Mineração mundial vive sentimento ambíguo de orgulho e fracasso

25/06/2026
No WMC 2026, líderes do setor confrontam as contradições de uma indústria indispensável mas ainda incompreendida e incompleta.

 

Havia um peso incomum no ar quando Rohitesh Dhawan, presidente-executivo do International Council on Mining & Metals (ICMM), abriu o painel reunindo Mark Cutifani, da Odin Partnership, e Marna Cloete, da Ivanhoé Mine, no World Mining Congress 2026. O título escolhido para o encontro — "Um ponto de retorno. Minerar juntos" — já anunciava que não se trataria de uma celebração. Seria, antes, um ajuste de contas. "Meu primeiro sentimento é realmente um sentimento de profundo orgulho", disse Dhawan. "Mas o segundo sentimento com o qual convivo é uma sensação de fracasso pessoal. E se talvez fracasso seja uma palavra forte demais, então certamente uma sensação de potencial não realizado."

A tensão entre esses dois sentimentos — o orgulho por conquistas reais e a consciência aguda do que ainda falta — atravessou cada minuto do debate e revelou uma indústria que, ao mesmo tempo em que avança, recusa a autocomplacência.

 

O orgulho que não basta

 

Dhawan elencou razões concretas para o orgulho: países como o Chile avançaram significativamente na participação feminina no setor; empresas como a BHP chegaram a uma força de trabalho neutra em gênero; as maiores minas do mundo operam hoje com emissões de escopo 2 zeradas, alimentadas inteiramente por energia renovável; e a transparência na relação com governos e no pagamento de impostos atingiu níveis inéditos.

Mas o mesmo homem que listou essas conquistas não demorou para virar a página. "41 pessoas foram trabalhar em empresas membros do ICMM e nunca mais voltaram para casa. Elas morreram no trabalho", disse. "Mesmo depois de Brumadinho, o desastre que aconteceu no Brasil em 2019, as barragens de rejeitos continuaram a romper em muitas ocasiões desde então."

Marna Cloete ecoou esse sentimento com precisão: "Estamos em uma indústria inerentemente perigosa, e justamente quando nos acomodamos e pensamos 'Já resolvemos isso', ocorre o próximo acidente ou incidente."

Para Cloete, porém, o orgulho tem endereço certo: está nas pessoas. "Todo Natal eu recebo mensagens de WhatsApp de pessoas com quem trabalho há 20 anos dizendo: 'Obrigado por mudar o futuro da minha família'. Para mim, essa é a parte gratificante do nosso negócio." Ela citou o impacto de minas em regiões pouco desenvolvidas — empregos criados, acesso à educação garantido, contribuição aos cofres públicos em países onde não há outra indústria significativa. "Vejo a mineração como um agente de mudança", afirmou.

Cutifani, veterano do setor com passagem à frente da Anglo American, trouxe o pragmatismo de quem já ouviu todos os argumentos dos dois lados. "O primeiro passo é reconhecer o quanto já avançamos", disse. Mas fez questão de equilibrar: "Rejeitos — ainda há muito trabalho a ser feito, e na verdade os números estão piorando no momento."

 

O problema da inovação desagregada

 

Se o diagnóstico sobre segurança e reputação era compartilhado pelos três, foi no tema da inovação tecnológica que o debate ganhou densidade intelectual.

Dhawan lançou uma hipótese incômoda: a mineração inova de forma fragmentada e em escala insuficiente. "As empresas individualmente estão realizando algum tipo de financiamento de capital de risco para novas tecnologias, mas em uma escala muito pequena", disse. "O que nos impede de unir forças e realizar essa inovação muito mais rapidamente, de forma muito mais abrangente e com um nível de urgência que simplesmente não vemos agora?"

Para ilustrar o problema, ele recorreu a uma metáfora médica: "Ainda mineramos a partir de rejeitos como sempre mineramos. Se alienígenas viessem à Terra, certamente diriam que esta é uma indústria de rejeitos com minerais como subproduto." E completou: "A mineração não passou da cirurgia de coração aberto para a cirurgia minimamente invasiva da mesma forma."

Cloete respondeu com a experiência de quem acabou de executar seis grandes projetos de capital e colocou três minas em operação em cerca de cinco anos. Para ela, o problema tem camadas. "É muito difícil, se você tem minas antigas, quase no fim da vida útil, mudar repentinamente a pegada ambiental", disse. "Mas acho que estamos ficando para trás em relação aos testes em escala para introduzir novas tecnologias."

Ela foi mais longe ao apontar uma falha estrutural do modelo de negócios do setor: "Uma coisa que nós, como indústria, fazemos de errado é trabalhar isoladamente. Há muito espaço para consolidar jazidas menores e construir apenas um conjunto de infraestrutura que possa minerar várias áreas de recursos. Esse modelo não foi realmente explorado, porque todos estão buscando apenas o seu próprio lucro."

A crítica era sistêmica: "Todo o modelo está quebrado, pois se trata de bolsões de lucro individuais, cada empresa de mineração, em vez de perguntar quais metais nós, como sociedade, precisamos e como podemos distribuir o valor de volta."

Cutifani, por sua vez, alertou para uma tendência que considera alarmante: "Muitas empresas hoje estão anunciando cortes em seus orçamentos de inovação, e isso me assusta muito." Ele citou o aumento médio de 40 metros por ano na profundidade das minas em todo o mundo como evidência de que o caminho fica mais difícil — não mais fácil. "Não deveríamos cortar, deveríamos aumentar nossos orçamentos de inovação."

 

O déficit de coragem pública

 

Se a inovação tecnológica foi um tema candente, foi no campo da comunicação e do engajamento público que o painel produziu seus momentos mais contundentes.

Cutifani fez um diagnóstico que soou quase como uma acusação ao próprio setor: "Como líderes, somos muito tímidos. Não estamos nos expondo e apresentando nossos argumentos ao público. Não vemos responsabilidade, e em muitos casos estamos nos escondendo, quando deveríamos estar fazendo o oposto."

Para reforçar o argumento, ele narrou uma história que se tornou o momento mais marcante do painel. Um executivo da McKinsey teria conduzido uma sessão com 300 estudantes de doutorado em meio ambiente na Holanda e perguntado quem acreditava que o uso de fertilizantes deveria ser interrompido. Todos levantaram a mão. Então apresentou um único fato: sem fertilizantes, só é possível alimentar metade da população do planeta. Ao final da conversa, os mesmos 300 estudantes votaram: "Obviamente precisamos de fertilizantes, mas devemos usá-los de forma mais responsável."

"Às vezes, precisamos nos destacar e chocar as pessoas com quem estamos interagindo para mudar essa conversa", disse Cutifani. "Os argumentos dos nossos detratores se desfazem sob o olhar atento do público e da divulgação de fatos. Sejamos ousados. Vamos enfrentá-los."

A crítica se estendeu, de forma direta, embora amistosa, ao próprio ICMM. Cutifani elogiou o trabalho realizado no programa "Mineração com Princípios", mas apontou o que considera sua limitação central: "Precisamos que aqueles que menos gostam de nós participem da conversa e do debate. E que esse debate aconteça publicamente."

Dhawan, ao ouvir a provocação do amigo, reagiu com uma rara disposição de comprometimento público: "Serei mais corajoso em encontrar maneiras de ter conversas difíceis com pessoas com quem podemos discordar fortemente e encontrar um terreno comum. Até o final do ano, espero poder provar que conseguimos."

 

O nó dos investidores e do tempo longo

 

Outro tema que emergiu com força foi a tensão entre o horizonte temporal exigido pela mineração e a lógica de curto prazo que domina os mercados de capitais.

"As pessoas que investem em empresas de mineração geralmente não têm uma perspectiva de longo prazo, que se estenda além do trimestre", disse Dhawan. "Enquanto isso, as decisões que Marna está tomando agora têm impacto por décadas."

Cloete ilustrou o ponto com precisão: "Às vezes sentamos nesses painéis e você recebe uma pergunta sobre um projeto que começou há 15 anos, e todo mundo pergunta se você o está colocando online agora para aproveitar o superciclo. Essas decisões foram tomadas há 15 anos." E completou: "Colocar online um ativo de nível 1 levou 20 anos — desde o dia em que você reivindica sua licença de exploração até quando tiver recursos suficientes."

Para ela, a solução passa por uma revisão profunda dos modelos de avaliação: "Teremos que dar uma nova visão completa à maneira como olhamos para os projetos financiáveis, à maneira como olhamos para o risco, porque não seremos capazes de atender à demanda futura." E foi direta sobre a escala do desafio: "Não creio que a indústria possa atender a essa demanda. Esperava dar a resposta a todos aqui, mas não acho que tenhamos a resposta."

Cutifani ofereceu uma perspectiva sobre como conectar a linguagem da sustentabilidade à linguagem dos investidores. Ele relembrou uma conversa com um investidor americano que questionou, em termos pouco delicados, o valor do ESG. A resposta foi transformar cada pilar ambiental e social em um argumento econômico concreto — do custo de mortes no trabalho ao impacto de vazamentos ambientais, da perda de produtividade por conflitos sociais à eficiência de capital. "Você é o primeiro que conectou dinheiro com sustentabilidade", o investidor teria dito ao final. O resultado prático, segundo Cutifani: um retorno total ao acionista médio de 22% ao longo de nove anos na Anglo American. "Não somos uma instituição de caridade. Precisamos gerar lucro para os acionistas, e como fazer isso de forma sustentável é, na verdade, um assunto bem diferente", concluiu.

 

Compromissos em público

 

O painel terminou de forma incomum para o formato de congresso desse tipo, com compromissos pessoais assumidos diante de centenas de pessoas. Dhawan anunciou que trabalhará para que ainda em 2025 seja lançado o Padrão Consolidado de Mineração, reunindo o melhor de quatro padrões existentes — e pediu aos colegas que, em cada conversa com investidores ou pares do setor, pressionem por adesão a padrões de mineração responsável. "Estou convencido de que o que fará deste um ponto de virada é quando tivermos milhares de minas em todo o mundo comprometidas com práticas responsáveis."

Cloete se comprometeu a ser mais aberta à inovação e a desafiar empresas de menor escala a aderirem aos padrões, "não como um exercício de conformidade, mas como uma forma de fazer negócios". Ela também lembrou que a Ivanhoé Mine, em seus projetos recentes, já testou tecnologias como rolos de moagem de alta pressão e preenchimento de rejeitos com cimento no subsolo — e que cabe às lideranças viabilizar testes em maior escala.

Cutifani encerrou com uma promessa que arrancou risos e aplausos: escrever um livro questionando os princípios do setor para o futuro. O título escolhido, revelado ali mesmo, foi "Um Ponto de Virada".

 

Análise: quando a autocrítica é o ativo mais raro

 

O que o painel do WMC 2026 revelou não é uma indústria em colapso nem uma indústria satisfeita consigo mesma. É uma indústria que, pela voz de alguns de seus líderes mais experientes, começa a perceber que seu maior problema não é técnico nem regulatório — é narrativo e cultural.

A mineração produz os materiais sem os quais não há transição energética, não há tecnologia, não há alimentação para oito bilhões de pessoas. E ainda assim permanece, em grande parte, incompreendida — ou diretamente rejeitada — pelo público que mais depende dela. A resposta que emergiu do debate não é recuar, mas avançar: enfrentar os críticos mais duros, publicizar os dados, sentar à mesa com quem discorda, e aceitar que a transformação do setor começa pela transformação de quem o lidera. "Sem nós, não podemos sustentar 8,2 bilhões de pessoas no planeta", disse Cutifani. A frase não era arrogância — era um convite ao debate que, segundo os três painelistas, a mineração ainda não teve coragem suficiente de aceitar.