Nos primeiros quatro meses de 2025, a Itafos, multinacional americana do setor de fertilizantes, já superou todo o volume de vendas registrado em 2024 no Brasil. A marca reflete o novo momento vivido pela empresa, que opera no Matopiba, especialmente por meio de sua unidade em Arraias (TO), onde acaba de anunciar um investimento de R$ 40 milhões. Após retomar a produção no complexo mineroquímico em 2023, a companhia passou a operar de forma integrada, da extração mineral à acidulação, e, mais recentemente, iniciou a produção de fertilizantes fosfatados granulados, voltados a grandes culturas como milho, soja e algodão.
Com crescimento de mais de 100% nas vendas em 2024 e projeção de avanço de quase 70% em 2025, a empresa aposta na combinação entre modernização da planta, valorização dos insumos no mercado internacional e uma estratégia alinhada ao Plano Nacional de Fertilizantes para consolidar sua atuação no País.
Segundo Felipe Coutas, Presidente da Itafos no Brasil, o cenário global — com a reconfiguração do uso de enxofre na indústria de baterias e metalurgia — tem pressionado os custos no setor agrícola, mas também abre espaço para empresas com produção local e foco em inovação se destacarem.

Nesta entrevista, Coutas fala sobre os principais vetores de crescimento da Itafos, os investimentos em Arraias, os próximos passos da companhia no Brasil — incluindo o Projeto Santana, no Pará — e os desafios e oportunidades do setor de fertilizantes diante das transformações estruturais no mercado global de insumos.
BRASIL MINERAL – A Itafos vem se destacando com uma operação cada vez mais robusta no Brasil. Qual a trajetória recente da empresa no país, especialmente após a retomada da operação de Arraias em 2023? Por que a operação estava paralisada e qual foi o investimento para a sua retomada?
Felipe Coutas – Apesar de iniciarmos a operação parcial do complexo com a retomada da produção e venda de ácido sulfúrico no ano de 2022, foi em 2023 que retomamos a operação da nossa mina em Arraias (TO), após um amplo processo de reestruturação técnica, regulatória e operacional. A planta estava paralisada desde dezembro de 2019, e investimos mais de US$ 22 milhões em pesquisa mineral, desenvolvimento de rotas e produtos e recomissionamento das unidades produtivas. Essa retomada foi feita de forma escalonada e responsável, com foco em segurança, sustentabilidade e performance.
Saímos de uma produção de cerca de 30 mil toneladas de fertilizantes em 2023 para mais de 120 mil toneladas em 2024, e o ritmo segue acelerado em 2025 — desejamos ultrapassar com folga a produção do ano anterior. A retomada do complexo de Arraias não só reposiciona a Itafos como um player relevante no setor, como também nos habilita a contribuir efetivamente com os objetivos do Plano Nacional de Fertilizantes (PNF), que busca ampliar a produção local e reduzir a dependência de importações.
BRASIL MINERAL – O complexo de Arraias voltou a operar de forma integrada, da mineração ao fertilizante final. Poderia nos explicar como essa cadeia funciona na prática e o que torna essa operação estratégica para a companhia?
Felipe Coutas – Nossa operação em Arraias é verticalizada: extraímos o fosfato de origem sedimentar e alta reatividade da mina, processamos em nossa planta industrial e transformamos em fertilizantes orgânicos, naturais reativos, ou em fertilizantes de alta solubilidade acidulados dentre eles o fosfato parcialmente acidulado e o superfosfato simples.
Em 2020 desenhamos um plano estratégico e a cada ano uma etapa é colocada em prática, reduzindo o risco de investimento. Temos tido sucesso na execução disciplinada do plano e a cada ano novos investimentos ocorrem e destravam valor na nossa cadeia de produção e distribuição. Em 2025, por exemplo, estamos investindo na retomada da produção de fertilizantes granulados. Essa integração aliada com flexibilidade de produção reduz custos, otimiza a logística, assegura controle sobre a qualidade do produto e torna a operação mais resiliente frente às oscilações do mercado global. Além disso, estar próximo das regiões agrícolas do MATOPIBA, Goiás e Noroeste de Minas Gerais nos dá uma vantagem competitiva logística importante.
BRASIL MINERAL – Quais são os dados atualizados da produção mineral e de fertilizantes na unidade de Arraias? Existe projeção de crescimento para os próximos anos?
Felipe Coutas – Em 2024, extraímos mais de 120 mil toneladas de rocha fosfática, entregamos aproximadamente 80 mil toneladas de fertilizantes, e nos primeiros três meses de 2025 já superamos o volume previsto de produção e vendas. Nosso objetivo continuará sendo o de expandir a produção e o volume de vendas neste ano e no próximo.
Nosso objetivo é replicar os aprendizados e as boas práticas já consolidadas, aproveitando a localização estratégica do Pará, que está próximo de importantes áreas de produção agrícola e também de corredores logísticos
BRASIL MINERAL – A Itafos anunciou R$ 40 milhões em investimentos para 2025, um aumento significativo em relação ao ano anterior. Quais frentes ou tecnologias esses recursos irão contemplar?
Felipe Coutas – Esses recursos serão aplicados majoritariamente na ampliação da capacidade de granulação e na modernização da planta de Arraias. Estamos também aprimorando nossa eficiência energética, automatizando processos e fortalecendo nossa área de P&D. A granulação é um passo importante para atingir mercados de maior escala, como o de soja, milho e algodão, com um produto tecnicamente adequado às tecnologias de aplicação utilizadas nessas lavouras.
BRASIL MINERAL – Há planos de expansão da capacidade de lavra ou de novos projetos minerários além de Arraias?
Felipe Coutas – Sim, além da ampliação da capacidade em Arraias, temos um plano de longo prazo voltado ao Projeto Santana, localizado no estado do Pará. Este projeto é uma aposta para ampliar a produção de fosfatados no Brasil e está em fase preparatória, com avanços mais consistentes esperados a partir de 2027.
O Projeto Santana tem grande potencial geológico e está sendo desenvolvido com base no mesmo modelo que aplicamos em Arraias: uma operação verticalizada, eficiente e ambientalmente responsável, que vai da extração mineral à entrega de fertilizantes no campo. Nosso objetivo é replicar os aprendizados e as boas práticas já consolidadas, aproveitando a localização estratégica do Pará, que está próximo de importantes áreas de produção agrícola e também de corredores logísticos.
Vale destacar que, ao concentrarmos nossos investimentos no setor de fertilizantes — o que foi possível, inclusive, após a venda do ativo de terras raras em Araxá — conseguimos direcionar recursos e foco para projetos como Santana. Vemos esse projeto como parte fundamental da expansão sustentável da Itafos no Brasil, com potencial para atender a uma demanda crescente por fertilizantes locais, ao mesmo tempo em que fortalece a segurança alimentar e energética do país. Também estamos sempre atentos a oportunidades de ativos que tenham sinergia com nosso modelo de operação verticalizada e sustentável.
BRASIL MINERAL – O fertilizante fosfatado granulado foi recentemente introduzido pela empresa. Quais são os diferenciais desse produto e qual impacto ele pode ter no mercado agrícola brasileiro?
Felipe Coutas – O produto granulado representa um avanço importante para a Itafos e para o mercado agrícola nacional. Ele foi desenvolvido para atender produtores de grandes culturas, como soja, milho e algodão, que operam com maquinários modernos e de alta escala.
Do ponto de vista agronômico, o produto granulado mantém as propriedades essenciais do fosfato — especialmente o fósforo reativo, além de ser altamente solúvel —, e com um formato físico que favorece a distribuição uniforme no campo. Sua granulação permite que o fertilizante seja lançado com mais precisão, alcançando faixas de aplicação de até 35 metros, o que é ideal para grandes áreas e reduz o tempo e o custo de aplicação por hectare.
No aspecto logístico, o produto granulado se destaca pela resistência à umidade e ao empedramento, tem melhor fluidez no transporte e manuseio, e apresenta menor geração de pó, o que melhora as condições de armazenamento e aplicação. Isso facilita o uso em máquinas modernas de distribuição. Em 2024, tivemos uma aceitação expressiva no Mato Grosso, e para 2025 já estamos com 10% das vendas previstas de granulado direcionadas a essa região, onde a demanda por eficiência é ainda maior.
A escolha do agricultor pelo produto farelado ou granulado, depende da região, do nível de tecnologia e dos equipamentos usados para fazer a aplicação do fertilizante. Em algumas regiões, os agricultores usam equipamentos que lidam bem com produtos farelados. Em outras, o agricultor que tem uma fazenda muito grande e quer cobrir a maior área com o menor número possível de equipamentos, vai usar o granulado.
O lançamento do granulado faz parte da nossa estratégia de diversificação de portfólio e de alinhamento ao Plano Nacional de Fertilizantes (PNF), oferecendo alternativas nacionais com qualidade e competitividade frente aos produtos importados. O objetivo da Itafos é não apenas fornecer fertilizantes, mas ajudar o produtor a ganhar eficiência agronômica, produtividade e segurança de abastecimento.
BRASIL MINERAL – Como a empresa está posicionada frente ao aumento global da demanda por fosfatados e à volatilidade de insumos como o enxofre?
Felipe Coutas – Estamos nos posicionando para entregar ao mercado um produto que foge das tradicionais commodities, que alia alta performance no campo e acessível ao produtor. Isso só é possível graças a um controle disciplinado dos custos de produção e buscando sempre as melhores oportunidades de aquisição de matéria-prima no mercado.
Por outro lado, defendemos também que haja reciprocidade nas exigências ambientais e sociais para produtos importados, neste caso, fertilizantes. A Itafos está comprometida com boas práticas sociais, preservação de recursos hídricos, tem licenças atualizadas e o mercado precisa reconhecer e valorizar essas práticas.
BRASIL MINERAL – O Projeto Santana, no Pará, é uma das próximas etapas da expansão da Itafos. Em que estágio ele se encontra atualmente e qual seu potencial em termos de recursos e produção?
Nossa atuação é pautada pela escuta ativa das comunidades e pelo fortalecimento de laços locais.
Felipe Coutas – O Projeto Santana está em fase preparatória e faz parte da nossa estratégia de médio e longo prazo. Esperamos avanços mais consistentes a partir de 2027. É uma área com excelente potencial geológico, onde queremos aplicar o mesmo modelo de operação sustentável que adotamos em Arraias. Temos um compromisso com a geração de valor local e com a produção nacional de fertilizantes
BRASIL MINERAL – Como a Itafos tem trabalhado a questão ambiental em suas operações minerárias? Há iniciativas de recuperação de áreas ou envolvimento com comunidades locais?
Felipe Coutas – Sim. Temos uma relação muito próxima com as comunidades que nos acolheram. A cada semestre realizamos reuniões públicas para atualizar as ações em andamento e abrimos as portas de nosso complexo, incluindo as barragens, para visitação dos moradores locais. Defendemos que o diálogo e a transparência são fundamentais na relação em comunidade. Nossas barragens são fiscalizadas regularmente e operamos com total licenciamento. Em Arraias, por exemplo, a barragem de água contribuiu para perenizar o rio local, garantindo abastecimento para comunidades ribeirinhas o ano inteiro. Fizemos reassentamentos com moradias adequadas e áreas para agricultura familiar, catalogamos espécies e temos ações de recuperação de áreas. Nossa atuação é pautada pela escuta ativa das comunidades e pelo fortalecimento de laços locais.
BRASIL MINERAL – O que a empresa tem feito para atender aos critérios ESG, cada vez mais exigidos por investidores e pelo mercado global?
Felipe Coutas – ESG está no centro da nossa atuação. Desde segurança operacional até relacionamento com comunidades, buscamos sempre fazer mais do que o mínimo. Temos o compromisso de não colocar em risco a vida dos nossos colaboradores.
Fomos reconhecidos como um "Great Place to Work" e estamos desenvolvendo parcerias com pecuaristas para promover o uso de fosfato natural na recuperação de pastagens degradadas. Isso não só permite uma pecuária mais intensiva e sustentável, como também abre caminho para a geração de biometano — um combustível renovável produzido a partir de resíduos orgânicos, que pode ser reaproveitado em diversas etapas do processo agrícola. Esses são exemplos práticos de como buscamos integrar sustentabilidade com produtividade.
Além disso, por ser uma empresa pública, listada na bolsa de valores de Toronto, no Canadá, mantemos um programa bem estruturado de governança, que permite que os diversos níveis da empresa estejam alinhados com as diretrizes da alta direção.
BRASIL MINERAL – Por fim, qual é a visão da Itafos para o futuro do setor de mineração de fosfatados no Brasil e o papel da empresa nesse cenário nos próximos 5 a 10 anos?
Felipe Coutas – Vemos o Brasil como estratégico para o futuro dos fertilizantes fosfatados. O Plano Nacional de Fertilizantes (PNF) é um avanço importante, mas precisa virar política de Estado. A Itafos defende esse movimento, investindo em produção local, com inovação e sustentabilidade. Nosso objetivo é ser referência em fosfatados no país, com operações integradas, competitivas e que gerem valor para o Brasil, para os agricultores e para as comunidades onde atuamos.
Acreditamos que o Brasil tem todas as condições para reduzir ainda mais a dependência dos fertilizantes fosfatados importados — não apenas pelo seu potencial geológico, mas pela necessidade estratégica de garantir segurança alimentar e reduzir a dependência externa de insumos críticos.
Hoje, mais de 85% dos fertilizantes consumidos no Brasil são importados. Isso torna o país vulnerável a oscilações geopolíticas, logísticas e de preços internacionais. É justamente nesse contexto que a Itafos se posiciona como uma empresa comprometida com o desenvolvimento de uma cadeia produtiva nacional, robusta, eficiente e sustentável.
Nos próximos 5 a 10 anos, a Itafos quer contribuir ativamente na consolidação de uma nova matriz de produção de fosfatados, com expansão da capacidade produtiva local, inovação e diversificação do portfólio e atuação integrada ao Plano Nacional de Fertilizantes (PNF), contribuindo ativamente com propostas, participação institucional e projetos alinhados à visão de longo prazo do país.
Queremos ser mais do que produtores: queremos ser agentes de transformação da indústria. Isso significa investir em pessoas, respeitar comunidades, promover boas práticas ambientais e garantir que o Brasil não apenas consuma, mas produza fertilizantes com qualidade, competitividade e responsabilidade social.

