Eu trabalhava no Centro de Pesquisas da então Vale do Rio Doce. Os colegas Astor Viana e Francisco Gomes D´Assumpção, hoje falecidos, haviam desenvolvido o processo de beneficiamento do minério de Carajás. Como este era de alto teor, não precisava ser concentrado, mas classificado em produtos nas faixas granulométricas demandadas pelo mercado (granulado e sinter feed). Naquela época não havia tecnologia para fazer esta separação sem a adição de água, apesar dos colegas tentarem tudo o que estava ao alcance para fazê-lo. As peneiras paravam de separar em minutos, por causa dos ultrafinos, que ficavam aderidos à tela. A adição de água, necessária para limpar as peneiras, trouxe uma indesejada complexidade ao processo, perda metalúrgica, assim como aumento de custos de capital e operacional. Coube a mim levantar os parâmetros para o dimensionamento dos espessadores para recuperação e recirculação da água usada no processo. O ano era de 1978 e eu tinha dois filhos, o mais novo com 6 meses de idade e uma menina de 3 anos. Fui para Carajás em um voo da VOTEC, um avião tipo Bandeirante, a partir de Belém. Era um avião de 12 passageiros.

Curiosa como sempre fui, quis ficar na janela. O voo seguiu sem emoções até nos aproximarmos do acampamento N1. Como eu estava próxima da cabine de comando, ouvi o operador do rádio em terra informar que era para seguirmos para Marabá, pois a visibilidade era 0-0. Não conhecia o jargão da Aeronáutica, mas sabia que não era uma boa notícia. Entretanto, o pior estava por vir. O copiloto, o mais experimentado da região, calmamente disse ao jovem companheiro piloto que iria ajudá-lo a fazer uma manobra de aproximação nas nuvens. O nome do piloto era César e do copiloto, Groth (falava-se Groti). Como passageiro, ia conosco um piloto de helicóptero da Docegeo, Juarez. Ele sentou-se ao meu lado e falou que também iria ajudar o jovem comandante César na manobra de aproximação. A neblina era espessa e eu não via nada em terra. Quando saímos das nuvens, as rodas do avião estavam a poucos metros da copa das árvores e o campo de pouso, em posição perpendicular ao trajeto do avião. Nisso, ouvi o Groti e o Juarez gritarem com todos os pulmões: “ARREMETE, CÉSAR!!! ARREMETE, CÉSAR!!!” Em uma fração de segundo, uma campainha começou a soar e o avião, a tremer. O bendito César levou alguns segundos para arremeter. Nunca havia ouvido falar este termo técnico, mas já sabia o significado. A tal campainha, chamada estol, era um alerta que a aeronave estava prestes a perder sustentação e um aviso para São Pedro que os passageiros estavam prestes a partir para se apresentarem no céu. Nestes segundos, centenas de imagens me vieram à mente, mas a principal foi imaginar o pai dos meus filhos, sozinho e com eles no colo. Após uma segunda tentativa, o avião se aproximou corretamente da pista de pouso e conseguimos aterrissar sem problemas. Custei a ter pernas para me levantar e fingir naturalidade. Só consegui chorar muitos dias depois, ao contar este fato ao pai dos meus filhos. Até hoje sinto emoção ao relatar estes momentos e por isso digo que parece que aconteceram ontem!
Mas a viagem ainda iria trazer mais surpresas, desta vez positivas: entre os passageiros do voo estava o Breno dos Santos (sim, aquele que havia descoberto Carajás), que era na época o gerente do distrito da Amazônia da Docegeo, empresa de exploração geológica da Vale. O Centro de Pesquisas, onde eu trabalhava, era o parceiro no desenvolvimento dos projetos de geologia daquela empresa. Alguns dias depois que eu estava no acampamento de Carajás e envolvida nos testes dos espessadores, Breno me convidou para conhecer o projeto de cobre Salobo 3 Alfa, de helicóptero. Alguns meses antes eu havia recebido em Belo Horizonte amostras do minério do cobre de Salobo e estava iniciando os testes de beneficiamento. Foi uma experiência inesquecível e maravilhosa a de sobrevoarmos a floresta intocada e densa durante quase 1 hora. Alguns minutos antes de pousarmos, o piloto do helicóptero (o tal Juarez) chamou o operador de rádio em 3Alfa e falou “Atenção, Atenção: mulher a bordo”! Estranhei este alerta, mas o Breno me explicou que o lugar era tão quente que os homens ficavam o tempo todo trabalhando de cuecas. Ao chegarmos em terra, o pessoal nos recebeu com uma alegria sem igual, pulavam feito crianças quando recebem um presente. Soube depois que eles estavam há meses isolados, sem notícias, quase nada até de suas famílias. Éramos portadores de novidades, de comida, de novos equipamentos, vínhamos do mundo civilizado. Nessa visita, tomei consciência do sacrifício humano que era a geologia de exploração avançada. A partir daquele momento, cada grama de material que me chegava às mãos para testes em Belo Horizonte era valorizado como algo mais precioso do que ouro. Se pudesse, eu o colocaria em caixas de algodão, como colocamos as pedras preciosas. E a partir desta viagem Breno e eu ficamos amigos, o que perdura até hoje.
Esta viagem a Carajás rendeu a escolha do meu nome como uma das responsáveis pelo desenvolvimento do projeto, eternizado no monumento que hoje está em uma praça da cidade. Também me aproximou da equipe do cobre de Salobo, projeto em que trabalhei por mais de 20 anos. E minha experiência no Salobo me credenciou para trabalhar na parceria Vale/Phelps Dodge algumas décadas depois, no projeto Sossego. Tenho muito orgulho desses feitos da minha vida profissional e tenho muitas outras histórias para contar. Espero contá-las aos meus netos um dia.

Ah...o processo de Carajás hoje é feito em umidade natural, sem necessidade de adição de água, conquista que as novas tecnologias permitiram algumas décadas depois. Isto também é uma boa história, mas os netos não vão querer saber. Já paraos interessados em gestão da inovação, é um prato cheio. Quem sabe escrevo um dia?
