O presente artigo, escrito com ênfase no setor empresarial, é derivado da palestra proferida pelo autor na abertura do Painel "Política Industrial - Integração de Cadeias Produtivas para o Desenvolvimento da Mineração", como parte da programação do 9º Encontro de Média e Pequena Mineração, realizado em Goiânia no período de 25 e 26 de junho de 2025.
O conteúdo e abordagem da palestra seguiram o contexto proposto pela organização do Encontro: a busca de saídas para o equacionamento de entraves culturais, organizacionais, produtivos e tecnológicos, para que a mineração brasileira tenha condições de explorar de forma acelerada as oportunidades, ao longo de todas as cadeias produtivas dos diversos minerais críticos e aplicações, começando pelo upstream, evoluindo pelo midstream, refino e otimização morfológica, downstream para os materiais, equipamentos e funções avançadas.
O contexto proposto para o artigo pela organização é muito atual no que se refere à necessidade, já identificada por várias lideranças do setor, de uma nova mineração articulada com segmentos downstream e de materiais diversos, de uma nova mineração mais aberta, mais articulada. O BNDES, neste ano de 2025, promoveu uma série de reuniões, eventos e editais de novos recursos destinados a estas novas articulações, inovações e novos negócios nas cadeias produtivas.
Os minerais críticos contemplados neste artigo são insumos essenciais para uso em tecnologias limpas, de baixo carbono ou carbono zero, e sustentáveis, como turbinas eólicas, painéis solares e baterias, materiais funcionais para defesa, aviação, sensores, dentre outras. Alguns dos minerais brasileiros com reservas geológicas de destaque mundialmente são nióbio, lítio, grafita, terras raras, magnesita, aluminas, níquel, ferro, como exemplos.
Os profissionais e lideranças envolvidos com os minerais críticos adotam o termo agregação de valor como forma de comunicar iniciativas e estratégias para industrialização, verticalização, agregação tecnológica, ganho de valor à medida que se verticaliza para cada elo do upstream ao midstream, refino, purificação, aperfeiçoamento morfológico, downstream para materiais e equipamentos funcionais. Nesta comunicação de agregação de valor deve-se evitar, porém, considerações demagógicas, ideológicas, ingênuas e inviáveis, como no caso de repetidamente se lembrar das propostas de agregação de valor ao minério de ferro pelo aço em décadas passadas. O aço verde, porém, se torna uma oportunidade real nos tempos atuais. Um amplo espectro de outras funções para os minerais críticos se tornam também oportunidades contemporâneas para joint ventures e outros tipos de associações empresariais para a mineração. A agregação de valor aos minerais/materiais críticos deve necessariamente incorporar um domínio de tecnologias, insights, articulações e integrações de supply chains ou cadeias de suprimento. Fusões e joint ventures de supply chains são previstas como soluções inovadoras.
O Brasil hospeda uma massa crítica e inúmeras constelações de supply chains ou de cadeias de suprimento que, se cadastradas, podem significar fontes de soluções tecnológicas, mercadológicas, e de suprimento de elos das cadeias produtivas. Um exemplo de constelação de cadeias de suprimento pode integrar segmentos como autopeças, aços e ligas especiais, concretos, refratários, cerâmicas. Outras constelações podem ser organizadas para cada caso de mineral/material/aplicação. Nestas constelações podem ser encontrados fornecedores de equipamentos, aditivos, tecnologias, soluções, joint ventures e associações para materiais críticos. Constelação de supply chains não é um termo técnico formal, mas pode se referir a uma visão mais ampla e interconectada da cadeia de suprimentos. Em vez de focar em uma única cadeia linear, uma constelação sugere uma rede complexa de cadeias de suprimento interligadas, onde diferentes empresas e processos se cruzam e se influenciam mutuamente.
Outros exemplos de formatos e combinações de arranjos e estratégias para agregação de valor de minerais e materiais críticos são introduzidos a seguir.
1) Induzir e patrocinar a criação e funcionamento de associações e conselhos de supply chains ou cadeias de suprimento aos moldes de Japão e Australia;
2) O planejamento estratégico e tático de todas as atividades de produção de minerais críticos deve ser revisto de forma a estar alinhado a todos os elos da longa cadeia produtiva do upstream, passando pelo refino e midstream, até os vários produtos, materiais, equipamentos e funções do downstream;
3) Promover as políticas de fomento público das cadeias produtivas de minerais e materiais críticos junto a todos os setores da empresa;
4) Capacitação multidisciplinar e interdisciplinar das equipes que se articulam com os elos da longa cadeia produtiva para os vários segmentos industriais de aplicação dos minerais críticos;
5) Benchmarking de melhores práticas empresariais de governança e manejo das cadeias produtivas de minerais e materiais críticos;
6) Adotar melhores práticas de pesquisa colaborativa que integrem os vários elos das cadeias de minerais e materiais críticos;
7) As empresas que trabalham com minerais e materiais críticos devem sempre desenvolver o monitoramento, governança e capacitação de todas as macrocadeias, do upstream das commo- dities, midstream e refino a downstream. A gestão empresarial vai ser tanto melhor quanto maior o domínio de toda a cadeia;
8) Identificar os atores de todas as cadeias e analisar possibilidades e estratégias de colaboração e fusões. Também é necessário estimular novos modelos de negócio que promovam o domínio dos elos tecnológicos frágeis, aumentando a produção nacional de bens de maior valor agregado. O adensamento produtivo das cadeias minerais deve ser promovido com ênfase em agregação de valor e inovação industrial;
9) Integração de grupos de pesquisa que atuam em todas as cadeias;
10) Realização de eventos que integrem todas as cadeias produtivas e cadeias de suprimento;
11) O potencial geológico do País pede políticas verticalizadas de fomento pela alavancagem da produção de materiais avançados de base mineral, expandir a oferta interna, fomentar sua transformação em bens intermediários e fortalecer a capacidade exportadora de manufaturados e equipamentos de alta tecnologia. Cada bem mineral requer diretrizes específicas, ancoradas nas cadeias de valor associadas e nas oportunidades industriais correspondentes;
12) Cadastrar constelações de supply chains e desenvolver estratégias de joint ventures de cadeias de suprimento. IA revoluciona a gestão, planejamento, otimização e projetos de supply chains, principalmente os complexos.
Principais Formas de influência das cadeias produtivas na mineração
As cadeias produtivas na mineração estruturam-se a partir de uma complexa teia de relacionamentos e influências que atravessam dimensões econômicas, sociais, ambientais, tecnológicas e geopolíticas.
a) Influência Vertical: Empresas integradas verticalmente podem controlar da mina ao produto final, influenciando padrões de qualidade, custos e inovação.
b) Influência Horizontal: Atores em elos similares da cadeia (ex: mineradoras diferentes) influenciam-se por concorrência, padrões tecnológicos e regimes regulatórios.
c) Influência Transversal: Pressões ESG, inovações tecnológicas (ex: automação, IA, blockchain) e movimentos globais (ex: transição energética) redesenham a cadeia por fora para dentro.
d) Influência em rede (multistakeholders): Parcerias entre empresas, governos, ONGs e universidades para inovação, desenvolvimento territorial, capacitação e mitigação de impactos.
