Que a descarbonização da economia é um caminho sem volta para fazer frente às mudanças climáticas, é um consenso. A grande questão é saber quem paga a conta. Esta foi uma das principais conclusões do evento “Descarbonização no contexto atual: oportunidades para o setor mineral?”, realizado por Brasil Mineral em 26 de março de 2025, que contou com a participação de cerca de 120 pessoas representando empresas e entidades do setor mineral, da cadeia de suprimento da mineração, da produção de energias renováveis, de engenharia e consultoria, de escritórios de advocacia e do setor financeiro, dentre outros.
Realizado no auditório da Mattos Filho, parceiro na organização, juntamente com a AP Consultoria e Caputo, Bastos e Serra advogados, o evento se iniciou com uma palestra de Wilson Brumer, membro do Conselho de Administração da Companhia Brasileira de Lítio, que abordou o tema “Contribuição da Cadeia Mineral para a Descarbonização da Economia”.

Iniciando sua apresentação, Brumer disse que a descarbonização deve ser vista como um processo, que não vai ser resolvido da noite para o dia. E lembrou que desde o início da década de 1970 – portanto há quase 50 anos – se começou a falar em sustentabilidade. “E naquela época, quando falávamos de sustentabilidade, vinha em mente o quê? Meio ambiente. Mas todos nós sabemos que sustentabilidade é meio ambiente, sim, mas é também pessoas, novas tecnologias, governança adequada, capitalização das empresas de forma adequada e assim por diante. E até hoje continuamos falando de meio ambiente. Depois disso veio o ESG e agora a descarbonização”.
O executivo alerta que, naquilo que se refere à descarbonização, temos que estar preparados para picos e vales, idas e vindas. “Vamos ter momentos em que se vai andar mais rápido e outros em que vão prevalecer as discussões”.
Na linha do que tem que ser feito, ele colocou a seguinte reflexão: quem vai pagar a conta, já que se trata de investimentos altíssimos? “Será que as empresas, na linha da descarbonização, de repente vão trocar processos do dia para a noite? Creio que não. Mas quando se tiver que trocar um processo, um equipamento — qualquer que seja — certamente se vai levar em conta esse momento, esse movimento, porque temos certeza de que ele é inevitável, assim como foi a discussão sobre o ponto de vista ambiental e da sustentabilidade”.
A questão, alerta Brumer, é que as empresas vão fazer a conta no final do dia e cobrar da sociedade. “Mas será que a sociedade como um todo está disposta a pagar por isso?”, indaga, acrescentando que ele tem suas dúvidas. Ao mesmo tempo, Brumer pondera que as empresas que não fizerem isso terão o seu mercado afetado. “Esta é uma tendência e uma reflexão que certamente todas as empresas e organizações terão que fazer. E aí entra a questão da geopolítica. De repente, muda o governo dos Estados Unidos e muda uma série de conceitos. Vem a discussão sobre carro elétrico na China. Hoje há uma expectativa de crescimento de carro elétrico que foi, a meu ver, um pouco exagerada. Que vai continuar crescendo, não tenho dúvida. Mas vai crescer na velocidade que se imaginava? E onde está a grande produção de baterias para atender o segmento de carro elétrico? Na China. Qual é a energia gerada na China para atender os carros elétricos? Energia gerada à base de carvão. Então, se analisarmos friamente, vemos uma certa incoerência: porque estamos produzindo carro elétrico, em linha com a descarbonização, mas para gerar a energia que alimenta para aquele carro estamos fazendo isso à base de carvão”. No caso brasileiro, Wilson Brumer questiona se vamos renunciar a certas coisas, lembrando o caso das reservas de petróleo da linha Equatorial. “Se chegarmos à conclusão que de fato tem petróleo ali, a pergunta que fica no ar é: vamos abrir mão disso? Meu sentimento é que não”.
Falando especificamente da descarbonização no setor mineral, ele lembra que o setor não deve olhar para si, mas para a cadeia de produção, que é muito extensa. Detendo-se no caso específico da energia, ele disse que, sob o ponto de vista da descarbonização, do meio ambiente, da sustentabilidade, a energia eólica e solar são super-importantes e o Brasil tem uma vantagem competitiva indiscutível nesse aspecto. Mas pergunta: “para onde é que vai o excesso da energia solar que é gerada e não consumida durante o dia? Vai para a linha de transmissão. E hoje já estamos vendo problemas sérios nas linhas de transmissão”. Em razão disso, ele afirma não ter dúvidas em afirmar que é uma questão de tempo ter que desenvolver no mundo o armazenamento de energia. “O não armazenamento significa um prejuízo, não só para as empresas que consomem aquela energia, mas também para o produtor da mesma”.
Brumer cita o caso da empresa onde é conselheiro, que está considerando uma eventual expansão, mas num local onde a linha de transmissão não chega, talvez por falta de capacidade da concessionária de energia de fazer os investimentos necessários. Neste caso, o investimento acaba sendo feito pelo empreendedor, o que onera seu projeto.
Ele salienta que a descarbonização também tem que considerar outros aspectos. No caso dos veículos, ele pondera que o Brasil é mais favorável ao carro híbrido do que ao veículo totalmente elétrico. “É lógico que nos grandes centros, em termos de mobilidade urbana, vão predominar os carros e ônibus elétricos”, diz ele, lembrando que Belo Horizonte tem um projeto para colocar 100 ônibus elétricos na cidade, mas, ao se fazer um teste com três ônibus elétricos em um bairro, faltou energia. Isto mostra, segundo ele, que em termos de infraestrutura o Brasil não está preparado.

Quanto às oportunidades para o setor mineral, ele opina que existem, mas que primeiro o Brasil precisa se conhecer do ponto de vista mineral. “Nós somos um país ainda muito pobre em termos de investimentos em pesquisa mineral”. Ele reconhece que existem esforços nesse sentido, como a iniciativa BNDES-Finep, com uma linha de financiamento de R$ 5 bilhões. “Porém, estamos mais atrasados do que se possa imaginar, porque na verdade começamos há pouco tempo um programa de pesquisa, mas são projetos que ainda precisam demonstrar sua viabilidade. Portanto, o Brasil, ainda está um passo atrás de onde deveríamos estar em termos de oportunidades no setor mineral para desenvolvimento de minerais que hoje a nova economia exige”. Brumer menciona o caso do lítio, em que o Brasil se coloca hoje como um potencial produtor, competindo com Bolívia, Argentina e Chile, países que, embora tenham seus problemas, têm suas tecnologias. E o lítio é um metal abundante, lembra.
Ele diz temer muito o termo minerais estratégicos, porque antigamente o lítio era considerado no Brasil como estratégico e não se podia exportar. E o que aconteceu foi que, com a questão do carro elétrico, o lítio “virou febre” e há muitos projetos no Brasil atualmente, mas o preço caiu 80%. E a consequência é que talvez muitos players que estão até avançados em termos de pesquisa e desenvolvimento, talvez tenham dificuldades em bancar seus projetos, em função da expectativa que existe sobre o retorno desses preços. “Há uma expectativa de que em 2026/2027 os preços se recuperem? Sim. E aí talvez seja o momento adequado de voltar aos projetos. Então, oportunidades para o setor existem. Mas precisamos criar, no Brasil, um ambiente favorável aos negócios. Se não criarmos um ambiente favorável ao Brasil, ficaremos fora da agenda dos recursos internacionais, ou vamos ter muito mais dificuldades do que o normal para obter esses recursos”. Ele argumenta que o Brasil precisa ser mais veloz em termos das decisões sobre as questões ambientais, ressalvando que ninguém está pedindo que nenhum projeto seja feito sem respeito ao meio ambiente, às normas existentes, mas que se tenha mais celeridade nos licenciamentos. Ele menciona também o caso das áreas de fronteira e territórios indígenas, que considera como oportunidades. “A área de fronteira nossa hoje, todos sabem, talvez seja maior do que muitos países do mundo. Mas quem conhece hoje, de fato, o que existe nas áreas de fronteira? O mesmo acontece nas áreas indígenas. E não estou falando nada que seja contra a Constituição”. Ele acrescenta que hoje o que acontece é que, no caso das áreas indígenas, muita gente vai fazer não mineração, mas garimpo ilegal e o setor de mineração fica “carimbado”. Isso é algo que precisa ser discutido, em sua opinião, assim como a questão do aproveitamento do urânio, que hoje é monopólio estatal, como fator de crescimento e desenvolvimento.
Com relação à descarbonização da atividade de mineração, Brumer menciona como fatos positivos a produção de briquetes de minério de ferro, o uso de caminhões fora de estrada elétricos, a descarbonização da indústria cimenteira e a redução das emissões da siderurgia. Porém, ele ressalva que, no caso da siderurgia, não se pode trocar um alto forno do dia para a noite. E repete que será um processo gradativo.
“Então, oportunidades existem, mas certamente o setor mineral não pode falar para si só. Se não houver um casamento e um entendimento entre os vários segmentos e as cadeias produtivas, também não adianta. De nada vale o setor mineral resolver o seu problema, se o setor seguinte também não resolver. Isso inclui fornecedores e clientes. Então, se há uma nova tecnologia, ela deve levar em conta a redução de custos, maior eficiência, redução de consumo de energia, mais competitividade e assim por diante. O objetivo maior de quem vai pagar a conta tem que ser a eficiência, que vai acontecer à medida que sejam desenvolvidas tecnologias novas, que superam as atuais”, concluiu Brumer.
O mercado de carbono
O primeiro painel do dia teve como tema “O mercado de carbono na estratégia do setor mineral” e contou com a moderação de Walter Froes, presidente e controlador do grupo CMU, uma das principais comercializadoras de energia no País. Como debatedores, o painel contou com Rômulo Sampaio (advogado do escritório Mattos Filho na área de consultivo e contencioso ambiental e de mudanças climáticas), Leandro Faria (gerente de Sustentabilidade e ESG da CBA - Companhia Brasileira de Alumínio), Paulo Camillo Penna (presidente da Associação Brasileira de Cimento Portland) e Rosane Santos (diretora de Sustentabilidade da Samarco).

Abrindo o painel, Walter Froes explicou que sua empresa atua na comercialização de energia, com vários clientes no setor mineral e que, conversando com um deles, ouviu que o processo de descarbonização tem que estar concluído entre 2030 e 2050. “Acontece que a transição do processo siderúrgico vai elevar o consumo de 1 giga para 11 gigas. Quem é que paga a conta? É a pergunta óbvia”, disse ele, informando que os quatro grupos siderúrgicos no Brasil elevariam seu consumo de energia elétrica para 44 gigas e lembrou que, em janeiro de 2025, o consumo em ponta atingiu o recorde de 88 gigas médios. “Com relação ao carro elétrico, fizemos uma conta rápida há algum tempo e concluímos que, se toda a frota brasileira fosse mudada para carro elétrico, teríamos 21 gigas a mais”.
Froes explica que atualmente a energia elétrica deve significar entre 7% e 8% do custo da cadeia siderúrgica. “Quem é que compra esse aço? Quem consome?”, indaga.
Com relação ao carro elétrico, ele disse que hoje o Brasil tem entre 7% e 8% de carro elétrico na frota e informou que sua empresa está envolvida em um projeto com uma grande montadora para instalação de abastecimento rápido para esses carros, um eletroposto com quatro carregadores (dois rápidos e dois lentos), que demanda 300 quilowatts, o que é equivalente à demanda da Santa Casa de Misericórdia de Belo Horizonte (MG).
E referiu-se também às baterias, que em sua opinião vão ser a solução para tudo isso quando se tornarem economicamente viáveis. “Porque esse é o grande desafio. Nós abastecemos a maior cadeia de supermercados do Nordeste do Brasil, com o modelo de autoprodução e a planta fica em Pernambuco. Então, hoje, temos um problema chamado curtailment: não podemos injetar a energia no grid entre 7 e 10 horas da manhã. Não tem consumo local e não temos como transmitir para o Sudeste, porque a geração distribuída ocupou um espaço gigantesco e isso não tem controle, não tem quem desligue a geração distribuída. Tem que ter geração centralizada, corroborando o tamanho dos desafios que nós temos para enfrentar. E por último, falando de carro elétrico, o caso de Fernando de Noronha é um bom exemplo. Lá só pode ter carro elétrico. Não entra mais nenhum veículo que não seja carro elétrico. Só que Fernando de Noronha recebe 30 mil litros de diesel por dia para abastecer a termelétrica local”, disse Froes.
Em seguida ele indagou a Rosane Santos, da Samarco, como ela vê o impacto econômico da descarbonização da cadeia mineral e quem paga a conta.

Respondendo à indagação, ela disse que vê a questão sob dois aspectos: “o primeiro está relacionado à dinâmica do mercado em si. Há o mercado regulado, o voluntário, e existe uma possibilidade de se transferir ou negociar créditos de um mercado para o outro, principalmente quando se tem um grande volume no mercado voluntário, por conta de uma estratégia, da decisão de uma companhia de acelerar essa agenda”.
Ela menciona um outro ponto — que considera tão importante quanto — que é a introdução de inovação e tecnologias verdes. “Essa aceleração, a introdução dessas tecnologias, acaba chegando com mais peso no início da cadeia. Então, as mineradoras estão hoje pensando em como trazer mais eficiência para os seus processos, em como promover sua descarbonização. E, obviamente, ainda fica um impacto muito relevante no escopo 3. Porque o escopo 2 é mais controlado e a grande maioria das empresas consegue fazer uma inserção significativa de energia renovável. Isto é mais ‘fácil`. O desafio está no escopo 3, que é o elo, a conexão com as outras cadeias, principalmente a siderurgia e metalurgia. No final das contas, estamos falando de uma possibilidade de valor agregado, mas também de um custo que fica na mineração, mas que também vai para os outros setores, porque tanto o downstream quanto o upstream da mineração carregam um pouco do custo de toda a introdução dessas tecnologias e iniciativas anteriores para descarbonizar. A ideia é que esse custo fique diluído e não pese tanto nos dois extremos. De qualquer forma, é uma leitura que precisa ainda ser refinada, porque a introdução de tecnologias e de iniciativas, tecnologias verdes, ainda precisa ser muito aprimorada na mineração, que tem o desafio da inovação e pode inovar muito mais do que já vem apresentando até agora. Portanto, ainda vai ter um impacto significativo na perspectiva dessa conta que está sendo paga pelo setor”.
Em seguida, Walter Froes perguntou sobre o que impacta a competitividade do setor no Brasil e qual é o efeito da “interrogação Trump” na cadeia de valores do setor mineral.
Antes de responder à questão, Leandro Faria, da CBA, deu explicações sobre a empresa, “uma produtora de alumínio, uma indústria genuinamente brasileira, que produz alumínio de forma integrada, o que significa dizer que operamos desde a extração da bauxita, que é o mineral, até a produção de alumínio transformado, passando pela etapa de produção de alumínio primário e reciclagem também. Nós temos na nossa integração da operação também as usinas hidrelétricas, o que significa dizer que a temos capacidade de produzir 100% da nossa própria energia com base de origem rastreável e sustentável”.

Sobre a questão do crédito e mercado de carbono, Faria disse que é importante olhar a dinâmica não só do carbono, mas de todos os aspectos de sustentabilidade, dentro de uma visão mais holística do negócio. “Ao longo dos últimos anos lidamos com a sigla ESG (Ambiental, Social e Governança), mas que poderia ser EESG, com o econômico associado, para fazer sentido. O mercado de carbono é um mecanismo criado e que já funciona em muitos países para exatamente trazer a dimensão econômica da transação desse elemento carbono que causa o que chamamos de mudanças climáticas. A partir do momento que se tem esse elemento que pode ser visto como oportunidade e ser transacionado, de alguma maneira ele pode ser viabilizador da própria descarbonização. E se entendemos que ele é um viabilizador da descarbonização, então está no campo da oportunidade: assim que gerado, pode ser comercializado, gerar receita, e a própria descarbonização pode acontecer. Além de outras linhas que podemos citar aqui e estamos falando de carbono do ponto de vista da utilização, da geração, preservação e conservação de florestas, que pode ser um mecanismo de remuneração interessante para que se mantenha a preservação”.
Porém, Faria alerta que há um outro risco colocado pelo mercado de carbono que precisa ser avaliado. “Existe a oportunidade, obviamente, mas se avaliarmos do ponto da perspectiva de risco, se não bem gerenciado, pode virar um custo adicional para as operações. Então, a partir do momento que esses mercados, especialmente o mercado no modelo cap and trade, que é o mais comum, onde quem estabelece os critérios também estabelece um limite, a partir do momento que se supera esse limite, há um custo adicional à operação. E se esse limite não for superado, pode-se comercializar esse crédito. É importante que isso entre na conta. Assim, quem vai pagar a conta é quem, de alguma maneira, criar uma condição que gere um risco. Para a sociedade, para a operação ou para a condição do ponto de vista da mudança climática. É preciso que se pense, do ponto de vista de impacto, quem é que paga a conta dos eventos climáticos extremos. E é muito complexo mensurar o tamanho desse impacto e calcular quem é que paga a conta de um evento catastrófico em algum lugar. A dinâmica de gases de efeito estufa, mudança climática, é global. Daí a complexidade de se chegar à resposta de quem é que paga a conta”
Ele acrescentou que, na CBA, entende-se que o mercado de carbono é uma oportunidade do ponto de vista das companhias que já vêm investindo, criando mecanismos de descarbonização “E aqui um elemento importante: a descarbonização precisa ser entendida não só como uma iniciativa pontual local de uma companhia, mas sim de uma cadeia, e aí sim, esse efeito pode ser medido de uma forma a criar o impacto esperado. E descarbonizar uma cadeia significa, por exemplo, usar um alumínio de baixo carbono para descarbonizar a cadeia seguinte, que descarboniza um produto e esse benefício é estendido não só para o produtor, mas também para quem utiliza o serviço ou o produto”.
Reiterando sobre a complexidade de se medir os custos e benefícios da descarbonização, o executivo da CBA assinalou que a possibilidade de captura de oportunidade está ligada ao que isso representa de risco para as companhias que já vêm investindo em descarbonização e que, se comparadas com outras companhias do mesmo segmento, podem estar em condições de operação e de eficiência melhor, como é o caso da CBA, que produz alumínio com geração de carbono três vezes e meia menor do que a média mundial. “Portanto, se um CAP estabelecido de maneira inadequada prejudica o desempenho de uma companhia que já é bem-posicionada, entramos no campo do risco. Se esse CAP proporciona oportunidade de geração de receita e de melhorias à medida que se vai melhorando o processo, tornando-o mais eficiente, criam-se então as oportunidades e valorizam-se aquelas empresas que já vêm caminhando bem nessa agenda”.
Indagado por Walter Froes sobre se a CBA consegue precificar a menor geração de carbono ao vender seu produto, Leandro Faria disse que, embora esse valor não entre no caixa de empresa, há um benefício, porque segmentos que usam o alumínio, como as indústrias automotiva e de embalagens, estão buscando fornecedores com melhor desempenho em termos de descarbonização, porque isso contribui para que eles alcancem suas metas. “Isso tem criado para nós um espaço de melhor negociação, melhores parcerias e, portanto, uma eficiência na relação com o nosso cliente. Por outro lado, na linha de risco existem mecanismos hoje sendo estabelecidos, como o Carbon Border Adjustment Mechanism europeu, que vem colocando uma dinâmica de custo adicional a um excesso de carbono em determinado tipo de produto. Então, à medida que isso acontece, também abre-se um espaço de novos mercados para aquele alumínio que tenha um menor conteúdo de carbono. Portanto, não há um prêmio efetivo, mas existe uma trajetória de incremento de volume de demanda de alumínio de baixo carbono e a oferta relativamente limitada”.
Paulo Camillo Penna, da ABCP, disse que a indústria de cimento tem um longo histórico no processo de descarbonização. São mais de 35 anos trabalhando com bastante vigor, com grande musculatura no sentido de reduzir as suas emissões por frentes absolutamente distintas, mas com uma preocupação central no que diz respeito à questão das emissões”.

Ele acrescentou que a indústria de cimento responde por 7,5%, em nível global, das emissões de CO2 e que se a indústria de cimento fosse um país, ela seria o terceiro país em termos de emissões. “Nós viemos desenvolvendo um projeto global no sentido de estabelecer as informações mais importantes a respeito das componentes que contribuem com essas emissões e constituímos um grupo a partir do ano 2000, retroagindo a 1990, em que é possível se dimensionar vários KPIs da atividade industrial da indústria do cimento. São 850 fábricas, 850 plantas, em 43 países. Em última análise, o que nós estamos construindo é uma maneira de retirar o carbono da atmosfera através de programas importantes que são debatidos a partir de uma base internacional. São 40 grandes centros de pesquisa patrocinados por um conjunto de empresas de cimento mundiais, cerca de 20 empresas, e que tem trazido a possibilidade de reduzirmos esse impacto ambiental tão significativo”.
Respondendo à pergunta sobre quem paga a conta, ele disse que, no nível de emissão que a indústria de cimento tem, há um investimento importante em diferentes frentes. “A partir de 2015, a indústria de cimento desenvolveu o roadmap da descarbonização, juntamente com a Agência Internacional de Energia, o Conselho Mundial de Desenvolvimento Sustentável, o Banco Mundial e a Academia Brasileira, com vários centros de pesquisa. E isto foi possível a partir de quatro pilares. É tecnologia de ponta, que provavelmente vai encontrar sua maturidade tecnológica a partir de 2030 ou 2035”. Lembrando que o custo de um painel solar há 10 ou 20 anos era absurdo e hoje é viável economicamente, o dirigente disse que isto foi possível devido ao avanço da maturidade tecnológica. Além disso, houve um processo de tropicalização que permite ao Brasil fazer frente a um desafio de tamanha importância. “Apenas para que vocês tenham alguma ideia, hoje o custo de retirada de uma tonelada de CO2 da atmosfera com captura e estocagem de carbono é por volta de 100 dólares. Uma tonelada de cimento hoje custa 75 dólares. Fica mais fácil fechar a fábrica e parar de emitir. Só que nós temos um país com apenas 12% das suas estradas pavimentadas, um déficit de 6 milhões de unidades habitacionais e com apenas 45% das casas brasileiras atendidas por rede de esgoto. Não é possível, então, deixar de desenvolver a atividade ou a produção do cimento, dos insumos básicos, para efetivamente se concentrar unicamente na descarbonização”.
Para Camillo Penna, o equilíbrio virá com o mercado de carbono. “Em que pese ele incorporar um adicional importante em termos de custo, também é um promotor muito poderoso no desenvolvimento tecnológico. Nós já avançamos a fronteira tecnológica de uma forma muito importante, mas agora precisamos partir para a ação. A indústria de cimento tem mais de 100 iniciativas de mitigação de emissões e precisamos financiar ao menos os projetos iniciais, os projetos pilotos”.
Leandro Faria chamou a atenção para a necessidade de se estar atento à proteção da competitividade da nossa indústria. “À medida que o mercado de carbono é bem estabelecido e que proporciona todas essas oportunidades de viabilização de projeto, mas com um olhar no risco, precisamos proteger os produtos que estão aqui. A Europa fez isso”.

Rômulo Sampaio, do Mattos Filho, iniciou sua fala informando que, de acordo com a lei, quem emite mais de 10 mil toneladas de carbono por ano é obrigado a reportar e a partir de 25 mil t/ano passa a ser regulado. Segundo ele, analisando o inventário de algumas mineradoras brasileiras, conclui-se que todas serão objeto de regulação pelo mercado. E mencionou alguns números: a Alcoa emite mais de 3 milhões de toneladas/ano; a Anglo American, 1,4 milhão; a CBMM, 50 mil; a Gerdau, 8,2 milhões, observando que, neste caso, se está falando apenas de Escopo 1. Se acrescentar o Escopo 2, a conta é ainda maior. “Então, o setor todo vai ter este custo”, afirmou.
Ele acrescentou que o mercado de crédito de carbono é um custo sobre quem emite. “Então, na verdade, quem vai pagar a conta são as indústrias que vão ser reguladas. Quando falamos de regulação de emissões, preço de carbono, para que se impõe preço? Porque é a única forma de, economicamente, controlar a externalidade, porque gera mais eficiência na utilização”. Ele também informou que, de acordo com o Ibram, as emissões da mineração no Brasil foram de 13 milhões de toneladas, Escopo 1 e Escopo 2, em 2023, o que representa 32% das emissões do setor industrial. “Parece relevante, mas o setor industrial brasileiro representa apenas 5% das emissões brasileiras, que por sua vez são 3% das emissões do mundo. Então, estamos criando um custo a mais para a indústria brasileira, que não sabemos quanto vai ser, para resolver cerca de 0,1% do problema da mudança do clima no mundo. É importante? Claro que é importante. Estamos agregando esse custo e vamos ter que saber lidar com ele, se isso conseguir ser regulamentado”.
Ele lembra que o mercado brasileiro de redução de emissões, fazia parte da lei da Política Nacional de Mudança do Clima, nunca foi regulamentada. “Foi preciso vir uma nova lei de mercado de carbono, agora com um novo prazo de regulamentação. Então, teremos que acompanhar. Ouso dizer que o setor industrial brasileiro já é um dos mais eficientes do mundo, em termos de emissão. Acho que não tem um cimento no mundo que seja mais sustentável do que o brasileiro, em termos de emissão. Portanto, quando olhamos para isso e o esforço todo que está sendo criado sobre o mercado de carbono, temos que olhar para esses números e ficar atentos, para ver como vamos evitar criar mais um custo para a indústria nacional, que já é pouco competitiva quando comparamos com todos os outros custos que temos. O setor mineral pode ter oportunidades — acredito que mais no mercado voluntário, com projetos de compensação. A lei trouxe de forma bem mais precisa a possibilidade de negociação com o proprietário da área, então se a mineradora tem uma servidão sobre uma grande área ou ela é uma arrendante de uma grande área, pode desenvolver parcerias para fazer crédito no mercado voluntário e eventualmente usar isso para `offsetar’ suas obrigações no mercado regulado e vender o excedente para fora. Pode agregar talvez esse valor, vender créditos de carbono se conseguir melhorar tecnologicamente algum processo interno”.
Rômulo observou que o Brasil adotou uma NDC, um compromisso, bastante agressivo, de 59 a 67% de redução até 2035, o que equivale a mais ou menos 1 bilhão de toneladas de redução, considerando-se os níveis de 2005. “Então, esses são os desafios. O setor tem que olhar com muito cuidado para essa regulamentação, para evitar que o mercado não crie uma distorção ainda maior para a indústria brasileira, que já sofre com tantos outros desafios que nós temos”.

Paulo Camillo Penna, por sua vez, criticou o fato de a indústria brasileira não ter sido consultada na construção da NDC (Contribuição Nacionalmente Determinada). “Nós não participamos efetivamente de nenhum processo. E estou falando de uma indústria de cimento que tem 35 anos de histórico global, que conhece o setor profundamente, assim como a química, o alumínio, o aço. O Brasil foi o segundo país a apresentar a NDC, apesar do setor intensivo em energia e a CNI terem se manifestado contra a apresentação da NDC sem uma discussão. Não há nenhum diálogo e agora nós estamos construindo o plano clima, que vai determinar os compromissos dos diversos setores”. Ele disse, ainda, que a indústria brasileira, incluindo a mineração, não quer pagar pela eventual ineficiência de outros setores, já que tem conseguido, efetivamente, “cumprir um processo de redução significativo e tem investido pesadamente para evitar barreiras alfandegárias e não alfandegárias”. Por fim, ele afirmou que as iniciativas de diálogo internacional acabam não tendo uma consequência efetiva, na medida em que não se consegue o diálogo interno no Brasil. “A CNI, um mês atrás, constituiu um grupo de sustentabilidade para debater como é que os negócios, a economia, se inseriam nessa discussão e o que se está pretendendo agora é justamente colocar os negócios na discussão sobre sustentabilidade. Mas o que se percebe, com a maior clareza, é que se busca um debate internacional, mas dentro do país não se consegue avançar nesse sentido”.
Rosane Santos, complementando a fala de Rômulo Sampaio, disse que é muito interessante se perceber que a agenda de descarbonização do setor mineral é importante, está posta, faz sentido e conecta o Brasil com outros grandes produtores. “Mas, ao mesmo tempo, vejo a indústria muito pressionada para resolver questões básicas que já estão postas há muito tempo. Então, ou ela olha para a descarbonização ou para a licença social. Ela vai decidir se ela vai participar do mercado voluntário, regulado, quais as iniciativas que vai adotar para reduzir suas emissões ou se vai ser partícipe do processo de desenvolvimento territorial da localidade onde ela está, na dinâmica de comunidades, anfitriões. Basicamente, isso pra mim é tão importante quanto. Mas na prática, por conta da relevância temática que a descarbonização oferece, principalmente pelo impacto que traz num contexto de justiça climática, se precisa, obviamente, oferecer de uma forma colaborativa, com o governo, a sociedade, o setor privado, todo mundo junto pensando em como é que se resolve o problema. É um nível de pressão que ficamos pensando sobre o que é mais importante. Para onde eu olho? Porque a mineração é pesada, gigante, o setor produtivo como um todo está na maioria das vezes localizado em cidades, em locais, que demandam investimento social numa proporção que não necessariamente é da nossa responsabilidade. Por isso a parceria com o poder público e com outros entes. Mas a mineração não pode perder de vista essa outra agenda, não pode se desconectar de nenhuma das duas. Só que os níveis de esforços são muito diferentes”.
Na sequência, Walter Froes perguntou aos painelistas quais seriam as prioridades e incertezas nesse contexto e a primeira a responder foi Rosane Santos, dando uma perspectiva da empresa que representa, no caso a Samarco. “Não é novidade que estamos num processo de retomada operacional, que a empresa decidiu que seria gradual e agora está na segunda de três fases. E, obviamente, existe uma atualização do parque industrial da companhia, porque nós ficamos durante muito tempo sem operar. Então, a introdução de novas tecnologias, de tecnologias limpas e sustentáveis é, de fato, muito importante para nós. No nosso processo produtivo, até conseguirmos gerar a pelota temos a mineração, a extração e o beneficiamento, o mineroduto, o porto onde se recebe a polpa, faz-se um processo adicional de concentração e se precisa colocar no forno para ter o produto final que vai ser comercializado. A pelotização é o nosso maior desafio dentro do processo produtivo. E quando falo de introdução de tecnologias, por exemplo, estamos utilizando o que chamamos de carvão verde, que é uma tecnologia diferenciada mais limpa, para diminuir justamente o ponto crítico do nosso processo produtivo. Isso é Escopo 1. Quando chegamos no escopo 2, estamos bem, porque utilizamos energia 100% renovável. O que tem sido importante para nós dentro desta agenda? Não estamos em condições de participar de mercados, porque o nosso volume ainda vai crescer muito até chegarmos, na instalação, a 100% da capacidade produtiva. Então, a solução que temos adotado é justamente pensar em como é que melhoramos e trazemos mais eficiência energética para o nosso processo. Como tornamos esse processo mais eficiente de forma a diminuir o nosso volume e quando precisarmos, lá no futuro, pensar em ingressar em algum mercado, já teremos uma visão mais clara do que é mitigação, compensação e para qual mercado vamos atuar. No momento, 2025, para nós a licença social é absurdamente importante. Então, os dois assuntos se conectam. Não estamos negligenciando nenhum, mas precisamos olhar para aquele que é mais caro e mais precioso para a organização neste momento”.

Leandro Faria explicou que, assim como diversos outros metais, a transição energética no alumínio é multimetal. “O alumínio é parte essencial desse processo de transição energética, na medida em que fornecemos o material para que ocorra uma descarbonização em nível local, regional e global. Também oferecemos soluções para que a cadeia inteira se descarbonize. A perspectiva de olhar para a descarbonização ou o crédito de carbono, o impacto disso localizado em uma planta unilateralmente, pouco explora o potencial de efeito positivo da cadeia numa agenda que é de extrema importância. Nós acreditamos em medidas como o mercado de carbono, desde que devidamente implementado e considerando a proteção da competitividade da indústria local e adoção de critérios bem claros, com um custo adequado, para que isso seja implementado na indústria. É um processo virtuoso que vai levar à redução de emissões e do efeito da mudança climática, porque isso no final das contas é custo. É custo para a sociedade, para o governo, para a companhia. Nós geramos a nossa própria energia com base em hidroelétrica e à medida que o clima afeta a nossa geração, afeta o nosso negócio. Então, todas essas questões são conectadas com a indústria comprometida, como é o caso da CBA, com a descarbonização e engajando seus fornecedores e clientes na produção de um produto de cadeia completa de baixo carbono. É um ciclo virtuoso que procuramos, através das nossas estratégias, estimular para que se acelere o processo”.

Paulo Camillo Penna, por sua vez, disse que a prioridade do setor cimenteiro é o cumprimento do seu roadmap, mencionando algo que considera relevante, que é o trabalho com combustíveis alternativos. Quando fizemos esse trabalho, acabamos fazendo um mapeamento no país a partir das fontes de biomassa e foi possível identificar que nós temos caroço de açaí como fonte de energia no Norte, casca de babaçu, licuri, cavaco de madeira de reflorestamento, palha de arroz e tudo isso sendo utilizado como fonte de energia. Nossa energia principal é energia térmica. Praticamente 50% do custo do cimento é energia térmica. E a matéria-prima que se usa ainda é o coque de petróleo, que é 90% importado. Além de forte emissor, é dolarizado. O Brasil já conseguiu substituir 32% do coque de petróleo por Biomassa”. Ele informou, ainda, que os resíduos industriais, perigosos e não perigosos, também têm sido utilizados. “E o terceiro substitutivo é o lixo doméstico. Nós estamos contribuindo significativamente para a erradicação dos lixões neste país, já que os nossos legisladores não conseguiram efetivamente cumprir essa meta. Então, estamos buscando combustíveis alternativos que possam efetivamente substituir combustíveis fósseis como uma fonte importante de redução de energia e a incorporação da sociedade civil como beneficiária dessas fontes alternativas. Acho que esse é um desafio muito grande. Agora temos um desafio estratégico maior, que é como transformar o mercado de carbono efetivamente em um mercado global”.
Prometendo ser breve, Rômulo Sampaio disse que a incerteza é regulatória. “O que vai sair dessa regulação? E nós já temos até uma Ação Direta de Inconstitucionalidade contra a lei, que acabou de ser aprovada. Então, o Brasil vive dessas incertezas. E acho que a oportunidade é exatamente essa que Paulo Camillo Penna falou: se soubermos fazer essa regulamentação e criar um mercado que considere também a eficiência energética da indústria brasileira e as potencialidades, acho que vamos ter um país de oportunidades nessa área para descarbonizar. E não só com o mercado, mas também com os produtos que pode oferecer para o mundo”.
Eficiência energética
O segundo painel, que discutiu o tema “Eficiência Energética”, teve a moderação de Mauro César Pereira, diretor da área de Energia da empresa de engenharia Affry Brasil e contou, na condição de debatedores, com Edson Del Moro (Country Manager da Hochschild Mining), Rodrigo Amado (diretor de Novos Materiais e Aplicações da CBMM), Thales Oliveira (superintendente Comercial da Construtora Barbosa Mello) e Itamar Lessa (diretor da Comercializadora da Casa dos Ventos).


Mauro César Pereira disse que está claro para todos que a redução das emissões de gases de efeito estufa é uma necessidade premente. E a maior eficiência energética é um dos caminhos para se conseguir essa redução. A indústria de mineração, segundo ele, tem que implementar melhorias energéticas em seu parque produtivo e aumentar o uso de energias renováveis. Ele disse que os efeitos das mudanças climáticas são cada vez maiores e que uma das maneiras de se promover a redução dos gases de efeito estufa é através da eficiência energética, que pode vir através de processos de otimização dentro das indústrias de mineração, como a utilização de fontes alternativas de energia. “Para se ter uma ideia, o Brasil, no ano de 2024, teve um incremento de aproximadamente 11% de energias renováveis, seja eólica, fotovoltaica, hidrelétrica e biomassa. Então, esse é um desafio que a indústria tem hoje para poder melhorar a eficiência energética: a utilização de energias de fontes alternativas ou melhorando o seu próprio processo industrial. Nesse contexto, eu gostaria de fazer alguns questionamentos aos nossos debatedores, que seria: o que a sua empresa tem implementado para a melhoria da eficiência energética?”

Edson Del Moro, da Hochschild Mining, antes de responder à pergunta explicou que a Hochschild Mining chegou ao Brasil em 2022 e que se trata de um grupo peruano com 114 anos, tendo suas ações comercializadas na bolsa de Londres. “Estamos há praticamente três anos no Brasil, com um projeto em Mara Rosa, em Goiás, uma unidade que iniciou produção de ouro no ano passado. É uma empresa voltada a metais preciosos, com unidades no Peru, Argentina e agora no Brasil. Além dessa unidade de Mara Rosa, estamos com um projeto novo para ser implantado, no estado de Tocantins, também uma unidade que deve produzir 100 mil onças ouro por ano”.
Em seguida ele disse que a eficiência energética é um processo, que tem que ser movimentado no dia a dia das empresas. “Como um grande pacote nosso foi focado em tentar ser 100% renovável, nós estamos na fase final de construção de uma planta de energia solar, próxima a Belo Horizonte, em Jaboticatubas, de 45 megawatts, a qual vai permitir que 100% da nossa energia, a partir de julho de 2025, passe a ser totalmente renovável, com energia solar. O projeto novo em Tocantins também deve ter energia 100% renovável”.

A seguir, o moderador perguntou a Thales Oliveira, da Barbosa Mello, quais são as necessidades em termos de boas práticas de eficiência energética, principalmente na indústria de mineração. Antes de responder, ele também falou sobre a sua empresa, explicando que 70% do faturamento da construtora provém do setor da mineração. Depois, ele afirmou que o Brasil é um país em que a sua matriz energética já é praticamente toda sustentável. “Temos 234 gigawatts na matriz em 2025 e uma tendência de crescimento para chegar a 260 gigawatts até 2029. E vemos que cada vez mais a matriz energética limpa, principalmente a solar, vai ter um grande crescimento. A eólica também tem um crescimento, mas não como vinha tendo. Minigeração e microgeração vêm como o segundo maior destaque em crescimento no País. Então, temos uma matriz energética basicamente limpa”.

Ele acrescentou que, após a criação da lei da eficiência energética, da regulação da eficiência dos equipamentos, houve um grande avanço e que entre 2005 e 2018, a eficiência energética aumentou 14%, sendo que a indústria respondeu por 7%, ou seja, metade. “Dentro desse cenário, percebemos que é extremamente importante que a indústria da mineração, como grande consumidora de energia, esteja atenta. Vejo como duas oportunidades: uma via operação, que é onde a mineração consome, e outra via energia, que é o Escopo 2 que ela utiliza. No escopo 2, acredito que é mais fácil todas as empresas conseguirem atingir as suas metas. No Escopo 1, onde entra toda a parte da operação, existem grandes oportunidades para se discutir, mas entra a questão de quem paga a conta. “Enquanto não tiver uma dor, dificilmente vai ter quem paga a conta. Acho que isso vai acontecer aos poucos, não é da noite para o dia. Mas já estamos vendo eletrificação de frota, a Anglo American está testando na África do Sul o caminhão movido a hidrogênio verde. A indústria está se movimentando e temos que ficar atentos a todas as oportunidades”.
A seguir, Itamar Lessa, da Casa dos Ventos, afirmou que sua empresa tem grande inserção no setor de mineração. Ela começou a gerar energia eólica em 2013 e posteriormente conseguiu iniciar um desenho inovador para o setor de mineração, que é a autoprodução. Ele acrescentou que a Casa dos Ventos, com seus clientes, iniciou a economia circular no setor, fornecendo insumos para aqueles projetos renováveis que vão gerar energia também com pegada de CO2 menor. E destacou o modelo adotado pela empresa, de contrato de compra de energia com participação societária do cliente, “gerando um benefício econômico muitas vezes superior ao benefício ambiental”. E informou que atualmente a Casa dos Ventos tem mais de 30% de sua carteira de clientes formada por mineradoras.
Rodrigo Amado, da CBMM, perguntado sobre que mudanças de processos ou melhoria dos processos produtivos estão sendo efetuados na empresa, primeiramente falou sobre a CBMM, expllicando que ela é líder como produtora de nióbio e inovação de produtos de nióbio no mundo. “Atendemos mais de 450 clientes pelo mundo, em mais de 50 países. O mercado principal do nióbio é o siderúrgico. Em torno de 85% do nosso faturamento provém do mercado de siderurgia. Desde o ano passado, criamos uma nova divisão, de novos materiais e aplicações, onde desenvolvemos novas aplicações sustentáveis para o mercado. Uma delas são as baterias com maior vida útil e carregamento rápido”.

Sobre os desafios da descarbonização na CBMM, ele informou que a intenção da empresa é ser, até 2040, zero carbono nos escopos 1 e 2. “No Escopo 2, já somos zero. Então, creio que o desafio aqui é a substituição de GLP e diesel por energia renovável. Vou dar um exemplo: estamos numa expansão de uma linha de produtos de óxido de nióbio, que vai muito para a aplicação em eletrificação, e o novo projeto já nasce conceitualmente com energia elétrica limpa. Já nasce com uma pegada zero”.
Rodrigo disse, ainda, que já existem clientes exigindo isso da empresa. Ele também informou que a CBMM está com um projeto para eletrificar a mina, usando a tecnologia de Nióbio. “E o grande benefício da tecnologia de Nióbio é o carregamento abaixo de 10 minutos. Assim, queremos reduzir a nossa frota de caminhões, ao conseguir parar para carregar em menos de 10 minutos. E a vantagem disso é que a bateria de Nióbio dura mais de 20 mil ciclos, ou seja, 20 anos de duração. Uma bateria comum LFP dura menos de 3 mil ciclos”.
Falando sobre novas soluções, Itamar Lessa informou que a Casa dos Ventos está implementando, com alguns parceiros, caldeiras elétricas, o que “é uma revolução do ponto de vista de processo industrial, porque focamos o escopo 1, reduzindo o custo e aumentando a confiabilidade”. Ele acrescentou que a Casa dos Ventos deixou de ser uma simples vendedora de eletricidade para clientes e passou a ter parceiros nos empreendimentos. “Hoje, temos 21 sociedades com empresas de mineração, de metalurgia, de commodities”.
Questionado sobre como a Barbosa Mello pratica a eficiência energética em suas obras de engenharia, Thales Oliveira informou que hoje a empresa está no GHG Protocol e pelo segundo ano consecutivo obteve a certificação ouro no inventário de carbono. Ele explicou também que a empresa tem usado tecnologias, como o BIM associado ao machine learning, nos equipamentos, o que permite ser mais eficiente. E mencionou o caso de uma obra recente, em que conseguiu economizar 111 toneladas de carbono. “É um ganho real para a companhia, porque nos tornamos mais competitivos e temos melhor produtividade. Além disso, temos programas de rastreamento de frota, que nos permite entender se todos os motoristas da companhia estão operando o equipamento de forma adequada, também visando o consumo de combustível”.

O segundo painel foi encerrado com um questionamento do moderador sobre que benefícios a eficiência energética traz para a sociedade. Iniciando as respostas, Edson Del Moro afirmou que o ganho é não só para a empresa, mas também para a sociedade e que, no caso da Hochschild, os ganhos estão sendo calculados, um por um. Mas reclamou do pouco engajamento dos órgãos públicos, que deveriam caminhar em paralelo com a iniciativa privada.
Thales Oliveira disse que o efeito estufa é provocado principalmente pelo CO2, que responde por 60% do aquecimento global. Portanto, ao se descarbonizar, ganham todos. “Não tem como pensarmos que vamos ter políticas de exploração mineral sem descarbonização”, afirmou, acrescentando que o grande desafio está realmente no escopo 1 e, principalmente, no escopo 3.
Rodrigo Amado concordou com Thales sobre os desafios dos escopos 1 e 3 e que, no caso da CBMM, acaba sendo um laboratório de novas tecnologias de Nióbio para provar que, além de ter ganhos financeiros, também tem ganhos sustentáveis.
Já Itamar Lessa afirmou que o custo financeiro de hoje deve ser visto como uma conta que está sendo paga para que as próximas gerações consigam usufruir do que existe hoje no planeta.
Energias renováveis
Fechando o evento, o terceiro painel abordou o tema “Energias Renováveis” e teve a participação de Paulo Eduardo Pinto (CEO do TSX Group, que atuou como moderador), José Augusto Palma (vice-presidente Executivo da Aclara Resources), José Eduardo Zampieri (da Illian), Caroline Marci (da Meteoric) e Amanda Cássia Machado (diretora de Novos Negócios da XCMG).
Iniciando o painel, Paulo Eduardo Pinto disse que o primeiro projeto de capital com o qual a TSX lidou, relacionado com descarbonização, foi em 1998. quando a então Belgo Mineira fez uma transição energética, mudando a concepção do alto forno a carvão vegetal.

“O que é interessante é que ao longo desses anos, ou seja, estamos falando aqui de um período geracional, a agenda de quem atua em projetos de capital – somos muito sensíveis a isso na TSX – de tempos em tempos é impactada por determinados tipos de demanda. Mas três demandas tomaram lugar especial ao longo desses mais de 20 anos. A primeira delas é uma conceituação óbvia, mas que ficou muito latente em nossa agenda, que é a necessidade de se qualificar o planejamento do investimento a cada dia que passa com uma qualificação e uma perspectiva muito mais sistêmica, não apenas multidisciplinar, mas interdisciplinar: a necessidade de se fazer essa conciliação e o desafio que isso significa para as empresas no ambiente de investimento de capital, sobretudo quando falamos de setores de capital intensivo.

É uma agenda realmente árdua, muito distante do core business das empresas, mas é uma agenda premente, que se impõe. E a terceira agenda, um pouquinho mais recente, é a da energia renovável, das substituições de matrizes e tudo mais. O que eu acho interessante é que cabe ou tem cabido ao setor privado, às empresas de um modo geral, lidar com esses temas de forma muito cabal. E é uma agenda dificílima nesse sentido”.
Depois desse preâmbulo, ele perguntou aos painelistas sobre as dificuldades de se implantar, no cotidiano das empresas, a agenda da transição energética.

Amanda Machado, da XCMG, afirmou que a descarbonização é um dos principais pilares da empresa, não apenas no Brasil, mas globalmente e que as soluções estão muito voltadas para o aspecto local. “Tem países em que a solução é o metanol, outros o hidrogênio e assim por diante. Mas entendemos que as dificuldades são globalmente muito semelhantes. No Brasil, principalmente, vemos um desejo de todas as mineradoras de descarbonizar. Mas como é uma tecnologia nova, é óbvio que um teste de 30, 60 dias não consegue provar um investimento, associado ao valor da produção. Esse é o primeiro desafio: ganhar a credibilidade, o entendimento de que aquilo de fato é uma solução. O segundo desafio é que todos os dias há novas soluções, novas tecnologias. A velocidade do avanço tecnológico é maior do que o real”.

Caroline Marci, da Meteoric Resources, uma das maiores empresas voltadas à produção de terras raras no Brasil, afirmou que a cadeia produtiva tem muitos desafios, mas que vê uma movimentação no mercado, principalmente nas empresas de terras raras, em busca de melhorias. “É constante as parcerias com o setor público, com instituições de pesquisa. A Meteoric mesmo estabelece várias parcerias em ensino, pesquisa e extensão, no sentido de aprimorar e melhorar essa cadeia produtiva, em todas as esferas”.
Ela observou, no entanto, que “nem sempre o tempo da empresa é o tempo da política pública e este é o grande problema que se enfrenta aqui no Brasil. O tempo do mercado, o tempo financeiro, o tempo que temos para fechar um acordo de financiamento, vender o nosso produto, não é o tempo da nossa legislação. Só esse entendimento é que vai fazer com que as coisas possam se agilizar. É uma novidade para todo mundo, inclusive para o nosso legislativo, para o governo federal. Então, a nossa necessidade de mercado é muito mais ágil do que a necessidade, a visão, do poder público. O grande desafio que enfrentamos é o tempo”.
José Palma, vice-presidente executivo da Aclara Resources, explicou que é uma empresa de tecnologia com dois projetos de mineração que fornecerão suprimento independente de terras raras sustentáveis na cadeia de valor que está sendo construída. “Nossos dois projetos, Carina, no estado de Goiás, e Penco, no Chile, são depósitos de argilas iônicas de classe mundial, com capacidade para produzir volumes significativos de terras raras pesadas. A Aclara implementa uma estratégia de integração vertical da mina à fabricação de ímãs permanentes. Acreditamos que nossa principal vantagem competitiva é nosso método de extração de baixo custo e ambientalmente sustentável, graças ao nosso processo patenteado, que é muito diferente da mineração tradicional e nos vai permitir extrair as terras raras sem utilizar explosivos nem britagem, nem gerar resíduos líquidos, não necessitando de barragem de rejeitos e reutilizando 95% da água no processo, retornando as argilas às escavações e recuperando 99% do principal reagente, que é um fertilizante natural”.

Palma disse que o Brasil está em 12º. lugar em transição energética, em nível mundial e que, como sede da COP 30, tem uma plataforma muito especial para ocupar posição de liderança. “Além disso, tem a grande vantagem de ser um país muito rico em minerais críticos e como tal vai ter um papel muito importante na produção desses minerais, que são justamente fundamentais para a transição energética e tecnologia do futuro”.

José Zampieri, da Ilian, também falou primeiramente de sua empresa, que foi fundada em 2021 e começou a “pegar tração” de fato em 2023. “No momento, estamos em uma fase bastante avançada de construção do nosso primeiro projeto de energia solar. É o projeto Irecê Fase 1, localizado no semiárido da Bahia. São mais de R$ 400 milhões de investimento numa região que necessita de investimentos, de mão de obra. É um projeto de 160 megawatts, no pico, 133 megawatts nominal, localizado em uma das faixas de maior irradiação solar do país. É uma empresa jovem, mas que já está fazendo história e fechando parcerias com grandes players. Percebemos realmente uma receptividade do mercado, por parte de grandes consumidores, não só do setor de mineração, mas de outros eletrointensivos, pela transição energética. E estamos aqui para fazer isso. A Ilian realmente é um vetor da transição energética”.

Ele lamentou a taxação dos painéis solares com Imposto de Importação, o que é um percalço para a indústria, mas que espera encontrar soluções e fazer algo que seja rentável para todo mundo.
O representante da Ilian acrescentou que hoje o mercado livre de energia é extremamente competitivo. “Sabemos que a energia renovável hoje, seja solar ou eólica, já é mais barata do que a energia convencional, seja hidráulica ou térmica. Na autoprodução, consegue-se fazer alguns arranjos onde se tem um benefício adicional que pode ultrapassar R$ 70 por MWh, a depender do perfil de consumo, do ponto de localização”.
Paulo Pinto perguntou em seguida a Caroline Marci se a Meteoric está pensando na utilização de energia renovável em seu projeto e ela respondeu que “além de ser uma estratégia, está em caráter inclusive de diferencial do projeto Caldeira. Nosso primeiro projeto no Brasil prevê 100 por cento de uso de energia renovável e a busca constante por melhoria”.
Ainda sobre a perspectiva de utilização de energia renovável, Amanda Machado afirmou que a XCMG tem várias iniciativas bem pioneiras, sendo inclusive uma das pioneiras em caminhões fora de estrada elétricos. Ela acrescentou que hoje a XCMG tem sua matriz em Pouso Alegre (MG), onde está sua fábrica no Brasil, e tem base em São Paulo, Belo Horizonte e Parauapebas (PA), fora as 16 concessionárias com cobertura em todo o território nacional. Sobre os equipamentos elétricos, a representante da XCMG disse que a tecnologia elétrica se mostra em média 70% mais econômica do que um equipamento a combustão. “Os equipamentos que vêm se mostrando com maior destaque são as pás carregadeiras no setor portuário, que têm conseguido um destaque, um ganho de mercado muito grande. Na parte de mineração, é óbvio que existe uma necessidade de estudo do perfil da mina. Nós somos bem realistas quanto a isso. Havendo a análise da mina, o ganho é relevante. Outro setor que tem crescido é o de logística", finalizou.

O seminário sobre Descarbonização contou com o patrocínio das empresas Construtora Barbosa Mello e XCMG (patrocínio master), CBMM e Meteoric (patrocínio ouro), Aclara Resources, Affry, CMU, Hochschild Mining, Illian, Metso e TSX (patrocínio prata).

