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Brasil Mineral - Edição 449

Junho 2025
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Construindo minas resilientes ao clima: uma abordagem prática para gerenciar riscos climáticos e soluções de adaptação da mina ao porto

Lições aprendidas: Canadá e América Latina

Por Nathan Debortoli, Andrea Calderón, Sara Turner, Rafaela Pedrosa, Mariel Palomeque e Pedro Ivo Camarinha

Brasil Mineral 449Junho 2025Páginas 40-65
Construindo minas resilientes ao clima: uma abordagem prática para gerenciar riscos climáticos e soluções de adaptação da mina ao porto

Resumo

Nas últimas décadas, as mudanças climáticas vêm impactando severamente o setor de mineração em nível global, com eventos extremos como secas prolongadas, chuvas intensas, enchentes e ondas de calor se tornando mais frequentes. No Brasil, essas mudanças se manifestam de forma evidente, afetando diretamente a logística, a disponibilidade hídrica e a integridade das infraestruturas do setor. Estima-se que as perdas anuais por falhas operacionais e danos relacionados ao clima já ultrapassam US$ 10 bilhões globalmente. As secas comprometem o uso de água em processos essenciais da mineração, enquanto enchentes e deslizamentos afetam o transporte e a segurança de barragens de rejeitos. Além disso, há pressões crescentes sobre o setor por parte da sociedade civil e dos marcos regulatórios para adoção de práticas mais sustentáveis e resilientes. O estudo analisado propõe uma abordagem integrada para avaliação de riscos climáticos desde a mina até o porto, combinando dados climáticos, socioeconômicos e o conhecimento local. A metodologia envolve identificação de ameaças, vulnerabilidades e exposição, com base em cenários futuros do IPCC. Os resultados obtidos em estudos de caso na América Latina e Canadá demonstraram grande vulnerabilidade da cadeia minerária, com custos de adaptação variando de US$ 100 a 700 milhões por projeto. Também foi constatada a falta de capacitação técnica para incorporar dados de projeções climáticas em projetos de engenharia, o que pode comprometer a segurança e a eficiência das estruturas. A inclusão de estratégias de adaptação no planejamento operacional e de fechamento de minas é essencial para garantir a resiliência do setor. Investimentos em infraestrutura verde, planejamento integrado de bacias hidrográficas e maior diálogo com comunidades para um melhor entendimento dos riscos e impactos sociais são apontados como caminhos eficazes para enfrentar os desafios climáticos atuais e futuros.

1 Impactos das Mudanças Climáticas na mineração

1.1 Mudanças Climáticas nas Américas e no Brasil

Na última década, as temperaturas médias globais atingiram níveis recordes em toda a série histórica global, ultrapassando, nos últimos dois anos de forma consistente, o limite de 1,5°C estabelecido pelo Acordo de Paris (IPCC 2021). Do Ártico Canadense aos glaciares da Patagônia, as Américas – assim como grande parte do mundo – têm testemunhado mudanças bruscas nos padrões climáticos locais e regionais (WMO 2023; Cohen et al. 2020; Herring et al. 2020). Os ciclos naturais e a migração de espécies estão se transformando de forma acelerada, eventos climáticos extremos tornaram-se mais frequentes, incluindo chuvas intensas, secas prolongadas, nevascas, ondas de frio e calor excessivo (Viale et al. 2019; Parmesan & Yohe 2003; Pecl et al. 2017). O aumento das temperaturas médias e principalmente noturnas tem se destacado como uma das tendências mais persistentes, reforçando o aquecimento global contínuo (Cox et al. 2020).

No Brasil, os desastres relacionados a extremos climáticos vêm se tornando cada vez mais frequentes e severos. Secas prolongadas atingem vastas áreas da bacia Amazônica e do Pantanal, acompanhadas por incêndios florestais de dimensões alarmantes (Brando et al. 2020; Libonati et al; 2021). No Sul e Sudeste, volumes inéditos de chuva em apenas 24 horas ultrapassam todos os registros históricos, e ondas de calor anuais têm se tornando comuns com registros intercalados e recorrentes (Marengo et al. 2020; Geirinhas et al 2021). O choque entre massas de calor e frio extremas também têm incrementado a frequência de vendavais intensos, e a ocorrência de microexplosões e/ou tornados em zonas rurais e urbanas (Nascimento et al. 2016; Silva Dias et al. 2013).

Figura 1 A ocorrência de deslizamentos de terra fatais em 2025 (Número pentad - blocos de cinco dias) até o final de fevereiro em comparação com 2024 e 2004-2016 (Froude e Petley, 2018). Source: https://eos.org/thelandslideblog/fatal-landslides-in-january-2025
Figura 1 A ocorrência de deslizamentos de terra fatais em 2025 (Número pentad - blocos de cinco dias) até o final de fevereiro em comparação com 2024 e 2004-2016 (Froude e Petley, 2018). Source: https://eos.org/thelandslideblog/fatal-landslides-in-january-2025

Os deslizamentos de terra representam um risco particularmente importante para a mineração, pois podem causar paralisação de operações, perdas financeiras, danos ambientais e, sobretudo, acidentes fatais, dentro da área de mineração ou em áreas adjacentes, seja por desastres de origem natural, tecnológica ou a combinação destes. Os impactos associados a deslizamentos de terra se tornaram constantes principalmente em áreas urbanizadas, mas não se limitando somente a estas. Em fevereiro de 2025 (Figura 1), 35 eventos relacionados a deslizamentos de terra fatais foram registrados globalmente, causando 138 mortes, representando um aumento significativo em comparação com a média histórica de 20,8 deslizamentos de terra para o período 2004-2016 (Froude & Petley, 2018).

A Figura 2 mostra a distribuição espacial dos deslizamentos fatais em todo o mundo até janeiro de 2025. Como pode ser visto, há um número significativo de eventos no sudeste do Brasil, como é o caso de Ipatinga, onde ocorreram vários deslizamentos de terra deflagrados por chuvas extremas.

Além dos deslizamentos, o aumento do nível do mar e a intensificação das ressacas têm provocado danos expressivos em diversas frentes. Na infraestrutura logística portuária, por exemplo, ocorrem alagamentos recorrentes em acessos viários e ferroviários, além de danos a cais e armazéns, dificultando as operações de carga e descarga. A produção de commodities também é afetada, especialmente em regiões onde a cadeia logística depende de corredores portuários vulneráveis à elevação do mar, gerando atrasos e prejuízos operacionais.

Em áreas de lazer costeiras, como praias urbanas e parques à beira-mar, a erosão acelera a perda de faixa de areia e compromete equipamentos públicos, como calçadões e ciclovias. Por fim, a qualidade de vida nas zonas costeiras sofre com o aumento da frequência de inundações em bairros residenciais e com a salinização de aquíferos, impactando o abastecimento de água e a saúde pública.

Figura 2 A distribuição geográfica dos deslizamentos de terra fatais em janeiro de 2025 (Froude e Petley, 2018). Source: https:// eos.org/thelandslideblog/fatal-landslides-in-january-2025
Figura 2 A distribuição geográfica dos deslizamentos de terra fatais em janeiro de 2025 (Froude e Petley, 2018). Source: https:// eos.org/thelandslideblog/fatal-landslides-in-january-2025

A intensificação das ressacas tem acelerado a destruição de praias, especialmente em trechos onde a ocupação urbana desconsiderou a função natural de dunas e manguezais como barreiras de proteção costeira. A construção indevida sobre esses ecossistemas frágeis compromete a capacidade de absorção de energia das ondas e aumenta a vulnerabilidade da infraestrutura edificada. Como resultado, vias litorâneas, edificações residenciais e equipamentos públicos sofrem danos frequentes, exigindo obras emergenciais de contenção e recuperação. Em muitos casos, a erosão costeira se torna irreversível, levando à perda permanente de áreas de lazer, impactos econômicos no turismo local e maior exposição de comunidades costeiras a riscos ambientais (IPCC 2019; Emerson et al. 2020).

1.2 Efeitos em cascata e a sociedade

Os eventos extremos climáticos, muitas vezes interligados em efeitos em cascata, são agravados por ações humanas que exercem forte pressão sobre os ecossistemas, a paisagem e o clima. O crescimento urbano desordenado, o desmatamento de florestas e manguezais – com impacto no ciclo hidrológico, a alteração de cursos d'água e planícies de inundação, as queimadas ilegais e a fragilidade na aplicação das leis ambientais contribuem diretamente para o agravamento dessas catástrofes (Seto et al. 2012; Azevedo et al. 2018; Nobre et al. 2016; Coe et al. 2017; Barlow et al. 2020; Silva Junior et al. 2021). A falta de fiscalização eficaz, o planejamento territorial deficiente e os tímidos esforços de conscientização e educação ambiental, tanto no setor público quanto na sociedade em geral, aprofundam ainda mais a vulnerabilidade do país diante dessas ameaças, além de tornar sistemas humanos e naturais mais expostos (Brannstorm et al. 2008; Jacobi and Sinisgalli et al. 2012; Marengo et al. 2017; Lapola et al. 2014).

Diante desse cenário de crescente vulnerabilidade e dos impactos em cascata dos eventos climáticos extremos sobre a sociedade, a perspectiva dos direitos humanos torna-se fundamental. Instituições, especialistas e mecanismos da ONU, como o Conselho de Direitos Humanos, a Comissão de Direito Internacional, os órgãos de tratados de direitos humanos e os Procedimentos Especiais, há muito interpretam e elaboram as obrigações de direitos humanos no contexto das alterações climáticas. Especificamente, eles lançam luz sobre a necessidade de garantir o direito humano à reparação por danos transfronteiriços e por perdas e danos previsíveis decorrentes de perigos ambientais e das mudanças climáticas – consequências diretas dos eventos extremos e da degradação ambiental.

Nesse sentido, um estudo analítico solicitado pelo Conselho de Direitos Humanos (resolução A/HRC/RES/53/6) pelo Secretário-Geral da ONU (SGNU) investigou o impacto dessas perdas e danos nos direitos humanos. O relatório resultante, ao explorar abordagens e soluções baseadas na equidade, oferece recomendações para mitigar os efeitos em cascata e proteger as comunidades vulneráveis. Entre elas, destaca-se a necessidade de criar condições para uma participação ativa, livre e significativa de países vulneráveis às alterações climáticas e comunidades afetadas, bem como das organizações da sociedade civil que os representam, garantindo que suas vozes sejam ouvidas na busca por soluções e reparações. Adicionalmente, o estudo enfatiza a importância de integrar os impactos nos direitos humanos e uma avaliação holística das dimensões econômicas e não econômicas nas avaliações de perdas e danos, assegurando que a resposta aos eventos climáticos extremos e à degradação ambiental considere plenamente as consequências para o bem-estar e os direitos das populações afetadas.

Finalmente, a recomendação para estabelecer e fortalecer sistemas universais de proteção social baseados em direitos é crucial para aumentar a resiliência das pessoas diante das perdas e danos, oferecendo um mecanismo para lidar com os efeitos em cascata e proteger os mais vulneráveis das consequências das ações humanas que agravam as ameaças climáticas (Human Rights Council, 2023).

1.3 Impactos das Mudanças Climáticas no setor de mineração

Na indústria mineradora diversos estudos internacionais citam os eventos climáticos extremos, seja por excesso ou escassez de água, como responsáveis por perdas anuais na ordem de US$ 1-3 bilhões para as grandes companhias mineiras. Essas perdas incluem, por exemplo, o tempo de espera em portos (downtime), destruição ou deterioração de ativos ou componentes estruturais, e perda na produção (McKinsey & Company, 2020). Os riscos climáticos físicos, decorrentes de inundações e ondas de calor, por exemplo, já custaram ao setor de mineração bilhões de dólares anualmente. As inundações que atingiram minas de carvão da Austrália, em 2011, causaram perdas estimadas em US$5 bilhões. Eventos semelhantes em 2022 levaram a paradas de produção no valor de centenas de milhões de dólares ao redor do mundo (S&P Global Market Intelligence, 2022). O Banco Mundial cita que desastres climáticos extremos e relacionados ao clima custam à indústria mineradora de 2% a 5% da receita anual global, o que equivale a US$ 15-20 bilhões por ano globalmente, dependendo da região e da gravidade dos eventos (World Bank Climate-Smart Mining Initiative 2020). Se nenhuma medida de adaptação for tomada, estima-se que os riscos relacionados ao clima causarão falhas de infraestrutura que custam US$ 10 bilhões anualmente até 2030 (International Council on Mining and Metals, ICMM). Neste contexto, é importante ressaltar que o processo de análise de riscos climáticos é fundamental para o planejamento e definição de medidas adaptativas, tendo em vista que ações inadequadas de adaptação e resiliência (mal adaptação) podem custar à indústria de mineração global US$ 16 bilhões anualmente até 2030, devido a danos diretos à infraestrutura, escassez de água, interrupções operacionais e interrupções de energia (Ernst & Young EY, 2020).

2 Risco Climático nas Operações

2.1 Vulnerabilidades e Desafios Operacionais

O setor de mineração enfrenta riscos climáticos significativos que impactam diretamente suas operações, desde a otimização de ativos até a geotecnia e gestão de rejeitos (Hodgkinson et al. & Smith 2018). A intensificação dos eventos extremos, tanto pelo aumento da frequência como magnitude, ameaça a infraestrutura essencial, interrompendo cadeias de suprimentos e comprometendo a eficiência operacional. Enchentes e tempestades podem destruir estradas, ferrovias e portos, dificultando a logística de insumos e exportação de minérios. O aumento das temperaturas também afeta o desempenho de equipamentos críticos, acelerando sua degradação e elevando os custos de manutenção, tornando essencial a adoção de estratégias proativas de adaptação.

No processamento mineral e na metalurgia, a escassez hídrica surge como um dos desafios mais críticos (Lèbre et al. 2017). Secas prolongadas comprometem a disponibilidade de água para processos fundamentais como flotação, lixiviação e resfriamento, reduzindo a eficiência das operações (Northey et al. 2019; Gunson et al. 2012). Além disso, mudanças no regime de chuvas alteram a umidade dos minérios, afetando sua composição e impactando diretamente a produtividade. O setor também lida com a crescente instabilidade energética, já que eventos climáticos extremos podem comprometer a geração e distribuição de energia, agravando ainda mais os desafios operacionais e elevando os custos de produção. Por exemplo, já é sabido e comprovado que o desmatamento Amazônico tem contribuído para o enfraquecimento do ciclo hidrológico em toda América do Sul, com impactos imediatos na produção agrícola, produção de energia em hidrelétricas e abastecimento urbano e industrial (Sierra et al 2021; Horta et al. 2018).

Na geotecnia e na gestão de rejeitos, os riscos climáticos impõem desafios ainda maiores. A maior frequência de chuvas intensas e volumosas aumentam a pressão sobre barragens de rejeitos, elevando o risco de colapso e liquefação, enquanto a erosão acelerada ameaça a estabilidade de taludes e pilhas de estéril (Kossof et al. 2014; Piciullo et al. 2018). O derretimento do pergelissolo (permafrost-em inglês) em regiões frias como no Canadá compromete a integridade de infraestruturas construídas sobre solos congelados, ampliando a vulnerabilidade de operações em altas latitudes (Hjort et al. 2018). Diante desse cenário, o setor precisa incorporar e compreender melhor os mecanismos associados à eventos críticos, seja pelo aumento da capacidade observacional de variáveis climáticas que possuem relação diretas com os impactos (especialmente temperatura e precipitação), mas principalmente na incorporação de dados de projeções climáticas em seus projetos, reforçar sistemas de monitoramento (meteorológico, ambiental, de infraestrutura, etc.), e investir em soluções inovadoras que garantam a segurança estrutural a longo prazo.

As pressões ambientais e sociais se intensificam à medida que os impactos climáticos se tornam mais evidentes. A degradação de ecossistemas, a contaminação de recursos hídricos e o aumento da frequência de incêndios florestais colocam em risco não apenas as operações, mas também as comunidades no entorno das minas (Ali et al. 2017). Em contrapartida, as mineradoras enfrentam um ambiente regulatório cada vez mais rigoroso, impulsionado por demandas de governos e da sociedade civil por maior responsabilidade ambiental (Franks et al. 2011). O setor precisa avançar na incorporação de estratégias de mitigação e adaptação, garantindo que suas atividades sejam resilientes às novas realidades climáticas e alinhadas às expectativas globais de sustentabilidade (ICMM 2020; Buxton 2012).

2.2 Fechamento de minas

O ciclo de vida de uma mina pode envolver fechamento programado, suspensão temporária ou fechamento prematuro. Os motivos que conduzem a esta situação prematura são diversos e nem todos estão sob controle ou influência da empresa. Entre as principais causas, identifica-se os "eventos externos extremos decorrentes de processos geológicos, atmosféricos ou mudanças climáticas" (Sánchez, 2011). O Guia para o Planejamento do Fechamento de Mina, publicado pelo Instituto Brasileiro de Mineração (2013) menciona como boa prática o acompanhamento das mudanças regulatórias sobre temas referentes à proteção de recursos ambientais e culturais, uso do solo, energia e mudanças climáticas.

Construindo minas resilientes ao clima: uma abordagem prática para gerenciar riscos climáticos e soluções de adaptação da mina ao porto

No contexto das mudanças climáticas aceleradas, o fechamento de minas deixou de ser uma simples etapa técnica para se tornar um desafio ambiental e sociopolítico de grande relevância. À medida que projetos de mineração são encerrados, a forma como esse encerramento é conduzido tem implicações duradouras sobre os ecossistemas, a segurança hídrica, a saúde das comunidades e até mesmo a resiliência econômica regional. Pesquisas recentes destacam que a variabilidade climática e os riscos ambientais crescentes exigem uma abordagem mais estratégica e inclusiva no planejamento de fechamento.

O planejamento do fechamento de minas requer uma análise detalhada das mudanças climáticas para garantir a estabilidade de longo prazo das áreas intervencionadas e minimizar os riscos ambientais e sociais. Uma abordagem preventiva que incorpora cenários climáticos futuros permite o desenho de soluções resilientes, como sistemas de drenagem adaptativos, coberturas de solo mais eficientes e estratégias de revegetação sob condições variáveis. A omissão desses fatores no planejamento do fechamento aumenta a vulnerabilidade das estruturas a processos erosivos, instabilidade geotécnica e contaminação de corpos d'água, com impactos significativos nas comunidades e ecossistemas do entorno

Para operações localizadas em regiões áridas e semiáridas, o planejamento de fechamento precisa considerar seriamente os extremos climáticos. Em áreas ecologicamente frágeis, métodos tradicionais de reabilitação muitas vezes se mostram inadequados. Com chuvas escassas e temperaturas cada vez mais instáveis, o controle da erosão, a retenção de água e a contenção de poeira tornam-se desafios muito mais complexos. Portanto, planos de fechamento nessas regiões devem ser adaptados não apenas à geologia da mina, mas também às novas realidades impostas pelas mudanças climáticas. Ignorar esses fatores coloca em risco a estabilidade de longo prazo da paisagem pós-mineração (van Zyl e Straskraba, 1999 e 2012; Bozan et al., 2022).

No entanto, os desafios climáticos não são apenas ambientais — eles se entrelaçam profundamente com dinâmicas sociais. Isso se evidencia de forma contundente nos casos de fechamento repentino de minas, em que comunidades locais são deixadas sem aviso prévio ou suporte. Diversos estudos de caso internacionais mostram que comunidades que não tiveram planejamento adequado ou estratégias de reaproveitamento da infraestrutura sofreram consequências socioeconômicas severas. Em contrapartida, aquelas que investiram previamente em capacitação da força de trabalho, infraestrutura compartilhada e engajamento comunitário conseguiram lidar com o fechamento de maneira mais sustentável. A lição é clara: a resiliência não é espontânea — ela precisa ser construída antes mesmo de a mina ser encerrada (Syahrir, Wall e Diallo, 2021).

Construindo minas resilientes ao clima: uma abordagem prática para gerenciar riscos climáticos e soluções de adaptação da mina ao porto

Esse mesmo princípio de planejamento antecipado e inclusivo aparece nos estudos sobre o norte do Canadá, cujas comunidades indígenas frequentemente são excluídas dos processos de decisão sobre fechamento de minas, apesar de estarem entre as mais afetadas. O estudo revela que os planos de fechamento priorizam soluções técnicas imediatas em detrimento da sustentabilidade ambiental e cultural de longo prazo. Conhecimentos indígenas, que oferecem percepções valiosas sobre os ecossistemas locais e formas de adaptação ao clima, raramente são integrados às estratégias formais de fechamento. Com isso, perde-se a oportunidade de construir modelos de encerramento mais justos e ecologicamente eficazes (Monosky e Keeling, 2020).

Portanto, a adoção de uma abordagem proativa no desenvolvimento de planos de fechamento de mina reduz os riscos financeiros associados a falhas estruturais e litígios ambientais, além de fortalecer a confiança de investidores, comunidades e autoridades. À medida que as mudanças climáticas alteram as condições operacionais, o planejamento para o fechamento dos componentes de mineração deve evoluir para estratégias adaptativas que garantam a estabilidade ambiental e a segurança de longo prazo das áreas pós-mineração.

3 Leis e Regulamentações sobre Mudanças Climáticas e Risco na Mineração

3.1 Regulamentação sobre os impactos das Mudanças Climáticas no setor minerador

Nesta situação complexa de mudanças nos extremos climáticos, a legislação ambiental no Peru, Chile, Equador, Brasil e Canadá enfatizam cada vez mais a integração de cenários e análises de mudanças climáticas em projetos de mineração.

No Peru, a Lei Geral do Meio Ambiente (Lei nº 28611) e a Lei-Quadro sobre Mudanças Climáticas (Lei nº 30754) determinam que as atividades de mineração avaliem os riscos das mudanças climáticas e incorporem medidas de adaptação. Da mesma forma, a Lei de Bases Ambientais do Chile (Lei nº 19.300) e sua Lei de Bases de Mudanças Climáticas (Lei nº 21.455) exigem que os projetos de mineração avaliem os impactos das mudanças climáticas por meio do Sistema de Avaliação de Impacto Ambiental (SEIA). O Código Ambiental Orgânico e a Lei de Mineração do Equador também impõem considerações sobre as mudanças climáticas, garantindo que as atividades de mineração estejam alinhadas com as metas nacionais de resiliência.

A legislação ambiental do Canadá também prioriza as mudanças climáticas nas atividades de mineração. A Lei Canadense de Avaliação Ambiental (CEAA, 2012) e a Lei de Avaliação de Impacto (IAA, 2019) exigem que as avaliações federais incluam os impactos das mudanças climáticas, enquanto os regulamentos provinciais, como a Lei de Mineração de Ontário e a Lei de Avaliação Ambiental da Colúmbia Britânica, adicionam mais camadas de escrutínio. A Estrutura Pan-Canadense de Crescimento Limpo e Mudança Climática e a Lei de Responsabilidade de Emissões Líquidas Zero (Projeto de Lei C-12) reforçam a necessidade de práticas de mineração resilientes ao clima.

O arcabouço ambiental do Brasil de forma discreta e indireta recomenda a avaliação das mudanças climáticas em empreendimentos mineiros, com a Política Nacional sobre Mudança do Clima (Lei nº 12.187) exigindo medidas de mitigação e adaptação às mudanças climáticas em todos os setores, incluindo mineração. Além disso, o Regulamento de Avaliação de Impacto Ambiental (Resolução CONAMA nº 01/1986) determina que os projetos de mineração avaliem os riscos relacionados ao clima, enquanto o Plano Nacional de Adaptação às Mudanças Climáticas (PNAs, 2009 e sua atualização proposta em 2024) fornecem orientações adicionais sobre a integração de cenários climáticos ao planejamento setorial. Essas estruturas refletem um reconhecimento crescente do papel do setor de mineração na contribuição e mitigação das mudanças climáticas. Contudo, ainda faltam diretrizes claras e regras de como proceder com estes estudos.

O Instituto Brasileiro de Mineração (IBRAM) tem se mostrado cada vez mais engajado nas discussões sobre mudanças climáticas e seus impactos no setor mineral. A entidade defende que o enfrentamento a esses desafios não deve ser apenas uma resposta pontual, mas parte de uma estratégia contínua de adaptação. Por meio da publicação de um guia prático e de um posicionamento da mineração sobre a agenda de mudança do clima no Brasil em 2021, o IBRAM busca incentivar empresas de mineração a integrarem a questão climática em seus processos de planejamento e gestão de riscos, destacando a necessidade de antever impactos e se preparar para cenários futuros.

O documento reconhece que eventos climáticos extremos já estão afetando as operações do setor, e que a resiliência só será possível com ações concretas, como a adoção de novas tecnologias, mudanças na infraestrutura e fortalecimento do diálogo com a sociedade. Assim, o IBRAM posiciona o setor mineral como um agente ativo na construção de uma economia mais sustentável e preparada para o futuro (IBRAM, 2021a e b).

Em geral, em todos os países o fio condutor é a exigência de que os Estudos (EIAs) ou Avaliações de Impacto Ambiental (AIAs) incorporem cenários de mudanças climáticas, garantindo que os projetos de mineração sejam avaliados não apenas por seus efeitos ambientais imediatos, mas também por sua sustentabilidade a longo prazo.

4 Estudo de Caso – Abordagem Integrada de Risco Climático

4.1 Abordagem Prática para Gerenciar Riscos Climáticos e Soluções de Adaptação da Mina ao Porto – Lições aprendidas com o Canadá e a América Latina.

Neste contexto de extremos, a mineração e suas operações se tornam mais complexas. Tempestades intensas, aumento do nível do mar, secas e fenômenos climáticos severos podem afetar as operações de extração e toda a rota de transporte mineral, da mina ao porto.

Buscando preencher lacunas metodológicas esta pesquisa estruturada em estudos de caso reais no Canadá e América Latina, buscou contribuir com a construção e adaptação de um arcabouço metodológico a fim de completar o ciclo de avaliação do impacto das mudanças climáticas na mineração. A estrutura metodológica com este foco integra as dimensões do risco climático como sugerido pelo IPCC (ameaça, exposição e vulnerabilidade – lembrando que a última contempla a sensibilidade e adaptação).

A Figura 3 apresenta um esquema teórico de risco climático, destacando a interseção entre três componentes principais: ameaça climática, vulnerabilidade e exposição. A ameaça climática abrange eventos extremos e variações climáticas, como ondas de calor, tempestades, secas e enchentes. A vulnerabilidade refere-se à sensibilidade e à capacidade adaptativa de comunidades, ecossistemas ou sistemas socioeconômicos diante dessas ameaças,. A exposição envolve a quantificação de elementos que podem ser impactados, como populações, infraestruturas e atividades econômicas, que estão em risco em decorrência de eventos climáticos em uma determinada área analisada. Por exemplo, regiões com maior concentração de ativos (seja em termos de densidade ou valor agregado) apresentam uma exposição sistêmica elevada a riscos climáticos. Essa correlação direta entre densidade de ativos e suas vulnerabilidades se manifesta através de: i) maior potencial de danos cumulativos frente a eventos extremos, ii) efeitos em cascata nas cadeias produtivas interconectadas, e iii) saturação da capacidade adaptativa local. Quando analisado sob a ótica da teoria de sistemas complexos, esse cenário configura um risco climático sistêmico não-linear, onde os impactos superam a mera soma dos danos individuais devido aos efeitos de interdependência e retroalimentação e, por esta razão, o risco climático deve sempre ser observado de maneira ampla perante um framework conforme proposto.

Figura 3 Esquema teórico de risco climático, demonstrando a interseção entre ameaça climática, vulnerabilidade e exposição, resultando no risco de impacto. O diagrama ilustra como eventos extremos, suscetibilidade socioeconômica e elementos expostos se combinam para determinar o nível de risco, destacando também os limites da capacidade adaptativa. Adaptado IPCC 2021.
Figura 3 Esquema teórico de risco climático, demonstrando a interseção entre ameaça climática, vulnerabilidade e exposição, resultando no risco de impacto. O diagrama ilustra como eventos extremos, suscetibilidade socioeconômica e elementos expostos se combinam para determinar o nível de risco, destacando também os limites da capacidade adaptativa. Adaptado IPCC 2021.

No centro da figura, encontra-se o conceito de risco de impacto, que resulta da combinação desses três fatores, indicando que os riscos se manifestam quando há alta exposição e vulnerabilidade em relação às ameaças climáticas, ressaltando também os limites para adaptação quando a capacidade adaptativa se mostra insuficiente.

4.2 Objetivos do estudo de caso

Apresentar como foi feita a implementação de um sistema de avaliação de risco climático por meio da utilização de exemplos reais com foco em toda a cadeia de suprimentos de mineração - desde a extração até a logística portuária.

Apresentar o processo de identificação das vulnerabilidades, pontos de inflexão e limites de infraestrutura sob condições climáticas extremas, garantindo que as operações permaneçam resilientes.

Discutir como foi realizada uma abordagem holística, considerando fatores ambientais, socioeconômicos e de governança, incorporando o conhecimento local para desenvolver uma adaptação eficaz.

Discutir os resultados comparativos sobre os custos dos cenários de adaptação proativa ou o status quo (business as usual).

5 Metodologia

A base metodológica foi aprimorada a partir da integração de elementos consolidados na literatura científica, incluindo as recomendações de avaliação de riscos do relatório do IPCC AR6 (Sexto Relatório de Avaliação do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas ) no que tange ao risco e adaptação, o protocolo de Sendai, PIEVC (Protocolo de Infraestrutura Pública e Vulnerabilidade Climática), PIANC (Associação Mundial de Infraestruturas de Navegação) e ISOs específicas sobre risco, às mudanças climáticas e adaptação (ISO 14090:2019-Adaptação às mudanças climáticas; 14091:2021 – avaliação de risco relacionado às mudanças climáticas e 31000:2018 gestão de riscos).

Figura 4 Fluxo da Análise de Linha de Base e Cenários Futuros, destacando a estruturação dos dados climáticos e projeções para avaliar riscos e vulnerabilidades em cenários futuros com foco na mineração.
Figura 4 Fluxo da Análise de Linha de Base e Cenários Futuros, destacando a estruturação dos dados climáticos e projeções para avaliar riscos e vulnerabilidades em cenários futuros com foco na mineração.

Em linhas gerais, o método de avaliação de riscos às mudanças climáticas com foco na mineração segue um fluxo passo a passo integrado que começa com o 1) estabelecimento de uma base metodológica robusta (entre os stakeholders? Intermanete na empresa?), 2) seguido pela coleta de dados climáticos, ambientais, socioeconômicos e de governança. 3) Em seguida, realiza-se a análise de linha de base, com o objetivo de ter-se um parâmetro comparativo concreto; e cenários futuros para identificar vulnerabilidades e projeções. 4) A etapa seguinte envolve a análise e mapeamento de riscos e hotspots específicos para identificar áreas críticas, 5) complementada por workshops participativos que integram percepções locais com dados científicos. Posteriormente, 6) realiza-se a análise econômica para calcular Capex e Opex, encerrando com 7) a seleção de estratégias de adaptação e implementação, e planos de ação para mitigar os impactos identificados (Figura 4).

A metodologia aplicada em todos os estudos de caso exigiu uma identificação abrangente da dimensão das ameaças climáticas por meio da geração de estatística e mapeando em nível regional e local, incluindo eventos climáticos extremos (períodos de retorno, chuvas extremas entre 1-5 dias, índices de extremos climáticos) até mudanças de longo prazo nos padrões de temperatura e precipitações. Os cálculos estatísticos foram efetuados a partir da utilização de projeções climáticas de modelos globais escalonados e regionalizados até o fim do século (2100), considerando a média dos indicadores de eventos extremos para cada período avaliado.

As avaliações de exposição e vulnerabilidade constituem etapas fundamentais na análise de riscos climáticos, permitindo identificar infraestruturas críticas, comunidades e ecossistemas mais suscetíveis às ameaças previamente mapeadas.

A exposição é quantificada por meio de métricas espacialmente explícitas que levam em conta a quantidade, densidade e distribuição dos ativos presentes na área. Entre esses ativos, destacam-se: barragens de rejeitos, acampamentos, rodovias, acessos, pontes, torres de comunicação e eletricidade, estruturas de comunidades próximas, bem como a população residente e potencialmente exposta. Também são considerados o valor econômico e ecológico agregado da região, a presença de áreas de endemismo ou de importância estratégica para o abastecimento hídrico, além do grau de interdependência entre os diferentes usos da área — não apenas ligados à mineração, mas também a outros setores.

A vulnerabilidade, por sua vez, é avaliada por meio de indicadores multidimensionais que capturam a sensibilidade intrínseca dos sistemas expostos. Isso inclui fatores como a idade e o estado de conservação das infraestruturas, as condições socioeconômicas da população, e as características naturais da paisagem local (relevo, tipo de solo, cobertura vegetal, entre outros). São também analisadas a capacidade adaptativa, representada pela resiliência institucional e pela diversificação econômica, e os fatores de amplificação de risco, como a degradação ambiental e as desigualdades sociais.

Essa avaliação requer uma compreensão dos indicadores ambientais e socioeconômicos locais, e uma visão holística da área de influência do empreendimento. É imprescindível manter essa visão integral para corretamente considerar implicações ou ameaças possíveis dentro do contexto de uma bacia hidrográfica, considerando perigos e consequências possíveis tanto a jusante quanto a montante do empreendimento.

As ameaças climáticas futuras foram projetadas utilizando modelos climáticos regionalizados com base nos cenários SSPs do IPCC (conhecidos atualmente como caminhos de emissões). Neste estudo utilizamos cenários sustentáveis (SSP1-2.6), desiguais (SSP2-4.5) e baseados em combustíveis fósseis (SSP5-8.5) para antecipar como esses riscos podem evoluir dependendo das decisões de governança mundial ao longo do tempo. Cada cenário implica em uma decisão mundial de governança que tem implicações profundas sob o potencial de aquecimento das temperaturas do planeta.

Uma vez que essas dimensões de análises são integradas, um índice de risco final é desenvolvido combinando fatores climáticos, ambientais, socioeconômicos e de governança pertinentes ao setor mineral, permitindo a identificação das áreas mais vulneráveis e de maior urgência para adaptação e melhoramento dos critérios de design de estruturas e componentes.

O cálculo do risco climático gerado por meio do cálculo dos índices auxilia a priorizar investimentos em adaptação em curto, médio e longo prazo. As estratégias de adaptação são então projetadas e recomendadas caso a caso, incorporando uma variedade de soluções: a) atualizações de engenharia e/ou de estruturas (estratégias cinzas), b) infraestrutura verdes baseada na natureza (utilizando vantagens naturais e ou utilizando os serviços ecossistêmicos locais), e c) ajustes de políticas e melhorias de planos de governança tanto no âmbito das empresas quanto dos governos e comunidades da área de impacto.

Por fim, a partir dessas considerações, são realizadas análises comparativas das despesas de capital (CAPEX) e operacionais (OPEX), com o objetivo de avaliar a relação custo-benefício entre ações de remediação e estratégias de adaptação proativas, garantindo uma tomada de decisão fundamentada em evidências. Essas análises incorporam limiares críticos (thresholds) definidos a partir da capacidade das estruturas de resistirem a diferentes níveis de impacto climático, como intensidade de chuvas extremas, variações de temperatura, aumento do nível do mar ou frequência de eventos extremos. Ao identificar esses limites, é possível projetar intervenções estruturais ou não estruturais mais eficazes, como o reforço de taludes, redimensionamento de canais de drenagem, criação de zonas de amortecimento, relocalização de ativos sensíveis ou mudanças nos padrões operacionais.

Além disso, os cálculos consideram diferentes horizontes temporais, geralmente alinhados com os ciclos de vida dos empreendimentos (ex.: 10, 20, 50 anos), permitindo análises de viabilidade em curto, médio e longo prazo. São também modelados cenários climáticos múltiplos (ex.: SSP2- 4.5 e SSP5-8.5), o que permite comparar cenários de investimento conservadores e menos conservadores, tanto em termos de exposição aos riscos quanto dos custos esperados para enfrentá-los. Essa abordagem integrada permite priorizar soluções que otimizem a resiliência das operações, reduzam perdas futuras e contribuam para uma gestão mais eficiente dos recursos financeiros e ambientais.

Ser proativo nos estudos de risco climático garante que o empreendimento seja sustentável e resiliente, evitando riscos climáticos para as operações mineras, ecossistemas e comunidades. Essa análise abrangente deve incorporar as obrigações de direitos humanos no contexto das alterações climáticas, conforme a interpretação de órgãos da ONU como o Conselho de Direitos Humanos, que ressaltam a consideração de perdas e danos. Ao considerar as dimensões sociais e de direitos humanos nos estudos de risco, o empreendimento demonstra uma abordagem holística, que não apenas minimiza riscos para o negócio e o ambiente, podendo influenciar positivamente o acesso a medidas de resposta aos impactos. Além disso pode facilitar o acesso a fundos e um decréscimo substancial de seguros.

6 Resultados

Os estudos com base na aplicação deste arcabouço metodológico realizados no Chile, Peru, Equador e Canadá demonstraram uma grande vulnerabilidade do setor minerador aos extremos climáticos. Desde a mina até o porto, todas as áreas enfrentam riscos climáticos: enchentes, secas, deslizamentos de terra, aumento do nível do mar, vendavais, incêndios florestais e temperaturas extremas ameaçam infraestruturas críticas, a segurança dos operadores, e as comunidades do entorno. Em alguns casos, foram identificados impactos das mudanças climáticas na migração de espécies marinhas. Este movimento/incremento de certas espécies causaram alguns impactos biológicos como a obstrução de bombas em plantas dessalinizadoras e um acúmulo de dejetos excessivo que aceleraram o processo de corrosão de equipamento portuário obrigando aos operadores realizarem manutenção onerosa e constante.

6.1 Custos

Considerando os impactos de maneira ampla e em um nível estratégico, o estudo detectou um custo estimado de adaptação para projetos já em operação que varia entre US$ 100 milhões e US$ 700 milhões, dependendo das características específicas da infraestrutura, horizonte de implementação e da localização geográfica. Caso os custos socioambientais fossem plenamente considerados—como seria ideal—esses valores seriam ainda mais elevados, destacando claramente a urgência de um planejamento proativo ao invés de uma abordagem puramente reativa e remediativa.

6.2 Conhecimento local

Além do impacto financeiro, o estudo também enfatiza a importância de adotar uma abordagem inclusiva que integre análises científicas ao conhecimento local e obrigações de direitos humanos no contexto das alterações climáticas. Ao envolver comunidades, técnicos, operadores e demais partes interessadas da indústria no processo de planejamento, incluindo a compreensão de seus direitos e potenciais vulnerabilidades, as estratégias de adaptação tornam-se mais robustas e alinhadas à realidade específica de cada local, resultando em soluções práticas, eficazes e adequadas ao contexto regional. O conhecimento técnico e empírico das comunidades sobre a paisagem e os processos naturais locais contribuem significativamente para a redução dos riscos futuros, especialmente quando se cria espaço para diálogo e reflexão sobre os eventos históricos aos quais a região já esteve sujeita, bem como sobre seus direitos em relação a esses eventos. Tal conhecimento local também ajuda a identificar claramente os limites e a capacidade de suporte dos ecossistemas naturais, indicando precisamente em que ponto alterações climáticas poderiam desencadear efeitos em cadeia, comprometendo ou inviabilizando totalmente a implantação do empreendimento naquela localidade - respeitando os direitos das populações afetadas. Realizar essa análise previamente pode evitar significativos transtornos operacionais e elevados custos atuais e futuros, além de mitigar potenciais impactos negativos em direitos humanos.

6.3 Mudanças Climáticas e as engenharias - desafios

Um aspecto crítico identificado nos estudos é a falta de preparo dos engenheiros de minas para incorporar adequadamente cenários climáticos nos projetos de estruturas como depósitos de rejeitos, minerodutos e portos. Em muitos casos, há até mesmo desconhecimento sobre a necessidade de considerar esses dados. Como resultado, diversas operações continuam sendo projetadas com base em dados históricos que já não representam os padrões climáticos atuais, o que compromete a segurança e a resiliência das infraestruturas frente às mudanças ambientais em curso. É preocupante perceber que boa parte das estruturas recentemente construídas pode estar subdimensionadas em relação às mudanças climáticas observadas. Além disso, é amplamente reconhecido na ciência climática que os modelos climáticos globais frequentemente têm apresentado projeções conservadoras, com mudanças reais ocorrendo muito mais rapidamente do que as previsões anteriores indicavam (Judd et al. 2024).

É fundamental que as empresas invistam na capacitação técnica de seus engenheiros para que possam adequadamente incorporar cenários climáticos em seus estudos e projetos. Para muitos profissionais da área, o tema ainda é pouco conhecido, sendo necessários treinamentos específicos alinhados ao contexto operacional da indústria. Outra questão crítica é a comunicação deficiente entre as áreas administrativas e gestoras das companhias globais e as equipes técnicas e gerenciais locais. Essa lacuna de comunicação gera uma desconexão significativa, onde a alta gestão entende conceitualmente a importância da incorporação dos riscos climáticos, mas essa necessidade não chega de maneira clara aos níveis técnicos responsáveis pela aplicação prática.

6.4 Integração de dados das Mudanças Climáticas em critérios de design de projetos

Ficou evidenciado que é necessário que o design de novas infraestruturas considere não apenas valores absolutos, mas também a amplitude completa dos extremos climáticos para temperatura e precipitação, incluindo as faixas de incertezas e percentis disponíveis. Atualmente, existem múltiplos modelos climáticos globais que, quando analisados em conjunto permitem a avaliação das incertezas sobre as tendências climáticas detectadas.

O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, 2021) estabelece protocolos interessantes para quantificar a confiabilidade das projeções climáticas, baseados em uma estrutura multidimensional desta avaliação. Essa abordagem integra elementos fundamentais para uma correta comunicação dos riscos, tais como: o grau de concordância entre modelos climáticos (ensemble multimodelos), a coerência entre projeções teóricas e observações empíricas; avalia o nível de evidência considerando a robustez estatística dos sinais climáticos (ex.: significância p < 0.05) e a qualidade e resolução temporal/espacial dos dados de entrada; classificação da confiabilidade das alegações em escalas padronizadas (ex.: "muito provável" quando houver a probabilidade maior que 70%, etc.) além de classificar o nível de concordâncias dos modelos com os níveis de evidências. Esta estrutura metodológica é particularmente interessante porque cumpre um duplo propósito. Do ponto de vista técnico, permite a validação quantitativa das incertezas inerentes à modelagem climática e, do ponto de vista comunicacional, traduz complexidade científica em categorias para gestores públicos e stakeholders, facilitando a priorização de ações de adaptação baseadas no nível de risco aceitável.

A integração de critérios de projeto baseados em projeções de mudanças climáticas nos estudos de viabilidade de empreendimentos minerários pode, à primeira vista, parecer uma medida excessiva. No entanto, diante do aumento da frequência e intensidade de eventos extremos observados nos últimos anos, torna-se evidente que a negligência quanto a esses aspectos representa um risco significativamente maior para a segurança operacional e para a sustentabilidade do empreendimento.

Desta forma, uma comunicação padronizada e balizada por fatores técnicas, conforme descrito anteriormente, é fundamental para nortear tomadas de decisão, pois permite que os sinais detectados orientem diretamente o dimensionamento e o projeto de estruturas críticas, como barragens de rejeito, minerodutos, sistemas de captação e drenagem, entre outras instalações expostas a riscos hidrometeorológicos.

A utilização dessas informações permite a elaboração de soluções de engenharia adaptadas a cenários climáticos extremos. Mesmo em casos nos quais os sinais climáticos apresentam maior grau de incerteza, recomenda-se a adoção de premissas conservadoras, que ampliem a resiliência do projeto frente às incertezas. O ponto central é reconhecer que esses dados climáticos não devem ser tratados como secundários ou hipotéticos, mas como elementos centrais no processo decisório.

Para que essas informações sejam efetivamente incorporadas ao projeto, é indispensável estabelecer um canal de comunicação eficaz entre os especialistas em clima e os engenheiros responsáveis pelas decisões técnicas. Estes profissionais desempenham papel estratégico, pois cabe a eles interpretarem os dados climáticos e convertê-los em critérios de projeto que influenciarão diretamente o desempenho da infraestrutura ao longo de sua vida útil — que, em muitos casos, pode ultrapassar várias décadas.

Na prática, a integração dos riscos climáticos deve ocorrer de forma transversal ao longo de todo o ciclo de vida do empreendimento. A aplicação pode ser estruturada da seguinte forma:

Planejamento e concepção do projeto: os dados climáticos devem ser incorporados às análises de identificação e avaliação de perigos, como o HAZID (Hazard Identification) e o HAZOP (Hazard and Operability Study), metodologias amplamente utilizadas na engenharia para antecipar falhas potenciais e avaliar a operacionalidade dos sistemas. A inclusão dos cenários climáticos nesses estudos permite identificar, desde os estágios iniciais, os eventos que podem comprometer a integridade das estruturas ou o funcionamento seguro do empreendimento.

Construção e operação: os riscos climáticos devem ser integrados aos planos de resposta a emergências, aos programas de gestão ambiental e às estratégias de mitigação, garantindo que a operação possa adaptar-se a eventos extremos e minimizar impactos socioambientais.

Fechamento da mina: é nesta etapa que se acentuam os riscos de longo prazo, especialmente em estruturas como depósitos de rejeitos, sistemas de contenção e gerenciamento hídrico. Essas instalações continuarão a interagir com o meio ambiente por décadas, tornando imprescindível que os critérios de encerramento considerem projeções climáticas robustas. Ignorar esses fatores nesta fase não é apenas tecnicamente inadequado, mas representa uma conduta negligente diante dos compromissos ambientais e de segurança.

6.5 Implicações dos efeitos em cascata para áreas de Desenvolvimento Sustentável e Comunidades

No contexto de projetos de mineração, integrar avaliações de desastres múltiplos e riscos combinados é necessária para o desenvolvimento sustentável e a resiliência climática do empreendimento e das comunidades. Analisar não apenas os impactos isolados, mas também como eventos simultâneos — como enchentes, deslizamentos ou secas — podem interagir em uma região específica garante que as estratégias de mitigação abordem falhas em cadeia, protegendo infraestruturas e populações vulneráveis.

O planejamento do fechamento de minas quando formulado durante as operações deve priorizar cenários climáticos futuros, como mudanças nos padrões de chuva ou temperaturas extremas, para evitar degradação ambiental de longo prazo e assegurar que as áreas pós-mineração permaneçam estáveis e seguras. Paralelamente, o monitoramento robusto de ecossistemas e a modelagem preditiva são essenciais para equilibrar a extração de recursos em curto prazo com a preservação de sistemas naturais ao longo de décadas, garantindo disponibilidade hídrica, saúde do solo e biodiversidade — fatores vitais tanto para a funcionalidade ecológica quanto para os meios de vida das comunidades.

Enfatizar a adaptação e a prevenção como pilares da sustentabilidade desloca o foco de correções reativas para a minimização de custos futuros e passivos ambientais. Por exemplo, investir em sistemas de drenagem resilientes ou em reflorestamento com espécies nativas e adaptadas ao clima local durante a fase operacional e de fechamento do empreendimento pode reduzir drasticamente gastos com recuperação e danos ecológicos, alinhando eficiência econômica com justiça climática. Juntas, essas estratégias reforçam que uma mineração responsável depende da antecipação de desafios ambientais dinâmicos, da promoção de governança adaptativa e da priorização da equidade, de forma a garantir que as comunidades não sejam desproporcionalmente afetadas por riscos impulsionados pelo clima e os empreendimentos mineradores.

7 Implicações do estudo para prática e políticas do setor

Para as autoridades públicas, as descobertas de estudos deste tipo fornecem evidências da urgência de se exigir critérios de resiliência e adaptação para projetos de mineração. Além disso, podem tornar os planos de adaptação climática das esferas municipais, estaduais e federais mais integrados com instituições privadas, convergindo para o estabelecimento de metas e diretrizes mais objetivas. Por exemplo, os planos lançados em Minas Gerais desenvolvidos pela Fundação Estadual do Meio Ambiente, que tem grande importância no setor minerador têm por vezes metas muito genéricas (FEAM, 2014, 2015 e 2023). Por isso, a necessidade de se incorporar descobertas como as apresentadas para fornecer o suporte e os dados específicos que possibilitem a implementação de metas e ações mais eficazes e adaptadas às realidades locais e às mudanças climáticas previstas.

Dois documentos estratégicos do estado de Minas Gerais sobre mudanças climáticas revelam abordagens distintas quanto à questão da adaptação a eventos climáticos extremos no setor de energia e mineração. O Plano Estadual de Ação Climática (PLAC-MG) apresenta uma estrutura detalhada e pragmática para enfrentar os impactos de eventos como secas, chuvas intensas e alagamentos, incluindo propostas específicas para fortalecimento da Defesa Civil, monitoramento hidrometeorológico e mapeamento de áreas de risco em todos os municípios. Há ainda atenção voltada à capacitação de gestores locais e à diversificação econômica em regiões com forte dependência da mineração, o que, embora não trate diretamente da infraestrutura mineradora, sugere uma preocupação com os efeitos indiretos da crise climática sobre a atividade.

Em contrapartida, o Plano de Descarbonização concentra-se exclusivamente na mitigação, com foco técnico em redução de emissões setoriais, especialmente nos segmentos industrial, energético e de transportes, e inclui o setor mineral apenas sob a ótica da eficiência e da inovação tecnológica. Não há, nesse documento, menções a medidas voltadas à resiliência da mineração frente aos eventos extremos, deixando uma lacuna em relação à segurança física das operações e ao impacto social de possíveis paralisações por motivos climáticos.

Essa diferença entre os enfoques evidencia a necessidade de complementaridade entre os planos, para que estratégias de descarbonização caminhem lado a lado com ações de adaptação estruturadas, especialmente em setores tão estratégicos para a economia estadual como a mineração.

Para o setor privado como um todo, o arcabouço metodológico deste estudo oferece possibilidades de redução mensurável de riscos. Ao demonstrar a viabilidade de integrar ciência, governança e conhecimento local para adaptação, o estudo indica caminhos promissores para a mineração diante dos desafios climáticos e ambientais futuros.

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Agradecemos à Ausenco pelo apoio institucional e incentivo à realização deste trabalho, bem como às empresas envolvidas nos estudos de caso, cuja colaboração foi fundamental para a construção e aplicação das análises. Agradecemos também às instituições de pesquisa que vêm desenvolvendo dados técnicos e científicos de alta qualidade, os quais foram essenciais para embasar e viabilizar estudos como este, contribuindo significativamente para o avanço do conhecimento aplicado à adaptação às mudanças climáticas e à sustentabilidade das infraestruturas. (*) Autores
Nathan Debortoli (PhD), Gerente de Risco Climático e Adaptação, Ausenco, Canadá/Brasil
Andrea Calderón (MSc), Engenheira Recursos Hídricos/Risco Climático e Adaptação Sênior, Ausenco, Peru;
Sara Turner (MSc), Especialista em Avaliação e Licenciamento Ambiental, Ausenco, Canadá;
Rafaela Pedrosa, Engenheira Ambiental Sênior, Ausenco, Brasil;
Mariel Palomeque (MSc), Especialista Sênior em Sustentabilidade, Ausenco, Canadá;
Pedro Ivo Camarinha (PhD), Pesquisador e Tecnologista em Geodinâmica, Cemaden, Brasil

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