Resumo
Este estudo analisa a viabilidade técnica e econômico-financeira da renovação de frotas de um case real em uma mineradora subterrânea, utilizando o software RENOVE®. Nesse estudo, os resultados indicam que 40,8% dos equipamentos operam além da vida econômica ideal, gerando perdas significativas. A renovação estratégica da frota projeta um VPL de R$ 39,83 milhões, payback descontado de 4,07 anos e economia imediata de R$ 24,09 milhões, principalmente pela redução nos custos de manutenção. Além da redução imediata de custos, o projeto contribui para o aumento da disponibilidade dos ativos, melhora a produtividade e fortalece a competitividade da operação. O estudo reforça a importância de análises técnico-financeiras na gestão de ativos móveis para garantir a sustentabilidade econômica e operacional no setor de mineração.
1. Introdução
O setor de mineração é um dos principais motores da economia brasileira, representando 4% do PIB e movimentando R$ 248,2 bilhões em 2023 (IBRAM, 2023). O Brasil destaca-se como segundo maior produtor de minério de ferro e líder na produção global de nióbio (DNPM, 2020). A competitividade do setor exige investimentos constantes em tecnologia, com foco na modernização de equipamentos para garantir maior eficiência e redução de custos operacionais.
Em 2021, o mercado global de equipamentos de mineração atingiu US$ 132,4 bilhões, com crescimento anual estimado em 5,72 %, podendo chegar a 208,9 bilhões de dólares em 2030 (Spherical Insights, 2024). No Brasil, a aquisição de equipamento pode atingir até 33% dos investimentos das mineradoras (Brasil Mineral, 2025). Essa realidade exige decisões estratégicas baseadas em análises econômico-financeiras rigorosas.
Os investimentos em ativos móveis quando bem conduzidos, podem gerar resultados significativos para as companhias. Todavia, decisões inadequadas podem acarretar impactos negativos severos, comprometendo a saúde financeira da empresa e inviabilizando a continuidade das operações econômicas. Nesse sentido, torna-se imprescindível a realização de estudos aprofundados para determinar o ponto econômico de renovação.
A operação de ativos móveis além do ponto econômico ideal aumenta custos de manutenção e reduz a disponibilidade operacional, impactando negativamente os resultados. Estabelecer o momento ideal para renovação é fundamental para manter a competitividade e garantir a sustentabilidade econômica das operações.
A figura 1 apresenta um comparativo entre equipamentos novos e velhos com os fatores que influem na renovação.


Nesse contexto, o presente artigo apresenta um estudo de caso real, demonstrando como a análise técnica e financeira pode orientar a renovação de frotas e maximizar o retorno sobre o investimento.
2. Característica da empresa estudada
Como exemplo do trabalho, o estudo foi conduzido em uma mineradora subterrânea. Para garantir a confidencialidade, o nome da empresa foi omitido. As análises utilizaram o software RENOVE® da Assiste Engenharia de software técnico, localizada em Piracicaba, São Paulo.
A frota conta com 103 equipamentos. As pás carregadeiras representam 39,2% dos custos totais com reparo e manutenção (CRM), sendo o foco principal da análise.
3. Análise dos custos com reparos e manutenções – Pá Carregadeira 14 a 18 toneladas

Os custos de reparo e manutenção no setor de mineração podem representar até 50% do custo operacional dos equipamentos de mineração (Inovação Industrial, 2019). Esses custos incluem peças, mão de obra própria, serviços de terceiros e pneus, conforme ilustrado no fluxograma da Figura 2.
Castro (2019) demonstra que os custos de manutenção aumentam proporcionalmente à vida útil dos equipamentos, devido ao desgaste mecânico, elétrico e estrutural. Esse crescimento compromete a disponibilidade operacional e a viabilidade econômica dos ativos.
A metodologia da ASABE (2011) foi utilizada para modelar a evolução dos custos de reparo e manutenção (CRM) dos equipamentos ao longo da vida útil dos equipamentos. O método orienta a acumular o Custo com Reparo e Manutenção (CRM) dos equipamentos em função da vida, e com a aplicação da derivada, ferramenta do cálculo diferencial, determinou-se o custo horário em função da vida útil, conforme apresentado na figura 4 e figura 5.
A análise da figura 5 revelou um aumento da taxa de variação dos custos horários de R$ 612,24 por hora trabalhada entre 3.000 e 24.000 horas de operação ao longo da vida.
4. Análise da disponibilidade de manutenção
O índice de disponibilidade mecânica fornece o percentual de tempo que um equipamento está disponível para a área operacional em um determinado período. A indisponibilidade de manutenção é definida pela relação entre o tempo em que o equipamento permanece em manutenção e o tempo total disponível no período analisado. O complemento da indisponibilidade, na base de 100%, define a disponibilidade de manutenção.
A figura 6 representa os dados reais de disponibilidade de manutenção atrelados ao envelhecimento das pás carregadeiras 14 a 18 t.



Nota-se que a tendência é claramente decrescente ao longo da vida dos equipamentos, onde a disponibilidade cai de 92,5% às 5.000 horas de uso para 51,1% com 30.000 horas de vida, uma redução de 41,4%. Esse decréscimo indica que, com o envelhecimento do ativo, há aumento dos tempos de paradas para manutenção, afetando a produtividade e gerando aumento de custos, sendo necessário o acréscimo de mais equipamentos, visando suprir os trabalhos não realizados.
5. Estudo de renovação de frota – Análise Pá Carregadeira 14 a 18 toneladas
A metodologia para o estudo da vida econômica de renovação, baseada no CAUE, busca identificar o período de uso no qual o custo anual equivalente de manter e operar um equipamento seja mínimo. Após esse ponto, os custos de manutenção, operação e a perda de eficiência tendem a aumentar, tornando mais vantajosa a substituição do ativo velho por um novo (GRANT; IRESON; LEAVENWORTH, 1990).
A Figura 7 apresenta em amarelo a curva do CAUE, resultante da soma das seguintes curvas: o custo de recuperação de capital (azul), o custo com reparos e manutenção (vermelha) e a custo com a indisponibilidade mecânica (verde). Ao observar o gráfico da Figura 7, nota-se que o CAUE apresenta característica decrescente até atingir um valor mínimo, aumentando em seguida, adotando o comportamento descrito por Grant (et al. 1990), com a vida econômica ideal de 6 anos para o exemplo descrito.
6. Avaliação global do case de Renovação
As informações da figura 8 apresenta o cenário geral do projeto de renovação do case estudado.
A avaliação global revelou que dos 103 equipamentos ativos da empresa, 42 estão operando além da vida econômica recomendada, ou seja, 40,8 %. Analisando o caso das pás carregadeiras, constata-se que 60 % dos equipamentos ultrapassaram a vida econômica, gerando perdas econômicas pela utilização dos equipamentos nessa situação
7. Avaliação Geral da Viabilidade Econômica do projeto de renovação
Conforme apresentado na figura 9, nota-se que é fundamental quantificar o ganho econômico gerado com a mitigação dessas perdas através da renovação de frota. Franco e Galli (2007), afirmam que nas empresas os projetos são analisados sob o aspecto econômico de geração de valor, e assim são classificados.


A Tabela 3 apresenta os principais resultados da análise econômica referente ao projeto de renovação de frota.
O projeto de renovação apresenta um Valor Presente Líquido (VPL) total de R$ 39.83 milhões, indicando a viabilidade financeira e geração de valor para a empresa. O tempo necessário para que o fluxo de caixa se torne positivo, considerando atualizações monetárias ou seja, o payback descontado, foi de 4,07 anos.
O Saving no primeiro ano é um indicador que demonstra a economia imediata do Custo com Reparo e Manutenção (CRM) proporcionada pela renovação dos equipamentos. O valor economizado apenas no primeiro ano seria de 24,94 milhões. Esse ganho é substancial e justifica, por si só, a análise aprofundada da estratégia de renovação.
8. Conclusão
A renovação estratégica da frota de equipamentos demonstrou ser uma decisão de alto impacto econômico para a operação mineradora analisada. O estudo evidenciou um Valor Presente Líquido (VPL) de R$ 39,83 milhões e payback descontado de 4,07 anos, com economia imediata de R$ 24,09 milhões no primeiro ano. Esses resultados comprovam que a substituição de ativos no momento econômico ideal reduz custos operacionais, melhora a disponibilidade dos equipamentos e aumenta a competitividade do negócio.
O estudo reforça a importância de políticas de renovação de frota baseadas em critérios técnico-financeiros, fundamentadas em metodologias consolidadas, como o CAUE, e suportadas por ferramentas especializadas e consolidadas como o software RENOVE®. Tais iniciativas garantem a sustentabilidade econômica das operações, otimizam o uso de recursos e contribuem para a longevidade e a eficiência das atividades mineradoras no Brasil.


Referências
ASABE – American Society of Agricultural and Biological Engineers. Agricultural machinery management data ASAE D496.3. In: ASABE standards, 2011.
BRASIL MINERAL. G Mining prevê investir até US$ 70 milhões em 2025. Disponível em: https://www.brasilmineral.com.br. Acesso em: 13 fev. 2025.
CASTRO, Mayara Ribeiro. Estudo de substituição de equipamentos utilizando a técnica do LCC e a metodologia CAUE para definir a vida útil econômica: o caso de uma empresa do setor de mineração. Ouro Preto: Universidade Federal de Ouro Preto, 2019. Monografia (Graduação em Engenharia de Produção) – Escola de Minas, UFOP. Disponível em: https://www.monografias. ufop.br/bitstream/35400000/1993/1/MONOGRAFIA_EstudoSubstitui%C3%A7% C3%A3oEquipamentos.pdf. Acesso em: 12 mar. 2025.
DNPM – Departamento Nacional de Produção Mineral. Sumário Mineral 2020. Brasília: DNPM, 2020.
FRANCO, A. L.; GALLI, O. C. Método para análise de investimentos: alternativa para classificação de projetos com prazo e volume de recursos diferentes. XXVII Encontro Nacional de Engenharia de Produção – ENEGEP, Foz do Iguaçu, PR, 2007.
GRANT, E. L.; IRESON, W. G.; LEAVENWORTH, R. S. Principles of Engineering Economy. 8th ed. New York: Wiley, 1990.
IBRAM – Instituto Brasileiro de Mineração. Anuário Mineral Brasileiro 2023. Brasília: IBRAM, 2023. Disponível em: https:// www.ibram.org.br. Acesso em: 13 fev. 2025.
INOVAÇÃO INDUSTRIAL. Gestão da manutenção na mineração: veja como a tecnologia tem sido determinante para a segurança e a lucratividade. Disponível em: https://inovacaoindustrial.com.br/gestao-da-manutencao-na-mineracao. Acesso em: 12 mar. 2025.
SPHERICAL INSIGHTS. Relatório de Mercado de Equipamentos de Mineração. Disponível em: https://www.sphericalinsights.com/pt/reports/mining-equipment-market. Acesso em: 12 mar. 2025.
☐ (*) Autores: 1Ângelo D. Banchi é engenheiro agrícola, mestre e doutor pela Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), e diretor proprietário da Assiste Engenharia de Softwares Técnicos. 2José Roberto Lopes é graduado em Administração de Empresa, diretor e proprietário da Assiste Engenharia de Softwares Técnicos. 3Antonio Beraldo Neto é graduado em Engenharia Agrícola pela Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), pós-graduado em gestão de manutenção pelo IPOG e Coordenador de engenharia na Assiste Engenharia de Softwares Técnicos.

