Brasil Mineral

Ler como:
Revista
Artigo

VALE 40 ANOS AMAZÔNIA

Carajás é um campo de construção da “licença social para operar” da Vale

Por Mara Fornari

Brasil Mineral 450Páginas 20-27
Briquete verde produzido pela Vale

No sul do estado do Pará, a Província Mineral de Carajás não é apenas um símbolo do potencial mineral brasileiro — é também o centro de uma transformação que desafia a própria indústria da mineração: unir competitividade global, inovação tecnológica e responsabilidade socioambiental. Para a Vale, Carajás é hoje um dos ativos mais importantes de seu portfólio global, não apenas pela qualidade do minério de ferro ali extraído, mas também pelo seu papel estratégico na transição energética e na descarbonização da indústria mundial.

Mas operar em um território como Carajás exige muito mais do que eficiência técnica. Requer escuta, diálogo, reparação e parceria contínua com as comunidades locais, os povos indígenas e o meio ambiente. Esse é o alicerce da chamada "licença social para operar" — conceito que, na prática, significa o reconhecimento e a aceitação, pelas partes interessadas, da legitimidade e dos benefícios de uma atividade empresarial em seu território.

Caminhões autônomos em Canaã dos Carajás
Caminhões autônomos em Canaã dos Carajás (Foto: Breno Pompeu)

A atuação social da Vale localmente efetiva-se por meio da gestão de riscos e impactos das suas atividades sobre as comunidades (locais, povos indígenas e comunidades tradicionais), considerando as etapas do ciclo de vida do negócio, bem como as diferentes atividades, operações e/ou projetos.

A atuação social conta com o engajamento de toda a empresa para reduzir a exposição das comunidades aos riscos e mitigar os impactos de suas atividades. Para realizar a interlocução da empresa com as comunidades, a Vale conta com equipes especializadas e dedicadas ao Relacionamento com Comunidades.

Comunidades e povos indígenas: uma relação de 40 anos

Na região, a Vale se relaciona com comunidades locais e povos indígenas desde a implantação do projeto Carajás, na década de 1980. Próxima aos empreendimentos da Vale está a Terra Indígena Xikrin do Cateté, associada ao Mosaico de Unidade de Conservação de Carajás e habitada pelo povo Xikrin do Cateté. A interação com esse povo foi desenvolvida por meio de ações no âmbito do processo de licenciamento ambiental e voluntárias, com foco no etnodesenvolvimento, fortalecimento cultural e preservação da memória, fortalecimento institucional e proteção do território.

Em 2022, a companhia celebrou 40 anos de relacionamento com o povo Xikrin do Cateté com um acordo histórico com o objetivo de encerrar ações judiciais que estavam em curso, construindo um novo capítulo do relacionamento com essa comunidade. Um dos destaques é o Projeto Memória Xikrin do Cateté, realizado com o Instituto Indígena Botiê Xikrin (IBX). Entre 2019 e 2024, o projeto contribuiu com diferentes ações para registrar a história dos Xikrin contando com publicações, vídeos, registros sonoros antigos e uma plataforma “Acervo Online Xikrin do Cateté” de acesso exclusivo dos Xikrin. Também houve a publicação do “Dicionário Ilustrado Xikrin-Português”, em quatro livros com mais de 500 verbetes bilíngues para suprir, nas escolas indígenas, a necessidade de material paradidático e de incentivo à pesquisa da escrita na língua Xikrin. O Projeto Memória Xikrin vem ao encontro dos direitos previstos na Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos dos Povos Indígenas.

Sobre o processo de escuta junto às comunidades e outras partes interessadas, a Vale afirma que tem um modelo de gestão global das manifestações, o Mecanismo de Escuta e Resposta, composto por canais que podem ser acessados por qualquer parte interessada, por meio de diferentes meios de contato que garantem a acessibilidade aos Canais da empresa. “Desta maneira, conseguimos atuar na busca pela diminuição dos incômodos gerados e na minimização dos riscos associados às nossas atividades. Por meio dessa escuta, incorporamos melhorias nas rotinas operacionais e de projetos para evitar recorrência das reclamações e potencializar os impactos positivos”, comenta Camilla.

De forma a garantir a efetividade do Mecanismo de Escuta e Resposta, os Canais estão fundamentados e pautados nos Princípios Orientadores da ONU para Empresas e Direitos Humanos (United Nations Guiding Principles on Business and Human Rights – UNGP) e nos posicionamentos do International Council on Mining and Metals (ICMM).

Para povos indígenas, a Vale segue os princípios e padrões internacionais estabelecidos em diretrizes normativas que norteiam a atuação da empresa junto a essas comunidades, como o respeito à especificidade de cada comunidade, sua organização social e política, a implementação de processos participativos, sempre que possível com respeito à equidade de gênero e geracional, comprometidos com a Consulta e Consentimento Livre, Prévio e Informado (CLPI).

Pátio de minério em Canaã dos Carajás
Pátio de minério em Canaã dos Carajás (Crédito: Breno Pompeu)

“É importante ressaltar que o relacionamento da empresa com Povos Indígenas e Comunidades Tradicionais é orientado por diretrizes normativas, como a Política de Direitos Humanos, alinhado às principais referências e compromissos internacionais sobre o tema, e comprometido com a Consulta e Consentimento Livre, Prévio e Informado (CLPI). O objetivo é promover processos participativos que envolvam essas comunidades na elaboração de estudos de impacto, proposição de medidas mitigatórias e ou compensatórias, no desenvolvimento de negócios que respeitem seus direitos”, prossegue Camilla.

Escuta ativa e impacto positivo

O relacionamento com as partes interessadas é guiado por um Mecanismo de Escuta e Resposta, baseado em princípios da ONU e do ICMM, que garante canais acessíveis a qualquer pessoa ou organização. Através dessas manifestações, a Vale ajusta rotinas, evita reincidência de impactos negativos e reforça ações que promovam valor compartilhado.

“Temos uma política forte de sustentabilidade para todo o ciclo de vida dos nossos empreendimentos, no intuito de prevenir e minimizar interferências e potencializar impactos positivos para as pessoas e as comunidades, gerando desenvolvimento social, ambiental e econômico, para além das nossas operações”, informa a diretora de Sustentabilidade Corporativa.

Camilla Lott, diretora de Sustentabilidade Corporativa da Vale
Camilla Lott, diretora de Sustentabilidade Corporativa da Vale

Na Amazônia, a Vale está presente há 40 anos mostrando que é possível fazer mineração responsável e sustentável, mantendo a floresta em pé. Suas atividades no Pará ocupam cerca de 3% do Mosaico de Carajás.

Em parceria com o ICMBIO, a Vale apoia a conservação de cerca de 800 mil hectares de floresta nativa, área equivalente a cinco vezes a cidade de São Paulo, de um total de 1 milhão de hectares conservados no mundo. Na última década, foram investidos mais de R$ 1 bilhão em ações socioambientais, P&D e incentivo à cultura na região. Deste total, R$ 910 milhões voluntários.

Dentro deste contexto, por exemplo, fruto de uma parceria entre o Fundo Vale e o ICMbio, foi lançado o programa SustentaBio, que deverá investir cerca de R$ 24 milhões, até 2027, em 14 áreas protegidas, que juntas somam mais de 10 milhões de hectares de floresta Amazônica nos estados do Amazonas e do Pará. O programa tem como objetivo fortalecer cadeias produtivas dentro de Reservas Extrativistas - entre elas pirarucu, castanha, madeira e óleos – de forma a promover as economias da sociobiodiversidade, tornando estas áreas e seus povos mais resilientes aos efeitos das mudanças climáticas.

Em 15 anos, o Fundo Vale já investiu o total de R$ 430 milhões e apoiou direta e indiretamente 660 empreendimentos de impacto socioambiental. Além disso, 146 iniciativas foram apoiadas, por meio de mais de 90 parceiros (organizações dinamizadoras, organizações da sociedade civil, fundos de investimento e outros).

O Fundo Vale também atua catalisando investimentos mistos, combinando recursos filantrópicos, privados e públicos. Com isso, apoia negócios de impacto socioambiental positivo nas agendas de biodiversidade, floresta e clima, permitindo que eles alcancem autonomia e escala, e que o capital inicial retorne para ser reinvestido, gerando um ciclo virtuoso.

Outro exemplo está no projeto Genômica da Biodiversidade Brasileira (GBB), parceria do Instituto Tecnológico Vale (ITV) com o ICMbio, que desenvolverá protocolos que possibilitarão a aplicação em larga escala da metodologia de DNA ambiental para ampliar o monitoramento de espécies e sua conservação;

Com investimento de US$ 25 milhões em cinco anos, o sequenciamento genômico, primeiro projeto no sul global nesse sentido, poderá subsidiar diversas ações de conservação da biodiversidade brasileira, além de ampliar o potencial da bioeconomia e contribuir para o escalonamento da restauração florestal no Brasil, em especial em regiões como a Amazônia.

Ao todo serão sequenciados genomas completos de pelo menos 5 mil espécimes pertencentes a centenas de espécies até o final de 2027. Inicialmente foram definidas pelo ICMBio 80 espécies que terão um nível de resolução maior para serem catalogadas com genomas de referência.

Cerca de 20 pesquisadores do ITV e mais de 30 especialistas dos 14 Centros Nacionais de Pesquisa e Conservação do ICMBio, além de analistas de Unidades de Conservação Federais, estão envolvidos diretamente na primeira fase do trabalho, que vai durar cinco anos.

Com o projeto, o Brasil passa a assegurar o domínio dessa tecnologia numa região mega diversa e detentora da biodiversidade. Poderá, também, ajudar a destravar valor para a bioeconomia, possibilitando escalonar o uso econômico de espécies nativas da biodiversidade brasileira.

ESG no centro das operações

A Vale é a primeira mineradora do mundo e a primeira empresa brasileira a adotar voluntariamente o padrão internacional do ISSB para reportar riscos e oportunidades relacionados à sustentabilidade. Esta prática será obrigatória no Brasil a partir de 2027. A Vale publicou em 2 de junho o seu primeiro relatório de informações financeiras relacionadas à sustentabilidade.

Desde 2020, a Vale investiu R$ 7,4 bilhões em iniciativas de descarbonização (R$ 1,38 bilhão apenas em 2024). As metas incluem redução de emissões: 33% nos escopos 1 e 2 até 2030 e zero emissões líquidas até 2050; 15% no escopo 3 até 2035.

Pilha de minério em – Canaã dos Carajás
Pilha de minério em – Canaã dos Carajás (Foto: Breno Pompeu)

Além disso, desde 2021 (exercício 2020), a Companhia publica anualmente suas informações ESG por meio do seu Relato Integrado, em substituição ao Relatório de Sustentabilidade (que era publicado desde o exercício 2007). A elaboração do Relato Integrado da Vale está alinhada com as normas da Global Reporting Initiative (“GRI”) e o documento e seu anexo (Databook ESG) contemplam, também, indicadores do Sustainability Accounting Standard Board (“SASB”), da Força-Tarefa sobre Divulgações Financeira Relacionada à Natureza (TNFD) e as métricas-chave do Fórum Econômico Mundial (WEF).

Desafios e Oportunidades em Carajás

“Cumprindo a vocação da Vale de âncora do desenvolvimento regional, o Novo Carajás vai impulsionar o crescimento do Pará com um novo ciclo de investimento na mineração sustentável de minério de ferro de alta qualidade e minerais críticos no estado, além de tecnologia, sustentabilidade, saúde e segurança, e manutenção de equipamentos e operações. O programa terá uma contribuição relevante no PIB do Pará, na ordem de R$80 bi a 100 bi/ano. A produção futura do programa, nas bases atuais, permitirá um aumento de R$ 15 bilhões nas exportações do estado", informa a companhia.

Povo indígena Xikrin do Cateté
Povo indígena Xikrin do Cateté (Foto: Acervo Fotográfico da Comunidade Xikrin do Cateté)

Nos últimos anos, a Vale afirma que tem intensificado seu foco em ações relacionadas à transição energética e descarbonização: desde a produção do minério de ferro de alta qualidade, que aumenta a eficiência do alto-forno e reduz emissões das usinas siderúrgicas, passando pela oferta de níquel e cobre, essenciais para a produção de carros elétricos, até o desenvolvimento de produtos inovadores como o briquete, que diminui em até 10% as emissões na siderurgia.

Alta tecnologia para expandir produção em Carajás

Sistema Serra Sul S11D
Sistema Serra Sul S11D (Crédito: Ricardo Teles)

Para a Vale, Carajás é um caso de sucesso da parceria entre setor público e privado, voltada para a proteção da floresta, onde a empresa produz, com processos de mineração a seco – a exemplo da unidade Carajás Serra Sul (S11D) – e tecnologias inovadoras, cerca de 50% do minério de ferro que comercializa.

Para atingir os novos índices de produção previstos no plano Novo Carajás, as operações da companhia estão cada vez mais próximas da mineração do futuro, com uso de automação e Inteligência Artificial, “garantindo mais segurança nas operações e aumentando a agilidade e a produtividade do negócio”.

A Vale informa que possui 72 equipamentos autônomos em operação em quatro estados do País: no Terminal Marítimo de Ponta da Madeira, em São Luís (MA), em Itabira (MG), Carajás (PA) e Brucutu (MG). Os investimentos nessa tecnologia trouxeram aumento do rendimento operacional da frota, aumento da vida útil dos equipamentos, aumento da produtividade, mais segurança.

Os sistemas autônomos de operação de pátio estão entre as tecnologias em que a Vale tem investido. A tecnologia permite o uso de equipamentos sem tripulação, tornando a operação mais eficiente e segura. O uso da Inteligência Artificial busca dar mais assertividade e eficiência nas operações da companhia, gerando menos impacto e mais produtividade.

Além disso, a Vale firmou acordo com a Wabtec Corporation para elevar ainda mais a confiabilidade e segurança operacional das locomotivas EVO na Estrada de Ferro Carajás (EFC), que prevê investimento de R$ 1,77 bilhão nos próximos dez anos para ampliar a disponibilidade das locomotivas e antecipar ações de manutenção preventiva e corretiva nos trens da EFC.

Também fez um acordo com a Wabtec Corporation para adquirir 50 novas locomotivas, com início de entrega em 2026 para a Estrada de Ferro Vitória a Minas (EFVM) e a Estrada de Ferro Carajás (EFC). O objetivo é modernizar a frota, aumentar a eficiência e reduzir as emissões de suas operações ferroviárias. O pedido é um grande passo na iniciativa de modernização da frota da Vale e no programa de descarbonização para melhorar a eficiência e reduzir as emissões das operações ferroviárias.

Artigos da edição