O que tem motivado a corrida, no Brasil, aos minerais considerados críticos para a transição energética, como lítio e terras raras? Para o Diretor Executivo da Adimb (Agência para o Desenvolvimento e Inovação do Setor Mineral Brasileiro), Roberto Perez Xavier, geólogo com grande expertise nos ambientes geológicos brasileiros, há vários fatores que têm contribuído para isso. O primeiro deles é que a maioria das empresas que estão com projetos no Brasil, visando principalmente essas duas commodities, são junior mining companies oriundas da Austrália e do Canadá, dois países que têm uma grande experiência em pesquisa mineral, na descoberta de depósitos e no desenvolvimento da mineração. São países maduros nesse setor. “E a natureza da juniors mining companies é exatamente essa: a busca de oportunidades, independente da localização geográfica, principalmente nos momentos em que o setor mineral, em nível mundial, está aquecido, como ocorre atualmente, principalmente devido à procura e demanda de minerais críticos que são importantes para o desenvolvimento de tecnologias de baixo carbono, de geração de energias limpas”. Ele acrescenta que essas empresas sabem administrar o alto risco para a pesquisa, porque também têm consciência de que há potencial para grandes retornos. “Estima-se que o mercado para minerais críticos para a transição energética, até 2030, deve ser da ordem de 1 trilhão de dólares. Então, há lastro financeiro para essas pesquisas”.
Outro fator que tem contribuído para essa corrida é que esses países (Austrália e Canadá), têm sistemas de captação de recursos em bolsa muito consolidados, bem estruturados e bastante maduros. “Eles têm essa cultura de desenvolver projetos do setor mineral. Inclusive, dentro dos fundos de investimento do Canadá e Austrália, há técnicos, pessoal capacitado com conhecimento de técnicas em pesquisa mineral e mineração para poder avaliar esses projetos”.
Em terceiro lugar ele menciona que talvez esteja havendo a preocupação de reduzir a dependência do controle geopolítico de alguns países para commodities como o lítio e terras raras. “É o caso da China, já que 99% da produção global de terras raras vem de lá. A China também é o terceiro maior produtor mundial de lítio”.
A escolha do Brasil como local de aterrissagem para essas companhias tem vários outros motivos, dentre os quais Xavier destaca a criação da ANM (Agência Nacional de Mineração), que embora ainda com muitos problemas de estruturação, ajudou. “Passamos a ter um pouco mais de agilidade na aquisição e aprovação de pedidos de pesquisa mineral, o que dá a sensação de segurança jurídica, inclusive até com a sistemática de leilões de áreas em disponibilidade, quando quem não cumpre o cronograma de pesquisa mineral perde o direito e a área é disponibilizada para leilão, o que é algo bom. Não estou aqui fazendo juízo de valor, mas apenas dizendo que o fato existe e isso pode ser algo positivo para a atração dessas empresas”, pondera Xavier.

Outra motivação é que aparentemente está havendo uma dinâmica melhor na liberação de licenças ambientais, em particular nos estados que têm a mineração como componente importante de sua economia, como é o caso de Minas Gerais, Bahia, Pará, Goiás e Mato Grosso, principalmente. “Essa melhor dinâmica das licenças ambientais pode ser outro fator que acaba agregando valor, sendo um incentivo adicional para a vinda das empresas juniores”.
Por fim, há o potencial geológico do Brasil para lítio e terras raras, que ainda é subexplorado. “No caso do lítio, costumo dizer que, sete anos atrás, ninguém sabia para que servia. O lítio tinha mercado muito restrito. Estava na quarta divisão do campeonato mundial de commodities. Hoje, foi para a Premier League, ocupando posição de liderança, com grandes investimentos. O enorme potencial do Brasil tem atraído as empresas Júnior, com um terreno fértil para projetos de pesquisa, principalmente em estágios greenfield”. Com isso, o Brasil hoje já é o quinto maior produtor mundial de lítio e está em sétimo ou oitavo lugar em termos de reservas mundiais. No caso das terras raras, ele lembra que o Brasil tem a terceira maior reserva mundial, com 21 milhões de toneladas, ou cerca de 18,2% do total de reservas do mundo. Mas a produção brasileira ainda é modesta, com uma única empresa produzindo atualmente.
Potencial geológico
O executivo da Adimb ressalta que o potencial geológico do Brasil para lítio é significativo, mas ainda subexplorado. “Hoje, 85% das reservas brasileiras estão no Nordeste de Minas Gerais, no Vale do Jequitinhonha, na região de Araçuaí e Itinga. Lembramos que o lítio é extraído de um mineral, o espodumênio, que é um silicato de alumínio com lítio e que ocorre dentro de uma rocha específica, chamada de pegmatito. Por isso fala-se em lítio de rocha dura. Porque é extraído do pegmatito, uma rocha com quartzo e feldspato (feldspática), em que ocorre uma série de outros minerais, inclusive o Espodumênio”. A região do Vale do Jequitinhonha está inserida numa província que é muito rica em pegmatitos, denominada Província Pegmatítica Oriental do Brasil, com mais ou menos 150 mil km2 de área e que abrange o Nordeste de Minas Gerais, o Sul da Bahia e uma parte do Rio de Janeiro.
Nessa região, a pesquisa mineral, em vários estágios, por parte de empresas australianas e canadenses, está muito ativa. Mas há outras regiões onde a pesquisa para lítio ou pegmatitos litiníferos também está bastante intensa. É o caso do Nordeste do Brasil, na faixa do Seridó, que inclui o Rio Grande do Norte, um pouco da Paraíba e o Ceará, na região de Solonópole, onde também há várias empresas fazendo pesquisa. Esta área é chamada de Província Mineral Borborema. Xavier menciona ainda a região chamada de Brasil Central, estados de Tocantins e Goiás, cujo potencial está aberto.
Já no que se refere aos Elementos de Terras Raras, o potencial é maior ainda, na opinião do geólogo. “Por quê? Porque hoje a grande fronteira, em meu entendimento, na pesquisa de Elementos de Terras Raras, tanto no Brasil como em nível mundial, se concentra em um tipo específico de depósito onde os ETRs estão hospedados em Regolito, ou manto de intemperismo, material não consolidado que se forma acima da rocha dura. É aí que estão as terras raras, principalmente as pesadas, que têm maior valor no mercado em função da sua aplicação tecnológica. É o caso do Neodímio, Prazeodimio, Disprósito e Térbio. Essas terras raras não estão alojadas dentro da estrutura dos minerais. Pelo contrário, elas estão juntas com argilominerais, ligadas de forma iônica. Elas estão adsorvidas na superfície dessas argilominerais. Isso faz com que esses depósitos sejam rasos, porque estão próximos da superfície, e a extração das terras raras, neste caso, é mais fácil, por meio de soluções salinas, com baixo uso de ácidos, o que faz com que isso não cause nenhuma perturbação ambiental. Então a extração é muito mais fácil. E o custo de extração é também muito mais baixo”, argumenta Xavier, acrescentando que nestes depósitos, durante a extração, a geração de materiais radioativos como urânio e tório – que geralmente estão juntos com as terras raras — é muito baixa.
Isso explica o grande boom da pesquisa visando elementos de terras raras no Brasil. Porque a grande maioria das empresas estão voltadas para o que eles chamam de depósito de Elementos de Terras Raras do tipo argila iônica. Hoje esses depósitos estão sendo pesquisados em várias regiões do País. Primeiramente no sul de Minas Gerais, no complexo de rochas alcalinas de Poços de Caldas, onde há empresas como Meteoric, Viridis e outras. Depois a região do Brasil Central, principalmente Goiás, onde está operando a Serra Verde Mineração. Hoje há outras companhias pesquisando nesse ambiente geológico, que é o Granito Serra Dourada, sobre o qual há um manto de intemperismo, o Regolito, rico em terras raras. Estão pesquisando ali empresas como Aclara Resources e Alvo Minerals, por exemplo. Trata-se da Província Estanífera de Goiás, uma região bastante ativa em termos de pesquisa de Elementos de Terras Raras. E existe ainda o Oeste de Minas Gerais e Goiás, o Alto Paranaíba, outro ambiente geológico com granitos e rochas alcalinas que estão sendo pesquisados por várias empresas. No sul da Bahia, na região de Jequié, também está se formando uma província com elementos de terras raras. “Portanto, o potencial para Elementos de Terras Raras, nesse tipo de depósito de argila iônica, no Brasil é enorme. Temos possibilidade de nos tornarmos um player mundial importante”, opina o diretor da Adimb.

