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ENGENHARIA E CONSULTORIA

Ao completar uma década, GE21 se internacionaliza e inicia diversificação

Por Francisco Alves

Brasil Mineral 450Páginas 98-104
Diretores e colaboradores na festa dos 10 anos

Ao completar 10 anos, período durante o qual conseguiu se consolidar como uma referência – no Brasil e lá fora – em geologia de exploração, principalmente na declaração de recursos e reservas, concorrendo com empresas internacionais que estão há bastante tempo no mercado, a GE21 parte para a internacionalização e diversificação do portfólio, passando a atuar também na parte de gestão de operação de minas. É o que declaram Porfírio Cabaleiro e Bernardo Viana, diretores e fundadores da empresa (juntamente com o geólogo Mário Conrado Reinhardt), os quais explicam que, embora esteja oficialmente completando uma década, na realidade a GE21 nasceu há mais tempo.

Segundo Porfírio, embora tenha sido criada em 2015, a GE 21 foi originada da Geoexplore que existia desde o final dos anos 2000 e que foi incorporada pela australiana Coffey Mining, que decidiu sair do Brasil por volta de 2015. Com a saída da Coffey Mining, que não quis abrir mão da marca Geoexplore, o núcleo de sócios que eram da Geoexplore decidiu criar a GE21. E por que escolheram GE21? Porque o nome era Geologia e Engenharia e, como o núcleo era formado por 2 geólogos e 1 engenheiro, abreviaram a marca para GE21.

Na entrevista a seguir, os diretores Porfírio Cabaleiro e Bernardo Viana falam da atuação da empresa, dos motivos que levaram ao seu rápido crescimento, da sua capacidade de atrair jovens talentos, sua sua aposta na internacionalização e na diversificação de portfólio e como eles imaginam a empresa na próxima década. Confira.

BRASIL MINERAL – Como vocês avaliam a atuação da GE21 nestes 10 anos?

PORFÍRIO CABALEIRO – Antes gostaria de lembrar que estamos fazendo 10 anos como GE 21, mas que nossa história é mais longa, se considerarmos o período em que estivemos na Geoexplore, onde ingressei em 2004 e o Bernardo por volta do ano 2000. Então o nosso núcleo (eu, Bernardo e Mário) tem mais de 27 anos de convivência, incluindo o período em que estivemos com a Coffey. A GE21 nasceu num período de crise do setor mineral que estava obrigando a Coffey a fechar as portas e mudar de ramo, deixando a área de mineração. Apesar da crise, nós tivemos a oportunidade de nascer já com três projetos que foram herdados da época da Coffey, com quem adquirimos a experiência de tratar com clientes internacionais. Nos propusemos a arrebanhar pessoas e a começar uma nova carreira, já com uma visão mais brasileira dos problemas locais, sem interferência da cultura australiana. Começamos, na época, com sete pessoas.

Iniciamos a GE21 já com um jeito mais brasileiro de gerenciar, e os três primeiros projetos – que herdamos da Coffey - logo se transformaram em projetos de classe internacional. Nós tivemos dois clientes internacionais, o que foi muito importante para nós naquela época, porque pudemos mostrar, nos relatórios, uma marca brasileira já despontando no mercado de Toronto, no Canadá. Fizemos um relatório para a Ero Copper, que estava entrando no Brasil, e outro para a Largo. Esses dois relatórios nos deram projeção.

Logo em seguida veio a pandemia e nós, com o nosso grupo, sobrevivemos a ela. Os mais velhos, que tinham um pouquinho mais de cabeça branca, foram para casa. A turma jovem, com todo o cuidado, continuou a trabalhar durante a pior fase da pandemia. Tivemos apenas dois casos, e não paramos de trabalhar, de viajar.

Saímos da pandemia já com uma carteira consolidada, porque a mineração no País não parou. E em 2001 dobramos o número de funcionários, de projetos e o faturamento.

Estamos agora cumprindo agora 10 anos, graças a Deus com sucesso, com presença marcante no mercado brasileiro e abrindo portas no mercado internacional, com uma parceria na Argentina.

BERNARDO VIANA - Qual foi o desafio para recriar ou para dar continuidade com a GE21 em 2015? Na verdade, não houve desafio, porque não sabemos fazer outra coisa. Então, era para nós intrínseco que teríamos de tentar crescer ou refazer a empresa, criar coisas novas, pensar diferente, trilhar um caminho parecido ou no mesmo rumo, na mesma linha que a Geoexplore e a Coffey atuavam. Na verdade, os desafios nada mais eram que dias de trabalho normais, problemas que se precisa enfrentar no dia a dia, vitórias, derrotas, momentos bons, momentos ruins.

E a vantagem – o que é um diferencial da GE21 – é que boa parte da equipe se conhece e trabalha junto há mais de 20 anos. Temos uma relação inclusive fora do escritório. Então, tivemos o grande privilégio de manter esse pessoal e voltar a construir uma empresa da qual todos se sentem donos. Portanto, foi um desafio natural. Para falar a verdade, não consigo lembrar de nenhum momento ruim. Sempre conseguimos passar, superar, mudar a rota, ajustar. E continuamos fazendo isso até hoje.

Reunião inaugural da GE21
Reunião inaugural da GE21

BRASIL MINERAL – Como foi esse processo de afirmação e reconhecimento no mercado internacional?

PORFÍRIO - A participação que tivemos na Coffey foi muito importante, porque aprendemos a fazer relatórios de nível internacional. Não nascemos prontos e devemos agradecer muito ao professor Norman Locke, que hoje está aposentado, na África do Sul. Ele era profissional da Coffey e reconheço que nos ajudou demais a preparar relatórios, ser mais criteriosos e aprender a fazê-los na linguagem que o canadense quer, lembrando que o canadense que vai ler aquele relatório não é necessariamente um geólogo. Temos que aprender a escrever simples. Não é fazer diferente a parte técnica, que é igual, seja aqui na Austrália, na África, ou no Canadá. Mas a linguagem que aprendemos a utilizar é mais coloquial, para mostrar e dar confiança ao investidor sobre o que estamos fazendo. Outro fator importante é que cobramos em real, não em dólar. Sabemos que esse fator econômico foi importante, aliado à qualidade que nós tivemos, e continuamos a manter, com padrão internacional de trabalhar, associado a um custo mais baixo, a um custo tropicalizado. Isso motivou nosso sucesso. Hoje somos reconhecidos na bolsa do Canadá, onde o pessoal sabe quem é a GE21. Vencemos a barreira do preconceito da qualidade.

Hoje a qualidade dos nossos profissionais é a mesma de sempre e conseguimos criar uma cultura dentro de uma assinatura, uma identidade GE21. Nós crescemos muito, temos muita gente nova aqui, pessoas que estamos formando. Já formamos bastante profissionais que hoje estão em grandes empresas de mineração. E as pessoas que estão há 20 anos conosco, permanecem.

BERNARDO - Eu e o Porfírio começamos a fazer esse tipo de trabalho em 2007. Ou seja, daqui a dois anos completamos 20 anos de experiência. Portanto, é uma experiência robusta. Muitas vezes nós trabalhamos em conjunto com grandes empresas de fora do Brasil, porque a turma lá pode saber do código, pode escrever melhor em inglês, mas não mais de mineração brasileira, dos projetos brasileiros, do que nós. Então, este lado também nos favorece.

Um outro ponto importante que ouvimos dos nossos clientes é que o nosso processo de auditoria, a nossa forma de fazer auditoria, é diferente. Nos portamos como auditores, procurando, é claro, melhorias, oportunidades de melhorias, falhas em projetos. Só que sempre nos colocamos do lado do cliente. Tentamos resolver, não só criticar. Isso já escutei muito.

BRASIL MINERAL - Uma curiosidade: por que o nome GE21? E qual é o contingente da empresa hoje?

PORFÍRIO - Esse nome foi decidido numa conversa informal. Estávamos precisando escolher o nome e pensamos em GE (Geologia e Engenharia). E como éramos dois geólogos e um engenheiro, nos decidimos pelo GE21. Na ocasião, tentamos adquirir o nome Geoexplore, mas a Tetratech, sucessora da Coffey Mining no Brasil, não quis vender.

BERNARDO – Hoje nós temos um quadro de pessoal na sede, em torno de 120 pessoas, e outro que é flutuante, que é o pessoal de exploração, que trabalha sob demanda, sob contrato. No total, temos hoje quase 180 pessoas, a maior parte de nível superior.

BRASIL MINERAL – Qual é a política que a GE21 adota para atração de jovens talentos, num mercado disputado?

PORFÍRIO – Para o pessoal jovem, nós oferecemos uma dose de desafio. E ficam conosco aqueles que querem aprender. Aqui as pessoas não são atraídas só pela remuneração, que evidentemente faz parte, mas principalmente pelo desejo de aprender. E esses que gostam de aprender também gostam de se exercitar, de se mostrar e estar à frente em termos de tecnologia. Os que passam nessa peneira, ficam conosco. Portanto, damos uma dose de responsabilidade, de desafios e isso prende as pessoas. Porque cada projeto é diferente de outro, não é como numa empresa grande, em que a pessoa acaba fazendo sempre mais ou menos o mesmo, numa linha de produção. Aqui uma hora é projeto de lítio, outra hora é ouro, cobre, grafite, molibdênio... E cada substância diferente nos obriga a voltar para os livros, a voltar um pouquinho para a academia e estudar. E damos liberdade para essa turma também que quer voltar a estudar. Nós temos aqui um programa de incentivo a cursos de pós-graduação e contamos com muitos mestres e alguns doutores trabalhando conosco, formados durante o tempo em que estavam trabalhando aqui na GE21.

BERNARDO – Creio que o pessoal gosta da possibilidade de trabalhar com vários projetos, várias commodities, várias situações, vários clientes, vários tipos de pressão e desafios. Quem gosta dessa linha de trabalho, tem aqui um prato cheio para se desenvolver. E o pessoal que entra e gosta, fica. As pessoas que não se adaptam realmente saem, vão trabalhar em empresa grande ou numa mina. E sempre colocamos desafios para o pessoal. A turma mais nova que ingressa, enxerga mais a possibilidade de virar um QP (Qualified Person) CP (Competente person ou PQR ( Profissional Qualificado Registrado). Esse é o discurso comum do pessoal que está entrando. Mas com o tempo, isso muda, porque a quantidade de projetos que entra e sai aqui na empresa é muito grande. Há um forte dinamismo. Para se ter uma ideia, só no primeiro semestre de 2025 entraram 49 projetos. E além destes, vieram 27 do ano passado. Então, trabalhamos, até final de junho, com 49 mais 27 projetos, de 19 substâncias diferentes. Creio que isso atrai o pessoal que gosta de desenvolver, de adquirir experiência. É um ponto positivo.

É o nosso núcleo de inovação que gera, faz a geração da ciência aplicada ao mundo prático e difunde, para podermos utilizar.

— PORFÍRIO CABALEIRO

BRASIL MINERAL – Uma característica da GE21 é o uso de tecnologias mais avançadas, o que é um diferencial, mas também um desafio. Isto exige capacidade de adaptação em um setor que ainda utiliza muitas técnicas antigas. Como se dá esse processo?

PORFÍRIO – Há um costume que dizem ser brasileiro, mas na realidade é internacional, ou seja, que ninguém lê bula. Se alguém vai tomar um medicamento para dor de cabeça, simplesmente compra e toma, sem ler a bula para saber quais são as propriedades e se há algum efeito colateral. Acontece a mesma coisa com a tecnologia. Todo mundo ouve falar, mas se pedir para descrever, vai ser igual à estória dos cegos descrevendo elefantes: um vai descrever uma tromba, outro uma pata, um terceiro o rabo, o quarto a orelha, de maneira que cada um tem uma ideia, que não forma um conjunto. Na GE21 nós temos o costume de ler a bula, de estudar. Temos aqui uma turma de geólogos - que hoje não tratamos mais como geólogos e sim como cientistas de dados – que estão utilizando a Inteligência Artificial para gerar alvos de exploração, lembrando que a GE21 trabalha com todo o ciclo, desde a descoberta até o fechamento de minas. Então nós temos uma turma que já é especializada em utilizar ferramentas de Inteligência Artificial, que estudou, sabe como utilizar e vende a ideia. Um dos carros-chefes que estamos levando para a Argentina é a aplicação de Inteligência Artificial, não porque está na moda, mas por ser um campo para abrir mercado. Nós somos precursores em fazer estimativa de recursos utilizando geostatística não-linear, aqui no Brasil e inclusive no mundo. Nós fazemos simulação de geoestatística há algum tempo, apresentamos os relatórios internacionais com simulação de geoestatística, porque estudamos, temos aqui doutores. Eu mesmo tenho uma experiência também de vida e o meu curso de mestrado também foi na área de geoestatística. Então, tivemos coragem de apresentar isso para o cliente e para o mercado. Nós temos uma área no grupo G21 que é a de geotecnologia. É o nosso núcleo de inovação que gera, faz a geração da ciência aplicada ao mundo prático e difunde, para podermos utilizar. Logicamente, isso depende de esforço, não só para estudar, mas também do incentivo para gerar o software. Nós estamos capacitados com os softwares mais avançados do mercado. Foi um investimento que fizemos para aplicar essa teoria, porque se for aplicar só com o software mais barato, não funciona.

BERNARDO – Hoje a tecnologia, para nós, significa sobrevivência. Nós não vendemos minério, então sempre temos que ir atrás do melhor resultado, com maior eficiência, sempre. E só se consegue com tecnologia. Não há outra forma de se fazer essa equação. O alinhamento nosso com o desenvolvimento tecnológico vem da Geoexplore. Em 1997, na época do caso Bre-X (*), a Geoexplore tinha uma grande equipe e trabalhava principalmente focada em exploração mineral. Com o Bre-X, cessaram todos os investimentos em pesquisa e desenvolvimento. Ou seja, acabou tudo. Foi uma tremenda crise, naquela época. E o Mário Conrado, então, teve a visão de seguir com o uso de tecnologias. Ele trouxe para a empresa o GIS (Geographic Information System), que naquela época era o ArcGIS 3.1, e conseguimos desenvolver, junto com a Vale, um projeto focado em tecnologia GIS. Por outro lado, abriu-se um novo setor dentro da empresa, direcionado para trabalhar com GIS. E conseguimos um contrato na Bahia, para digitalizar as cartas topográficas e mapas do estado.

Nunca mais deixamos de investir, investigar e desenvolver coisas novas.

— BERNARDO VIANA

Foi graças a esse contrato que a Geoexplore sobreviveu à crise pós-Bre-X. Desde então, esse desenvolvimento é contínuo. Nunca mais deixamos de investir, investigar e desenvolver coisas novas. Avançamos tanto, que hoje estamos com uma linha da Embrapii, creio da ordem de R$ 3 milhões, para desenvolver uma plataforma, um conceito diferente de tratamento de meta-dados. Também pleiteamos uma linha de crédito do BNDES-Finep com uma proposta de criação do Centro de Tecnologia e Desenvolvimento de Inovação na Mineração (CEPIM). É uma linha no valor de R$ 25 milhões.

BRASIL MINERAL – Como está a perspectiva da internacionalização?

PORFÍRIO - Com relação à internacionalização, nós já pensamos nisso há algum tempo. Não é uma ideia de momento, foi maturada. Nós fizemos uma incursão no Peru, estamos sempre participando dos congressos internacionais em que temos oportunidade, na Austrália, no Canadá, e agora na América do Sul. Tivemos a felicidade de encontrar um parceiro na Argentina, que é o Manuel Benítez, que é muito influente na área de mineração, porque ele é presidente do grupo de provedores mineiros da Argentina. E ele está de mãos dadas conosco, abrindo o caminho lá. Estamos vendo já com muito boas perspectivas o que começamos a fazer. Nós já temos algumas propostas colocadas, alguns projetos que fizemos e estamos muito animados a seguir esse caminho. Sabemos que vai ser um desafio entrar no mercado andino, por conta da própria geografia do local e porque o Chile comanda esse mercado. Mas temos esperança, com os profissionais que nós estamos contratando e com a nossa experiência, de fazer bons projetos e relatórios.

Mas temos esperança, com os profissionais que nós estamos contratando e com a nossa experiência, de fazer bons projetos e relatórios.

— PORFÍRIO CABALEIRO

BRASIL MINERAL - Como vocês imaginam a G21 daqui a 10 anos?

Não temos, em princípio, nenhuma estratégia no sentido de tentar crescer mais, porque a empresa já está muito grande.

— BERNARDO VIANA

(*) O caso Bre-X foi um dos maiores escândalos de fraude na história da indústria de mineração, que chocou o mercado financeiro, envolvendo a empresa canadense Bre-X Minerals Ltd., que alegou ter descoberto uma mina gigantesca e extremamente rica de ouro em Busang, na Indonésia. O anúncio da descoberta fez as ações da empresa dispararem, passando de alguns centavos de dólar para mais de 280 dólares. O valor de mercado da empresa foi para US$ 6 bilhões. O governo indonésio, visando uma participação no projeto, pressionou a Bre-X a aceitar uma parceria com a Freeport-McMoran, que descobriu que as amostras de ouro enviadas para análise pela Bre-X tinham sido “salgadas” com pó de ouro. Pouco antes da divulgação da fraude, o geólogo-chefe da Bre-X, Michael de Guzman morreu de forma misteriosa ao cair de um helicóptero na selva da Indonésia. De um dia para o outro, as ações da Bre-X despencaram, o que resultou na perda de bilhões de dólares para milhares de investidores, desde pessoas físicas até grandes instituições. O episódio fez com que o Canadá criasse regras mais rígidas para os relatórios de recursos e reservas, através do National Instrument 43.101 que entrou em vigor em dezembro de 2005.

BERNARDO – Não temos, em princípio, nenhuma estratégia no sentido de tentar crescer mais, porque a empresa já está muito grande. Precisamos começar a pensar em sucessão, para dividir as responsabilidades. Só que não conseguimos ficar parados. Então, uma linha em que podemos crescer é a da GE21 Serviços. Já temos um contrato firmado e outro em negociação para fazer a gestão de uma mina de ferro em Minas Gerais, em que vamos fazer tudo. Já estamos na parte de licenciamento ambiental. O outro contrato é um projeto de ouro, uma mina maior, em que também vamos fazer a gestão da operação. Portanto, podemos crescer nessa linha de serviços, mais ou menos nos moldes do que a Paulo Abib Engenharia fez no passado. Só que vamos tentar fazer diferente e melhor.

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