“Nos últimos 20 anos, na América do Norte, o conceito de estratégia industrial era um anátema, porque dizia-se que os mercados livres deveriam cuidar de tudo isso. Até que um dia acordamos e vimos que o produtor dominante de minerais essenciais, de veículos elétricos e o controlador dominante das cadeias de suprimentos que precisam levar à próxima onda de criação de riqueza da indústria automotiva, criação de PIB e de bons empregos, é a China. Como eles chegaram lá? Creio que a resposta é estratégia industrial, uma forma de pensar inteligente.
Fico chocado que algumas pessoas muito poderosas ao redor do mundo não acreditem que o aquecimento global seja algo concreto. Elas ainda acham que é uma farsa. Mas se acreditamos que o aquecimento global é uma das questões fundamentais de sobrevivência que temos que enfrentar como civilização, temos que lidar com isso. A descarbonização é algo em torno do qual o mundo precisa se unir e entregar. No entanto, não podemos descarbonizar sem os elementos necessários, os minerais essenciais e todos os outros não essenciais que entram na nova geração da cadeia de suprimentos, o que nos permitirá produzir energia com uma pegada ambiental muito menor e consumer essa energia de forma muito mais eficiente. Para fazer isso, pre cisamos de ordens de magnitude a mais de minerais e, especificamente no caso das terras raras, essa ordem de magnitude é ainda maior. Também precisamos de mais lítio, e assim por diante.
As aplicações mais valiosas das terras raras, que respondem por mais de 90% do valor da indústria de terras raras, estão nos ímãs. Os ímãs de ferro e boro de terras raras são muito poderosos. E muito peque nos. Eles operam em condições adversas e são extremamente úteis quando se projeta motores de baixa energia ou altamente efi cientes em termos de energia. Deste ponto de vista, eles são absolutamente críticos. Não porque os chamamos de críticos, mas sim porque de fato o são. Sem as terras raras, não podemos realmente descarbo nizar facilmente. Existem alternativas, mas nenhuma é tão boa quanto as terras raras.
Até 2035, cerca de metade das aplicações para ímãs de terras raras serão relacionadas a automóveis, principalmente para motores de tração de veículos elétricos, mas também muitos outros motores auxiliares. Desde a Segunda Guerra Mundial, as economias ocidentais conseguiram construir suas eco nomias industriais com o setor automotivo sendo um componente indispensável dessas estratégias industriais.
Mas o que está acontecendo nos últimos anos é que vimos o surgimento da China usando seu comando das cadeias de su primentos e o domínio da construção de veículos elétricos.
Os planejadores chineses perceberam que precisavam desenvolver sua indústria automotiva, porque uma grande parte de seu PIB e da transferência de centenas de milhões de pessoas da pobreza para a classe média dependia da execução correta dessa estratégia. E o que aconteceu nos últimos 15 anos foi relevante. Há 15 anos, a China começou a falar sobre os veículos elétricos como o próximo alvo em seus planos quinquenais. Três planos quinquenais depois, em outro documento estratégico chamado China 2025, o país está dominando o mundo dos veículos elétricos. Até o final de 2025, a Bloomberg prevê que dois terços de todos os veículos elétricos do mundo serão produzidos na China. Uma das razões fundamentais para o sucesso da China é o fato de que suas cadeias de suprimentos de veículos elétricos, que remontam às baterias de lítio, produção de ímãs de terras raras, motores, são muito maduras, altamente otimizadas e extremamente informatizadas.

No veículo elétrico médio, talvez haja algo como um ou dois quilos de ímãs de terras raras no motor principal. Alguns dos veículos de luxo de ponta podem ter dois, três ou quatro motores elétricos, e isso significa proporcionalmente muito mais ímãs. É muito crítico entender como a indústria é atendida. O que essa indústria quer? Eles realmente precisam de estabilidade, de saber qual será a posição de custo daqui a alguns anos. Os clientes automotivos esperam que os fornecedores controlem a volatilidade. Até agora isto não é possível, porque o preço é controlado e efetivamente muito influenciado pelo mercado chinês. E aqui está uma das oportunidades para o Brasil. Os clientes insistirão em contratos de longo prazo. Mas, hoje, isto não é possível.
Há um termo muito na moda, especialmente com as montadoras alemãs, sobre a necessidade do fornecimento local. Quando eles constroem carros na Europa, esperam que as cadeias de suprimentos estejam na Europa. Esse é muito o modelo japonês, porque longas cadeias de suprimentos não são resilientes por natureza, e qualquer interrupção – por exemplo, uma peça crítica que vinha do outro lado do oceano não é entregue – pode levar ao fechamento da fábrica. E eles não podem conviver com isso. Então, as cadeias de suprimentos locais são críticas. No entanto, quando pensamos em cadeias de suprimentos, como elas se unem, tudo começa com a demanda.
Há, no Brasil, pelo menos meia dúzia de empresas desenvolvendo projetos de terras raras. Se essas empresas tivessem um cliente, elas poderiam financiar seus projetos. Os bancos emprestariam dinheiro a elas, os investidores colocariam capital. Mas se o cliente não estiver lá, é mais complicado. E, sejamos realistas, um minerador júnior que está na fase de exploração, levará 5 a 10 anos para ter cliente. No entanto, se a demanda estiver lá, todos esses projetos se tornarão financiáveis e a vida das pessoas se tornará muito mais fácil. Em última análise, a demanda é impulsionada pela indústria automotiva. Eles são indispensáveis. Ao pensar em sua estratégia de cadeia de suprimentos, é importante conversar com as empresas automotivas, que trarão o restante da cadeia de suprimentos.
A China, como mencionado, domina a indústria. No entanto, nos últimos cinco anos, desde antes mesmo da COVID, ficou muito claro que a produção de terras raras fora da China é inevitável. Até mesmo empresas chinesas estão viajando pelo mundo, investindo em projetos de terras raras. Porque a China hoje é uma importadora líquida de matérias-primas de terras raras, mas a grande maioria do processamento ainda ocorre lá. A mesma afirmação vale para o lítio. Quando eles trazem grandes quantidades de concentrados de lítio da Austrália, principalmente, e tudo é convertido, o valor agregado é capturado na China. No entanto, os governos têm um papel, e é aqui que se alavanca as vantagens competitivas. O Brasil é abençoado com fantásticos depósitos de terras raras.
Finalmente, os governos estão ficando muito protetores dos empregos e crescimento do PIB. Mas acho que o valor agregado é indispensável quando se está tentando criar uma classe média maior e mais próspera, que pague impostos a maior parte do tempo.
Isso é algo que absolutamente petrifica a Europa, porque, sejamos realistas, há cerca de um milhão de empregos na Alemanha e no norte da Europa que dependem da indústria automotiva. À medida que essa indústria faz a transição para veículos elétricos e, portanto, é dominada pelas cadeias de suprimentos chinesas, um grande número desses empregos está em risco.
Nesta década, os veículos elétricos e os automóveis são a principal força motriz para o consumo de terras raras. A China controla 90% da produção, refino e assim por diante.
E a razão simples é que a China é o maior consumidor, o maior mercado de terras raras. Como parte da estratégia industrial que vêm desenvolvendo nas últimas duas décadas, eles precisavam ser o maior produtor para alimentar a demanda doméstica e suprir as cadeias de suprimentos industriais que estavam desenvolvendo. Como resultado, por dominarem a produção e o consumo, eles exercem muita influência na indústria. Mas eles estão em ambas as pontas da equação oferta-demanda e atendem muito bem aos seus propósitos. Agora, na indústria, uma das fraquezas globais é que o preço doméstico chinês é o preço global, porque 60 a 70% do mercado mundial está lá. Eventualmente, conforme a demanda fora da China se desenvolva, talvez os preços sejam desenvolvidos fora da China.
Meu nível de preço ideal para Neodímio e Prazeodímio que são os mais raros, é cerca de US$ 100 o quilo para neodímio e óxido de praseodímio. A US$ 100 o quilo, talvez 20% a mais ou a menos, todo mundo ganha dinheiro em toda a cadeia de suprimentos.
Acho que a indústria precisa não tentar desaparecer e esperar US$ 200, US$ 250 o quilo de neodímio, porque não vai durar muito se a situação se prolongar.
A US$ 100 o quilo, a mineração e o beneficiamento é a parte mais lucrativa da cadeia de suprimentos. Assim, como primeiro passo o Brasil precisa apoiar os produtores emergentes desse material.
O Brasil está sentado numa verdadeira mina de ouro raro e tem a chance de mudar a dinâmica global da indústria de terras raras.
Mas os ímãs dão dinheiro e é onde todo mundo está tentando chegar. Porém, vamos ver o que acontece a US$ 40 o quilo, o que não está muito longe de onde o mercado se encontra hoje. Neste caso, a mineração não dá dinheiro ou pelo menos a maioria da mineração, embora eu ache que as argilas iônicas no Brasil têm o potencial de revolucionar o fornecimento de terras raras.
A concentração não funciona. A separação hidrometalúrgica perde dinheiro. A redução de metal perde dinheiro. Com liga, é a mesma coisa. Ímãs ainda dão um pouco de dinheiro. Então, a US$ 40 o quilo de neodímio é insustentável. Haverá falências, interrupções e então começaremos tudo de novo.
Na China, pode-se contratar graduados em engenharia de terras raras, química de terras raras, programas de metalurgia de terras raras, colocá-los nas plantas e eles são imediatamente produtivos. Em qualquer outro lugar do mundo, é preciso enviar os graduados para um laboratório. Quando eu trabalhava como CEO da Neo Performance Materials, enviava essas “crianças brilhantes” para Cingapura ou para o Reino Unido ou para uma planta na Estônia, treinava-os por dois ou três anos antes de permitir que tocassem em qualquer coisa nas plantas. Mas isso é importante, e tem sido consistentemente um ponto cego sobre como as cadeias de suprimentos industriais se unem.
O segundo é o custo do capital. Se há algo que a China fez realmente bem é, primeiro, a disponibilidade de capital de baixo custo. É muito difícil, como uma empresa listada em bolsa, competir contra empresas chinesas, que têm um custo de capital muito menor. Se você CEO de uma empresa pública, vive e morre pelo preço de suas ações e seus projetos são justificados se puder fazer muito melhor do que seu custo de capital.
Esta é uma desvantagem enorme que as empresas têm contra seus concorrentes chineses.
Um outro exemplo de como a regulamentação nutriu e apoiou produtores emergentes na China: a BYD, em 2011, obteve um contrato para 16 mil veículos elétricos pela cidade de Shenzhen, o que foi um grande impulso. Recomendamos que da próxima vez que um dos governos no Brasil precisar de uma frota de carros elétricos, olhe para veículos produzidos localmente, porque isso pode ajudar muito em termos de nutrir e apoiar a indústria local e as cadeias de suprimentos locais.
Nas grandes cidades da China, se você quiser comprar um carro, precisa de uma carteira de motorista. Se você quiser dirigir um carro a combustão, levará de 5 a 7 anos, talvez oito anos para obter essa permissão, porque é como um sistema de loteria. Mas se você quiser dirigir um carro elétrico, entra na concessionária, compra seu carro e sai da loja na hora. Não estou dizendo que isso funcionaria no Brasil.
Voltando ao ponto cego favorito, a educação, a China forma mais engenheiros, mais graduados em STEM (ciência, tecnologia, engenharia, matemática), do que na América do Norte se formam graduados em todas as disciplinas. Creio que no Brasil se está criando um núcleo que eventualmente produzirá as pessoas que as cadeias de suprimentos industriais neste setor precisam.
Novamente, se precisamos descarbonizar, há certas coisas que precisam acontecer. Existem metas legislativas para a reciclagem e o fornecimento doméstico de terras raras. Em uma fábrica em Narva, na Estônia, a diferença em termos de taxa interna de retorno foi um Capital Expense Grant de 20%.
Finalmente, deve-se estudar o exemplo da European Battery Alliance e da European raw materials Alliance. São excelentes exemplos de como vários estados se uniram, produziram legislação e regulamentações que estão indo definitivamente na direção certa. Estudem o European Critical Raw Materials Act. É um pedaço de papel bem pensado. O Brasil, como ouvimos, detém alguns dos maiores recursos. Comparando-se o Brasil com a China, não é muito diferente. Mas as argilas iônicas que vimos no Brasil e as rochas duras (para lítio) são muito boas. Mas as argilas iônicas, em particular, se comportam tão bem ou melhor do que as melhores argilas iônicas que vimos no Japão.
A indústria de terras raras foi revolucionada por causa da descoberta de argilas iônicas na China. O Brasil está começando de um excelente ponto de partida, dado os depósitos, e como a natureza dotou este país com recursos realmente extraordinários. Finalmente, como governo e indústria, o Brasil tem uma oportunidade única na vida, de criar uma cadeia de suprimentos que faz a diferença.
É preciso reunir as habilidades, a demanda e os conjuntos de habilidades críticas entre eles que permitirão que essas cadeias de suprimentos se estabeleçam, se desenvolvam, criem empregos, oportunidades, PIB e uma base tributária.
O Brasil está sentado numa verdadeira mina de ouro raro e tem a chance de mudar a dinâmica global da indústria de terras raras.
Como hoje estamos no ciclo de baixa do mercado, tanto para o lítio quanto para as terras raras, é muito difícil para todas as empresas que estão desenvolvendo novos depósitos levantar dinheiro na bolsa de valores típica, seja em Londres ou em outro lugar. Portanto, é realmente preciso apoiar e nutrir as startups.
O maior produtor de terras raras do mundo é uma empresa australiana chamada Lynas, que foi uma mineradora júnior por 20 anos. Então pode levar muito tempo e vai precisar de muito apoio, mas com enorme apoio financeiro do governo japonês e do contribuinte japonês, eles conseguiram mudar o campo de jogo, e agora estão expandindo novamente com a expansão de sua mina na Austrália e a planta de processamento na Malásia.
Novamente, o Brasil tem a oportunidade de fazer isso direito. É preciso uma política industrial bem pensada e se tem uma grande oportunidade neste país de fazer isso direito. Há recursos naturais excepcionais dados por Deus. É preciso fazer o resto."

