A Companhia Baiana de Pesquisa Mineral (CBPM), criada em 1972, sempre teve como missão identificar, mapear e fomentar o aproveitamento do potencial mineral do estado da Bahia. Nas últimas cinco décadas, acumulou informações valiosas sobre o subsolo baiano, construiu uma base de dados de referência nacional e ajudou a abrir caminhos para que a iniciativa privada explorasse recursos como ouro, ferro, níquel, cobre, vanádio, grafita, rochas ornamentais, entre outros.
Esse modelo, porém, limitava a atuação da estatal. A CBPM realizava estudos, obtinha direitos minerários e, em seguida, repassava à iniciativa privada, ficando restrita a receber royalties. Como resultado, parte considerável da riqueza mineral da Bahia não se traduziu em benefícios proporcionais para o estado e suas comunidades.
Nos últimos anos, sob a gestão de Henrique Carballal, a CBPM passou a desenhar um novo caminho. A ideia central é transformar direitos minerários em ativos econômicos e colocar a estatal no centro da produção mineral, sem abrir mão da pesquisa, mas ampliando sua atuação para incluir participação societária, parcerias estratégicas e até a verticalização.
Essa mudança ocorre em um momento crucial para a mineração global. A transição energética exige volumes inéditos de minerais críticos e estratégicos – como níquel, grafita, vanádio e terras raras –, e a Bahia concentra muitos desses recursos. Ao mesmo tempo, cresce a pressão por modelos de mineração sustentáveis e inclusivos, capazes de gerar riqueza sem ignorar as demandas ambientais e sociais.
Com uma carteira de projetos robusta, visão estratégica sobre minerais críticos e postura inovadora na transformação de direitos minerários em ativos econômicos, a CBPM se reposiciona como protagonista do setor mineral brasileiro e se prepara para ser muito mais do que uma companhia de pesquisa: quer ser motor de desenvolvimento econômico, social e ambiental, alinhada à transição energética global e às demandas de um mundo cada vez mais atento à sustentabilidade.
Em entrevista exclusiva à Brasil Mineral, Carballal explica como essa transformação se dará, comenta os principais projetos em andamento, detalha o modelo de ativos de investimento e projeta o futuro da CBPM até 2030.

A conversa foi realizada em 30 de setembro, antes da aprovação do projeto de lei 25.915/2025 pela Assembleia Legislativa da Bahia, que alterou oficialmente o nome da estatal para Companhia Baiana de Produção Mineral e ampliou sua atuação. Para Carballal, trata-se de "um momento histórico para a Bahia, que demonstra o compromisso do governador Jerônimo Rodrigues com a transição energética, a sustentabilidade e a repartição justa da riqueza mineral com o povo".
Henrique Carballal: Sim. O projeto de lei foi enviado pelo governo do estado, porque é uma iniciativa que tem que partir do Executivo. Desde dezembro ele tramitou na Procuradoria-Geral do Estado e passou por todos os órgãos do governo. Nós já estávamos na última fase e acreditávamos que a aprovação seria rápida, porque havia diálogo até com a oposição.
O projeto não é apenas uma mudança de nome. A CBPM passa a se chamar Companhia Baiana de Produção Mineral, mas mantendo a sigla. A palavra "produção" incorpora naturalmente a pesquisa, porque não há produção mineral sem pesquisa. Continuaremos sendo uma empresa de pesquisa, mas com um leque muito mais amplo. Até hoje, as empresas públicas de pesquisa sa identificavam áreas, encaminhavam para a iniciativa privada e recebiam royalties. A partir de agora, tratamos os direitos minerários como ativos econômicos. Isso nos permite criar empresas em parceria com investidores privados, nas quais a CBPM entra com direitos minerários e a iniciativa privada aporta capital.
A transformação da CBPM marca um divisor de águas para a mineração no Brasil. Ao passar de empresa de pesquisa a produtora, a estatal baiana assume protagonismo em um setor estratégico, capaz de alavancar o desenvolvimento econômico, social e ambiental.
Se os planos se concretizarem, a CBPM será não apenas a guardiã dos direitos minerários da Bahia, mas também um motor de inovação, inclusão e reindustrialização, em sintonia com as demandas globais da transição energética e da mineração responsável.
Como funcionará esse modelo de ativos de investimento?
A lógica é simples, mas transformadora. Imagine que reunimos 200 direitos minerários de uma área com potencial de níquel e mensuramos seu valor em R$ 100 milhões. Se a CBPM entra como sócia com 20%, outros investidores precisam aportar R$ 400 milhões. Assim, conseguimos recursos não apenas para concluir a pesquisa, mas para estruturar uma lavra, que depois pode ser negociada com mineradoras do Brasil ou do mundo.
Dessa forma, encurtamos em até dez anos o prazo entre descoberta e produção – que hoje pode levar 15 anos. É um modelo que aproveita o momento histórico da transição energética. Eu costumo dizer: "o cavalo está passando selado". Ele não vai ficar parado esperando. Precisamos montar agora, porque essa oportunidade não vai esperar.
Esse modelo também impacta a macroeconomia da Bahia, porque direitos minerários, que antes eram apenas papéis registrados na ANM, passam a ser ativos mensuráveis. Isso amplia a capacidade de endividamento do estado, permite buscar financiamentos e até ajudar a zerar déficit previdenciário.
A CBPM também passará a minerar diretamente?
Henrique Carballal: Sim, vamos minerar. Continuaremos sendo uma estatal, mas com a agilidade de uma empresa privada. Hoje, inclusive, já atuamos assim em alguns casos. O contrato com a Brazil Iron é um bom exemplo: pegamos um projeto que estava prestes a ser abandonado e reestruturamos. Esse projeto envolve US$ 5,7 bilhões em investimentos – uma mina em Piatã, uma ferrovia de 120 km até Brumado e uma siderúrgica em Ilhéus para produzir HBI (Hot Briquetted Iron) com energia renovável e hidrogênio verde. É um projeto transformador não só para a Bahia, mas para o Brasil.
Por que esse projeto não avançava antes?
Henrique Carballal: A Brazil Iron herdou passivos do antigo proprietário: falta de diálogo com comunidades, suspeitas de danos ambientais, ações no Ministério Público e na Defensoria. Isso travou o licenciamento. Quando chegamos, nossa postura foi clara: se houve dano, que seja reparado; se houve crime, que seja punido. Mas o Estado não pode abrir mão de um investimento desse porte. O que fizemos foi dar robustez técnica e processual, abrir diálogo, corrigir falhas. Hoje, já apresentamos o EIA/RIMA e acreditamos que a licença prévia sairá ainda este ano.
E no aspecto social?
Henrique Carballal: Antes mesmo da operação, já avançamos. Três comunidades não tinham água tratada em Piatã. Instalamos sistemas em parceria com a prefeitura e a Brazil Iron. Além disso, a empresa assumiu compromisso de preservar nascentes da Chapada Diamantina, fundamentais até para o abastecimento de Salvador. Esse é o espírito da nova CBPM: não se trata só de extrair minério, mas de garantir que a riqueza mineral se traduza em legados sociais e ambientais. E esse projeto vai muito além da mineração: ele integra desenvolvimento social, preservação ambiental e inovação tecnológica.
Vocês já têm áreas prioritárias para aplicar o modelo de ativos?
Henrique Carballal: Estamos aguardando a sanção da nova lei para começar. Mas posso dar exemplos: temos uma área de sílica em Belmonte, onde será construída a primeira fábrica de vidro solar fora da China, um investimento de R$ 1,8 bilhão. Se a lei já estivesse em vigor, não teríamos apenas cedido a área, mas nos associado à produção. Outro exemplo é a Atlantic Nickel, em Itagibá. Eles queriam vender a operação por US$ 1 bilhão, apesar de ainda existir potencial de até 60 anos de exploração underground. Mas o que de fato estava à venda eram os direitos minerários, que pertencem ao Estado. Hoje, a CBPM não recebe nada nessa transação. Se tivéssemos 20% de participação, receberíamos US$ 200 milhões. E temos ainda a descoberta de uma rocha mineralizada de 300 km no norte da Bahia, com níquel, vanádio, grafita, cobre, cobalto, terras raras. Só em quatro áreas já temos 1 bilhão de toneladas de níquel. É um ativo de escala mundial que pode reposicionar a Bahia no cenário global.
Henrique Carballal: O projeto da Galvani, em Irecê, inaugura em março de 2026. Vai suprir 100% da demanda baiana de fertilizantes fosfatados e 30% do Norte-Nordeste. É um marco para um país dependente desse insumo. O processo é inovador: sem barragem, com reúso total de água e resíduo reaproveitado como remineralizador agrícola.
Com a Galvani, remodelamos contratos e conseguimos doações de R$ 11 milhões para os municípios de Irecê e Campo Alegre de Lourdes para obras de infraestrutura e saneamento – deste total, R$ 1 milhão é do Instituto Lina Galvani. A CBPM receberá R$ 20 milhões anuais em royalties.
Com a Homerun, projetamos royalties entre R$ 40 e 50 milhões anuais em dois anos. Nossa ideia é criar Fundos de Desenvolvimento Social, para que esses recursos sejam reinvestidos em educação, saúde, infraestrutura.
Henrique Carballal: A ideia é simples: o recurso gerado pela mineração precisa deixar legado. Eles são a prova de que mineração pode ser inclusiva. No caso da Galvani, os prefeitos definiram prioridades: creches, saneamento, infraestrutura. No caso da Equinox Gold, em Santa Luz, o fundo vai financiar uma creche e um CAPS (Centros de Atenção Psicossocial).
A gestão será compartilhada entre CBPM, municípios e empresas, com controle da sociedade civil, Câmara de Vereadores, Ministério Público e Defensoria. Queremos mostrar que a mineração pode ser sustentável e inclusiva, transformando riqueza mineral em qualidade de vida.
Henrique Carballal: Queremos mostrar que a Bahia tem um dos melhores ambientes de mineração do mundo, desde que sustentável e inclusiva. Lançaremos o portal Minera Bahia, com todos os dados levantados em 50 anos de CBPM; a Litoteca Digital, com testemunhos de sondagem acessíveis a investidores e universidades; e o Hub de Mineração, com 20 startups.
Também vamos lançar o programa Garimpo Legal, que vai qualificar cooperativas em segurança, meio ambiente e legislação. Já temos pilotos em Novo Horizonte e Ibitiara.
Henrique Carballal: A CBPM será a empresa mais rica da Bahia, referência em verticalização, inovação e transformação de direitos minerários em riqueza real. Queremos ser protagonistas da reindustrialização do Brasil, guiados por mineração sustentável e inclusiva.
