Seis Lagos (2897,9 Mt @ 2,81% de Nb2O5), no mesmo estado, e o fosfato de Rocinha (415 Mt @ 10 a 15% de P2O5), em Minas Gerais, também descoberto pela CPRM.
Quando chegou para atuar na SUREG de Manaus da CPRM, o geólogo João Orestes já possuía amplo conhecimento sobre os critérios prospectivos e depósitos de estanho em Rondônia. Com essa experiência, participou da seleção de anomalias circulares no estado do Amazonas identificadas em fotografias aéreas, que posteriormente foram verificadas em campo. Muitas dessas anomalias estavam associadas a granitos relacionados a rochas vulcânicas intraplaca, que recobrem extensas áreas do Craton Amazônico. Foi durante essas atividades que a equipe de campo liderada pelo geólogo Veiga descobriu o depósito aluvionar de Pitinga, por meio de levantamento de concentrado de bateia.
Neste período, muitas empresas, especialmente empreiteiras e grandes multinacionais, não alcançaram resultados significativos em seus programas exploratórios. Muitas vezes o insucesso era justificado pela falta de mapeamento geológico básico. O governo respondeu corretamente intensificando os mapeamentos realizados pela CPRM. Entretanto, a criação do Projeto Radam, no meu modo de ver foi desnecessária criando mais despesas para o Estado. A Nuclebras foi criada em 1974, visando ao desenvolvimento de programa exploratório em todo território brasileiro, que consistia fundamentalmente na verificação de anomalias aerogamaespectrométricas no campo. Dessa maneira, foram descobertos vários pequenos e médios depósitos com destaque para Itataia (CE), em 1976, e Lagoa Real (BA), em 1977.
O Grupo Rio das Velhas, no Quadrilátero Ferrífero, em Minas Gerais, estava inteiramente coberto por requerimentos da Anglo American, assim como Carajás era dominada pela CVRD. Nesse cenário, empresas, como BHP, BP Minerals, Falconbridge e Phelps Dodge enfrentavam dificuldades para se posicionarem em ambientes geológicos reconhecidamente férteis. Em 1970, liderado pelo geólogo Wilson Scarpelli, a Icomi identificou uma anomalia de chumbo, no Estado do Amapá, por meio de amostras de solo. Entre 1977 e 1978, a Unigeo (subsidiária brasileira da Anglo American) fez o follow-up da anomalia com coleta adicional de amostras de solo e sondagem. A anomalia foi melhor definida como trend para Pb-Zn-Cu. No início de 1994, a Unigeo retomou a pesquisa, e Élio Horikava visitou o garimpo de ouro do Marivaldo, desenvolvido em disseminação leve de pirita em Formações Ferríferas Bandadas (BIF, em inglês). Posteriormente, Olavo Caramori coletou 30 mil amostras de solo na área, definindo o trend mineralizado de Pedra Branca do Amapari, hoje chamado Tucano.


A foto apresenta, à esquerda, feições de mineralizações auríferas associadas a intenso cisalhamento e sulforização, em rochas metavulcânicas e metapiroclásticas pertencentes a sequências vulcanossedimentares (greenstone belts) do Amapá. À direita, estão o geólogo Scarpelli e um geólogo da Mineração Morro Velho, durante atividades de campo no Amapá. Scarpelli liderou uma vitoriosa equipe de exploracionistas, responsável por diversas descobertas de ouro no Brasil.
A Mineração Morro Velho (MMV), tendo Wilson Scarpelli como líder da exploração e com trabalhos de campo liderados por Vitório Takai, desenvolveu atividades exploratórias em toda a área do Grupo Nova Lima, em Minas Gerais. Os depósitos de ouro de Engenho d'Água, Cuiabá (30 Mt @ 6 g/t Au), Lamego (6,63 Mt @ 5,45 g/t Au) e Raposos (10 Mt @ 6,5 – 9,0 g/t Au) constituem redescobertas fruto do detalhamento estrutural e de amostragem sistemática, liderada por Luís Pitu, em trabalhos antigos na região próxima à Fazenda Engenho d´Água, em Rio Acima. As atividades, executadas ao longo do tempo por várias equipes da MMV (joint-venture entre Anglo American e Mineração Morro Velho/Banco Bozano, Simonsen), justificaram campanhas de sondagem e culminaram com a reabertura da mina de Cuiabá em 1985.

A fotografia mostra bandas de pirita intercaladas com metacherts carbonosos e vênulas de quartzo. Durante anos, essa feição foi tema de importantes debates sobre a gênese das mineralizações auríferas do Quadrilátero Ferrífero, especialmente nos depósitos de Morro Velho e Cuiabá. Para alguns autores, a mineralização seria singenética, originada por precipitação exalativa em assoalho oceânico basáltico. Para outros, tratava-se de uma mineralização epigenética, associada a processos tardios de sulforização por devolatização metamórfica. A partir dos trabalhos do professor Groves no final da década de 80 as mineralizações de ouro em greenstone belts mundiais passaram a ser genericamente denominadas de "orogenic gold".

Os depósitos Turmalina, Satinoco, Faina e Pontal (que juntos somam recursos medidos e indicados de 5,48 Mt @ 4,42 g/t Au e inferidos de 3,64 Mt @ 3,94 g/t Au) foram descobertos pela Unigeo-MMV, na região de Conceição do Pará (MG), a partir de trabalhos de exploração geológica e geoquímica realizados no período de 1980 a 1995. Naquela época, não havia escavações superficiais nem evidências de atividades de garimpo artesanal histórico. Na minha opinião, esses depósitos podem estar relacionados ao robusto processo epitermal que ocorre na porção oeste do Quadrilátero Ferrífero, marcada pelas extensas zonas de pirofilita.

Em 1976, a RIO FINEX, realizando trabalhos de follow-up em uma anomalia magnética próxima à cidade de Ipiaú, na Bahia, identificou corpos máfico-ultramáficos com possibilidades para depósitos de níquel. As atividades prospectivas revelaram anomalias de níquel em solo, que foram testadas por sondagens, porém os resultados foram considerados negativos. Em 1987/1988, a empresa Caraíba retomou o interesse pela área, sob a liderança do geólogo Paulo Roberto Carvalho. Na ocasião, Alexandre Magno Rocha da Rocha, responsável pelos estudos geoquímicos, observou que a anomalia geoquímica em solo laterítico tratava-se de solo transportado. Uma nova campanha de geoquímica em poços levou a descoberta do corpo de sulfeto encaixado em rochas ultramáficas. Com o apoio dos trabalhos de geofísica, conduzidos por Eduardo Paixão de Sá IP, foi possível definir uma nova campanha de sondagem, que identificou a extensão e geometria do corpo de sulfeto da descoberta do depósito magmático de Ni-Cu. Posteriormente, a empresa australiana Mirabela quantificou os recursos da jazida em aproximadamente 130 Mt com teor médio de 0,60% Ni, 0,16% Cu e 0,09 g/t Pt.

A partir da caracterização da sequência vulcano-sedimentar Contendas-Mirante como um greenstone belt, realizada por Mascarenhas, a equipe da CBPM conduziu trabalhos prospectivos na região de Maracás (BA). Esses estudos resultaram na identificação de diversos corpos máfico-ultramáficos, entre eles o sill do Jacaré, que contém níveis de magnetititos com teores de V2O5 variando entre 2,2% e 4,5%. A mina de Maracás é a única produtora de vanádio de alto teor na América Latina, sendo operada pela Largo Resources.
Tadeu Veiga se formou em Geologia na UnB em 1978 e foi contratado pelo geólogo Elmer Salomão para trabalhar na Geos, empresa de consultoria e serviços sediada em Brasília. Em seu primeiro projeto de campo, foi enviado para pesquisar cobre e chumbo no Vale do Ribeira para a Mater Mineração, sob orientação do geólogo Kenro Matsui, então sócio da Geos. Kenro e Tadeu começaram a pesquisa em 01/05/1979, Dia do Trabalhador, visitando afloramentos conhecidos nas áreas, incluindo ocorrência de fluorita próxima ao rio. Ficaram intrigados com brechas encontradas nas proximidades, em faixa de rochas carbonáticas adjacentes a granito. Kenro levou amostras para análises petrográficas em São Paulo, que indicaram tratar-se também de fluorita. Isso definiu alvo importante para detalhamento e resultou na reorientação da pesquisa. Rapidamente, foram executadas trincheiras e sondagens que confirmaram a existência de jazida grande e peculiar, lavrada pela Mater a partir de 1983 e depois adquirida pelo Grupo Votorantim.

A Docegeo, em 1985, retomou a exploração regional no Nordeste. Florivaldo Sena, Monte Lopes e Fratin analisaram os dados existentes da CPRM (1:250.000) visando à seleção de alvos regionais para cobre. A experiência da equipe com as mineralizações IOCG em Carajás levou à seleção de ocorrências de ferro, que poderiam estar também associadas a cobre e ouro. Iniciaram a verificação de campo com visitas aos afloramentos em Alagoas, no Complexo Máfico-ultramáfico de Arapiraca. O afloramento selecionado por anomalia de Mag era pequena catação de minério de ferro associado a biotitito, utilizado em cerâmica local para pigmentação. Visualmente, a amostra não tinha qualquer evidência de cobre. Os resultados analíticos, no entanto, apontaram teores de até 5% Cu. Trabalhos exploratórios adicionais, incluindo gravimetria e sondagem, permitiram a quantificação de depósito de cobre com 45 Mt @ 0,6% Cu. A empresa junior Aura Minerals, sob a liderança de Carlos Bertoni, reavaliou o depósito, quantificando 170 Mt @ 0,5% Cu, 0,1 g/t Au e 15% Fe. A Mineração Vale Verde estima que a vida útil da mina nesse depósito seja de 14 anos. A redescoberta do depósito de cobre constitui mais um clássico exemplo da complementariedade entre os trabalhos básicos do Serviço Geológico do Brasil (SGB-CPRM), a participação de empresa major em programas exploratórios regionais (no caso, a Vale, que repassou o prospecto) e a capacidade operacional da empresa junior (Aura Minerals, que, com persistência, aumentou o recurso mineral).

O geólogo Gilberto Meneguesso, trabalhando pela Prospec, mapeou a Folha Monte Azul-Azul. Ao estender suas observações geológicas até a região de Riachos dos Machados, ele caracterizou uma sequência vulcanossedimentar pré-Espinhaço, com evidências de trabalhos antigos de ouro. Meneguesso deixou a Prospec e foi trabalhar para a Docegeo em Goiânia. Em conversas telefônicas com Ysao Munemassa, responsável pela exploração no distrito da Docegeo em Belo Horizonte, Meneguesso sugeriu a aplicação de programa exploratório para ouro na sequência recentemente caracterizada. Em seguida, Ysao enviou Cláudio Magalhães e o consultor Tomaz Cheney para avaliar a área. Eles recomendaram os requerimentos e os trabalhos prospectivos, que culminaram na descoberta da mina de Riacho dos Machados (17Mt @ 1g/t).
Na década de 1990, a Docegeo implementou programa prospectivo (magnetometria, gamaespectometria, gravimetria, TEM, IP, NSAMT e CSAMT), visando ouro na janela estrutural do Bloco Itacambira-Monte Azul. A verificação no campo de anomalias de zinco (310 ppm) e chumbo em sedimentos de corrente no córrego Salobro levou à identificação de gossan pelo geólogo Francisco Abreu. Em seguida foi identificado anomalia de zinco em solo com 2500 ppm por 200 m. Programa de sondagem (14 mil metros) resultou na definição de um depósito de zinco com recursos de 8 Mt @ 7% (Zn+Pb). Em 1999, trabalhei no projeto, tentando estabelecer o modelo genético da mineralização e sua possível reprodutividade regional. Consideramos que a sequência encaixante da mineralização era essencialmente sedimentar, e a mineralização exalativa mostrava notórias similaridades com depósitos do tipo SEDEX. No entanto, essa abordagem não teve qualquer impacto no andamento do projeto, uma vez que os trabalhos exploratórios conduzidos por Francisco R Abreu, Fernando A Crocco, Fernando L L Cançado, Juliano D Maciel, Florivaldo Sena e Maurício M Ramos esgotaram as possibilidades para um eventual aumento das reservas.

A descoberta do depósito Santa Maria, no distrito de Minas do Camaquã – Caçapava do Sul (RS) decorre de mudança de modelo prospectivo das mineralizações, principalmente cupríferas associadas a filões sub-verticais. Com a descoberta de mineralizações estratiformes do depósito do Cerro dos Martins pela Rio Doce Geologia e a Doce, no início de 1977, mudaram a visão e testaram a possibilidade de mineralizações sedimentares singenéticas. Desta forma, a equipe de geólogos da Companhia Brasileira do Cobre (CBC), incluindo o geoquímico e hoje professor, Otávio Licht, realizaram campanhas de sedimento de corrente, solo e rocha. Devido à baixa mobilidade devido às barreiras geoquímicas, a sobreposição das anomalias de Pb, Zn e Cu e a perfuração dessas anomalias, levaram a descoberta do depósito Santa Maria – 33.4 Mt @ 1.44% Pb e 1.06% Zn. Ao final da primeira década dos anos 2000, a Nexa Resources (antiga Votorantim Metais) realizou trabalhos de pesquisa mineral e reavaliação da jazida.

Os professores José C. M. Danni e Marcelo Ribeiro, da Universidade de Brasília (UnB), mapearam pequenos corpos máfico-ultramáficos na borda da Serra Dourada, em Goiás. Em um desses corpos foram identificados gossans associados a sulfetos de Cu-Ni, posteriormente sondados pela empresa Metago. Com base nos trabalhos conduzidos pelos geólogos Moacir, Elias e Bressan, foram descobertos pequenos depósitos de sulfetos de níquel e cobre, com destaque para o depósito Americano do Brasil, que apresenta recursos da ordem de 3 Mt @ 1,12% Ni, 1,02% Cu e 662 ppm Co. A tipologia dos complexos máfico-ultramáficos Fronteira, Mangabal I e II e Americano do Brasil sempre despertou interesse acadêmico. Quando atuava como petrógrafo na Metago, considerei que esses complexos apresentavam feições semelhantes às dos corpos máfico-ultramáficos do Kotalahti Belt (73 Mt @ 0,6 % Ni, 0,3 % Cu e 0,03 % Co), na província Svecofenniana, localizada na margem do cráton da Finlândia.
Com a posterior definição do Arco Magmático de Goiás, tornou-se evidente que os pequenos corpos máfico-ultramáficos da borda da Serra Dourada fazem parte de um magmatismo cálcio-alcalino gerado em zona de subducção. A mineralização sulfetada está associada a processos de imiscibilidade de sulfetos em magmas basálticos magnesianos, originados possivelmente em cunha litosférica suprasubducção. Esses complexos apresentam zonamento interno e são sintectônicos, tendo evoluído por fracionamento magmático sob altas pressões de água, como evidenciado pela presença de peridotitos com hornblenda. Essa condição geológica é compatível com um ambiente de metassomatismo mantélico induzido por fluidos liberados da placa oceânica subductada, no contexto da formação do Arco Magmático de Goiás.

A imagem à esquerda apresenta feições texturais dos sulfetos de níquel e cobre do depósito Americano do Brasil, extraída da tese do geólogo Jonas Mota e Silva, sob orientação do professor Cesar F. Filho. À direita, observa-se uma lâmina delgada de hornblenda-peridotito, evidenciando a cristalização intercumulus de anfibólio, indicativa de formação de magmática sob alta pressão de água, condição típica de ambientes associados à subducção.

Em sua porção externa, o Orógeno Brasília é marcado por intensa aloctonia, delineando a borda leste do Cráton do São Francisco. A região de Paracatu-Luziânia produziu ouro desde o século XVIII por meio de garimpagem em veios e colúvios de quartzo. Nas proximidades da cidade de Paracatu havia um prospecto que foi vendido pela Billiton para a Rio Tinto por meio milhão de dólares. O prospecto foi transformado em depósito de classe mundial com 15 milhões de onças devido a uma competente sequência de procedimentos inovadores, sob o firme comando gerencial de Antônio Zini, desde o processo de recuperação de ouro de baixo teor por flotação até a quantificação das reservas pela inovadora sistemática de amostragem conduzida pelos geólogos Rubem Forlin e Paulo Andreazza (foto abaixo).

O depósito de Morro do Ouro (recursos residuais de 309,7 Mt @ 0,3 g/t Au) é o maior depósito de ouro do Brasil, possuindo características geológicas únicas. O geólogo Helton Pereira atuou como verdadeiro exploracionista ao convencer a Rio Tinto a fazer a aquisição de um simples garimpo em ambiente geológico aparentemente trivial e sem similares para comparações. O depósito está encaixado nos filitos carbonosos da base da Formação Paracatu, no Grupo Canastra. Flávio Freitas-Silva, em sua tese de doutorado "Metalogênese do Depósito do Morro do Ouro, Paracatu – MG", orientada pelo Prof. Dardenne, estabeleceu controles litoestratigráfico, estrutural e metamorfogênico como fundamentais para a mineração.
A foto em seguida mostra as principais feições da mineralização de ouro de Paracatu. É possível ver um forte empurrão segregação e formação de boudins de quartzo e sulfetos em metapelitos carbonosos. No detalhe um boudin de quartzo, arsenopirita e ouro.

A descoberta moderna do depósito de ouro de São Francisco no município de Brejo da Madre de Deus no Pernambuco, se deve aos trabalhos de exploração feitos por pela Serra Verde Mineração, que mais tarde foi adquirida pela Aura Minerals. O ouro ocorre em veios de quartzo hospedados em rochas metamórficas, associados a zonas de cisalhamento, típicos de depósitos orogênicos (um modelo comum no Brasil). O fator determinante para a redescoberta foi a resiliência. Durante o ciclo do ouro no Brasil, os bandeirantes e exploradores procuraram metais preciosos em diversas áreas do Nordeste, e documentos históricos apontam que pequenas lavras chegaram a ser abertas em Pernambuco. No entanto, por razões logísticas e pela dificuldade de exploração em larga escala, essas jazidas foram abandonadas ou esquecidas ao longo do tempo.

Embora não haja registros públicos detalhados sobre os geólogos ou equipes específicas responsáveis pela identificação inicial das ocorrências de cromita no Vale do Jacurici, é plausível que a própria FERBASA tenha conduzido os trabalhos de prospecção e pesquisa mineral que levaram à descoberta e subsequente explotação desses depósitos. A exploração na região começou em 1973, tendo como resultado a abertura da mina Ipueira pela FERBASA. O complexo máfico-ultramáfico do Vale do Jacurici é composto por diversos corpos mineralizados, incluindo o corpo Várzea do Macaco, que hospeda o principal depósito de cromita do Brasil, com reservas estimadas em mais de 40 milhões de toneladas. Ambas as regiões estão inseridas no Cráton do São Francisco. Os depósitos de cromita estão associados a intrusões máfico-ultramáficas acamadadas, formadas por rochas como peridotitos e noritos posicionadas em terrenos cratônicos. A exploração na região começou em 1973, com a abertura da mina Ipueira pela FERBASA.

A descoberta do depósito de fosfato em Angico dos Dias, localizado no município de Campo Alegre de Lourdes, no noroeste da Bahia, remonta à década de 1970. Esta descoberta decorre dos programas de mapeamento desenvolvidos pela Companhia Baiana de Pesquisa Mineral (CBPM). O Projeto Piauí I, em 1973, identificou minérios de ferro, titânio e vanádio de Campo Alegre de Lourdes. Na década de 1980, após a identificação de fosfato na região, os estudos passaram a focar na investigação econômica das rochas do Complexo Metacarbonatítico de Angico dos Dias. Em 1984, a Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração (CBMM), por meio do Programa Carbonatitos, realizou pesquisas geológicas que resultaram na caracterização das rochas do complexo como compostas predominantemente por carbonatitos, sienitos, piroxenitos, dioritos alcalinos e lamprófiros metamorfizados. A partir de 1997, com a conclusão do mapeamento geológico e metalogenético das folhas de Campo Alegre de Lourdes e Peixe, as informações coletadas demonstraram de forma definitiva a importância do depósito de fosfato de Angico dos Dias (15,4% de P2O5).
A descoberta dos depósitos de silvinita em Sergipe ocorreu na década de 1970, durante campanhas de perfuração conduzidas pela Petrobras na Bacia Sergipe-Alagoas. Inicialmente focadas na exploração de petróleo, essas perfurações revelaram a presença de sais potássicos, como silvinita e carnalita, em profundidades de aproximadamente 450 metros, localizados nos municípios de Rosário do Catete, Carmópolis e Santa Rosa de Lima. As reservas de silvinita em Sergipe são estimadas em aproximadamente 508 milhões de toneladas, com teor médio de 9,7% de K2O. No entanto, as reservas efetivamente lavráveis são menores devido a fatores geológicos e operacionais.
A questão do diamante no Brasil sempre suscitou questionamentos e paixões. O país possui extensas áreas cratônicas e cerca de duas centenas de corpos kimberlíticos, alguns de grandes dimensões — como o Redondão, descoberto por acaso durante uma sondagem da Petrobras (veja foto abaixo). Há ainda ampla ocorrência de diamantes em sedimentos meso e neoproterozoicos, além de registros significativos ao longo do Fanerozoico. A distribuição dos diamantes aluvionares é extensa, frequentemente associada a províncias kimberlíticas como Juína, Paranatinga e Pimenta Bueno, dispostos ao longo de grandes lineamentos translitosféricos, como o AZ 125 e Transbrasiliano. Os drenos diamantíferos do Jequitinhonha (MG) e de Juína (MT) produziram milhares de quilates, enquanto nos rios Santo Inácio, Santo Antônio e Douradinho, no Triângulo Mineiro, foram encontradas dezenas de pedras com mais de 100 quilates — algumas atingindo até 600 ct. Esses drenos nascem em platôs cobertos por extensas lavas alcalinas e corpos kamafugíticos e kimberlíticos.
Sempre nos preocupou, no entanto, que quase todos os kimberlitos testados com amostragem de grande volume revelaram-se estéreis, e muitos deles ocorrem em orógenos marginais aos cratons. De forma predominante, a geoquímica dos minerais indicadores analisados no Brasil mostra que os kimberlitos atravessaram espessuras da litosfera insuficientes para amostrar diamantes em quantidades econômicas. O nível de depleção das granadas — especialmente as G10 — é geralmente muito baixo ou ausente. Essas granadas só foram encontradas em pequena quantidade nas regiões de Pimenta Bueno (RO) e Pará de Minas (MG). As granadas eclogíticas também não apresentaram indicações favoráveis consistentes. Esses dados sugerem que os crátons brasileiros podem ter passados por processos tardios de destruição de suas quilhas litosféricas, seja por erosão térmica, seja por forte atividade metassomática, o que comprometeu sua capacidade de preservar diamantes primários.
A De Beers manteve por aproximadamente 40 anos, de forma contínua, amplo programa exploratório para diamantes no Brasil, seguindo sua inflexível tradição de rastrear minerais indicadores. Durante décadas, dedicados geólogos, incluindo o icônico Francisco de Assis Silva, e muitos outros profissionais cobriram praticamente todo o território brasileiro com concentrado de bateia, descobrindo as províncias de Juína, Paranatinga, Pimenta Bueno, Nordestina, contendo um total de cerca de duzentos kimberlitos e milhares de "kimberlitoides" (nome impreciso usado pelas equipes de campo). Grande parte das descobertas de kimberlitos no Brasil foram feitas por exímios prospectores como os irmãos França (veja foto). No entanto, apesar desse esforço monumental, a De Beers não conseguiu viabilizar um depósito primário economicamente viável. A figura abaixo mostra a ampla área de dispersão de diamantes aluvionares quase sempre associados com corpos kimberliticos. Guilherme Gonzaga passou parte da sua vida dedicado ao estudo dos sistemas glaciais e seus mecanismos de dispersão de diamantes, tentando decifrar o enigma dos diamantes brasileiros – drenagem diamantífera, kimberlito estéreo.
Elpídio Reis diretor da Rio Tinto no Brasil consegui convencer o board que ainda era possível descobrir um deposito porte Rio Tinto no país. A equipe da Rio tinto tinha como consultores Warren Atkinson e Chris Smith, protagonistas da descoberta do maior depósito mundial de diamante – Argyle, na Austrália. Elpídio e o Gustavo Gomes, juntos com a equipe especializada da CRA decidiram montar um laboratório para recuperar microdiamante e usar extensivamente levantamentos aeromagnéticos. A preocupação era não repetir o que a De Beers tinha feito. Assumi a coordenação quando o Pedro Jacobi se tornou gerente geral. A equipe era pequena, e contando principalmente com o Osvaldo Waissel, Antônio Rabelo, Jones Belther, Renato Cordani, Brito e Francisco Brasil. Descobrimos vários novos corpos de kimberlitos alguns em forma de caldeiras cobertos por sedimentos mais jovens, em províncias previamente descobertas pela De Beers. Alguns kimberlitos eram diamantíferos, mas não econômicos. Essa foi a situação de Paranatinga, Juína e Pimenta Bueno. Na seção geológica feita pelo Osvaldo na figura abaixo é possível ver pulsos kimberliticos de diferentes idades sendo os mais antigos em Colorado e Pimenta Bueno e o mais jovem Juina (92 Ma). Em Pimenta Bueno, Cordani separou pela assinatura magnética dos corpos kimberlitos profundos (G-10) dos pipes alcalinos rasos não diamantíferos.
A Rio Tinto nunca priorizou a região do Triângulo Mineiro. Warren costumava dizer: "Noevaldo, vamos procurar algo mais óbvio." Ainda assim, a seção geológica elaborada pelo geólogo Antônio resume bem a intrigante situação dos diamantes nessa região. Os corpos kimberlíticos e kamafugíticos estão encaixados em um orógeno neoproterozoico pericratônico. Os fanglomerados da Formação Bauru (Cretáceo) são diamantíferos e contêm minerais indicadores. Os drenos diamantíferos, geralmente curtos, nascem nas cabeceiras dos chapadões compostos por lavas alcalinas e sedimentos proximais. Nessas drenagens foram — e ainda são — encontrados inúmeros diamantes de grandes dimensões, alguns ultrapassando 700 quilates. A figura abaixo apresenta um mapa magnetométrico evidenciando a presença de diversas crateras kimberlíticas ou kamafugíticas na região. Em meados do século XX, uma operação empresarial chegou a ser realizada nos fanglomerados Tauá, também de idade cretácea, nas proximidades de Coromandel. O fanglomerado demonstra forte proximidade com fontes primárias, sendo rico em fragmentos e seixos de provável origem kimberlítica, como se observa claramente nos afloramentos (foto à esquerda na porção inferior da figura).
Recentemente, a cena se repetiu. Após décadas explorando e descobrindo kimberlitos pelo Brasil, o prospector França teve seu esforço e resiliência recompensados. A lavra nos aluviões do rio Douradinho revelou uma joia extraordinária: um diamante de 600 quilates, avaliado em 16 milhões de dólares. Uma das características marcantes da lavra diamantífera no
Triângulo Mineiro é sua natureza irregular, com episódios súbitos de ocorrência de pedras grandes. Essa distribuição não segue o padrão log-normal típico observado na maioria dos kimberlitos conhecidos. Aparentemente, a fonte primária nessa região apresenta uma assinatura populacional atípica para os diamantes, reforçando o caráter único e ainda enigmático da geologia local.
A exploração mineral é repleta de complexidades teóricas, incertezas e reviravoltas. O geólogo José Ricardo Pisani nos afastou da frustração total ao convencer a Vaaldiam a revisitar a Província Kimberlítica de Nordestina, descoberta por Francisco de Assis, quando um diamante foi recuperado de amostra de cascalho no bedrock de um dreno seco, à jusante do Braúna 3. No entorno dos kimberlitos não havia atividade de garimpo, exceto no Rio Itapecuru, no local conhecido como Baixão, no greenstone belt Itapecuru. A província kimberlítica, com idade em torno de 550 milhões de anos, recebeu o nome Braúna, dado por Homero Braz Silva. Adotando abordagem pragmática e contando com sua resiliência, Pisani foi fundamental para a implantação da mina de Braúna, a primeira em rocha kimberlítica na América do Sul. A mina é operada pela Lipari, tendo recursos estimados em torno de 2 Mt @ 17 cpht, com diamantes de excelente qualidade (185 US$ ct).
A descoberta do depósito de ouro de classe mundial de Volta Grande (4 milhões de onças de Au) em terrenos TTG-Greenstone, representa a recompensa para pequeno grupo de incansáveis exploracionistas – os geólogos Elmer Salomão, Jad Salomão e Walid Daoud, Oscar Neto de Gouveia Carvalho e Luiz Neto. Ocorrências de ouro são conhecidas na região da Volta Grande do Xingu, no Pará, desde os tempos coloniais, com notícias de produção informal já em meados do século 20. A partir dos anos 1970, os aluviões foram pesquisados pela empresa Oca Mineração, porém, a garimpagem acentuou-se nos anos 1980 e 1990, comprometendo os depósitos secundários. A empresa TVX negociou as concessões com a Oca e realizou uma primeira campanha de sondagem para ouro primário, mas não exerceu a opção devido ao baixo preço do ouro. A Oca então negociou a opção das áreas com uma indústria paulista, que não realizou trabalhos no local.
Em 2007, as áreas foram adquiridas pela Verena Mineração, empresa junior listada em bolsa no Canadá, após longa negociação. Com os recursos levantados, a Verena realizou extenso programa exploratório. Em 2010, o Grupo Canadense Forbes & Manhattan adquiriu o controle da Verena, mudando o seu nome para Belo Sun Mineração. A pesquisa foi complementada pela equipe do geólogo Hélio Diniz, sob coordenação de Ricardo Lopes, que confirmou a existência de jazida de grande porte para lavra a céu aberto. Com as portarias de lavra e a licença ambiental outorgadas, a Belo Sun enfrenta, há mais de 10 anos, inúmeras ações judiciais que vêm obstruindo a implantação da mina.
