A EMPRESA MANTÉM A MESMA ESSÊNCIA DO INÍCIO: OUVIR, DIALOGAR E CONSTRUIR CONFIANÇA EM CENÁRIOS CADA VEZ MAIS COMPLEXOS
Mara Fornari/Francisco Alves
No calendário empresarial, poucos marcos são tão significativos quanto completar 20 anos. Esse é o tempo necessário para que uma organização não apenas consolide sua reputação, mas também atravesse diferentes ciclos econômicos, políticos e sociais. A Integratio Medição Social e Sustentabilidade chega a essa marca com a bagagem de quem foi pioneira em um campo ainda pouco estruturado no Brasil — o da comunicação e relacionamento no setor de mineração e energia — e que hoje se tornou indispensável para qualquer empresa que queira operar com legitimidade.
O cenário era muito específico em 2005: o Brasil começava a se consolidar como potência mineral global, com a expansão da mineração de ferro, ouro, bauxita, níquel e manganês. Grandes projetos despontavam em estados como Pará, Minas Gerais e Bahia. Ao mesmo tempo, a sociedade se organizava de forma inédita: movimentos sociais, comunidades indígenas, quilombolas e ribeirinhas ampliavam sua capacidade de mobilização. A agenda ambiental ganhava corpo, impulsionada por pressões internacionais. Termos como licença social para operar, já comuns em países como Canadá e Austrália, chegavam ao vocabulário brasileiro. Mas faltavam metodologias claras, experiências consolidadas e, sobretudo, profissionais especializados em dialogar com diferentes públicos de interesse. Foi nesse espaço que a Integratio se lançou.
Antes de fundar a empresa, Rolf Georg Fuchs, atual presidente, atuava no setor corporativo (mineração) e tinha muitas dificuldades em encontrar consultorias com esse perfil. Foram três anos de caminhada solo, até que o executivo se juntou com bons sócios que o ajudaram a abrir o mercado. "Desde o início acreditávamos que era possível fazer diferente. Nossa essência sempre foi trabalhar com verdade, respeito e diálogo aberto. Hoje, olhando para trás, vemos que essa escolha fez toda a diferença", afirma Fuchs.
O que ele quer dizer é que enquanto o Brasil ainda engatinhava nos debates sobre sustentabilidade e responsabilidade social no setor mineral, a Integratio nascia com a convicção de que a comunicação poderia ser uma ponte poderosa entre empresas, comunidades, governos e sociedade. Consolidada hoje como referência nacional e internacional, a Integratio atuou ao longo de duas décadas em projetos de mineração, energia, infraestrutura e agronegócio, participou de alguns dos processos mais complexos de diálogo social do País, desenvolveu metodologias próprias e ajudou a pautar uma nova visão de sustentabilidade e governança.
Há 20 anos, falar em licença social para operar ainda era novidade. As empresas estavam acostumadas a cumprir requisitos legais, mas nem sempre compreendiam a importância de se relacionar de forma estruturada com comunidades e stakeholders. A Integratio surgiu para preencher essa lacuna. "Começamos com projetos pequenos, muitas vezes desafiadores, em que precisávamos convencer a própria empresa contratante de que comunicação e relacionamento não eram custos, mas investimentos estratégicos", relembra Rolf.
Aos poucos, a empresa foi conquistando espaço. Trabalhou em projetos de mineração de grande porte, em operações complexas na Amazônia e em processos de licenciamento que exigiam habilidade não apenas técnica, mas sobretudo humana. O primeiro contrato assinado foi em parceria com a Brandt Meio Ambiente (sócia na época) – a implantação do Projeto Sossego, onde a Brandt respondia pela parte ambiental e a Integratio pela parte social - relacionamento com comunidades e povos originários. O maior de todos se deu com a implantação de todo o Projeto Minas-Rio – coube à Integratio cuidar de toda a parte da gestão social, fundiária, licenciamento, audiências públicas, negociação do direito de passagem e por aí afora. Para Fuchs, "o Minas-Rio foi o primeiro projeto a ser construído assim de uma forma muito integrada entre diversas áreas, dentro de um mesmo propósito: a parte de relacionamento de comunidades, a parte de licenciamento, a parte de gestão fundiária, a parte de gestão institucional, com órgãos públicos e Ministério Público, tudo isso sendo conduzido de uma forma coordenada por uma mesma equipe".
Cinco anos depois da fundação, Carlos Venicius Natividade chegou à empresa como consultor na área de gestão e não demorou para se tornar o novo sócio de Rolf, agora CEO, responsável por toda a parte financeira e administrativa da empresa. Natividade conta que quando se juntou ao time, a empresa tinha um principal cliente, responsável por 70% do seu faturamento. Foi quando resolveram diversificar a atuação em mais mercados: Rolf seguiu para o setor de mineração, enquanto Natividade se voltava para a área de óleo e gás.
Esse "respiro" durou até 2015, quando o Brasil enfrentou uma grave recessão econômica caracterizada pela queda do PIB em 3,8%, alta inflação (10,67%), aumento do desemprego e deterioração das contas públicas. Entretanto, foi em agosto de 2017 que "o trem azedou de vez", conta Natividade, citando uma dívida de R$ 4,3 milhões: "tínhamos duas alternativas – tocar para frente ou fechar a Integratio". E, claro a primeira opção foi a escolhida. A dívida foi totalmente quitada em setembro de 2021.
A trajetória de 20 anos – da comunicação à inteligência social
A história da Integratio pode ser dividida em três grandes momentos:
1. A fundação e os primeiros passos (2005-2010) • A fase de abertura de mercado e conquista de credibilidade. • Primeiros projetos em mineração e energia. • Desenvolvimento inicial de metodologias de mapeamento de stakeholders.
2. A consolidação (2010-2015) • Crescimento do portfólio.
Nessa época a empresa começou a desenvolver a ferramenta IntegraDados, software que foi patrocinado pela FAPEMIG (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais), como um sistema inovador e pioneiro no Brasil. A novidade ajudou a empresa a expandir seus mercados, com melhor prestação de serviços e agilidade na tomada de decisões pelo lado dos clientes. Hoje a ferramenta conta com seis módulos de gestão e é disponibilizada mediante assinatura.
Conquistas e aprendizados
Ao longo das duas décadas, a Integratio acumulou conquistas que vão além dos resultados empresariais. A empresa ajudou a mediar conflitos históricos, contribuiu para transformar a forma como empresas se relacionam com comunidades e deixou um legado em diversas regiões do Brasil. Um dos marcos foi a participação em projetos que envolveram povos indígenas, comunidades tradicionais e territórios de alta complexidade social. Mas o maior desafio, na opinião de Fuchs, é continuar atuando de forma honesta diante de tantos escândalos noticiados no dia a dia. "Nossos maiores valores sempre foram – e continuarão sendo – a verdade e a ética. Quem não comunga deles não vai ter espaço na empresa", pontua o presidente. Assim sendo, a empresa deixou de assinar vários contratos que não estavam alinhados a esses princípios. "A cada ciclo, fomos nos reinventando. O setor mudou, as comunidades mudaram, a tecnologia mudou. Mas a essência permaneceu a mesma: o diálogo como base de tudo", afirma o presidente da Integratio.
Cada analista da Integratio tem o seu caso mais desafiador. Para Fuchs, estão nessa lista Sossego, onde o que o diretor de implantação do projeto dizia era lei – "o que não é bem assim. Às vezes é preciso deixar acontecer para resgatar depois"; Onça Puma e Minas-Rio. Mas ele relata casos também de sucesso em que a empresa não entrou no início. A Integratio havia feito todo o processo de licenciamento e
• Atuação em projetos internacionais.
• Estruturação de equipes multidisciplinares.
• Reconhecimento como referência no setor mineral.
A expansão estratégica (2015-2025)
• Adoção de novas tecnologias.
• Integração com práticas ESG.
• Criação de soluções digitais para gestão de relacionamento.
• Participação em debates globais sobre mineração sustentável e energia limpa.
de gestão social da Largo Vanádio de Maracás, na Bahia. Entretanto, durante a fase de implantação, a empresa decidiu fazer o compliance com os princípios do Equador e padrões IFC (International Finance Corporation) por conta própria para poder economizar o valor da consultoria. Um ano depois, a Largo Vanádio voltou a procurar a Integratio para que assumisse todo o processo novamente.
"Aprendemos muito com as comunidades. Em muitos casos, fomos mais ouvintes do que falantes. E entendemos que o respeito à diversidade cultural e às realidades locais é a chave para qualquer processo de construção de confiança", ressalta Fuchs. Outra conquista foi a formação de uma rede de profissionais qualificados em diversas áreas: comunicação, ciências sociais, direito, engenharia e meio ambiente. Essa multidisciplinaridade tornou-se uma marca registrada da Integratio.
Metodologias próprias e inovação
A Integratio não se limitou a prestar serviços tradicionais de comunicação. Desenvolveu ferramentas próprias de diagnóstico, mapeamento e gestão de relacionamento, que se tornaram diferenciais competitivos. Entre elas, destacam-se os Mapeamentos de Stakeholders, que permitem identificar atores-chave em cada território, e as Matrizes de Risco Social, que ajudam empresas a antecipar problemas e planejar estratégias preventivas.
Nos últimos anos, a empresa incorporou ainda soluções digitais de monitoramento e inteligência social, utilizando big data e análise de redes sociais para entender melhor o cenário de opinião pública.
"Inovar sempre fez parte do nosso DNA. Não porque a inovação é moda, mas porque era necessária para responder a contextos cada vez mais complexos", observa Carlos.
A história da empresa também se confunde com a de momentos críticos do setor mineral brasileiro. Rompimentos de barragens, tragédias ambientais, disputas em torno de grandes projetos marcaram a última década. Em vários desses casos, a Integratio foi chamada a atuar, seja para apoiar processos de diálogo, seja para estruturar estratégias de comunicação em cenários de crise.
"Não acreditamos em comunicação cosmética. Se a empresa erra, precisa assumir e corrigir. Nosso papel é ajudar a conduzir esse processo com transparência e respeito às pessoas impactadas", enfatiza Fuchs. Esse posicionamento ético fortaleceu a imagem da consultoria e consolidou sua reputação como parceira confiável, tanto para empresas quanto para comunidades e órgãos públicos.
Sustentabilidade e ESG: muito antes da sigla
Quando o termo ESG começou a ganhar espaço no Brasil, a Integratio já trabalhava há anos com práticas que hoje se encaixam nesse guarda-chuva. A
preocupação com meio ambiente, responsabilidade social e governança sempre esteve presente.
"Não nos guiamos por siglas, mas por princípios. Sempre acreditamos que a mineração precisa ser socialmente legítima e ambientalmente responsável. O que mudou foi que agora isso se tornou mainstream", comenta Carlos. Atualmente, a empresa apoia clientes na integração de práticas ESG em suas estratégias de negócio, ajudando-os a alinhar investimentos e operações às expectativas de investidores, governos e sociedade.
Olhando para os próximos anos, a Integratio vê um cenário desafiador e promissor. A mineração enfrenta pressões inéditas: garantir suprimento de minerais críticos para a transição energética, reduzir impactos ambientais, ampliar transparência e inovar em governança. "O setor está no centro das transformações globais. Sem mineração, não há energia limpa, não há transição digital, não há futuro sustentável. Mas para que isso seja possível, é preciso construir confiança com a sociedade. É aí que entramos", diz Carlos.
A empresa aposta em três grandes frentes para a próxima década: Inteligência social digitalizada: ampliar o uso de tecnologia para monitorar riscos, mapear percepções e apoiar decisões; Diálogo em novos territórios: como hidrogênio verde, eólica offshore e mineração em áreas sensíveis; e Formação de lideranças sociais: apoiar comunidades na qualificação de suas vozes, para que participem de forma mais ativa nos processos decisórios.
Desafios e Lições Pós-Mariana e Brumadinho
As tragédias de Mariana (2015) e Brumadinho (2019) continuam sendo marcos que reverberam profundamente no setor mineral. Para Rolf Georg Fuchs, elas aceleraram um processo de amadurecimento entre as mineradoras mais consolidadas, que passaram a reconhecer a boa gestão socioambiental como condição vital para a sobrevivência das empresas.
"Hoje, as companhias mais sérias entendem que não se trata apenas de cumprir legislação, mas de uma questão de sustentabilidade do próprio negócio", afirmou Fuchs. Apesar dos avanços, ainda há preocupações latentes. Carlos Venicius Natividade chamou a atenção para a pouca prioridade dada às comunidades que vivem sob as barragens. "Muitas mineradoras e até consultorias ainda não perceberam que ali existem vidas, e não apenas passivos a serem geridos", lamentou. Ambos criticaram também a postura de algumas consultorias que, diante das tragédias, enxergaram apenas oportunidades de mercado.
No campo da inovação, a Integratio tem se destacado por transformar metodologias próprias em referências regulatórias. Fuchs relembrou que a empresa foi responsável pela criação da Comissão de Acompanhamento.
nhamento do Empreendimento (CAE) na Bahia, posteriormente incorporada como exigência por órgãos ambientais.
A consultoria também foi autora de iniciativas como o Plano de Apoio e Fortalecimento dos Municípios e o Plano de Monitoramento de Indicadores Socioeconômicos, que hoje figuram entre os requisitos de licenciamento em Goiás.
A entrevista com os executivos da Integratio também trouxe à tona ainda a necessidade – ou a falta dela – de um código de ética para as consultorias que atuam no setor mineral. Para Natividade, o ambiente atual ainda não favorece a consolidação de uma agenda ética. "É difícil imaginar um código de ética onde não há uma busca genuína pela ética", afirmou, com ceticismo. Fuchs, por sua vez, destacou a falta de união no setor como entrave para qualquer tentativa de autorregulamentação. "Não acredito em um conselho de autorregulamentação para as consultorias. Ainda não temos a coesão necessária para isso", avaliou.
O futuro e legado da Integratio
Sobre a possibilidade de internacionalização da consultoria, Fuchs explicou que a experiência internacional da empresa tem ocorrido de forma pontual, geralmente a partir de executivos que trabalharam com a consultoria no Brasil e a levaram para projetos no exterior. "É, sim, um objetivo de longo prazo, inserido em nosso planejamento estratégico. Mas ainda enfrentamos obstáculos importantes, como a dificuldade em encontrar profissionais fluentes nos idiomas locais", explicou.
Apesar dos desafios, a perspectiva é de uma atuação cada vez mais global, apoiada na reputação construída no Brasil e na consolidação de metodologias inovadoras que já servem de referência para órgãos ambientais.
Vinte anos depois de sua fundação, a Integratio celebra não apenas a longevidade, mas o impacto real de sua atuação. Ao ajudar empresas a dialogar melhor, contribuiu para que projetos se tornassem viáveis, para que comunidades fossem ouvidas e para que o setor mineral evoluísse em termos de responsabilidade social e ambiental.
Olhando para frente, a Integratio vê um setor em ebulição. A demanda por minerais críticos para a transição energética — como níquel, grafita, lítio e terras raras — abrirá novas fronteiras de exploração. Ao mesmo tempo, a pressão por sustentabilidade, descarbonização e respeito a direitos humanos será cada vez maior.
"Nosso maior orgulho é saber que contribuímos para construir pontes. E que essas pontes permanecem, mesmo quando os projetos terminam", salienta Fuchs. No horizonte, os próximos 20 anos se apresentam ainda mais desafiadores. Mas se depender da Integratio, a comunicação continuará sendo o caminho para uma mineração mais sustentável, inclusiva e legítima.
